Das Acusações contra Montano: uma análise equilibrada de seu comportamento

Apesar de ser um agente de resgate carismático, no registro de Eusébio de Cesareia, encontramos uma menção desabonadora à conduta de Montano quando se sentia cheio do Espírito. Segundo Eusébio: “… um dos novos crentes, chamado Montano… deu acesso ao inimigo, levado pela ambição imoderada de ocupar os primeiros lugares. Como um possesso, em falso êxtase, pôs-se a falar em seus excessos, a proferir palavras estranhas e a profetizar de forma inteiramente oposta ao uso tradicional conservado pela antiga tradição da Igreja” (Eusébio: Livro V, XVI, 7). Assim posto, a colocação de Eusébio nos provoca uma inquietação para uma análise coerente, então, ponderemos sobre essa demonstração aliada a um dos escritores utilizados por ele que rejeitava também a Nova Profecia. Esse registro deixa claro que Montano estava desqualificado enquanto cristão para eles; no entanto, o registro na História Eclesiástica não é objetivo na descrição dos fatos, ou seja, só acusação de acordo com opiniões sem uma sólida refutação bíblica, permitindo alguma importância apenas no que destacamos acima. O escritor julga Montano com bastante severidade, sendo visível e inegável esse fato. As colocações que agora nos interessam para podermos argumentar são as de que Montano foi usado pelo inimigo de Deus, era ambicioso, proferia palavras estranhas e profecias de forma contrária ao padrão patrístico (importante falarmos nestes termos). Para fazermos um exame conciso precisamos colocar as formas do “uso tradicional conservado pela antiga tradição da Igreja” em elevação para compará-la com a práxis montanista, bem como utilizarmos para o desfecho as Escrituras. Um texto que nos parece ajustar-se bem para essa análise é o de Hipólito de Roma: A tradição apostólica, que é também contemporâneo dos Montanistas e de Tertuliano, bem como seu autor é antimontanista.

Transcrevamos alguns pontos que estão alinhados com as críticas recebidas por Montano para verificarmos coerentemente tais objeções, questionando-nos se são aceitáveis ou não.

Quanto à suposta possessão, Eusébio demonstra com insuficiente argumentação que o êxtase de Montano era sinal evidente de que sua atuação favorecia aos propósitos do inimigo cujo intento seria desgarrar o rebanho dos fiéis de sua Igreja. Entendendo que o inimigo eleva-se para gerar uma manifestação incomum que chamava bastante atenção, facilmente persuadia seus seguidores que não tinham o acesso pleno às Escrituras, impossibilitando assim o autoexame para julgarem e examinarem o fato pelas regras da fé. Não saindo do assunto, mas permitindo que o leitor possa perceber o entendimento que havia sobre a possessão, faz-se necessário apresentar a maneira como se procedia diante do rito do batismo. Hipólito diz como deveriam realizar a ordenança:

Ao cantar do galo, rezar-se-á, primeiramente, sobre a água. Deve ser água corrente, na fonte ou caindo do alto, exceto em caso de necessidade; se a dificuldade persistir ou se tratar de caso de urgência, deve-se usar a água que encontrar. Os batizandos se despirão e serão batizadas, primeiro, as crianças. Todos os que puderem falar por si próprios, falem; contudo, os pais ou alguém da família falem por aqueles que não puderem falar por si mesmos. Depois batizem-se os homens e, por último, as mulheres (que deverão estar de cabelos soltos e sem os enfeites de ouro e prata que levaram). Ninguém deve descer às águas portando objetos estranhos. No instante previsto para o batismo, o bispo renderá graças sobre o óleo que será posto em um vaso e será chamado de óleo de ação de graças. Tomará também um outro óleo que exorcizará e será denominado de óleo de exorcismo. Então o diácono trará o óleo de exorcismo e ficará à esquerda do presbítero; outro diácono pegará o óleo de ação de graças e ficará à direita do presbítero. Acolhendo cada um dos que recebem o batismo, manda renunciar, dizendo: “Renuncia a ti, Satanás, a todo teu serviço e a todas as tuas obras”. Terminada a renúncia de cada um, ungirá com o óleo de exorcismo, dizendo-lhe: “Afaste-se de ti todo espírito impuro”. E irá entregá-lo nu ao bispo ou ao presbítero que está junto da água, batizando. O diácono também descerá com ele e, ao chegar à água aquele que será batizado, aquele que batiza lhe dirá, impondo-lhe as mãos sobre ele: “Crês em Deus Pai todo-poderoso?”. E aquele que é batizado responda: “Creio”. Imediatamente, com a mão pousada sobre a sua cabeça, batize-o uma vez, dizendo a seguir: “Crês em Jesus Cristo, Filho de Deus, nascido do Espírito Santo e da Virgem Maria, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, morrendo e sendo sepultado e, vivo, ressurgiu dos mortos no terceiro dia, subindo aos céus e sentando-se à direita do Pai, donde julgará os vivos e os mortos?”. Quando responder: “Creio”, será batizado pela segunda vez. E dirá mais uma vez: “Crês no Espírito Santo, na Santa Igreja e na ressurreição da carne?”. Responderá o que está sendo batizado: “Creio”, e será batizado pela terceira vez. Depois de subir da água, será ungido com o óleo santificado pelo presbítero, que dirá: “Unjo-te com o óleo santo em nome de Jesus Cristo”. Após isto, cada um se enxugará e se vestirá, entrando, a seguir, na igreja.

Apesar de verificarmos muitos pontos divergentes da doutrina do batismo cristão e bíblico, pretendemos fazer menção apenas ao ponto que nos interessa: a possessão. Ora, é sabido que as práticas descritas por Hipólito originaram-se nas regras do Didaché[1], de modo que essa tradição foi transmitida e incorporada pelas gerações posteriores da Igreja, chegando até ele. Percebamos o critério de avaliação proposto para o catecúmeno (novo convertido) que passava cerca de 3 (três) anos recebendo instruções cristãs para o batismo. No crepúsculo batismal, o novo convertido era submetido a uma sessão de exorcismo quando tentavam expulsar dele o demônio em definitivo. Como pode um novo convertido se encontrar possuído por um ente estranho as suas confissões de fé se nas Escrituras temos a informação de que ele é uma nova criatura em Cristo (II Co 5:17) e que o maligno não lhe pode tocar (I Jo 5:18)? A resposta é porque existia enorme descrença e desconfiança dos padrões de conversão da Igreja Primitiva, mesmo eles afirmando que haviam recebido a tradição dela e a cumpriam. Imagino se eles fariam como fez Filipe com o eunuco (Atos 8:26-39). Portanto, vemos que a questão da possessão não era apenas para os que discordavam deles, mas também para os que estavam entre eles. Desta maneira percebe-se um entendimento equivocado sobre a detecção de algum fenômeno de demonismo, evidenciando um nível muito reduzido de discernimento espiritual.

No ponto “Frutos oferecidos aos bispos”, Hipólito diz como devem proceder quanto ao oferecimento:

Todos devem se apressar a trazer os primeiros frutos da estação ao bispo. Este irá oferecê-los e abençoá-los e, citando quem os oferece, dirá: “Graças te damos, ó Deus, e te oferecemos as primícias dos frutos que nos deste para que os tomemos, nutrindo-os pelo teu Verbo, ordenando à terra que os produza com alegria o alimento dos homens e de todos os animais. Por causa disso tudo, te louvamos, ó Deus, e também por tudo que nos proporcionaste, provendo para nós toda a criação dos mais diversos frutos. Por teu Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, por quem a ti a glória pelos séculos dos séculos. Amém”.

