Atos 2 e afasia bilíngue: quando acidentes explicam milagres e confundem a ciência

Não são poucos os cessacionistas que se apegam ao cientificismo na busca por descredibilizar o dom de línguas, bem como outras manifestações extraordinárias do Espírito no meio de seu povo. John MacArthur é um destes que se imbuem com tal propósito. E há aqui no Brasil quem siga seus passos, julgando com isto tributar alguma glória a Deus.

Via de regra, o objetivo destes esforços é demonstrar que determinadas ocorrências atuais não têm qualquer relação com aquelas registradas nas Escrituras. Entretanto, estou convicto que provam justamente o contrário; provam que os operadores do cessacionismo não têm a Bíblia como suficiente, única regra de fé e prática, e neste sentido, são forçados a se valerem de esquemas científicos para contradizer afirmações bíblicas. E com isso, envergonham o Espírito Santo traduzindo um esforço que se presta em diminuir sua glória. Embora não seja imposto rejeitar quaisquer formas de relacionamento com a ciência, algumas cautelas precisam ser tomadas preliminarmente.

Com efeito, para estabelecermos qualquer relacionamento entre fé e ciência é preciso antes estabelecer a ordem de comando nesta relação. Em síntese, definir quem é autoridade suprema sobre a qual todas as demais sejam devedoras de inteira sujeição. Esta relação implica em ter consciência que o uso das ciências naturais para explicar qualquer que seja a manifestação sobrenatural, tem suas dificuldades implícitas. Devemos ter em mente que o naturalismo científico possui em si mesmo limitações que não lhes permite abranger todas as esferas do sobrenatural, aquele aspecto que define a impossibilidade do finito explicar adequada e exaustivamente o infinito.

Penso que é ponto pacífico entre nós o fato de que Deus circunstancialmente nos surpreende servindo-se da ciência para nos trazer luz àqueles aspectos da sobrenaturalidade que estavam envoltos pelo véu do santo dos santos. Inúmeros exemplos poderiam ilustrar esta afirmação, como por exemplo, os diversos achados arqueológicos comprovando que os registros bíblicos carreavam verdades históricas até então desconhecidas de nós, ou, postas em dúvida pelos cientistas. Então, o primeiro ponto a ser estabelecido refere-se em definir como se dará o bom uso da ciência.

É assim que o apóstolo caminha. Paulo também procurou explicar manifestações espúrias entre pagãos com o propósito de trazer luz sobre a manifestação dos dons entre os crentes, ou seja, ensiná-los a instrumentalizar devidamente o dom que soberanamente lhes havia sido outorgado (1Co 12.2). O objetivo de Paulo, neste sentido, era diametralmente distinto daquele buscado por MacArthur e por um séquito de cessacionistas que seguem seus mandamentos como se fossem o resumo dos termos do pacto sinaítico. No caso de Paulo, se formos traçar um paralelo, teríamos o caso de que o apóstolo fez o uso de uma espécie de ciência da religião, ou de religiões comparadas para definir o erro pregresso daqueles crentes.

Paulo procurava ensinar aos crentes de Corinto – e por consequência nos ensina também – que aquelas manifestações vivenciadas no passado eram na verdade emulações produzidas pelo diabo, daquele verdadeiro dom revelacional. Eles precisavam aprender sobre a verdade, já que a mentira lhes era mais facilmente acessível à memória. Era o mesmo perigo que corriam os hebreus quando deixaram o Egito. Não sem intenção, Deus os alertava para que cuidassem de não terem outros deuses na presença dele e não se contaminassem com os costumes dos povos que ainda habitavam Canaã.

É naquele sentido que Paulo diz o quanto as profecias são superiores ao dom de línguas. Ele tinha em mente o contexto pagão vivenciado por aqueles crentes antes da conversão a Cristo, familiarizado com manifestações de profetisas pagãs, tais como a Pítia, muito comum na Corinto de antigamente. A Pítia era um cargo exercido por duas ou três jovens sacerdotisas, ou em tempos mais antigos por uma anciã, que se assentavam em uma espécie de tripé em cima de uma cavidade na terra de onde emergia o espírito oracular sob a forma de fumaça, concedendo-lhe inspiração. Quem nos explica melhor esse contexto são dois dos mais renomados estudiosos do texto sagrado, que sobre o entrelaçamento psicológico do crentes de Corinto com as manifestações espúrias antes da conversão, Lothar Coenen e Colin Brown nos dizem que reunidos os elementos próprios da liturgia

Como resultado, irrompia em sons inarticulados enigmáticos, semelhantes à glossolalia. Estes dizem respeito aos eventos futuros, conforme sugere o título promantis, e tinham conexão direta com a pessoa que consultava o oráculo e que vinha a ele por causa de um problema que a deixava confusa, acerca do qual procurava ajuda na forma de instrução. Apresentaria por escrito uma pergunta que se levantara na sua própria vida. As perguntas, talvez, tocassem em assuntos dos negócios, da religião, da política, da ética ou da educação, e nelas achamos refletida a gama total da vida no mundo da antiguidade. Visto que a resposta da Pítia usualmente era incompreensível para o visitante, porém, havia necessidade de outros oficiais no santuário, cuja tarefa era traduzir a expressão vocal em dito que pudesse ser entendido com clareza e lembrado. Esta tarefa era realizada por anciãos sábios e altamente respeitados, que o oráculo conclamara a esta posição, e que também eram conhecidos como profetas. Não operavam por inspiração direta; se fosse este o caso, teriam recebido o título adicional de mantis. Pelo contrário, a sua transmissão do recado incluía o emprego do seu entendimento (logismos). Recebiam os oráculos pitianos, testavam-nos, completavam-nos, interpretavam-nos, e formulavam o dito final. Logo, nunca falavam por iniciativa própria, mas, sim, depois de um visitante ter apresentado uma pergunta e depois de a Pítia ter pronunciado o oráculo.[1]

