Arrependimento, Batismo e o dom do Espírito Santo

O título desse artigo é sugerido por Atos 2:38, uma passagem apresentada na VR: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo”. E o propósito desse estudo é refletir sobre algumas dificuldades que estas palavras do apóstolo Pedro confrontam os leitores de Atos. Tenho em vista, particularmente, algumas questões relacionadas com o ensino a respeito do Espírito Santo neste verso e o amplo contexto do escrito de Lucas. Arrependimento e batismo serão discutidos na medida em que seja necessário clarear a questão básica da natureza das operações do Espírito Santo.

Um proveito desse enfoque é que apesar de temas tais como arrependimento e batismo não serem refletidos, frequentemente formulações dogmáticas destas doutrinas são permitidas, baseando-se apenas nas informações de Atos, com vasta dedicação à doutrina do Espírito Santo. A nítida abordagem de Lucas sobre a história da igreja Cristã resumida em termos de uma interpretação de sua origem e desenvolvimento como básica e manifestamente o trabalho do Espírito Santo. O Pentecoste, visto como a base de tudo retratado em Atos, é a era do Espírito “uma era que se coloca à parte da profecia “dos últimos dias” (At 2:17) que  decisivamente foi introduzida pela ação divina no “derramar” do Espírito.

Na verdade Atos não é estritamente pneumatológico. A promessa do Espírito é “a promessa do Pai”(1:4; Lc 24:49). É o Cristo exaltado quem derrama o Espírito (2:33) e desse modo entende-se como levando adiante seu ministério após sua ascensão pelo Espírito (cf. 1:1.f, 4s., 8). O trabalho do Espírito é então integrado com aquele do Pai e o do Filho. Entretanto, é o batismo e a dotação do Espírito que está arraigado e visto facilmente em primeiro plano.

Muito mais, possivelmente, seria aceito hoje como o enfoque de Atos à história Cristã. Porém, após divergentes opiniões, muitas dessas diferenças parecem ligadas com a exegese de Atos 2:38; tendo-se o objetivo de esclarecer problemas envolvidos é bom  observar que alguns são muito mais simples que outros. E um dos mais básicos problemas envolve a questão de se “o dom do Espírito Santo” tem em vista as operações salvíficas do Espírito sobre o coração do homem ou determinadas manifestações extraordinárias do Espírito de caráter mais externo.

Supondo que Pedro esteja falando particularmente em relação à salvação nesta passagem e em seu contexto imediato, e que “o dom do Espírito Santo” também tem em vista a ação salvífica do Espírito, a passagem poderia sugerir um número de  possibilidades interessantes. De acordo com Smeaton[1] a referência “é claramente aos dons de santificação do Espírito e Sua graciosa habitação”, um entendimento que seria bem adequado com o clássico conceito Reformado de salvação pela graça somente. Todavia, se o dom do Espírito foi entendido como significando regeneração no sentido estrito, a passagem despontaria um tom Pelagiano. Ou, se a referência à recepção do Espírito foi interpretada precisa e diretamente com a exigência do batismo, o batismo poderia ser compreendido como efetuando a regeneração ou a salvação, e a passagem pareceria apoiar certas posições a respeito do sacramento.

Hoje, mais comumente, Atos é considerado como se referindo nesta passagem e em referências similares, às especiais e extraordinárias manifestações do Espírito tal como o dom de línguas e o de profecia. Em tal juízo do dom do Espírito, Atos 2:38 destaca quase que distintivas perspectivas. A dificuldade soteriológica mencionada acima desapareceria.  Se a passagem se refere a dotar os Cristãos com poderes especiais ela não pode ser compreendida como que infringindo a doutrina da salvação pela graça somente, neste entendimento porém, surgem outros problemas. Mesmo que o batismo não fosse então entendido como que efetuando a regeneração, ainda deve ser considerado como ex opere operato[2] (“pela obra operada”), conferindo dons miraculosos[3]. E assim, questões perturbadoras como o ensino do Novo Testamento concernente ao batismo seria imposto sobre nós. Porém, mais problemas básicos se apresentam, relacionados especificamente com a característica posição de Atos em relação à real natureza da fé e prática Cristã. Tem sido amplamente apoiado nos tempos modernos, por exemplo, que para Atos a preponderância do Espirito é por inteiro ou principalmente em conferir dons miraculosos, e que a doutrina do Espirito diverge radicalmente das Epístolas as quais apoiam as influências salvíficas do Espírito nos corações dos homens em regeneração e santificação[4]. E a proeminência de características miraculosas e carismáticas retratada no Cristianismo primitivo levanta o antigo problema se tais elementos de “entusiasmo” pertencem à essência e original natureza do Cristianismo.