Pelo texto, o mecanicismo litúrgico engessou a possível espiritualidade fomentando outras diretrizes desviantes do padrão bíblico, porém, sempre foi prática cristã o ato de oferecimento de bens ou de valores para servir de sustento para os ministros e para suprimento das necessidades da Igreja. Isto está notificado no Evangelho e em Atos (Lucas 21:1-4 e Atos 2:45), bem como em outros momentos das Escrituras, pelo fato de se entender que oferecer é consagrar e desprender. O oferecimento serve para sustentação e provimento da obra de Deus, portanto, sendo meio de realização. O caso de Montano, se mal interpretado, pode gerar impressões negativas, mas porque não pensar que suas estratégias para estimular o povo à contribuição não seriam com a finalidade de condicionar o movimento de Nova Profecia a se ampliar e ganhar o império Romano, tendo em vista que os Montanistas propunham um retorno às práticas dos primórdios do Cristianismo? Ele incorporou o sentimento de responsabilidade para externar uma experiência que ao que parece tenha sido profunda, para tanto não podia está por trás do movimento, mas na frente. Ganância ou anseio para realizar um grande serviço em prol do Reino de Deus? Sua conduta austera provoca-nos a pensar que entre eles havia uma negação do materialismo e das vicissitudes mundanas. Na mente dos opositores de Montano, parece-nos que somente seus bispos deveriam ser os beneficiados com a entrega de bens. O Montanismo, além da continuidade do padrão neotestamentários, representa o modelo de comunidade e de igualdade.

Sobre a prática do jejum, que de certa forma está relacionado à questão anterior, Hipólito ensinou que a devoção não seria uniforme, mas segmentada, atribuindo maior prática a uns do que a outros. Veja seu escrito:

As viúvas e as virgens devem jejuar e rezar frequentemente pela Igreja. Os presbíteros e os leigos podem jejuar quando quiserem. O bispo, porém, não pode jejuar a não ser no dia em que todo o povo o faz, pois é possível que alguém queira levar algo até a igreja, não podendo ele recusar, pois, se parte o pão, deverá prová-lo.

É por essa razão que há uma crítica autêntica de Tertuliano, depreciando tal concepção e ensinando que a prática é para todos de modo igualitário. Tertuliano retrucou contra essa posição dos psíquicos (termo que empregou para denominar os cristãos gerais que tinham alguma objeção ao montanismo em razão de suas convicções firmes e resolutas. O termo também é empregado por outros autores de forma diferente significando ignorância ou bruteza, informando que os tais seriam “animais” ou “não espirituais”) dizendo:

No que se refere aos jejuns os psíquicos de Roma juntam-lhes certos dias estabelecidos por Deus. Segundo o Evangelho, os dias de jejum, como creem os espirituais, são aqueles em que o esposo nos foi tirado. Seriam esses os únicos dias de jejum mandados aos cristãos, uma vez que as antigas prescrições da Lei e dos Profetas foram anuladas… Quanto aos outros (dias de jejum), isso depende da vontade, segundo os tempos e os motivos de cada um, e não de qualquer imposição da nova disciplina. Assim fizeram os Apóstolos, não impondo mais nenhuma obrigação de jejum certo e a observar em comum por todos. (De Ieiunio Adversus Psychicos II, 1-2)

De certa forma, assusta-nos a maneira como Eusébio fez citação dos dons ou das manifestações de Montano, porque se observarmos Atos 2 verificaremos os cristãos primitivos sendo também ultrajados inicialmente pelo fenômeno da glossolalia, gerando um alvoroço e discordância no público da festa de pentecostes na qual alguns disseram que estavam cheios de mosto[2] (Atos 2:13), enquanto outros ficaram maravilhados (Atos 2:7). Pela leitura das Escrituras percebemos que existem com muita frequência tais ocorrências: manifestações espirituais sendo aceitas por uns e rejeitadas por outros. Se Eusébio e os outros escritores por ele utilizados não estivessem tão investidos de convicções contrárias ou dissonantes dos preceitos do primitivismo cristão, certamente, teriam percebido um mover do Espírito. Algumas questões que prejudicaram essa visão foram basicamente duas: a helenização do pensamento cristão e a inserção do Cristianismo no campo político, ocasionando uma união entre Igreja e Estado.