Paulo foi além de apontar a falsidade da mensagem pronunciada por aquelas sacerdotisas; ele indicou também que havia uma inversão de valores na estrutura profética do paganismo. O apóstolo demonstra a operação do erro, suas articulações características, e em sequência ensina sobre a operação do dom verdadeiro (1 Co 12–15). Consequentemente, Paulo informa que o propósito do dom, ou sua ênfase, está na mensagem, não na espantosa inarticulação fonética, visto que esta pode reproduzir a mentira. Ele assevera que as línguas são recursos para instrução que carecem do ferramental interpretativo a fim de que todos sejam edificados.

Em resumo, Paulo diz que a relevância ordinária do dom repousa na mensagem, não no veículo que a transporta. A mensagem é mais importante que o mensageiro, e mais importante que a fenomenologia fonética. A profecia falada de viva voz por Isaías é a mesma profecia depois de sua morte. Ela teve seu peso e significado tanto para os ouvintes primários, quanto para nós hoje. É a mensagem quem instrui, conforta, consola, edifica. Desta forma, até mesmo Balaão pode ser usado por Deus mesmo que se trate de um mercenário réprobo a realizar serviços espirituais por encomenda. Assim, enquanto Paulo censura o erro entre os de Corinto, diferentemente de MacArthur, ele encontra ocasião para ensinar a verdade acerca dos dons. Esta é a missão apostólica da Igreja, discernir a verdade do erro; separar joio do trigo com vistas à glória de Deus.

Portanto, meu propósito aqui não é tão somente apontar o erro do método paganizado do ensino de MacArthur quando este combate os dons extraordinários como os de cura, profecia e línguas. Vou demonstrar sim que ele está errado, sobretudo por que desconsidera as falhas estruturais do método de que se utiliza, mas também envidarei esforços visando ensinar a verdade bíblica sobre os dons. Não pela ciência e para ciência, mas com a Bíblia, usando devidamente a ciência como serva de Deus, e ensinando aos crentes sobre os dons.

CAUTELA COM A TEOLOGIA NATURALISTA DE MACARTHUR

Como já dito, uma das mais conhecidas limitações da ciência em relação à Deus é sua própria limitação; é algo intrínseco, que prova o espectro limitado de sua visão e alcance. Por outro lado, Deus é infinito, fonte de toda sabedoria e conhecimento, Senhor soberano de todas as coisas, não dependente de nada, aquele que não toma conselhos com ninguém e rege o Universo pela força de seu poder. A ciência naturalista, diferentemente, mantém-se manca e coxeia com suas muletas, dependendo quase sempre dos instrumentais desenvolvidos pelo progresso tecnológico ou pelos aperfeiçoamento dos métodos.

Embora MacArthur tenha desconsiderado este princípio basilar, todo crente deve ter cautela quando vislumbrar ser possível a utilização da ciência para corroborar doutrinas bíblicas. E as razões são incontáveis, dentre elas, a mais elementar, o fato do cientificismo naturalista pós-moderno reger-se pelo pressuposto da descrença em Deus. Menciono o pós-modernismo tendo em vista sua aliança com as premissas do iluminismo, valorizando a razão em detrimento das questões metafísicas. Note que enquanto a fé foi um pilar central da sociedade humana o cristianismo presentou o mundo com as mentes mais brilhantes a serviço da ciência. Homens que com as limitações impostas pelas tecnologias rudimentares da época, foram capazes de enxergar muito mais longe que os atuais cientistas.

Há crentes reformados que se utilizam da ciência para elaborar refutações em detrimento do alegado dom espiritual por pentecostais e carismáticos em geral. Este é um procedimento a ser evitado, basicamente por três motivos: 1) as ciências naturais não explicam adequadamente supostas contradições religiosas; 2) como ciência, suas postulações repousam no campo das hipóteses sempre sujeitas a revisões. Em síntese, a ciência não elabora conceitos absolutos, o que em si a coloca como oponente da Palavra de Deus; 3) pelo pressuposto básico da descrença no metafísico religioso. E este talvez seja o principal motivo. Eu poderia citar também a prática semelhante do romanismo na comprovação de supostos milagres em processos de beatificação, por exemplo. O romanismo se vale de experimentações científicas para atestar ou não testemunhos atribuídos como milagres.

