Batizados no Espírito

Acredito ter sido um típico jovem de 18 anos de idade, talvez um pouco mais confuso  que a maioria, sobre a direção que minha vida estava tomando. O ano era 1970, meu estado de espírito parecia se identificar com muitos daqueles do meu tempo. Passei boa parte da minha adolescência tentado fugir de Deus e tentando descobrir até onde eu poderia ir sem ter tido um encontro com Deus. Tive experiências com drogas e vivi como se Deus não passasse de um pensamento distante. Havia momentos em que me distanciava das minhas ilusões existenciais em direção à realidade última. Mas eu sempre resistia.

Então veio aquela noite decisiva, logo após minha aula no Ensino Médio. Acordei meu pai, um ministro da Assembleia de Deus, de um sono profundo, era cerca de meia noite, a fim de dizer para ele que eu iria sair de casa, a fim de encontrar a mim mesmo. Eu sempre o admirei. Ele era rígido, mas com justiça. Sua humildade extrema falava mais alto. Especialmente o modo como os membros da igreja se dirigiam afetuosamente a ele, chamando-o de “Irmão Mike”. Ele parecia mais ser um irmão para eles do que um pastor com autoridade, ainda que muitos o consideravam, sem sombra de dúvida, um verdadeiro pai espiritual. Minha mãe, Elizabeth, além do seu apurado senso de humor, transferiu-me sua fé profunda, ensinando-me os corinhos da igreja, ainda quando eu era criança. Ela me convencia a cantá-los na igreja diante da congregação. Minha voz de tenor era uma escolha favorita para cantar solos na igreja local, uma experiencia inicial no ministério que contribuiu para minha formação e desenvolvimento espiritual.

Quando eu acordei meu pai naquela noite, estava distante da fé dos meus dias de infância. Dizer ao meu pai que queria partir deu-lhe a oportunidade de tentar alcançar-me. Tivemos uma conversa que jamais esquecerei. Ele começou a partir da Bíblia e reportou muitas histórias de fé da minha família. Fiquei profundamente comovido, isso fez me sentir que possivelmente não poderia fugir de Deus. Se eu o fizesse, estaria fugindo de algo que estava no meu íntimo, algo que não poderia negar como parte essencial do que eu era.

As horas se passaram como minutos, mas eu não me rendi. Como ainda não tinha entregue minha vida a Cristo, acabamos indo para a cama exaustos. Estava muito abatido quando entrei no quarto. Ajoelhei-me perto da cama e me perguntei o que poderia orar. Lembro-me de ter dito a Deus que não sabia o que dizer. Disse algo do tipo: “Sei somente que preciso de Ti, Senhor. Entrego minha vida a Ti”. Com aquela oração curta, deitei-me e dormi o sono mais tranquilo que já tive em toda minha vida.

No dia seguinte disse a meus pais o que tinha acontecido e que queria ir para uma faculdade bíblica a fim de dedicar meu futuro a Deus. De fato, levei a sério meu sonho de sair de casa para descobrir a mim mesmo, mas não da maneira que tinha planejado. Eles demonstravam certa alegria ao saber que deixaria a vizinhança o mais cedo possível. Tinha muitos amigos que estavam contribuindo com o distanciamento da minha fé. Precisa de tempo com Deus a fim de fundamentar minha fé. Meus pais tomaram as providências para que eu frequentasse o Central Bible College em Springfield, Missouri.

Meu primeiro dia no campus foi marcado por todas as ansiedades de uma experiência nova. Nem mesmo estava certo se queria permanecer naquele local. Meu pai convenceu-me a testar por um mês, deixando-me ali, na esperança de que eu prosseguisse com o intento. Tempo depois comprei uma Bíblia na livraria, e sentei-me para lê-la no meu dormitório apertado. A Bíblia era enorme, uma daquelas edições de estudo, a fim de que servisse também para minhas aulas. Lembro-me de ter ido direto ao livro de Atos. Comecei a ler. Ainda que estivesse familiarizado com a maioria daquelas histórias, elas começaram a ganhar vida diante dos meus olhos. O texto me impactou. Estava lá quando os discípulos se juntaram diante do Cristo ressurreto, no Pentecostes, quando o Espírito caiu sobre os discípulos, conforme oravam em línguas, tomados pelas chamas da santa presença de Deus. Também estava lá quando Pedro e João foram açoitados pela fé, mas se regozijaram pelo privilégio de sofrer por Cristo, e quando Pedro testemunhou aos gentios, cheio do Espírito. Acompanhei Paulo em suas viagens e participei de suas numerosas aventuras.