Ainda com respeito aos dons carismáticos dos quais tivemos conhecimento através do livro de Atos e das epístolas apostólicas, entendemos que os mesmos não poderiam cessar na era apostólica devido ao fato de existir uma promessa para a Igreja primitiva e extensiva para a futura, explicitada na pregação de Pedro, no dia de Pentecostes, ao mencionar: “Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (Atos 2:39). O entendimento do apóstolo, por vias espirituais e não racionais, desenhava o contexto no qual a promessa do Espírito Santo com poder se efetivaria na vida da Igreja de Cristo. A promessa do dom do Espírito (Batismo no Espírito Santo) havia sido prometida inicialmente para todos os apóstolos e discípulos (Lucas 24:49 e Atos 1:5,8), mas desde o início do ministério terreno de Cristo havia a informação desse poder espiritual reservado para as fiéis testemunhas de Cristo (Mateus 3:11).

O apóstolo Paulo foi quem mais detalhou a experiência carismática, talvez pelo fato de fazer bastante uso (I Coríntios 14:18) e insistir com a mensagem de que os dons eram necessários para a vida cotidiana da Igreja. Em Corinto existia um fluxo grande das manifestações espirituais sem o devido equilíbrio e sensatez, razão pela qual Paulo foi “obrigado” a ensiná-los como deveriam utilizar os dons com o mais nobre de todos os sentimentos: o espiritual. Paulo diz que não queria ver ignorância na utilização dos dons, por isso, menciona um a um, indicando a maneira pela qual deveriam ser entendidos, concentrando na pessoa do Espírito a operação dos mesmos. Uma orientação apostólica que nos chama atenção é a indicação de Paulo à Igreja para que saiba buscar com zelo os dons, ou seja, os dons não poderiam ser desejados sem o comprometimento com sua finalidade, devendo ser tratados com sobriedade e responsabilidade. Deste modo, aplica e majora o dom de profecia. Por qual razão? Paulo nos responde: “Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação” (I Coríntios 14:3). Três aspectos do dom de profecia que pelo sentido nos leva a entender que este não é doutrinário. Além disso, não convém confundir o dom de profecia com o ministério de Profeta, enumerado entre os dons ministeriais, inscritos em Efésios 4:11, nos quais a Igreja Cristã está firmemente edificada (Efésios 2:20). No ministério vemos o aspecto doutrinário amplo e pleno, no dom de profecia a proferição local e individualizada. Portanto, a doutrina se efetivou na era apostólica, enquanto os dons seguiram a Igreja nas gerações posteriores.

Quem acredita que o poder do Espírito Santo se limitou à era apostólica comete um pequeno equívoco, pois não consegue perceber que não foi o Espírito que parou de operar, mas os bispos do pós-apostólico foram os que deixaram de pronunciar e ensinar sobre o revestimento pentecostal, caindo num marasmo e frieza espiritual. Suprimindo o primeiro, seu ensino passou a ser direcionado para um diálogo filosófico, excluindo a ação ou a práxis carismática para dar lugar a uma reflexão ilimitada no campo das ideais para contra argumentar diante dos gnósticos e demais opositores do Cristianismo. Não que a segunda tenha sido um erro, não podemos dizer isso, mas desprezar os dons fez com que cismas e objeções começassem a surgir. O Montanismo é resultado do conformismo patrístico do segundo século, passando seus membros a reivindicarem o que se havia perdido ou o que estava em pouco uso na Igreja. Dizer simplesmente que Montano foi um herege analisando somente as opiniões de quem se afastou dos preceitos neotestamentários não nos parece sensato. Por isso, fazemos uso de Tertuliano um dos mais ilustres Pais da Igreja que tinha por convicção a não união com os institutos racionais e mundanos de seu tempo.


Referências

Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. São Paulo: Novo Século, 2002.

Hipolito de Roma. A tradição apostólica. Disponível em http://www.ecclesia.com.br/biblioteca/pais_da_igreja/tradicao_apostolica_hipolito_roma.html. Acesso em 05 out 2016.

Tertuliano. De ieiunio adversus psychicos. Disponível em http://www.tertullian.org/latin/de_ieiunio.htm. Acesso em 13 set 2016.

[1] O Didaché, apesar de levar o nome de ensino dos doze apóstolos, desentoa dos preceitos bíblicos em alguns aspectos, desta forma, sendo sensata a colocação que dúvida da autenticidade apostólica do escrito.

[2] Mistura açucarada de uvas frescas preparada para fermentação alcoólica.

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