Assim, a ciência natural não merece receber abrigo como ferramenta desconstruidora de supostos milagres. O método, nos casos em que repousam dúvidas acerca de determinadas alegações de dons que aparentemente soam falso, é o dom de discernimento de Espíritos combinado com um estudo aprofundado sobre o que diz a Palavra de Deus. Estas duas réguas são o padrão que devem medir um dom ou sua manifestação, sobre o qual estejamos hesitantes. Mas nunca a ciência. Esta última só pode ser usada para corroborar o que está prescrito na Palavra de Deus. Ou seja, se a Bíblia afirma que o dom de línguas é um fato, a ciência só poderia ser utilizada como ferramenta para elaborar reflexões que reforcem esta verdade; nunca o contrário.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O LIVRO DE ATOS

Que MacArthur comete erros primários quando o assunto toca em aspectos da pessoa e obra do Espírito Santo isso me parece absolutamente notório. E tem laborado em erro, embora muitos não se deem conta, quando afirma que o livro de Atos, por exemplo, não deve ser estudado como texto normativo, mas como mera narrativa. Como se uma narrativa em si mesma não pudesse ser norma que estabelece doutrinas. Ora, o livro de Atos traz em seu conteúdo diversos mandamentos universais, tais como podemos enxergar no capítulo 15 nas decisões daquele concílio apostólico. Aquela narrativa traz em seu bojo conteúdo doutrinário com peso de obrigatoriedade universal. Daquela reunião transpirou a premissa de que a todos nós está proibido as relações sexuais ilícitas, das cousas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue e da carne de animais sufocados.  Eu creio como Paulo na verdade de que “toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, repreensão, correção e educação na justiça” (2 Tm 3.16). Então onde está o erro de MacArthur neste ponto? O ponto primordial é que ele volatiliza a autoridade da Escritura para acomodar os postulados do cessacionismo. E este é um erro gravíssimo, tendo em vista que embora a utilidade da Escritura seja abrangente, é defeso, entretanto, sua aplicação como referendo de doutrinas que contradigam a Palavra de Deus. É como usar a Bíblia para tentar provar que Deus não existe, quando o pressuposto básico nela registrado é que ele existe. Por fim, é especialmente interessante que alguns calvinistas usem despudoradamente Atos 13.46-48 para referendar a doutrina da eleição incondicional, ao mesmo tempo em que acusam carismáticos e pentecostais de usarem Atos para referendar pontos da teologia carismática.

MacArthur então procura diminuir a autoridade do livro de Atos e impõe a este uma categoria estranha da que o Espírito estabeleceu. Ou toda Escritura é útil, ou não é. E entendam que afirmar ser ela integralmente útil não é o mesmo que afirmar nossa obrigatoriedade incondicional em relação a todas as prescrições ali expressas. Talvez você tenha se assustado com isso, mas deixe-me explicar o que tenho em mente quando faço tal afirmação. Don Codling expôs esta premissa muito apropriadamente quando nos recomendou que

A primeira coisa que deve ser dita é que toda palavra de Deus exige obediência por parte do homem. Inexiste revelação que não imponha o peso da obrigatoriedade. Pode haver revelações dadas a homens específicos para sua orientação pessoal e que não possuem natureza vinculativa para todos os homens. Por exemplo, Deus proibiu de ir à província da Ásia para pregar o evangelho (Atos 16:6). Certamente isso não significa que nenhum cristão jamais poderia pregar a Palavra na Ásia. Foi uma proibição endereçada a um grupo de homens em um lugar e tempo específicos. No entanto, toda revelação é vinculante. Essas palavras foram tão obrigatórias em seu próprio contexto quanto qualquer outra Palavra de Deus. A palavra é de Deus ou não é. Se é de Deus, deve ser obedecida, portanto, não existe graus de autoridade e tudo que vem de Deus demanda obediência. Em Romanos 1:18-23, Paulo mostra que não é somente a palavra escrita que tem autoridade. Ali ele declarou que a revelação geral é obrigatória, tanto é que quem rejeita Deus torna-se inescusável porque o Senhor se dá a conhecer na revelação geral. Uma vez que a revelação geral é uma regra vinculante para o homem, pode-se então asseverar com confiança que cada instância da revelação também o é, ainda que possa não o ser para todos os homens de todos os tempos.[2]

Então, ainda que determinada palavra revelacional tenha servido para uma circunstância específica, o peso da revelação não sofre depreciação com o cumprimento de uma determinação pontual. Algumas foram reveladas para um contexto específico, mas a caducidade ou decadência de partes do texto sagrado não diminuem em nada a glória da revelação em si. Foi a boca de Deus quem o disse e esta é a glória suprema da revelação.

Tendo isto em mente, podemos dar início ao ponto estabelecido para este artigo. Como dissemos, o método científico usado por MacArthur tem falhas estruturais que devem ser levadas em conta. Uma delas, apontamos, é a própria dependência do progresso tecnológico. Embora MacArthur tenha se esquecido disso, é importante lembrar que na década de oitenta quando ele escreveu suas denúncias no livro The Charismatics (Os Carismáticos, Fiel, 1995), muitas demonstrações dessa dependência tecnológica eram facilmente notadas. Como exemplo, o mundo já dispunha dos aparelhos de raio-x que favoreceram a medicina diagnóstica. Hoje em dia, a ciência limitada do passado e de hoje, dependente dos velhos raios-x, passou a contar com recursos mais modernos, substituindo velhos aparelhos por equipamentos de ressonância magnética de última geração. Muito embora, diga-se de passagem, até esses mais caros e modernos equipamentos, dependem para seu devido funcionamento, da ingestão pelo paciente, de contrastes radiológicos à base de bário ou iodo que custam pouca soma de dinheiro. Ou que dependam de fusíveis e relés que custam alguns centavos de dólar.

