A identidade Montanista

O termo “identidade”, muito recorrente em discursos de análises sociais e religiosas, concentra no seu sentido etimológico sua mais clara definição. De origem latina, a expressão “identitas” significa “a mesma coisa”, podendo parecer estranha e ao mesmo tempo limitada se relacionarmos ao termo supracitado, visto que não contem as especificações significativas imediatas das quais esperamos. Entretanto, se refletirmos acertadamente, vislumbraremos não só uma expressão simplória, mas uma expressão que será a fonte (sob os dois aspectos: da origem e da emanação) pela qual nasce o conceito de “identitas”. Portanto, refere-se a um sentido primeiro com abrangência maior sem sair do seu escopo de modo que a primeira ideia decorrente é a de conservadorismo, sendo a segunda a de sua perpetuação, concebendo, por fim, um estado de ser convergente que não muda, mas que persiste na mesma consciência, independentemente de tempo ou espaço social.

A construção da identidade cristã levou em consideração a escolha consciente dos paradigmas observados como verdadeiros dos quais se admitiu determinado e venerado comportamento, todos parametrizados sob a ótica messiânica do Cristo. Esse padrão não vem da força social cujo determinante opera no indivíduo, produzindo os reflexos e os anseios de uma sociedade, mas são contra essa ordem por ser unidirecional. A ordem unidirecional ou cultura divina para os homens é resultado do direcionamento de Deus para os sujeitos criados, estabelecendo sua moral segundo a qual todos deveriam se abster de tudo o que fosse contrário à vontade divina. O querer divino transcende as faculdades de compreensão do homem apresentando para esse o que de fato é proveitoso na prática das ações e das concepções. Muito embora haja objeções para o cumprimento literal do querer sagrado em razão de o homem caído ser tendente exatamente para o oposto, o Senhor os favorece com suas dádivas na certeza de que o problema será remediado.

A dádiva protagoniza a ação divina no indivíduo, operando o que denominamos de graça para o viver na qual se vê a superação perante as forças do pecado, não permitindo que essas impeçam o agente do favor de Deus de proclamar seus oráculos. Como motopropulsor para fluência espiritual dos redimidos, a dádiva ocorre não por merecimento, uma vez que o homem natural está em dissonância com o sagrado, impossibilitando uma comunhão perene, mas por benevolência. É nesse primeiro momento que ocorre a assimilação da identidade cristã na qual há a certeza da ineficiência do sujeito diante do beneplácito divino, circunstância que o obriga a invocação do Senhor, entendendo que é Ele quem opera tanto o querer como o efetuar, abrindo margens para o sobrepujamento do coração malogrado e infiel. O ditoso arrependimento desprende o convertido dos laços e grilhões do pecado de modo que a liberdade de servir enriquece o âmago, permitindo ao eu interior a assimilação concreta dos valores celestiais para que passem a habitar sua vida, abrangendo os três níveis de relação: com o eu, com o próximo e com Deus.

A partir deste ponto, como não se lembrar de um dos maiores expoentes da fé cristã primitiva: Paulo de Tarso? Paulo personifica a fiel identidade cristã entre todos os homens, manifestando a ação da graça divina em sua própria pessoa, enquanto também se apresentou como o principal agente da infidelidade em sua vida pregressa. Certamente um dos pensamentos que ocupavam as mentes dos que devotavam suas vidas ao Senhor era a possível e perfeita operacionalização do favor divino em qualquer homem, pois se Deus foi capaz de transformar tão severo coração, propiciando um extravasar do seu favor através de muitas manifestações espirituais, quanto mais não faria naqueles que seguissem o mesmo modelo, tendo agora o exemplo apostólico como degrau de esclarecimento. Há em Paulo um significativo conceito antropológico o qual sabe mensurar sua condição e sua disposição. É nele que encontramos a falibilidade e a elevação do ser humano, porquanto soube classificar cada fase de acordo com sua situação espiritual, estruturando seu modus operandi. Um dos fatos mais relevantes para consolidação dessa ideia é da cura de um homem leso dos pés (At 14). É ali, em um dos seus diversos momentos, que Paulo se identifica como homem de fato na mesma medida que expõe sua negação quanto ao ser “deus”. Uma drástica cena para a evocação do caráter singular do Evangelho que reconhece a expressão de Paulo; parafraseando a repulsa de Paulo pela idolatria a sua pessoa, era como se ele dissesse: “não somos deuses, homens é que somos!”.