De especial interesse é a extensa discussão de Jackson e Lake com relação ao Cristianismo primitivo no primeiro volume do monumental Christians Beginnings[5] que é da autoria deles. Concernente a Atos 2:38 eles afirmam:

O significado óbvio – apenas como em Atos 19: 1-7 – é que o dom do Espírito é condicional ao batismo, mas esta repentina introdução do batismo parece quase inconsistente com o que foi declarado: os discípulos receberam o Espírito sem terem sido batizados para este propósito, e as palavras de Jesus em Atos 1:4 implica um batismo no Espírito como um substituto para o batismo na água, não como uma consequência dele. O redator, entretanto, tal como todos seus contemporâneos na Igreja Gentílica, considerou o batismo em nome de Jesus como necessário para a admissão na comunidade Cristã e a seus benefícios, da qual o dom do Espírito foi o maior; dessa forma não é estranho ele ter introduzido as referências ao batismo em 2:38 e 41.[6]  

Esta interpretação de Atos 2:38 pressupõe que o batismo é apresentado em Atos a partir de várias opiniões contraditórias. Três especialmente se destacam: (1) “O batismo na água confere o dom do Espírito, mas somente se administrado em nome do Senhor Jesus” (p.337). Isto é considerado como sendo o que está em Atos 19:1-7 e 9:17s, assim como 2.38. (2) Ao contrário disto alega-se que em Atos 1:4-2:4 o batismo Cristão proclamado por João Batista é pelo Espírito e não na água, e que se cumpriu no dia do Pentecostes. Esta opinião é considerada como tendo sido extraída da perspectiva do “redator” de Atos claramente qualificando o batismo desde o início como uma prática Cristã. As fontes de Atos 2 e 10-11 nada contém concernente ao batismo na água, mas apoia-se porque “foi encontrado nas fontes usadas para a segunda parte de Atos, e o redator considerou isto como um costume primitivo ligado ao dom do Espírito, adaptando as primeiras narrativas para concordar com as últimas”[7]. Sem concordar com nenhum dos extremos há a opinião de que em Atos 8:8-19 “Batismo nas águas, mesmo em nome do Senhor Jesus, não confere o Espírito que foi dado somente pela imposição de mãos pelos apóstolos”[8].  No pano de fundo desta análise Jackson e Lake concluem que o batismo Cristão na água não volta ao tempo de Jesus e de seus imediatos discípulos, mas provavelmente surgiu no ambiente da Diáspora Helenística, possível que pela influência de práticas e ideias mágicas.[9]

Encontramos nessa discussão, por conseguinte, a apreciação de que Atos 2:38 particularmente em seu ensino relativo ao batismo e o dom do Espírito Santo, é nitidamente contrário à visão da narrativa do Pentecostes, e que não é completamente compatível com outras interpretações de Atos sobre o tema. No Pentecoste houve um batismo com o Espírito e nada mencionado a respeito de batismo na água; em Atos 2:38 e em outros pontos, de acordo com esse enfoque, o dom do Espírito é visto como seguindo-se ao, e mesmo como sendo conferido pelo batismo na água. Esta análise é atribuída, ademais, como apoiando uma ideia da origem do batismo Cristão junto com um conceito dele em conferir benefícios, incluindo o Espírito, ex opere. Esta depreciada avaliação do sacramento, assim como a exegese desagregadora oferecida em apoio a isto, será característica menos reconhecida do moderno enfoque ao objeto das origens Cristãs.

Atos 2:38 seguramente confronta o intérprete com problemas significativos. Em vista de avaliar a passagem corretamente será importante levar em conta toda ou a maioria das passagens que foram mencionadas, pois somente assim alguém pode fazer justiça aos termos empregados e lidar concretamente com as questões levantadas concernentes às alegadas discrepâncias de opiniões em Atos. Devo rever quatro eventos ou episódios que se ligam a compreensão de Atos 2:38: (1) a narrativa do Pentecoste de Atos 2; (2) a salvação dos gentios em Atos 10 e 11; (3) a receptividade de Samaria para com a Palavra de Deus no capítulo 8; e (4) o episódio relativo aos discípulos em Éfeso registrado em Atos 19. Não há necessidade de divergir nestas descrições; talvez exista muito mais do que é comumente reconhecido. Mas permanece a questão se a distinção das várias situações é discernida, alguém pode não levar em conta a divergência e ainda evitar as céticas e desagregadoras conclusões, obras como aquelas propostas por Jackson e Lake.