Li todo o livro de Atos de uma só vez, e estava maravilhado com o que havia lido. Abri a cortina da janela que estava próxima de mim e contemplei o pôr do sol. Vi tons de vermelho e amarelo no céu, e as lágrimas rolaram pelo  rosto. Lembro-me de ter refletido se não era apenas um daqueles cristãos que apenas “brincam de ir à igreja”. Aquilo era muito diferente do modo como os cristãos viviam no livro de Atos. Deus era muito real para eles. Viviam diariamente na percepção da presença e orientação de Deus. A vida era uma aventura no serviço ao Senhor, havia momentos quando Deus os visitava com sinais incontestáveis de favor e poder. Eles tinham uma chama acesa em seus corações.

Decidi, a partir daquele momento, que queria ser um cristão como eles. Senti um chamado da parte de Deus – Ele estava me chamando para uma vida dedicada ao ministério. Compreendi que dar continuidade aos estudos na pequena Faculdade Bíblica no sudeste do Missouri não teria sido por acaso. Naquele momento, alguns dos novos alunos que eu tinha conhecido vieram até meu quarto e me convidaram para orar com eles na capela da Faculdade. Aquele foi um momento maravilhoso. O lugar estava localizado no terceiro andar do prédio, uma pequena sala com bancos próximos das paredes de madeira e com uma porta larga em frente. Logo ao entrar no recinto, dobrei os joelhos e comecei a orar. Tentei clamar e buscar palavras, mas não conseguia me expressar. Por causa disso meus colegas começaram a orar por mim. Senti o fluir de Deus sobre minha vida. Algo que começou a aumentar, até que se apoderou de mim com muita força. Então comecei a orar em línguas. Não era algo forçado, nem da minha parte, e muito menos da de Deus. Tudo parecia absolutamente natural. Fiquei prostrado no chão com os olhos fixos na cruz. Senti a poderosa presença de Deus se apoderar de mim, foi quando aceitei meu chamado para o ministério, fiz promessas a Deus que tenho considerado ao longo da vida.

Deixei aquele local e corri para o telefone do corredor. Estava tão impressionado que queria dizer aos meus pais o que havia acontecido. Choramos e nos regozijamos ao telefone. Estava decidido a permanecer na Faculdade Bíblica. Precisava me preparar para o ministério que Deus tinha reservado para mim. Meus pais não precisavam mais se preocupar comigo. Estava em uma jornada com Deus que duraria para sempre. Encontrei a mim mesmo mais cedo que havia imaginado. Fui tomado pelo amor de Deus, e finalmente, consagrei minha vida ao ministério cristão.

Meu testemunho pode ser diferente em algum detalhe, mas não se diferencia em geral do de outras incontáveis testemunhas no mundo inteiro. Percebi, a partir da minha herança pentecostal, do chamado para servir a Deus, e dos dons ministeriais, que era algo não apenas para ministros ordenados, mas para o serviço cristão em sentido amplo. Tornei-me consciente da presença de Deus, a fim de produzir transformação, e para nos conduzir a experiencias significativas de consagração e serviço no poder do Espírito.

Que esses testemunhos apoiam experiências autênticas do “batismo do Espírito” para mim é algo posto. E acredito que essa linguagem está fundamentada no livro de Atos. Lucas destaca que o batismo do Espírito é um “revestimento” com poder para que possamos testemunhar de Cristo, levar adiante a obra do reino de Deus no mundo: “permaneçam na cidade”, Jesus disse aos discípulos antes de ascender ao céu, “até que do alto sejais revestidos de poder” (Lc 24.49). Também lhes disse que deveriam receber poder quando o Espírito Santo viesse sobre eles (At 1.8). Esse revestimento com poder é visto como um equivalente funcional usado por Lucas acerca do batismo do Espírito.