Como os montanistas tinham rigorosa disciplina, principalmente, baseada nos escritos paulinos, ficamos a imaginar se eles entenderam bem a instrução de Paulo proposta acima e chegamos a uma conclusão positiva. Para situar nossa discussão, podemos colocar uma das celeumas que marcaram seu trajeto: a suposta divinização de Montano. Dizem os opositores de Montano que ele identificava-se como sendo a encarnação do Espírito Santo (Paracleto) ou pelo menos seria o agente de autoridade pelo fato do Espírito falar através dele. Inclui-se a esse discurso a invocação batismal, quando os opositores afirmavam que o mesmo ordenava o batismo em nome do Pai, do Filho e de Montano. Mas, parecem-nos incongruentes essas informações devido ao movimento de oposição da cúpula religiosa da época, pois sabemos convergiam para a difamação e para o distrato ao movimento em razões de sua proposta reacionária e de insubordinação ante os bispos. Em segundo lugar, há um entendimento coletivo, mesmo entre os opositores, que nas doutrinas fundamentais do Cristianismo os montanistas eram fiéis. Uma dessas doutrinas (doutrina bíblica é diferente de dogma) era a da trindade, doutrina que os próprios opositores diziam que os montanistas guardavam. A doutrina da Trindade ensina que o Pai, o Filho e o Espírito formam um Deus, mas separadamente representam o mesmo Deus, ou seja, são na complexidade e na individualidade Jeová. Epifânio de Salamina é um dos opositores que defendem essa posição. Além disso, Tertuliano, no tratado Ad Praxeas, expõe a doutrina da Trindade com tanta maestria em sua fase montanista que não podemos dizer o contrário: os montanistas acreditavam piamente na doutrina da Trindade, muito embora alguns tentassem incutir a ideia monarquianista (Monarchiam tenemus) entre eles. O monarquianismo foi uma manifestação de pensamento que tentava explicar a Trindade, transmitindo seus conceitos a partir de duas vertentes: o modalismo ou sabelianismo e o adocionismo. Em geral, negava a eternidade do Filho e enfatizava que o Filho era uma manifestação do Pai. Equívoco que fora combatido por Tertuliano exatamente no Ad Praxeas. Ora, se havia entre o montanismo verdadeiro entendimento das exposições apostólicas de Paulo, se eles entendiam precisamente a doutrina da Trindade da qual Tertuliano foi seu principal defensor dentro do contexto montanista, se os opositores queriam apenas rechaçá-los e vê-los abdicar de sua prédica profética (renovação espiritual e não falsa profecia), então, haveremos de convir que existe uma tradição bastante equivocada. Não podemos aceitar que o próprio Montano acreditava ser o Espírito Santo, mas que essa era a opinião de seus opositores, portanto duas posições antagônicas. Alguém pode expressar sua opinião com nossa argumentação dizendo que isso parece mera especulação, no entanto, importa salientar que na falta de documentos próprios do montanismo somos obrigados a analisá-lo de acordo com documentos que lhes foram próximos, exigindo uma séria conduta de neutralidade e de justiça. Mais uma vez vem à tona a necessidade de informações próprias que nos são supridas pelos escritos de Tertuliano.

Outro fator imprescindível à reflexão é a explicitação do caráter de liderança exercidos por Montano, Maximilla e Priscila. Afinal, era uma liderança ministerial ou carismática? Ao mencionarmos o instituto ministério, fazemos referência aos postos vocacionais e bíblicos que são: apóstolos, profetas, evangelistas, doutores e pastores. Apóstolos e profetas estão na base da estrutura eclesiástica bíblica (isto não quer dizer “numa escala de inferioridade”, mas que figuram como alicerce, no singular, das doutrinas da Igreja), conforme nos ensina o texto paulino (Efésios 2:20), de modo que tais ministérios tiveram vigência apenas na era apostólica. Os outros ministérios subsistem enquanto existir a Igreja na terra, sendo incumbidos dessa honrosa vocação homens (I Timóteo 3 e Tito 1), devendo cumprir a prescrição das exigências. Portanto, não seria apropriado pensarmos que existe uma intenção ministerial entre o trio montanista, mas um posicionamento carismático, dada as ocorrências das quais temos certezas. O carisma não tem em si uma vocação como o ministério, contudo possibilita todo e qualquer cristão usufruir da dádiva por meio da fé. Em evidência, coloca-se a questão da “emancipação” da mulher através de Maximilla e Priscila naquele contexto institucionalizado cuja preeminência era exclusivamente masculina. Lembremos que essa situação não foi inovadora, pois nos Evangelhos e em Atos a mulher é considerada, sendo apresentada como exemplo e referencial em determinados casos. Com a tendência embrionário de institucionalização houve uma decadência e uma exclusão do referencial feminino, agora resgatado pelo movimento montanista. Para Libanio (2007, p.105):

O olhar feminista percebe no montanismo a continuidade com o papel atribuído às diaconisas no início do cristianismo e a reação à crescente restrição ao papel da mulher, que se vinha constituindo. Misturou dose antiinstitucional, desprezo pela matéria e presença da mulher. Defendeu-se a ordenação de mulheres feita diretamente pelo Espírito Santo, sem imposição das mãos do bispo. Prescindiu do elemento institucional da imposição das mãos e do elemento humano masculino do bispo, para saltar à pureza transcendente do Espírito que consagra quem ele quer, e portanto também mulheres.