  • A Narrativa do Pentecoste

O Pentecoste, reconhecendo que a profecia de Joel sobre o derramar do Espírito se cumpriu, é a base de tudo que se seguiu. Pedro interpreta os dias do Espírito como constituindo “os últimos dias” (Atos 2:17), e esta análise escatológica do Pentecoste fornece perspectiva à história subsequente. O Pentecoste em si mesmo não se repete. Permanece como algo à parte do que se segue, como um evento que ocorreu de uma vez por todas quando o Cristo ascendido definitivamente enviou o Espírito para inaugurar a nova ordem. Indicativo deste fato é a consideração que o fenômeno do dia do Pentecoste não se repetiu. No que se seguiu não há nada comparável às “línguas de fogo” ou ao “som de um vento muito forte enchendo”. E evidentemente o falar em línguas descrito em Atos 2 não é repetido. De qualquer forma, não é o extasiante discurso que exigiu o dom de interpretação de línguas para ser inteligível, que Paulo se refere em 1ª Coríntios, mas um falar em várias línguas, imediatamente compreendidas pelos representantes de várias nacionalidades presentes na ocasião. Os homens ouviram em suas próprias línguas a proclamação das maravilhosas obras de Deus. Esse fenômeno portanto, tem mais em comum com o dom de profecia do que o dom de línguas.

Em consonância com a natureza única do Pentecoste, nada é dito imediatamente sobre pessoas sendo batizadas na água. O batismo com o Espírito naquele dia constituiu uma escatológica e unilateral ação da parte de Cristo, tão imediata e miraculosa como a ressurreição dele. Se uma cooperação ou resposta humana tenha sido indicada da essência do que ocorreu, o significado fundamental do Pentecoste teria sido obliterado ou obscurecido. Não obstante, no cenário dos acontecimentos únicos daquele dia, seria inteiramente compreensível que houvesse mediações subsequentes dos dons e ações do Espírito em várias ocasiões, e que estes fossem trazidos em íntima associação com o batismo dos convertidos a Cristo.

  • A Salvação dos Gentios

A análise do Pentecoste prepara para a análise de Atos 2:38 e a resposta de 2:41, porém um contexto mais rico é a narrativa de Pedro e Cornélio em Atos 10 e 11. Embora esta narrativa tenha vários traços biográficos que lançam luz à carreira do apóstolo Pedro, é evidente que Atos lida com essa história para delinear os principais estágios da expansão do Cristianismo e ao seu desenvolvimento em Cesaréia como sendo uma fase histórica. Tornou-se claro de uma vez por todas que os Gentios ao se converterem como Cristãos não tinham que primeiro tornarem-se Judeus e se conformarem ao modo de viver dos Judeus, como Pedro a princípio pensou. O problema de Pedro não foi a salvação dos Gentios, uma vez que a respeito disto havia muitos ensinos tanto dos profetas como do Senhor, mas foi concernente à possibilidade dos Gentios de se achegarem diretamente a Cristo sem a necessidade de que o muro de divisão que havia entre Judeus e Gentios fosse primeiro destruído.

Em sequência à visão de Pedro, e enquanto ele proclama a mensagem de Cristo aos Gentios, o Espírito Santo caiu sobre todos os que ouviram a Palavra. E os que eram da circuncisão creram, assim como muitos que tinha ido com ele, ficando maravilhados de que sobre os gentios o dom do Espírito também se derramasse. Eles os ouviram falar em línguas e glorificar a Deus (At 10:44).