Ainda que esse ato divino não seja um padrão humano de experiência, esse revestimento com poder certamente envolve experiencia. Tanto Lucas quanto Paulo fazem referência a essa condição, quando fazem alusão a alguém tomado pelo Espírito como se fosse uma “intoxicação divina” (At 2.13; Ef 5.18). Não me refiro a alguém em estado de embriaguez, mas a uma consciência tomada por Deus, de tal modo que alguém se sinta especialmente inspirado a se entregar aos outros através dos dons recebidos da parte dEle. É essencialmente uma experiência transcendental, motivada pelo amor divino. Essa experiência é, certamente, culturalmente mediada, e varia de acordo com a natureza de cada pessoa, e de contexto para contexto. Mas não posso imaginar esse revestimento de poder a menos que haja algum tipo de experiência poderosa da presença, amor e chamado divino, algo que libere nossas línguas e mãos para agir sob a inspiração do Espírito.

Por outro lado, no contexto mais amplo do Novo Testamento, o batismo do Espírito é uma metáfora que tem a ver com o fluir de Deus, que invoca o imaginário duplamente, sugerindo uma fronteira pneumatológica que vai além do poder que vem do Espírito. Em geral, parece ser apropriado dizer que a teologia de Lucas sobre o batismo do Espírito tem um enfoque missiológico e “carismático” (poder para o serviço). Lucas, na verdade, preocupa-se também com a reconciliação entre pessoas e a qualidade da vida em comunidade por meio do batismo do Espírito. Mas entre todos esses efeitos da vida do Espírito, Lucas pretende ressaltar o poder para testemunhar (At 1.8). Isso porque a igreja recebe poder para entregar um testemunho vivo em sua comunidade, por meio de uma proclamação inspirada, e dos múltiplos ministérios do Espírito. Nesse contexto, para Lucas, o foco não é o estar em Cristo, como percebemos em Paulo, mas o agir em Cristo, no poder do Espírito.

Em sentido amplo, pode-se usar o termo “carismático” para descrever a compreensão lucana em relação ao Batismo do Espírito. A vida no reino como pessoas santificadas certamente está no contexto de Lucas (At 1.3-8; 15.9), mas é a chegada do reino em poder, através de testemunhas vivas da igreja que é considerada por Lucas, em seu esforço para descrever o batismo do Espírito. Lucas não aponta explicitamente como a chegada do Espírito no poder inspira testemunhas vivas da igreja em sua vida comunitária, nem como palavras e obras se relacionam à existência mais profunda da igreja pela fé e batismo na vida do reino. O relacionamento entre a vida do Espírito e a fé batismal parece ser algo que flui e é liberado em Atos – e estão certamente relacionados (At 2.38), mas não é possível conceber completamente como isso acontece. É preciso buscar em Paulo, e outras vozes canônicas, uma concepção mais integrada e ampla do batismo do Espírito, como um evento escatológico, complexo por natureza.

Paulo é também carismático em sua pneumatologia, mas sua compreensão do batismo do Espírito está mais conectada à fé, confissão, e ao selo por meio do batismo em águas. Paulo se volta especialmente para a incorporação em Cristo, por meio da qual os crentes se tornam membros do corpo de Cristo, e uns dos outros ( como por exemplo em 1 Co 12.13). Além disso, o derramamento do Espírito tem significado eclesiológico, e até mesmo cósmico para Paulo. Conforme observaremos adiante, isso tem a ver com todos os aspectos da vida do Espírito, incluindo a nova criação no porvir. Sua essência repousa no amor divino (Rm 5.5). A doutrina do batismo do Espírito em Lucas é “carismática”, pois tem a ver com o poder divino da igreja para ser testemunha viva, enquanto que, para Paulo, é predominantemente soteriológica, tendo relação com o estar em Cristo.

A identificação dessa diferença entre Lucas e Paulo não é uma ideia nova para os pentecostais, sendo também reconhecida por alguns defensores contemporâneos da doutrina pentecostal clássica do batismo do Espírito, ao se referirem a este como algo diferente da regeneração ou da iniciação cristã. Roger Stronstad, em seu The Charismatic Theology of St. Luke [A Teologia Carismática de S. Lucas], observa que a compreensão de Paulo do batismo do Espírito no contexto da sua pneumatologia é “sempre para iniciação e incorporação”[1], diferente do uso carismático de Lucas dessa metáfora. Stronstad não nega que a teologia paulina do batismo do Espírito é soteriológica, mas prefere evitar a leitura desse significado paulino em Lucas. De modo semelhante, Robert Menzies observa que Paulo, em sua pneumatologia (provavelmente incluindo o texto de 1 Co 12.13), “não trata explicitamente de uma experiência inicial distinta da conversão”[2]. Menzies busca um fundamento para a teologia pentecostal do batismo do Espírito como uma experiência carismática, distinta da iniciação cristã, com base apenas em Lucas.