Mas quanto ao livro citado, MacArthur (pp. 169-173) se apoia nas conclusões da psicologia, da linguística e em outras ciências procurando comprovar que as línguas são fenômenos oriundos de sugestão psicológica, de indução coletiva, ou nascidas no trono de demônios. Ele acha todo tipo de explicação para afirmar que o dom de línguas cessou definitivamente, menos uma única justificação bíblica para reconhecer que algumas expressões do dom de línguas atualmente sejam de fato o dom verdadeiro. E à medida que usa mais a ciência que a Bíblia algo de estranho pode ser denunciado nessa prática. MacArthur ressalta também que as línguas de hoje em dia podem ser satânicas ou demoníacas, que são um comportamento aprendido e, por fim, que podem ser reações psicológicas. Em síntese, ele vai ao centro do inferno para explicar o que poderia ser explicado a partir das Escrituras Sagradas. Tal comportamento é justificável em razão da teologia que ele resolveu abraçar, visto que nega a possibilidade da operação dos dons sobrenaturais após o primeiro século do cristianismo primitivo. E em que pese nossas discordâncias, eu mesmo não entendi a dicotomia que ele faz entre satânico e demoníaco. Não são a mesma coisa?

Mas adentremos agora nos aspectos da mesma ciência da qual MacArthur se utiliza para opor-se aos dons.

MacArthur afirma que em Atos 2 as línguas tinham um propósito definido e “seriam um sinal de juízo sobre o Israel descrente, para mostrar a inclusão de outros grupos na igreja e autenticar os apóstolos”.[3]

A pergunta que sempre me ocorre à mente quando ouço tal argumento é se Israel não já sabia desse fato, levando em conta que toda a nação tomou conhecimento do ministério de Jesus. Além do mais, o sinal proeminente nos evangelhos como indicador da autoridade apostólica, até onde posso presumir, foi primariamente o poder de expelir demônios (Lc 10.17).

Neste caso, ele erra ao dizer que Atos 2, especialmente os primeiros versículos, é o trecho central sobre o qual os pentecostais/carismáticos desenvolvem sua teologia. Isto porque não são os carismáticos que desenvolvem uma teologia em Atos 2, mas Lucas quem o faz. A narrativa neste caso é uma exposição subjacente da teologia lucana sobre a pessoa e obra do Espírito Santo. Além do mais, os carismáticos se utilizam dos Evangelhos e Epístolas tanto quanto se utilizam de Atos para sistematizar a teologia que defendem.

Em segundo lugar, MacArthur erra quando deixa de considerar aspectos importantes do texto e da fala de Pedro em Atos 2 ao vincular aquele evento unicamente às promessas anunciadas por Joel. Erra quando desconsidera os contextos de Ezequiel e Jeremias. Atos 2 na verdade não é apenas o anúncio da inclusão de outros grupos na Igreja, mas igualmente que a igreja como povo de Deus está desvinculada da noção judaica de um Templo territorial específico onde Deus faria sua morada. Explico.

É fato que judeus estrangeiros (2.8-12) estavam habitando em Jerusalém. A ideia central é clara, no sentido de estabelecer que o verdadeiro Israel não se restringe aos termos de uma faixa de terra, assim como o verdadeiro israelita não é necessariamente o judeu por nascimento, conforme dito por Paulo. Atos 2 é essencialmente escatológico e aponta para uma dimensão muito mais abrangente que as teologias cessacionistas ou carismáticas não estão considerando. Levando em conta todo o bojo revelacional, Atos 2 é também o prenúncio de que as antigas profecias não devem ser esquecidas e que Deus reunirá seu povo. Em Ezequiel 28.25 o profeta claramente anuncia esta questão: “E assim diz o Eterno Soberano: Quando Eu reunir a Casa de Israel dentre as nações nas quais foi espalhada, Eu me revelarei Santo para todos eles à vista das nações. Então eles viverão em sua própria terra, a qual concedi como herança ao meu servo Jacó. (KJV)

No mesmo viés, segue a profecia de Jeremias quando prenuncia: “Eu, pessoalmente, reunirei os remanescentes do meu rebanho de todas as terras para onde os expulsei e os conduzirei de volta à sua pastagem, a fim de que cresçam e se multipliquem.” (Jr 23.3).

Enquanto as atenções estiverem voltadas demasiadamente para línguas de fogo caindo do céu, ou moços, crianças, escravos e velhos profetizando, haveremos de esquecer os demais pontos que Atos 2 assevera. O texto de Jeremias, tanto quando Joel e Ezequiel, apontam para Atos, enquanto Atos prenuncia que a despeito de ser apenas o pré-cumprimento de antigas profecias, este pré-cumprimento tem em si mesmo um importante sinalizador de esperança. Em resumo, indica que o povo de Deus pode esperar que o grande e último derramamento do Espírito ocorrerá.

Acerca deste pré-cumprimento, o Dr. Charles Feinberg nos diz o que

de início é preciso deixar claro que é incorreto dizer que não há conexão entre as duas passagens. Pedro declara com clareza estar se referindo à predição de Joel. Contudo, esse fato sozinho não constitui cumprimento. Em primeiro lugar, falta inteiramente em Atos 2.16 a fórmula costumeira de uma profecia cumprida. E até mais notável é o fato de que grande parte da profecia de Joel citada em At 2.19‑20 não se cumpriu naquela ocasião […] A melhor posição a tomar é a de que Pedro usou a profecia de Joel como ilustração do que estava transpirando em seu dia e não como cumprimento dessa predição. Em suma, Pedro viu nos acontecimentos do dia prova de que Deus ainda cumpriria o que Joel profetizou. A profecia de Joel foi, pois, “pré­cumprida”; ela ainda está (conforme mostram as passagens do Antigo Testamento sobre o derramamento do Espírito) para ser cumprida.[4]

Tendo em mente a profecia de Jeremias, segundo entendo, é difícil estabelecer que ela tenha se cumprido naqueles que regressaram sob Zorobabel, isso em virtude de não se poder afirmar, em vista do elemento vinculante da profecia, que nem uma das ovelhas faltou (Jr 23.4). A profecia aponta para o dia em que todo o verdadeiro Israel, todas as ovelhas do Senhor, serão ajuntadas e reunidas de todos os cantos da terra; nem uma delas virá a faltar. Assim sendo, o capítulo dois de Atos é tipológico.