O histórico significado da recepção do Espírito Santo por parte dos Gentios é compreendido pela observação que Pedro justificou suas ações perante a igreja de Jerusalém caracterizando esse acontecimento como uma repetição do que ocorreu no Pentecoste. Ele declara:

“Quando comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles como sobre nós no princípio. Então me lembrei do que o Senhor tinha dito: ‘João batizou com água, mas vocês serão batizados com o Espírito Santo’. Se, pois, Deus lhes deu o mesmo dom que nos dera quando cremos no Senhor Jesus Cristo, quem era eu para pensar em opor-me a Deus? “

É assinalável que Pedro não somente tenha estreitamente identificado o dom que os Gentios receberam com àquele que os Cristãos de início receberam, mas que ele até mesmo o caracteriza como batismo do Espírito Santo, em cumprimento com a Palavra de Deus (At 1:5). Ao ligar os desenvolvimentos em Cesaréia com estes do Pentecostes, o significado histórico da salvação aos Gentios é poderosamente enfatizado. Assim, como no Pentecostes, onde de repente houve um som do céu manifestando a atuação sobrenatural da vinda do Espírito, aqui a ação do Espírito não aguarda pela deliberação ou ações dos apóstolos, mas imediata e diretamente inicia uma nova ordem de lidar com o homem. Na verdade, neste caso o Espírito encontrou a resistência de um apóstolo, e então houve uma razão adicional para a ação tomar a forma de uma interposição divina. Assim, apesar de certos paralelos com o Pentecoste, o que se desenvolveu em Cesaréia é sem dúvidas visto como algo subordinado a ele, e como efetivamente dando profundo significado ao Pentecoste para a salvação dos Gentios. Uma vez que a organização em Jerusalém era confinada aos Judeus (2:5, 14, 22, 36), seu concreto significado para os Gentios teve que aguardar desdobramentos até que o evangelho deixasse os limites de Jerusalém.

Que “o dom do Espírito Santo” tenha em vista, extraordinárias e miraculosas ações do Espírito é bastante evidente a partir deste contexto. Quando os Judeus os ouviram falar em línguas e glorificar a Deus, eles estavam seguros que os Gentios haviam recebido esse dom. Estes dons eram provavelmente glossolalia e profecia (At 19:6). Que eles eram de natureza exterior desponta pela observação de que os Judeus crentes que acompanharam Pedro foram capazes de discernir o que estava ocorrendo. Estes dons não produziram fé de forma miraculosa, pois os Gentios eram aqueles que tinham ouvido e acreditado na palavra que foi falada (At 10:44; 11:17). Mas os eventos serviram para provar que os Gentios eram crentes verdadeiros, que “Deus concedera arrependimento para vida até mesmo aos gentios” (11:18). Eles eram assim o divino selo sobre esses crentes e a evidência para Pedro que uma nova era de Deus em lidar com os homens tinha sido inaugurada.

Existe também um interesse especial no fato de sermos confrontados com a administração do batismo Cristão em um contexto onde outro batismo, o batismo do Espírito, é considerado e estritamente identificado com o dom do Espírito Santo. O batismo com água é introduzido nesta narrativa como uma prática que é tomada como certa onde houvesse  evidência de fé Cristã. Pedro, tendo recebido prova da presença do Espírito, pergunta: “Pode alguém negar a água, impedindo que estes sejam batizados? Eles receberam o Espírito Santo como nós.” (At 10:47). Jackson e Lake sugerem que a história é ilógica ao introduzir o batismo com água após Cornélio ter recebido o Espírito já que, alega-se, nenhuma razão aparente permanece para o batismo após o Espírito ter sido decisivamente conferido. Mas isto é assim se o batismo for compreendido como outorgando o Espírito mais ou menos magicamente. Embora na verdade o batismo e o dom do Espírito serem intimamente associados em Atos, não há evidência, como será observado mais detalhadamente abaixo, para apoiar a ideia do batismo como um sacramento ex opere operato. E a narrativa em consideração, ela mesma oferece evidência que a relação entre o batismo e o dom do Espírito Santo não é encarado da forma rígida e estereotipada como frequentemente se supõe. A administração do batismo Cristão, como Atos assume, ocorria em seguimento da evidência de fé em Cristo, e Pedro teve que se assegurar da presença de tal fé pela evidência extraordinária do Espírito.