Concordo essencialmente com a caracterização de Stronstad e Menzies a respeito da perspectiva de Paulo e Lucas sobre o batismo do Espírito, embora acredite que o ponto de vista de Paulo é mais soteriológico, o que fica implícito em Atos, como fundamento para o batismo do Espírito, como um revestimento de poder para testemunhar. Também prefiro definir esse poder na perspectiva de Lucas para testemunhar como algo mais abrangente e profundo do que simples discurso profético (Menzies) ou dom carismático (Stronstad). Defendo que o poder para testemunhar também envolve, na perspectiva lucana, uma qualidade de vida comunitária que é integrativa e produtiva em atos de abnegação. Mas esse é um aspecto meramente técnico. A esse respeito, faço ainda a seguinte pergunta: como é possível integrar a perspectiva “carismática” de Lucas com uma abordagem predominantemente soteriológica de Paulo do batismo do Espírito, e como outras vozes canônicas, tais como as de Mateus e João, podem ser utilizadas para ampliar esse diálogo?

Talvez devêssemos falar de uma teologia do batismo do Espírito que é definida carismaticamente e soteriologicamente, como um evento que tem várias dimensões, que é escatológica por natureza, e que não pode ser totalmente definida pelas noções de iniciação cristã.

Ao considerar que a definição de Lucas de batismo do Espírito é predominantemente funcional e experiencial, também encontro auxílio na distinção carismática popular entre batismo do Espírito, definida teologicamente como um ato divino de redenção, e iniciação na vida do reino, que envolve fé e o selo do batismo, bem como o batismo do Espírito como poder para a vida e serviço do cristão. Em resumo, envolve uma experiência (e experiências) do batismo do Espírito e enchimento na vida. Esta distinção entre batismo do Espírito definida teologicamente e experiencialmente não deve implicar que a última não seja essencial para a igreja. Jamais afirmaria que a perspectiva lucana do mover do Espírito que coloca a igreja em chamas com o amor de Deus e a compele a sair é uma espécie de super additum ou apenas um item a mais que diz respeito a natureza da igreja. Muito pelo contrário, a igreja sem este revestimento de poder, e sem este enriquecimento de vida do Espírito, que amplia o testemunho vivo da igreja para o reino de Deus, torna-a ainda mais limitada (e nós somos todos de algum modo limitados).

A distinção, porém, ainda permanece para várias questões. Isso porque nós ainda necessitamos de uma abordagem mais ampla que integre essas dimensões do batismo do Espírito. A igreja contribui negativamente para isso, pois acaba por nos lançar em uma série de noções conflitantes da iniciação cristã e sobre a igreja em geral. Ainda que não haja como fugir desses pontos, uma abordagem escatológica mais ampla para o batismo do Espírito, enquanto ato trinitário, pode vislumbrar algumas possibilidades interessantes para lançar luz e encontrar novos pontos em comum. Parte de uma abordagem defendida por uma visão inicial do pentecostalismo, que postulava um “derramamento” do Espírito o qual preparará o mundo para a vinda de Cristo.

Certamente uma interpretação escatologicamente apropriada do batismo do Espírito pode contribuir para atenuar a divergência entre o batismo do Espírito na definição das categorias soteriológica e carismática. Sendo essa extremamente necessária. Precisamos explorar a natureza do reino de Deus. Por isso, defendo, ao longo deste livro, uma correlação divina entre pentecostes-reino. Como um conceito pneumatológico, considerando que o reino é inaugurado e completado como um “batismo do Espírito”. O reino de Deus não é um governo opressor, mas um reino de amor divino. É o que faz Paulo denominar o pentecostes como um derramamento do amor divino (Rm. 5.5). Mais próximo do final do livro irei destacar que a descrição possível mais elevada da substância do batismo do Espírito, como um dom escatológico, tem a ver com sua função primordial, que é um derramamento do amor divino. Essa é a integração final do aspecto soteriológico e carismático. Nenhuma integração mais elevada ou profunda poderia ser possível.

