Dois Milênios de Cristianismo Carismático

Recuperando a história do cristianismo carismático

O cristianismo carismático não é um fenômeno que pertence unicamente ao século 20. Ele tem sido uma constante desde que Jesus caminhou pela terra, há dois mil anos. Contudo, no século 20 e continuando pelo 21, houve uma tremenda explosão do cristianismo carismático. Começando com o movimento pentecostal em 1901 e revigorado pelo movimento carismático iniciado em 1960 e a terceira onda em 1980, essa explosão do movimento carismático ganhou impulso e permeou todos os setores da vida cristã. Desde o primeiro século que não havia tal ênfase no Espírito Santo e seus dons.

Será esta expressão de espiritualidade simplesmente heresia e fanatismo, como alguns acusam? É apenas uma expressão marginal do verdadeiro cristianismo, como alguns têm sugerido? Ou é na verdade uma restauração do verdadeiro cristianismo bíblico?

Questões legítimas têm sido levantadas acerca da historicidade dessa forma dinâmica de cristianismo. Será que ele apareceu subitamente neste século, sem nenhuma ligação histórica com o primeiro século da igreja, como alguns poucos têm afirmado? Ou ele tem precedentes históricos? E por que ele é chamado de carismático?

A palavra carismático é uma variação da palavra grega charisma, que é o termo neotestamentário para dom espiritual. Charisma ou sua forma plural charismata é a palavra que Paulo usa em 1 Coríntios 12.1-11, quando ele fala sobre os dons do Espírito Santo, como o falar em línguas, dons de cura, milagres e profecias. Por esse motivo, qualquer grupo igreja ou movimento que adote essa dimensão dinâmica do Espírito Santo e seus dons pode ser chamada de carismática. Embora eles possam ser conhecidos historicamente como Quakers, Metodistas ou Pentecostais, sua tendência para o dinamismo do Espírito Santo e seus dons qualifica-os como carismáticos. Pelo mesmo motivo a igreja do primeiro século também pode ser chamada de carismática.

Qual é a diferença?

Esta pergunta já foi feita várias vezes, isto é, qual é a diferença entre os Pentecostais modernos e os Carismáticos? Talvez a principal distinção seja as origens históricas diferentes dos dois movimentos. O movimento pentecostal começou em 1901, na Escola Bíblica Betel, em Topeka, Kansas. Lá houve um derramamento do Espírito Santo, e a doutrina pentecostal clássica da evidência bíblica do batismo com o Espírito Santo foi formulada e posta em prática.

O começo do movimento carismático moderno, por sua vez, é geralmente identificado com o pronunciamento de Dennis Bennet, reitor da Igreja Episcopal de São Marcos, na Califórnia, no qual ele disse ter sido batizado com o Espírito Santo e falado em línguas no ano de 1960.

Outra importante  distinção é o fato de que o movimento pentecostal foi rejeitado pelas igrejas da época e, desde então, 740 denominações pentecostais se formaram, com mais de 65 milhões de membros.[1] Por outro lado, o movimento carismático alcançou um alto grau de aceitação nas igrejas tradicionais, onde passou a ser tratado como um renovo espiritual. Mas apesar dessa aceitação, que muitas vezes era morna, milhares de denominações carismáticas se formaram desde a década de 60.[2] A Terceira Onda[3], ou movimento Neocarismático, também produziu milhares de denominações, mostrando um ímpeto crescente e o poder de cada onda espiritual.

Apesar das diferenças de cada “onda” o estatístico David Barret nota que há uma “unidade subjacente” que permeia todo o movimento do século 20. Por esse motivo, ele cunhou a expressão pentecostal/carismático para se referir à obra do Espírito Santo por toda a terra. Ele vê os movimentos pentecostal, carismático e Terceira Onda como “um só movimento harmônico” para o qual um vasto número de todos os tipos de indivíduos e comunidades têm sido atraídos.