  • A Recepção de Samaria à Palavra

A proclamação do evangelho em Samaria também representou um significante estágio na expansão da igreja Cristã, como Atos 1:8 sugere e de acordo com a pregação de Filipe em Atos 8. Como resultado da obra de pregação e cura de Pedro, homens e mulheres creram e foram batizados (At 8:5, 12). Aparentemente, pelo menos segundo a preocupação de Filipe, nenhuma evidência especial foi exigida a fim de que os Samaritanos ouvissem a Palavra e fossem recebidos na igreja Cristã baseados na fé. Ainda que as crenças e práticas dos Samaritanos fossem um tanto distintas, eles não eram designados como Gentios. A proclamação da Palavra a eles e a aceitação dela por eles foi um passo inconfundível em direção ao plano divino. Porém, não foi um acontecimento radical como se deu na aproximação a Cornélio, o Gentio, e pode-se compreender que a evidência extraordinária da aprovação divina concedida em Cesaréia não foi solicitada em Samaria. A fé deles na Palavra foi ela mesma tomada como evidência de que eles eram membros autênticos da comunidade Cristã. E quando os apóstolos souberam dos acontecimentos, o veredicto deles foi o mesmo. A fé dos Samaritanos foi tudo o que era necessário para apoiar a inspeção que “Samaria tinha recebido a palavra de Deus”, acontecimento tão importante para os apóstolos que tinham descido de Jerusalém com o propósito de julgar por eles mesmos o progresso do evangelho.

Em Samaria, de igual forma, o batismo é considerado como a prática Cristã normal seguindo-se à fé, tal qual na história de Cornélio. Existe pouca ou nenhuma análise sobre a doutrina do batismo em ambas narrativas. Apesar disso, um fato destaca-se em ambas, mais notável à luz das diversas situações que excessivamente se desenrolam. É que tanto em Samaria como em Cesaréia o batismo não era considerado como ipso facto (como consequência obrigatória do batismo) atribuindo o dom do Espírito Santo. No caso de Cornélio o dom foi dado primeiro e o batismo ocorreu no final; em Samaria o batismo precedeu a dádiva do dom do Espírito, mas aquela dádiva aguardou a chegada dos apóstolos e a direta ação deles por meio da imposição de mãos sobre os convertidos batizados. A diversidade na administração dos dons especiais do Espírito é levado em conta, dessarte pela diversidade nas históricas situações. Em ambos os casos pode-se tomar a aprovação como divina, mas há a diferença que em Samaria a aprovação foi mediada pela ação apostólica quando os apóstolos foram convencidos pelo que eles viram, enquanto que em Cesaréia a mesma ação foi diretamente dada pelo Espírito quando Pedro exigiu prova de que o que estava ocorrendo diante de seus olhos estava de acordo com o plano divino.

Os Samaritanos são descritos como não tendo recebido o “Espírito Santo”, embora eles tenham crido e sido batizados. Somente após os apóstolos orarem e imporem as mãos sobre eles é que os samaritanos receberam o Espírito Santo (8:16,17). Esta terminologia chama atenção para a maneira especial na qual a doutrina do Espírito Santo é e pode ser exposta em Atos. Qual dom ou dons do Espírito são dados aos Samaritanos não é especificado, mas que eles eram externos, dons miraculosos, fica claro pelas reações de Simão o feiticeiro. “Vendo Simão que o Espírito Santo era dado com a imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro e disse; Deem-me também este poder, para a que a pessoa sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo” (8:18). Tais dons de profecia e línguas evidentemente foram outorgados, e Simão foi capaz de observar suas manifestações. Ao menos neste ponto, portanto, não há nenhuma análise sobre a relação do Espírito com a origem da fé e crescimento da vida Cristã. Pode parecer frustante para nós porque as questões teológicas são de interesse permanente. Mas não se deve insistir que o autor de Atos tivesse que analisar estas questões sob nossos termos, e pode-se reconhecer a peculiar conduta apropriada em um livro principalmente preocupado com o curso externo do início da história Cristã colocando atenção sobre o extraordinário poder miraculoso do Espírito na realização do plano divino para o povo de Deus.

  • Os Discípulos em Éfeso

O extraordinário incidente registrado em Atos 19:1-7 pode também clarear as dificuldades básicas diante de nós, pois ali, de igual forma, os elementos da fé e batismo e a vinda do Espírito Santo estão em primeiro plano. As decisões são de alguma forma complicadas pelas dificuldades de tradução e interpretação ligadas na compreensão do incidente como um todo.

Um problema diz respeito a identidade dos discípulos que permaneceram em surpreendente isolamento da principal corrente da igreja Cristã. Eles não somente não foram batizados com o batismo Cristão, mas também parecem estranhamente ignorantes a respeito do Espírito Santo. Podem eles, todavia, ser considerados como Cristãos? Sugere-se que eles na verdade eram discípulos de Batista do que de Jesus, mas essa opinião deve ser rejeitada. O termo “discípulos” em Atos 19:1 os caracterizam como Cristãos em face da maneira que Lucas assim designa os Cristãos mais de uma vez (At 6:1; 9:10; 11:26). Mais ainda, eles são ditos simplesmente como “creram” (19:2), e esta terminologia é consistentemente aplicada por Lucas aos Cristãos (At 2:44; 4:4, 32: 18:8,27). É inacreditável que Lucas deveria ter usado estes termos sem a qualificação dos mesmos se ele estava se referindo a não-Cristãos.