Por esse motivo, tenho a pretensão de explorar, a partir dessa abordagem escatológica, como o batismo do Espírito pode agir como um princípio organizador da teologia pentecostal. Isso ajudará a curar algumas feridas dessa teologia e contribuirá para um diálogo pentecostal global sobre o significado da vida do Espírito e sua reflexão teológica. E falo apenas como uma voz em determinado contexto. O uso do termo “global” é um subtítulo que significa um convite para que outros possam se integrar a esse diálogo, a partir de percepções diferentes, inclusive das minhas. O artigo indefinido “UMA”, em “UMA” TEOLOGIA PENTECOSTAL GLOBAL, não é por acaso. É preciso acrescentar ainda que este livro não é uma Teologia Sistemática, mas uma descrição de um princípio organizador e uma tentativa de avaliar como esta perspectiva se relaciona a outras perspectivas comumente aceitas no contexto teológico. Certamente uma teologia sistemática apresentaria outros aspectos que não serão encontrados neste livro, e que faria com que tivesse sido organizado de maneira diferente.

Nas páginas adiante seguirei o seguinte percurso metodológico. No próximo capítulo, mostrarei os desvios da teologia pentecostal nas últimas décadas, sob as lentes do batismo do Espírito como o principal distintivo pentecostal. Essa parte do livro suscitará maior interesse para os especialistas da teologia pentecostal. O terceiro capítulo contém uma discussão crítica a respeito dos aspectos que envolvem a compreensão do que seja o batismo do Espírito: regeneração, iniciação sacramental e poder carismático. Este capítulo é concluído com uma sugestão sobre como podemos ir além desse impasse atual de noções conflitantes sobre a iniciação cristã e das percepções eclesiásticas a esse respeito. Recorrerei a uma percepção escatológica do batismo do Espírito, a fim direcionar a discussão que vai além das diferenças entre eclesiologias conflitantes. O quarto capítulo enfoca o significado do batismo do Espírito em relação a cristologia (Jesus como o batizador do Espírito). Pretendo ainda abranger a estrutura trinitária do batismo do Espírito, e na parte final do capítulo, refletirei sobre os diferentes elementos da vida do Espírito. No capítulo cinco, apresentarei o significado do batismo do Espírito para a vida da igreja. E no capítulo final, discutirei sobre o batismo do Espírito como um batismo no amor divino, como um ponto central de integração entre o batismo entre as teologias do batismo do Espírito de Lucas e de Paulo.

Sempre que possível farei referência ao meu compromisso inicial com Cristo, bem como a minha experiência do batismo do Espírito, quando achar que essas lembranças me acrescentem como teólogo. Em resposta à perspectiva pentecostal do batismo do Espírito, gostaria de problematizar: o que é esse poder com o qual somos revestidos para testemunhar de Cristo? Não passaria de uma noção de poder, sem conteúdo ou orientação, com enfoque meramente pragmático? Não seria um poder de amor divino, derramado sobre nós, que vem do Cristo crucificado e ressurreto (Rm 5.5), que ainda terá seu cumprimento na transformação da criação por ocasião da habitação de Deus no templo? Não seria sua essência, portanto, amor santo, ou amor que não tem qualquer relação com o mal? O amor de Deus, que confronta o mal, tem poder porque é algo santo e um fogo consumidor? Seria possível separar o batismo do Espírito como poder da obra salvífica e santificadora do Espírito como substância de inauguração e cumprimento do reino de Deus em poder?

Evidentemente, a obra do Espírito Santo não pode ser compartimentalizada ou separada em simples categorias teológicas. O Espírito é uma pessoa, não um conjunto fragmentado de operações e experiências. As distinções formais podem ser feitas a princípio, mas na realidade existem como um todo integrado. Isso porque em suas conversas a respeito da importância da pneumatologia, os pentecostais precisam fazer concessões em relação aos seus interesses, a favor de um poder carismático/missionário que contemple uma abordagem pneumatológica mais abrangente. Essa é a visão integral assumida neste livro. Submeto-o a apreciação dos meus colegas de perto e de longe a fim de avaliarem se de algum modo alcancei meu objetivo.


Tradução: José Roberto Alves Barbosa

Texto do livro Baptized in the Spirit: A Global Pentecostal Theology, gentilmente cedido com expressa autorização pela Editora Carisma (www.editoracarisma.com.br).

Notas:

[1] Roger Stronstad, Charismatic Theology of St. Luke (Peabody, MA: Hendrickson, 1984), p. 10.

[2] Robert Menzies, “The Spirit of Prophecy, Luke-Acts and Pentecostal Theology: A response o Max Turner”, Journal of Pentecostal Theology 15 (1999): p. 72.

Comentários

Categorias: Batismo no Espírito

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não pode ser publicado.