Crescimento Fenomenal

Surpreendentemente, há apenas cem anos atrás, não existia nenhuma congregação pentecostal/carismática, como entendemos a palavra hoje. Em nossos dias, menos de um século depois, igrejas e denominações carismáticas e pentecostais se notabilizam no cenário religioso e constituem o segmento mais crescentemente dinâmico da cristandade.

Esse crescimento impressionante foi mostrado por uma pesquisa de 1980 da Gallup publicada na Christianity Today. A pesquisa mostrou que 19% de toda a população americana, cerca de 50 milhões de pessoas, identificaram-se como pentecostais ou carismáticos. Numa pesquisa mais recente, da Newsweek em 1998, 47% dos cristãos entrevistados disseram que “experimentaram o poder do Espírito Santo.” Dentre os protestantes evangélicos, este número sobe para 75%.[4] Este crescimento fenomenal é um dos principais motivos pelos quais o famoso teólogo Harvey Cox, de Harvard, se dispôs a dizer que “o pentecostalismo está reformulando a religião no século 21.”[5]

O Desafio da Legitimidade Histórica

Uma crítica geralmente dirigida aos pentecostais e carismáticos modernos é a de que eles não têm tradição nem história. O argumento é mais ou menos o seguinte: A igreja existe há dois mil anos, mas os pentecostais e carismáticos só estão aí há menos de cem anos. Essa pretensa falta de história parece indicar que o movimento é, na melhor das opções, periférico ao cristianismo ortodoxo.

Este desafio da legitimidade histórica é respondido habitualmente de duas maneiras. Pentecostais clássicos escolheram a abordagem restauracionista, em que geralmente veem a si mesmos como restauradores da pureza e do poder da igreja apostólica do primeiro século. Desde essa perspectiva, os dezoito séculos intermediários são tidos como anos de corrupção e fracasso espiritual.[6] Mais recentemente, alguns pentecostais e carismáticos não estão se conformando com esse salto de dezoito séculos sobre a história da igreja e têm escolhido uma abordagem tradicionalista. Eles procuram preencher o vácuo histórico criando cargos e departamentos eclesiásticos e tradicionais na estrutura de suas igrejas e instaurando liturgias tradicionais em seus cultos.[7] Tais medidas são motivadas em parte por tentativas de estabelecer uma continuidade com o passado por meio da imitação feita às igrejas mais tradicionais e institucionais.

Nem a abordagem restauracionista e nem a tradicionalista podem responder adequadamente à questão histórica. O fato é que os pentecostais e carismáticos têm uma história legítima. É uma história encontrada nos vários movimentos de avivamento e renovo que sempre surgiram na vida da igreja. Por terem sido frequentemente condenados e marginalizados pela igreja institucional, sua história tem sido ocultada ou mal interpretada. Essa é, portanto, uma história que precisa ser descoberta e plenamente recuperada.

O Caminho Para a Recuperação Histórica

Este volume traz ao mesmo tempo vários elementos recuperados por meio de pesquisas acadêmicas e históricas. Ele narra a vida de movimentos e pessoas corajosas desde o dia do pentecostes até o século 21.

Este estudo de nenhuma maneira é exaustivo, no entanto, seus benefícios são incontáveis. Com a permissão do leitor, ele pode informar o pesquisador mais sério sobre a atividade dinâmica do Espírito Santo através da história da igreja. Além disso, pode instruir aqueles que queiram aprender com o passado. É capaz também de inspirar outras pesquisas e promover a consciência e o entendimento futuro da rica história que pertence legitimamente a cada crente pentecostal e carismático.

Por fim, os dados deste livro confirmam que os pentecostais e carismáticos realmente têm uma história legítima e emocionante, ou seja, seu elo com o passado não é apenas institucional. Mais que isso, eles têm a mesma fé bíblica que continua a demonstrar o poder espiritual da igreja apostólica do primeiro século. Com efeito, o fato de que o avivamento pentecostal e carismático deste século seja cristianismo ortodoxo é confirmado não somente pelo próprio Novo Testamento, mas também pela existência de dois mil anos de cristianismo carismático.

Parte I

A Igreja Primitiva – 100 d.C.