Se, entretanto, os discípulos são crentes Cristãos, o isolamento deles da história Cristã é mais difícil de explicar. Todavia, pode-se tudo compreender se eles eram um pequeno grupo de discípulos que não mantinha contatos, especialmente ao tempo que se converteu a Cristo, aos eventos seguintes a ressurreição do Senhor e incluindo particularmente os acontecimentos do dia do Pentecoste. Para a pergunta de Paulo “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?”, eles responderam, “Não, nem sequer ouvimos que o Espírito Santo foi dado.” Esta interpretação da RV na verdade não é literal, pois no original literalmente é: “Não, nem sequer ouvimos que existe o Espírito Santo.” Mas a RV deve ser reconhecida como dando o sentido verdadeiro do Grego. A força da passagem é como aquela de João 7:39 que é interpretada na RV por “O Espírito ainda não tinda sido dado, porque Jesus ainda não fora glorificado”. Estas passagens tem em comum a perspectiva escatológica dada pelo discernimento que, através da era messiânica, a era do Espírito se realizou. Na perspectiva da promessa de Joel do derramar do Espírito, a vinda dele poderia ser pronunciada como uma vinda absolutamente nova, apesar do tempo necessário para que todos soubessem que o Espírito tinha estado ativo durante toda a antiga dispensação. Ao declarar isto eles não somente tinham ouvido que o Espírito Santo havia se manifestado, os discípulos concordantemente revelaram que eles sequer tinham ouvido do cumprimento da promessa da vinda o Espírito no Pentecoste.

No essencial, os acontecimentos em Éfeso correspondem estritamente com aqueles em Samaria que já foram discutidos. Seguindo as perguntas de Paulo e a instruções dadas por ele a respeito da inadequação do batismo deles, eles “foram batizados no nome de Jesus”(19:5). Paulo em Éfeso assim como Pedro em Cesaréia e Filipe em Samaria evidentemente assume a necessidade da administração do batismo Cristão seguido da fé em Cristo. Mais ainda, neste contexto o batismo igualmente não é representado como conferindo o dom do Espírito, pois foi somente após Paulo ter imposto as mãos sobre eles que “veio sobre eles o Espírito Santo, começaram a falar em línguas e a profetizar” (19:6). O paralelismo dos acontecimentos aqui com aqueles em Samaria é assinalado, a única diferença é que neste exemplo, a ação apostólica seguiu-se ao batismo sem demora enquanto em Samaria esperou-se pela chegada de Pedro e João vindos de Jerusalém.

O dom do Espírito é descrito em Atos 19:6 em termos semelhantes a 10:46 e confirma a conclusão prévia de que em todas estas situações o dom é entendido como tendo efeitos miraculosos e extraordinários.

Quando se volta a uma mera particular consideração de Atos 2:38 a maioria ou todos os problemas com que confronta o intérprete parecerá ter sido revisado. E as desvantagens ligadas com a breve e sumarizada característica desta passagem no discurso de Pedro são amplamente superadas ao levar em conta a informação obtida de um estudo de outros contextos nos quais os mesmos aspectos aparecem.

Em Atos 2 há duas formas de batismo, aquele do Pentecoste em si mesmo e o sacramento que Pedro convida aqueles que se arrependeram a se submeterem (At 2:38, 41). Mas a proximidade desses dois tipos de batismos não aponta uma discrepância de opiniões ou configura tensões na narrativa. Na perspectiva de Atos o Pentecostes forma o fundamento de todas as ações subsequentes e estabelece uma perspectiva distinta para toda a história registrada, e daí fica em uma categoria diferente do sacramento do batismo que era para ser recebido individualmente por crentes após manifestarem sua fé.