Portanto, na gênese do movimento montanista percebemos não um incremento inovador, mas uma reconstrução do ideal de participação de todos os que estão remidos. Essa é a imagem representativa para uma reforma na estruturação de sua época que já era excludente. Por isso, reunir homem e mulher como agentes de frente, conclamando os demais seguidores à vida carismática, nos leva a detectar o espírito de solidariedade presente em sua comunidade, tendo em vista, objetivamente, a crítica à hierarquização de poucos como os se os mesmos estivessem em posição de sumidade espiritual, enquanto abre o leque de possibilidade para os demais. Por mais que historiadores relatem o fluxo carismático entre os não montanistas, devemos nos ater não somente para esse fato que é verdadeiro, mas também para aquele no qual se verificava o processo de minoração do carisma no coletivo da igreja geral (os líderes e poucos membros usufruíam dos dons, enquanto entre os montanistas verifica-se, intensamente, um exposição profética e uma inquietação para que todos usufruíssem). A falta de preservação do hábito espiritual para se curvar perante condutas estabelecidas no Didaché e nas orientações de Hipólito de Roma nos servem de parâmetro para afirmarmos o problema do conformismo institucional. Além dessa situação, não nos parece haver a proclamação do carisma inflamando o coração de todos para efetivação do mesmo neles em razão de os bispos concentrarem atenções para si. Talvez uma negligência ou uma ideia de exclusividade ou ainda uma má intenção com fins de dominação. Um fato que coopera com o tipo de alheamento referido no derradeiro quesito diz que é uma impossibilidade a interpretação das Escrituras individualmente, atribuindo somente à cúpula clerical a habilidade para interpretar a Bíblia corretamente, devendo, inclusive, dá outros pareceres acerca de tendências modernas, ainda que as mesmas comprometam os sentidos primeiros da fé. Esse procedimento é remanescente dos tempos antigos nos quais os bispos puxavam para si a autoridade, como atesta Rocha (2012, p.80):

Inácio de Antioquia pregava como primeiro ponto a união em torno do bispo e do clero (…) suas cartas são os primeiros testemunhos de hierarquia em três graus: bispo monárquico, padres (presbíteros), diáconos. Elas exaltam sobretudo o bispo: é o vigário de Deus (Magn. 3,1;6,1; Tral. 3,1) ou de Jesus (Tral. 2,1; Eph. 6,1) e nada se pode fazer sem ele (Tral. 2,2; Phil. 6,1)

Podemos elencar, assim, dois caracteres marcantes definidoras de sua identidade: o reacionismo e a solidariedade (ambas as características resguardadas no parâmetro verificado em Atos). O conjunto vivo dessas relações religiosas definiu seu patrimônio simbólico, estabelecendo conexão com as “raízes” cristãs para reflorescimento dos valores impregnados na conduta da Igreja Primitiva. O conceito identitário montanista, portanto, retroage à sua esfera temporal, buscando uma caracterização definidora no contexto referencial daquela Igreja nascente visto que não se identifica com o formato alterado de cristianismo proposto pelo bispado monárquico. Essa renúncia de uma identidade fermentada pelo dogmatismo religioso propõe a consciência no desinteresse à obediência do erro, assim como atesta um fervor pela interpretação orientada pelo Espírito e não sob a prescrição de pretensas sumidades. Mesmo que haja quem diga que a interpretação profética dos montanistas excedeu aos paradigmas bíblicos deveremos refletir se eles são desta forma, como dizem seus opositores, ou se enveredam para um rumo de acordo com as diretrizes neotestamentárias.              


Photo credit: Trevor.Huxham via VisualHunt / CC BY-NC-ND


Referências

Libanio, J.B. Os carismas na igreja do terceiro milênio: discernimento, desafios e práxis. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

Rocha, Alessandro Rodrigues. A incidência da teologia sobre a eclesiologia: um modelo de aproximação perspectivas da literatura apostólica. Reflexus – Rio de Janeiro, Ano VI, n.7, p. 69-83, 2012/1.

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