A profecia de Ezequiel tem o mesmo componente tipo-escatológico e não se restringiu a qualquer cumprimento nos dias do profeta. Ele aponta para o dia em que o próprio Deus congregará a casa de Israel “dentre os povos” entre os quais estão espalhados. Ora, via de regra este componente escatológico das profecias citadas é negligenciado. Atos 2 é o símbolo da esperança que deve se renovar até que a Palavra se cumpra. É evidente que esta ocorrência de Atos torna-se tipológica igualmente se verificarmos que algo ainda mais portentoso está para acontecer, como prescreve Apocalipse no anúncio de duas testemunhas que profetizarão por mil duzentos e sessenta dias. Elas operarão toda sorte de sinais e prodígios, inclusive ressuscitando (Ap 11.3-12). Este ponto da profecia joanina não encontra qualquer outro paradigma. Nem Moisés, nem tampouco Elias, os dois maiores profetas em Israel, ressuscitaram ou operaram os sinais que serão operados por essas duas testemunhas mártires. Atos 2 aponta, ainda que de maneira subjacente para este último evento paradigmático expresso por João.

Daí temos que os elementos principais das profecias de Jeremias e Ezequiel estão reunidos e têm sido desconsiderados por que o foco das discussões está apontando apenas para uma parte da revelação. Enquanto Joel aborda algumas manifestações na natureza e outras relacionadas à amplitude do ministério profético (“vossos filhos e vossas filhas profetizarão”), as profecias de Jeremias e Ezequiel apontam para uma dimensão igualmente importante: a da reunião de Israel num único lugar. É isto o que apontam os versos cinco, oito, nove e dez de Atos 2. “Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos de todas as nações debaixo do céu. […] E como os ouvimos falar, cada um em nossa própria língua materna. Partos, medos e elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judeia, Capadócia, Ponto e Ásia; da Frígia e da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem”. (Grifo nosso).

Os judeus mencionados por Lucas em Atos 2 representavam a completitude de todos os judeus, de todo o mundo antigo, reunidos em um só lugar. Eles que em razão da dispersão haviam nascido em termos distantes de Jerusalém, crescidos em outras culturas, portanto no mínimo bilíngues, e que não haviam perdido sua ligação com a fé de Abraão, naquele exato momento do Pentecoste em Jerusalém, foram atraídos pelo vento impetuoso que invadiu aquela casa e ouviram pela boca de Pedro que as promessas dos antigos profetas Joel, Jeremias e Ezequiel se cumpririam. A resposta à indagação “que faremos pois?” elucida toda a questão: “Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos, e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor nosso Deus chamar. (Grifos nossos).

QUAIS LÍNGUAS FORAM FALADAS EM PENTECOSTE? IDIOMAS HUMANOS OU LÍNGUAS ESTRANHAS?

Este é um aspecto importante a ser tratado. E evidentemente marcado por intensa controvérsia. Isto por que há quem insista que o processo verificado em Atos 2 foi a clara manifestação de um milagre auditivo-dictivo, ou seja, que o milagre aconteceu entre os que falavam, enquanto que paralelamente também entre os que ouviam as maravilhas de Deus pela boca dos que haviam sido tomados pelas línguas de fogo. Assim, supõem que o milagre se deu em sua forma dupla, tanto em quem falava, quanto em quem ouvia.

Outros negam esta possibilidade observando que um milagre desta proporção não poderia englobar descrentes. Este é igualmente um erro, levando-se em conta que restringir a manifestação revelacional divina apenas ao povo de Deus é desconsiderar, por exemplo, que ele se revelou claramente a Abimeleque, o rei ímpio de Gerar (Gn 20.3). De sorte que devemos assumir que Deus não está restrito a se revelar apenas ao seu povo.

Embora meu ponto de vista não problematize a questão do dom, por que entendo que especificamente o dom em Atos 2 trata-se de idiomas estrangeiros, é importante notar que o milagre foi exclusivo entre os que falavam. Ou seja, por intermédio de algum processo cerebral, aqueles batizados pelas línguas de fogo adquiriram circunstancialmente a capacidade para falar um idioma que não lhes era peculiar, mas apenas aos ouvintes. Este ponto restou claramente assentado no texto do capítulo 2 de Atos. Os judeus que ouviram as maravilhas de Deus, ouviram na língua de seus locais de nascimento, ou seja, embora judeus bilíngues que falavam aramaico/hebraico, eles ouviram falar nas línguas dos países onde tinham nascido.

Quem falava eram galileus, gente simples, de uma região pobre e desprestigiada. Talvez corriqueiramente por dever de ofício das transações comerciais, muitos deles tenham tido contato com aquelas línguas estrangeiras, embora dificilmente tenham alcançado fluência. O milagre então se dá na capacitação daquele que nenhuma instrução (ou quase nenhuma) havia recebido numa língua estrangeira. E é neste sentido que a ciência pode nos explicar, em parte, o mecanismo articulado.