Pode-se concluir com certeza que Atos 2:38 não deve ser entendido como ensinando que o dom do Espírito era condicional ao batismo, muito embora a ordem para o batismo é feita com a promessa “e receberão o dom do Espírito Santo”. Em muitos dos contextos onde foi possível avaliar a questão da possível relação entre o batismo e a dádiva do Espírito, é bastante claro que o batismo não é concebido como conferindo o Espírito. Os dois estão intimamente associados, e o dom do Espírito pode bem ser considerado como concomitante do batismo, mas nunca como imprescindível ou como consequência imediata do batismo na água. Seria portanto imprudente instar que as palavras “e receberão o dom do Espírito Santo” em 2:38 indicam que o batismo como tal, confere este dom.

Outrossim, Atos 2:38 fornece uma razão para resistir à conclusão que o dom é condicional ao batismo. Deve ser enfatizado que a demanda básica e primária de Pedro é por arrependimento e o pensamento dele pode ser que a promessa do Espírito é assegurada na base da conversão do que meramente como consequência do batismo. Esta interpretação é apoiada observando o apelo de Pedro em Atos 3:19: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para que sejam apagados os vossos pecados, e venham, assim, os tempos do refrigério pela presença do Senhor”. O arrependimento traria refrigério do alto, evidentemente o trabalho do Espírito. Mas nada é mencionado a respeito do batismo.

De forma semelhante em Atos 2:38 o batismo deve ser subordinado ao arrependimento. Que a ênfase recai mais no arrependimento do que no batismo também é apoiado ao observar que em Lucas 24:27 o evangelho a ser pregado no nome de Cristo a todas as nações é resumido em termos de “arrependimento e remissão de pecados”.

Que o “dom do Espírito Santo” em Atos 2:38 deve ter em vista poderes miraculosos dificilmente será duvidoso quando se recorda as outras referências ao dom do Espírito que já foram consideradas. E pode ser significativo que a mesma palavra para dom é empregada em Atos 8:20 onde Pedro condena Simão por supor que ele poderia “obter o dom de Deus” com dinheiro; em Atos 10:45 em relação a surpresa dos Judeus ao verem que “o dom do Espírito Santo tinha sido derramado sobre os Gentios”; e em Atos 11:17 onde Pedro fala sobre isso como “o mesmo dom” que Deus deu a eles.

A questão entretanto permanece, se possivelmente em certas ocasiões, e em particular Atos 2:38, a designação “o dom do Espírito” não pode ser empregado de forma mais compreensível do que é sugerido pelo que foi colocado acima. Não poderia incluir dons de uma religião mais inequívoca e de caráter ético em acréscimo aos miraculosos charismata? Embora Atos atribua grande importância as atividades miraculosas do Espírito, e por vezes parece se referir ao Espírito como se não houvesse nenhum outro tipo de atividades pelo qual Ele fosse responsável, fica claro que os frutos do Pentecostes não se restringem as atividades miraculosas. Toda a obra de Cristo é considerada como sendo realizada por meio do Espírito, e isto permitiria que todos os dons ministrados sobre a igreja e sobre os Cristãos individualmente fossem considerados como dom do Espírito Santo.

Seria particularmente apropriado atribuir as qualidades de sabedoria e de fé como frutos do Espírito (At 6:3,5). Mas talvez a própria salvação, considerada compreensivelmente como a total obra de salvação de Deus, é compreendida como obra do Espírito. As citações de Joel concluem com a declaração de que a era do Espírito seria um tempo de salvação (2:21). Os “tempos de refrigério” em Atos 3”19 também apropriadamente descrevem os exultantes benefícios de salvação experimentados por aqueles que se voltam para Deus.

Os dons externos, ademais, servem ao propósito de fornecer evidência que os propósitos de salvação foram efetivamente realizados. Assim Pedro atribui o extraordinário trabalho do Espírito sobre os Gentios como prova que “até aos Gentios Deus deu o arrependimento para a vida” (11:18). Semelhantemente, até o derramar do dom do Espírito sobre os Gentios, registrado em Atos 10:45, pode parecer para além dos dons de línguas e profecia (v. 47) a total aplicação do Pentecoste aos Gentios. E dificilmente pode-se excluir a possibilidade que em Atos 2;38 “o dom do Espírito Santo prometido aos crentes possa abranger os benefícios da obra de Cristo como aplicáveis ao crente pelo Espírito.

Se, entretanto, dons de salvação e dons espirituais em geral podem ser inclusos em “o dom do Espírito Santo”, nenhum apoio de uma ideia sinergística da salvação provém de Atos. Atos 11:18 especificamente reconhece que “arrependimento para a vida” é dom de Deus. É o Senhor que acrescenta à igreja aqueles que diariamente vão sendo salvos (2:47). E aqueles que creram são reconhecidos como tendo sido ordenados para a vida eterna (13:48).