Capítulo 1

A Igreja Apostólica

A igreja do primeiro século era uma igreja carismática. Lucas, que gravou sua história no livro de Atos, incluiu fielmente a abundância de fenômenos sobrenaturais que retrataram sua vida e seu ministério. Línguas, profecias, curas e milagres — e todos os outros carismas — eram comuns e até mesmo tidos como norma (At 1.8; 10.19; 13.2). Essa era a atividade dinâmica do Espírito Santo, que agia mais na vida pessoal e individual dos crentes e na vida corporativa da igreja na sua estrutura institucional, provendo assim a base para sua vida, sua comunidade e sua missão. De acordo com Gordon D. Fee, Paulo viu o Espírito como “a chave para tudo na vida cristã.”[8]

Enquanto os crentes levavam o evangelho de Jerusalém para o mundo greco-romano, essa característica carismática continuava a ser a norma para as novas igrejas que surgiram por meio de seus ministérios. Isto está óbvio no livro de Atos tanto quanto nas epístolas de Paulo, onde ele fala livremente de milagres e dons espirituais. Ele afirmou que Paulo “proclamou plenamente” o evangelho aos gentios “pelo poder dos sinais e prodígios, na virtude do Espírito de Deus.” (Rm 15.19). As cartas aos Coríntios particularmente mostram que as igrejas congregadas confiavam mais na espontaneidade do Espírito que na autoridade oficial para guiar suas vidas e direcionar seus encontros.

Esses fatos levaram Hans von Campenhausen a descrever que a visão que a igreja primitiva tinha da comunidade cristã era a de “uma comunidade que se desenvolvia por meio da interação de seus dons espirituais e ministérios, sem o benefício de uma autoridade oficial ou anciãos responsáveis.”[9] O teólogo católico Hans Kung concorda, sugerindo que a igreja de Corinto “não conhecia bispos, nem presbíteros, nem qualquer tipo de ordenação, mas somente os dons livres e espontâneos.[10] Então ele aponta que, de acordo com Paulo, Deus lhes provia tudo que era necessário.[11] Rudolph Bultmann concorda e insiste em dizer que na igreja do Novo Testamento “as pessoas com mais autoridade eram aquelas investidas de dons espirituais.”[12]

No seu livro Jesus e o Espírito, James D. G. Dunn demonstra que as igrejas cristãs mais primitivas buscavam mais a presença imediata do Espírito Santo para sua vida e sua comunidade que a estrutura organizacional e a formalidade. Ele também aponta que, a não ser em Filipenses 1.1, Paulo nunca se dirige a um líder dentro de uma comunidade.”[13] A implicação é clara para Dunn: “Se uma liderança fosse necessária, Paulo presumia que o Espírito carismático lhe indicaria um nome.”[14]

Cargos ou Funções?

As epístolas pastorais, que são do período final da vida de Paulo, parecem revelar uma estrutura mais formal da vida da igreja. O termo presbuteros (ancião) é então usado pela primeira vez por Paulo, e são dadas as qualidades exigidas àqueles que queiram servir como episkopoi (bispo) ou diakonoi (diáconos). Adolph Harnack sugere que aqueles presbuteros, ou anciãos, possam significar mesmo os mais velhos em oposição aos jovens. John Knox corrobora, dizendo que “não estamos lidando com cargos formais, mas com funções para as quais as pessoas estavam dotadas tanto quanto estariam para as profecias ou as curas.” [15] Kung concorda e diz que a escolha dos anciãos “não pode ser vista como o começo de um sistema de administração clerical.” Ele mostra que o surgimento de anciãos e bispos deve ser entendido no contexto da “estrutura visceralmente carismática da igreja.”[16]

Obras Maiores ou menores?