O outro aspecto se dá pelo desprestígio característico da região. No imaginário daqueles judeus estrangeiros, tais manifestações foram assumidas como proféticas, mas a ideia era de que nada relacionado ao encargo profético poderia proceder da Galileia (Jo 7.52). Então, um evento desta magnitude envolvendo galileus, chamou a atenção daqueles judeus estrangeiros.

Entretanto, a Galileia era o berço do cristianismo, o centro nascedouro da unificação do trono do Messias. Seremos forçados a lidar mais uma vez com a profecia de Jeremias, já que ele anuncia o renovo de justiça (Jr 23.5) que seria uma referência clara a Jesus como Rei. É neste sentido que a localização geográfica do pentecoste e a reunião daqueles judeus estrangeiros assumem lugar de proeminência na discussão escatológica de Atos muito mais que as línguas faladas na ocasião.

 E O QUE A CIÊNCIA TEM COM ISSO?

Já foi dito que MacArthur procurou se valer a ciência para afirmar que as línguas atuais, na verdade, são balbucios sem sentido ou transtornos psicológicos em razão das induções coletivas:

Um estudo de Atos e de 1 Coríntios demonstra muitas vezes que a Bíblia não ensina ser o dom de línguas uma linguagem extática de oração. Apesar disso, geralmente o que se passa por línguas são balbucios extáticos no movimento pentecostal/carismático. William Samarin, professor de linguística na universidade de Toronto, escreveu: ‘Durante um período de cinco anos tenho participado de reuniões na Itália, Holanda, Jamaica, Canadá e nos Estados Unidos. Tenho observado pentecostais a moda antiga e neopentecostais. Tendo estado em reuniões pequenas em casas particulares como também em reuniões imensas e públicas. Tenho visto ambientes culturais diferentes como os porto-riquenhos do Bronx, os domadores de serpentes das montanhas Apalácias e os Molokas russos de Los Angeles[…]  Tenho entrevistado pessoas que falam línguas. Em todos os casos, a glossolalia é linguisticamente apenas um balbucio. Apesar de semelhanças superficiais, a glossolalia é fundamentalmente diferente de linguagem.’  William Samarin é um dos muitos homens que têm feito um estudo do fenômeno da glossolalia. Estes estudos demonstram que aquilo que hoje ouvimos não é língua, e se não for linguagem falada, então não é o que a Bíblia diz ser realmente o dom de línguas.[5] (grifos nossos).

Ora, as conclusões são tão inconclusivas que confundem até o próprio MacArthur. Ou, estamos diante de um homem que não mede esforços para disseminar a dúvida. De início ele faz uma associação direta entre as línguas de Atos e as de Corinto como sendo da mesma natureza. No entanto, ele precisaria esclarecer que a pesquisa de Samarin abordava apenas uma das qualificações do dom de línguas, qual seja, a glossolalia. O primeiro erro de MacArthur se estabelece aí. Se eu parto do pressuposto que o Pentecostes foi um evento tipicamente escatológico como já observamos, ele se torna em si mesmo paradigmático e com endereçamento específico; com efeito, endereçado aos judeus. Então, o evento é tipicamente xenoglássico e não glossolálico como em Corinto. E asseverando o aspecto nacionalista de Atos 2, é que entendemos a razão de outros dois pentecostes, o de Samaria (At 8.14-17) e o dos gentios narrado no capítulo 10 (vv. 44-45), confirmando inclusão na Igreja mesmo antes do batismo com água (vide v. 47-48).

Em segundo lugar, a única conclusão a que o Dr. Samarin chega é que a Xenoglossia não fora verificada nas comunidades que ele visitou. A xenoglossia fora verificada em Atos 2, com galileus falando uma linguagem estrangeira e neste caso os lugares em que o pesquisador pode fazer suas verificações, aquelas ocorrências supostamente sobrenaturais não se enquadraram na categoria de linguagem humana. Mas aqueles fenômenos verificados na pesquisa, ainda que não enquadrados como xenoglossia, poderiam perfeitamente estar enquadrados como a glossolalia dos coríntios e dos efésios (At 19.6), esfera que não poderia ser estudada pelos métodos científicos da linguística de Samarin.

A questão é que para ser identificada como linguagem espiritual, a glossolalia demanda que o observador seja um partícipe de certas infusões do Espírito. Na glossolalia, diferentemente da xenoglossia, não há uma estruturação fonética que ofereça sentido lógico para os de fora. Assim, para haver interpretação desta articulação fonética, outro dom espiritual deve interagir paralela e simultaneamente. As coisas espirituais se discernem espiritualmente, e não pelo ferramental das ciências linguísticas capitaneadas por homens como Samarin. MacArthur estaria desconsiderando então, outro preceito importante. Kuyper discorrendo sobre matéria semelhante nos diz que

O testemunho de crentes apresenta somente os contornos difusos da obra do Espírito Santo. As suas vozes são fracas como se oriundas de uma região desconhecida; e o seu discurso irregular é inteligível somente quando nós, iniciados pelo Santo Espírito, podemos interpretá‑lo a partir da nossa própria experiência. Do contrário escutamos, mas não conseguimos compreender; ouvimos, mas não recebemos informação alguma. Somente aquele que tem ouvidos pode ouvir o que o Espírito tem falado secretamente a estes filhos de Deus.[6]

Em outras palavras, indiretamente Kuyper alega ser presunção assumir que Samarin poderia fazer determinadas verificações e atestar um dom genuíno do Espírito, quando a atuação dele fosse caracteristicamente glossolálica. E não é demais frisar que a cognoscibilidade da linguagem transcende as estruturações fonéticas. O aspecto mais importante da linguagem é o entendimento, a compreensão, e estes se dão de diversas formas. Explico.