A situação em Atos, em vista de todas estas considerações não é diferente das Epístolas de Paulo como com frequência se supõe. Paulo, tão claramente como em Atos, como Gunkel também reconheceu, testifica da presença da obra miraculosa do Espírito na igreja primitiva. Paulo de fato lida mais ampla e explicitamente sobre a obra ética e religiosa do Espírito e por meio do seu ensino amplia consideravelmente nosso entendimento sobre a doutrina do Espírito. Em razão de suas epístolas terem interesse na fé e vida dos seus convertidos elas poderiam ser o veículo para tal ensino de uma forma que Atos, tão absorvido que estava com o curso externo da história Cristã, não poderia. Mas Atos não é desprovido de análises sobre a decisiva divina ordenação e cumprimento da salvação como fruto do Espírito. Atos, assim, tem suas formas peculiares de expressão e diferença de ênfase em lidar com o Espírito Santo, mas uma grande perspectiva de unidade com o resto do Novo Testamento é também evidente.

Integrado a estas questões históricas e exegéticas a respeito do Espírito e a igreja, está a questão divisória do supernaturalismo. Tal fenômeno como o dom de línguas e profecia, para não mencionar particularmente os muitos outros milagres registrados em Atos, conspiscuamente coloca atenção sobre isto. À luz dos fatos parece que estes milagres não são apresentados como acontecimentos isolados e nem são para serem explicados como evidência da penetração de noções mágicas e de entusiamo popular na igreja Cristã ou em termos de filosofia do irracionalismo. Porque eles são exemplos de divina interposição na história representando aspectos do abrangente plano divino, que tem em vista a certa realização dos propósitos de salvação de Deus, indicam objetivos e exigem respostas que são profundamente religiosos e éticos. O Pentecostes reforça a nova dispensação, e assim dá perspectiva a todos os exemplos individuais do sobrenatural e confia seus significados na e para a história Cristã. Uma vez que os elementos do sobrenatural permeiam toda a expressão do Cristianismo do Novo Testamento, eles não podem ser avaliados exceto se julgar-se o Cristianismo como um todo. Se se reconhece o Cristianismo como sendo a religião sobrenatural da redenção cósmica e individual e seu objetivo de transformação dos homens e do mundo pelo soberano Deus e graça em Cristo Jesus, os milagres não parecerão como um fardo ou responsabilidade à fé Cristã. Eles são, ao invés, aspectos significantes daquela redentiva e revelacional ação de Deus em transformar o mundo, indicativos da transformação ter-se iniciado e até sido realizada de uma maneira significante, bem como aponta para a consumação dos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça”.


Título original: Repetance, Baptism and the Goft of the holy Spirit

Tradutora: Márcia Elias.


[1] G. Smeaton: The Doctrine of the Holy Spirit (Edinburgh. 1882), p.30.

[2] “Ex opere operato” é uma expressão teológica que significa “pela obra operada”. Refere-se ao fato de que os Sacramentos realmente são eficazes: eles conferem a graça quando o sinal sacramental é validamente realizado, não como resultado de atividade da parte do receptor, mas pelo poder e promessa de Deus.

[3] Cf. F. J. Foakes-Jackson:. The Acts of the Apostles (London, 1931), pp. 18f.; C. Gore: The Holy Spirit and the Church (New York, 1924), pp. 53, 126s.

[4] Veja especialmente H. G Gunkel: Die Wikbungen des heiligen Geistes, nach der populdren Anshatauung der apostolischen Zeil und nach der Lehre des Apostels Paulus (Gottingen, 1888).

[5] F. J. Foakes-Jackson and Kirsopp Lake: The Beginnings of Christianity, Part I, The Acts of the Apostles, Vol. I (London, 1920), pp. 337ss.

[6] Ibid., pp. 339s.

[7] Ibid., p. 341.

[8] Ibid., p. 338. Cf. C. K. Barrett: The Holy Spirit and the Gospel Tradition (London, 1947) p. 142.

[9] Jackson and Lake: op. cit. pp. 341s.

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2 Comentários

  1. Eu não entendi bem a conclusão do texto. O autor concluiu que o dom do Espírito em Atos inclui tanto a salvação quanto as manifestações extraordinárias(dons de profecia e línguas)? Ou somente as manifestações extraordinárias?

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