A ênfase da igreja primitiva nos charismata não deve surpreender, uma vez que Jesus ensinou seus discípulos a esperar o poder e o dinamismo do Espírito em suas vidas e ministérios. Em certa ocasião, ele os alertou que, quando o Espírito viesse, seria permitido que fizessem as mesmas obras que ele fazia e obras ainda maiores (Jo 14.12). A expectativa que a igreja tinha de um ministério sobrenatural era, portanto, proveniente da vida e dos ensinamentos do próprio Jesus. Dunn diz que “por ser ele (Jesus) um carismático, assim eram muitos, senão todos os crentes.”[17]

Mas o que aconteceu após o primeiro século com a morte dos apóstolos? Os dons carismáticos/pentecostais cessaram subitamente? Os dons de revelação foram substituídos pela formação do cânon neotestamentário da Escritura? O caráter sobrenatural da igreja foi dissolvido após o fim da era apostólica do primeiro século?

Em retrospectiva, pode ser constatada a diminuição do caráter carismático da igreja e o surgimento de uma estrutura organizacional. Ainda assim, os dons espirituais continuaram a ser parte vital da vida da igreja após o primeiro século. Escritos pós-apostólicos não revelam nem o conhecimento nem a expectativa de sua cessação em nenhum momento. Aqueles que sucederam os apóstolos como líderes na igreja deixaram, em vez disso, um testemunho evidente da operação contínua dos dons espirituais e de seu poder durante esse tempo.


Tradução: Rafael Resende

Texto publicado com permissão expressa da Editora Carisma. O Livro “Dois Milênios de Cristianismo Carismático”, de autoria do Dr. Eddie Hyatt será publicado em breve em português. 

NOTAS

[1] Stanley M. Burgess e Gary B. McGee, Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1988), p. 811.

[2] Ibid. NT: Foi chamado de Terceira Onda pelo teólogo C. Peter Wagner, por ter vindo após os movimentos do princípio do século e dos anos 60.

[3] Ibid. p. 810.

[4] Vinson Synan, ed., The Century of the Holy Spirit (Nashville, TN: Thomas Nelson, 2001), p. 371.

[5] Estas palavras aparecem no subtítulo do livro de Cox, Fire From Heaven: The Rise of Pentecostal Spirituality and the Reshaping of Religion in the Twenty-first Century (Fogo do Céu: O Surgimento da Espiritualidade Pentecostal e a Reformulação da Religião no Século XXI.) (Reading, MA; New York: Addison-Wesley, 1995).

[6] 6.”Roundtable,” Pentecostal Evangel, no. 4220 (Aug. 13, 1995): 8. George O. Wood, um presbítero das Assembléias de Deus, reconhece essa primitiva abordagem restauracionista dos pentecostais. Ele diz que “Nós estamos dispostos a saltar, se pudermos, 19 séculos de história cristã e dizer ‘Enquanto agradecemos a Deus pelo que foi cumprido por ele na história, nosso objetivo não é adequar-se ao padrão da tradição eclesiástica. Nós simplesmente queremos voltar ao livro de Atos, redescobrir o que a igreja primitiva tinha e alcançar isso, para que possamos ser instrumentos de Deus em nossa geração.’”

[7] Paul Thigpen, “Ancient Altars, Pentecostal Fire,” Ministries Today (November/December 1992): pp. 43-51.

[8] Gordon Fee, The First Epistle to the Corinthians (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1988), p. 607.

[9] Hans von Campenhausen, Ecclesiastical Authority and Spiritual Power in the Churches of the First Three Centuries (Stanford, CA: Stanford University, 1969), p. 58.

[10] Hans Kung, “What Is the Essence of Apostolic Succession?,” Apostolic Succession: Rethinking A Barrier To Unity, ed. Hans Kung (New York: Paulist Press, 1968), p. 35.

[11] Ibid.

[12] Rudolph Bultmann, New Testament Theology, 2 vols. (New York: Charles Scribner, 1965), 2:97.

[13] James D. G. Dunn, Jesus and the Spirit (Philadelphia, PA: Westminster, 1975), p. 291.

[14] Ibid. p. 285

[15] John Knox, “The Ministry in the Primitive Church,” The Ministry in Historical Perspective, ed. Richard H. Niebuhr and Daniel D. Williams (New York: Harper and Row, 1956), p. 10.

[16] Hans Kung, The Church (Garden City, NY: Image Books, 1976), p. 249.

[17] Dunn, Jesus and the Spirit, p. 92.

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