Com efeito, Paulo atesta isso em 1Co 14.7-8 ao usar como ilustração mudanças nos comandos próprios dos instrumentos musicais. No contexto trabalhado por ele, a trombeta comunica uma linguagem desassociada de sua natural função para a qual foi criada. Paulo estabelece para ela uma função distinta, invocando uma dimensão tipicamente bélica de convocação à batalha. Trombetas não foram inicialmente criadas para o uso militar, mas para cumprir uma função recreativa. Há um desvio de função para atender uma determinada necessidade extemporânea.

O ressoar da trombeta para batalha, embora não assuma uma estruturação linguística reconhecível, é absolutamente compreensível como linguagem comunicativa por qualquer exército, em qualquer parte do mundo. O som que prenuncia a batalha, se adequadamente ressoado, se tornará uma convocação mesmo para soldados de línguas diferentes. Embora não sejam capazes de se comunicar pela linguagem humana, compreenderão o chamado da trombeta. Particularmente não penso que a ilustração da trombeta tenha sido usada sem propósito por Paulo. O Espírito Santo é a trombeta que torna o incompreensível em compreensível. Esta é uma das funções do Espírito (Rm 8.26). Samarin, com o uso de suas técnicas, nunca poderia estabelecer qualquer conexão lógica do dom de glossolalia dentro das estruturações da linguagem humana compreensível.

Assim, o foco de Paulo em determinados textos é revelar que o centro da comunicação está naquele que escuta, não no que fala. O Espírito pode se comunicar com gemidos inexprimíveis, que será compreendido por aquele que recebe nossas orações. Assim, a linguagem da alma assume contornos de possibilidade comunicativa. Assim, anjos quando imbuídos de nos comunicar algo, assumem nossa linguagem, por que o centro é quem ouve, não quem fala.

Por fim, cabe uma pergunta, tendo em vista o excessivo escrúpulo de MacArthur: E se amanhã surgirem comunidades que em suas orações o façam com gemidos inexprimíveis? Como estabelecer a validade dessa hipotética manifestação? Afinal, poderão dizer os que possivelmente vierem a praticar orações com gemidos inexprimíveis que esta articulação é absolutamente crível e bíblica.

EXPLICAÇÕES SOBRE O MILAGRE DE ATOS 2. QUANDO O MILAGRE EXPLICA O MILAGRE E CONFUNDE A CIÊNCIA.

Recorrentemente tenho dito que não devemos nos preocupar demasiadamente em explicar milagres. A Bíblia por si só não é um livro de ciências disposta a explicar todos os processos físicos, químicos ou correlatos. Milagres guardam aspectos que lidam com as esferas do sobrenatural nem sempre abarcadas pela nossa capacidade de compreendê-los adequadamente. Por exemplo, quem poderia explicar objetivamente como uma jumenta expressou-se inteligivelmente? Samarin poderia explicar?

Por outro lado, alguns eventos podem encontrar paralelos na literatura médica ou científica e assim, auxiliar no entendimento de determinadas ocorrências. O milagre do pentecostes, pelo menos a parte relacionada às línguas, pode ser explicado a partir de algumas evidências cientificamente correlatas. Tomemos como exemplo três casos.

O primeiro e mais recente deles é o do jovem australiano Ben McMahon, de 24 anos de idade. Ele ficou submetido a uma semana de coma profundo após sofrer um acidente automobilístico em 2012. Ao acordar, notou-se a perda temporária da capacidade de falar sua língua materna, passando a se expressar em mandarim com tal fluência que intrigou os cientistas. É preciso dizer que quando jovem, ele estudou mandarim, mas nunca chegou a alcançar fluência no idioma. A neurolinguística denomina esta ocorrência como Afasia bilíngue.

Os médicos que estudam o caso, entendem que ele sofreu danos cerebrais na área normalmente associada à linguagem, conhecida como lóbulo frontal do hemisfério esquerdo. Segundo os cientistas, quando há lesões nesta área do cérebro, diferentes partes do órgão podem assumir as responsabilidades de outras. No caso em comento, como ele perdeu temporariamente a capacidade de falar o inglês, o cérebro processou comandos que o capacitaram a se expressar fluentemente em mandarim. No entanto, como esta transferência se processou, ainda é um mistério para os cientistas. No caso de Ben, foi observado que a área do cérebro que armazena e utiliza a linguagem materna estava mais afetada que a área que foi usada para aprender o mandarim quando ele era mais jovem.

Sobre a fluência em um idioma não dominado, embora a ciência não tenha uma explicação plausível, eu penso que a mais razoável seja encontrada no estudo científico que ficou conhecido como Eva mitocondrial[7], quando soubemos que todos nós partilhamos de um DNA mitocondrial único descendendo de um ancestral singular, neste caso, Eva. Dela, por que a transferência se dá da mãe à prole o que em tese também corroboraria com a verdade bíblica de um único casal criado do qual descenderam todos os demais seres humanos.

Se é possível cogitar esta descoberta científica, em que seria improvável raciocinar em termos de uma área do cérebro que esteja armazenando os dados metalinguísticos do tempo antecedente à Babel, quando a humanidade se comunicava através de um único idioma (Gn 11.1)? A raiz de todos os idiomas e dialetos falados atualmente, teria origem neste único idioma anterior à confusão de línguas. Então nos casos como os de lesões cerebrais, o cérebro procura nos escaninhos da mente uma forma de reconstituir as faculdades da linguagem em consonância com este idioma-raiz e algum outro preliminarmente aprendido em alguma fase da vida.

Os cientistas ainda investigam todas as hipóteses, mas está devidamente comprovado que outra síndrome, conhecida como síndrome do idioma estrangeiro, é comum em pessoas que sofreram lesões na cabeça ou foram vítimas de derrames cerebrais, afirma Yvonne Wren, especialista em linguagem. Era esperado também que com a lesão na área responsável pela linguagem materna, Ben não mais voltasse a falar o inglês, mas isso não aconteceu e atualmente ele intercala com facilidade os dois idiomas. Duas línguas absolutamente diferentes em sua estrutura e fonemas, diga-se de passagem. Este é outro aspecto do milagre que MacArthur poderia explicar através da ciência tão sábia para ele. Mas encontraria dificuldades já que a própria ciência, limitada por natureza, não tem uma explicação para tais ocorrências.

O que pode ter acontecido no Pentecoste com os galileus foi a operação miraculosa do Espírito Santo concedendo àqueles homens a capacidade de intercalar idiomas. É a dita capacidade adquirida pelo paciente para intercalar idiomas em razão de lesões em determinadas regiões cerebrais. E é absolutamente possível que esta capacidade no caso dos galileus, tenha se dado por uma operação miraculosa do Espírito Santo não necessariamente lesionando áreas do cérebro, mas atuando a partir do reordenamento de certas conexões neurológicas, concedendo aos galileus a capacidade de se expressar na língua dos elamitas, partos, medos, etc. Esta possibilidade é altamente provável, já que aquela região de Jerusalém propiciava um tráfego considerável de estrangeiros, e aqueles galileus, segundo o texto de Atos, cento e vinte em média, decerto tiveram contato com essas línguas estrangeiras. Armazenadas em determinada região do lóbulo cerebral, o Espírito atuou potencializando essas áreas permitindo que falassem numa língua que até então não tinham fluência. E esta atuação tem aspectos absolutamente sobrenaturais. A suposta explicação, portanto, não diminui a força e a evidência do milagre, tanto quanto a explicação científica sobre moléculas de água se transformarem em moléculas de vinho, igualmente não desprestigia o milagre em Caná da Galiléia (Jo 2.19).

Outro caso conhecido dos cientistas, foi catalogado em 2010, de uma jovem croata de 13 anos que despertou de um coma falando alemão, incapaz de se expressar em seu idioma materno. Assim com Ben, ela havia estudado alemão na escola, mas nunca alcançou fluência. Outro caso se deu em 2013, com o americano Michael Boatwright, que acordou falando sueco.

É desta forma que MacArthur deveria se utilizar da ciência. Procurando explicações que corroborem as verdades bíblicas, e não como tem feito, usando a ciência para refutar aquelas manifestações que sequer podem ser contadas como parcela do movimento carismático sério. MacArthur tem confundido o debate ao gerenciar caricaturas que ele mesmo desenvolve do pentecostalismo e do movimento carismático em geral. Intriga-me, por exemplo, que ele não se debruce em explicar as manifestações de cura que se deram entre os zulus sob a liderança de Erlo Stegen. Ou, sobre as ocorrências sobrenaturais no ministério de William Duma, na mesma África do Sul. E por que não mencionar, aquelas manifestações havidas com San Luis Beltran, missionário franciscano em Nova Granada, que se conta ter recebido o dom de línguas, de modo que os índios que lhes escutavam, podiam entendê-lo perfeitamente e somou-se dez mil convertidos entre os indígenas através da pregação de Beltran.  Por que se relacionar apenas com aquilo que sobejamente é conhecido como de pouca seriedade? Esta é daquelas perguntas facilmente respondidas. MacArthur teria sérias dificuldades para sustentar seu cessacionismo quando confrontado com a verdadeira operação do Espírito Santo entre nós hoje em dia. Como Zacarias, ficaria mudo em vista da descrença (Lc 1.20).

Por fim, me intriga que cessacionistas como MacArthur desçam a um nível mais baixo que os fariseus e doutores da lei oponentes do Cristo em sua época. Em vista da incredulidade deles, pediram um sinal a Jesus. Ao que Jesus lhes respondeu que nenhum sinal seria dado senão o de Jonas (Mt 16.4). Os cessacionistas de hoje não pedem provas à Jesus; pedem à senhora ciência.


Notas:

[1] COENEN. Lothar; BROWN. Colin. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2006, pp. 1877-88

[2] CODLING. Don. Sola Scriptura and the Revelatory Gifts; How Should Christians Deal With Present Day Prophecy? Rice: Sentinel Press, 2005, p. 43.

[3] MACARTHUR. John. Os Carismáticos, 3ª edição. São Paulo: Fiel, 1995, p.88.

[4]   FEINBERG. Charles L. Os profetas Menores. São Paulo: Vida. 1993, pp. 80­‑1.

[5] MACARTHUR, op cit. p. 156.

[6] KUYPER. Abraham. The Works of Holy Spirit. Grand Rapids: Eerdmans, 1946, p.27.

[7] http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/revista-ch-2007/243/a-eva-mitocondrial/

 

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