Eusébio de Cesareia versus Montanismo: breve relato sobreas disputas teológicas e éticas na Igreja século II

Há pelo menos três concepções acerca do Montanismo dentre os estudiosos da Igreja do século II: a) um movimento pseudoprofético, sendo considerado um grupo heterodoxo; b) um paralelismo religioso cujo objetivo seria disputar um maior número de seguidores com a corrente “tradicional”; e, c) um grupo reacionário que lutava para reascender a chama do Espírito através de cultos carismáticos e de um retorno ao cristianismo primitivo. Para entendermos melhor as pretensões de Montano, Maximila e Priscila, no entanto, será necessária uma análise imparcial, buscando nas fontes históricas, ainda que muitas se oponham ao movimento, fatos que demonstrem o perfil montanista com grau de verdade convincente.

Eusébio de Cesareia destacou a percepção de Apolinário sobre o movimento montanista, relacionando-o a grupos, que segundo ele, desentoavam dos princípios cristãos. Na História Eclesiástica (2005, p.146) destacou:

Sobre Apolinário[1], por outro lado, ainda que sejam muitas as obras que se conservam entre muitas pessoas, até nós chegaram as seguintes: O Discurso dirigido ao mencionado imperador[2], cinco livros Contra os gregos, dois Sobre a verdade, dois Contra os judeus, e também os que, depois destes, escreveu Contra a heresia dos frígios, que não muito depois iniciaria suas inovações, mas que já então começava a despontar, pois Montano, juntamente com suas falsas profetisas, já andava assentando os princípios do descaminho.

Em sentença posterior, Eusébio chama o movimento montanista de inimigo da igreja e consequentemente de Deus. Portanto, podemos logo detectar sua aversão ao grupo frígio[3] cuja condenação provinha principalmente de suas profecias e de seu ascetismo. Sobre isso, Eusébio (op. cit., p.172) escreveu:

Como inimigo da Igreja de Deus é em último grau avesso ao bem e amante do mal e de forma alguma deixa de lado qualquer maneira de conspirar contra os homens, fez com que de novo brotassem estranhas heresias contra a Igreja. Destes hereges alguns, como serpentes venenosas, rastejam pela Ásia e Frígia, vangloriando-se de ter como modelo Montano e nas mulheres de sua companhia, Priscila e Maximila, as supostas profetisas de Montano.

Com a inserção de Eusébio, é notório seu ávido desejo de censurar as práticas e as convicções montanistas. A classificação de inimigo da Igreja, por exemplo, denota uma impressão hostil na qual se pensa que o grupo tinha como objetivos militar sem uma razão plausível em oposição contra os preceitos defendidos pela igreja e pela sua conduta. A chamada conspiração parece ter sido pensada como um conluio com a finalidade de concorrer por meros adeptos. A expansão do movimento montanista angariando para si seguidores em muitas partes da Europa, Ásia e África (Walker: 2006, p. 86) foi interpretado como uma ação proselitista. Entretanto, seria importante refletirmos sobre as motivações dessa transferência entre grupos e os seguidores que saiam da igreja da qual Eusébio fazia sua defesa para aderirem a um movimento supostamente inovador (seria inovador ou renovador?); porque, eles, os montanistas, tomaram uma decisão reacionária por uma razão evidente, norteada pela busca de um sentimento que estava ausente da Igreja chamada geral.

Entretanto, na sua continuada intenção de desqualificar o movimento, Eusébio (op. cit., p. 177) registra palavras de Milcíades, um escritor antimontanista, para fundamentar seus argumentos de taxa-lo como heresia em razão de “ressuscitar” uma prática da Igreja Primitiva que tinha pouca fluência e pouca empolgação naquele momento: ele censura seu êxtase e suas profecias (apesar de as duas práticas serem encontradas em Atos dos Apóstolos e Epístolas Apostólicas). O propósito era atribuir a Montano o veneno da heresia e assim afastar qualquer pensamento positivo acerca dos frígios. Seguindo a mesma orientação, “convoca” Apolônio[4] para fortalecer suas argumentações e informa algumas das práticas montanistas registradas por esse escritor eclesiástico que propôs um trabalho de refutação ao grupo liderado por Montano. Eusébio (op. cit., p. 177) propõe o escrito de Apolônio:

Mas suas obras e seus ensinamentos mostram quem é este novo mestre. Este é o que ensinou o rompimento de matrimônios, o que impôs leis de jejuns, o que deu o nome de Jerusalém a Pepuza e a Timio (cidades insignificantes da Frígia), porque queria reunir ali gente de todas as partes, o que estabeleceu arrecadadores de dinheiro, o que inventava a aceitação de donativos sob o nome de oferendas, o que assalariava os arautos de sua doutrina, com finalidade de que o ensinamento de sua doutrina se afirmasse por meio da glutonaria.

A questão nesse ponto é problemática, pois precisamos, para aceitar as objeções de Apolônio, de um documento que assegure todos esses pontos destacados e não somente sua visão. Sabemos que houve uma produção escrita de declaração de fé e de conduta montanista, mas foi perdida. Não se sabe por qual razão (se foi expurgada pelos acusadores ou simplesmente esquecida pelo tempo ou, ainda, ocultada). Salientamos que Apolônio escreveu um fato sem subsistência, ou seja, selou os boatos sobre o suicídio de Montano com a chancela da verdade, colocando em dúvida sua ética para com a História. Além disso, acrescentamos nossa desconfiança ao tratado de Apolônio uma vez Tertuliano, após ter aderido ao Montanismo, nada ter tratado sobre os assuntos, antes escreveu sobre a indissolubilidade do casamento e de sua manutenção em Ad monogania e em Ad Uxorem (Acerca do Único Casamento e Para Minha Esposa); em De Ieiunio Adversus Psychicos (Acerca do Jejum contra os Psíquicos ou católicos/gerais/universais) criticou a negligência das práticas de santificação e da prática de jejuns dos cristãos negligentes da igreja de Eusébio que ridicularizavam o ensinamento, bem como a disciplina na alimentação, evitando a gula.

Outro oponente utilizado por Eusébio foi Serapion. Sobre sua oposição cita-se:

Serapion, outro opositor, enviou o tratado de Apolinário a Carico e Pôncio chamando-os de enganosa tropa e divulgando que eram rejeitados por todos os irmãos do mundo. Informa ainda que um tal Sotas de Anquialo quis expulsar o demônio de Priscila como forma de provar a falsidade da profetisa, mas sem sucesso. (Santos: 2001, p.80)

Neste caso, surpreende-nos tal afirmação porquanto o clima espiritual narrado por Tertuliano nas reuniões nas quais participava era outro (De Anima – Sobre a Alma). Não era um clima de opressão, mas de plena satisfação em Deus. A forma do culto, certamente, tinham recebido de quem os havia despertado para a realidade do Paracleto: Montano, Maximila e Priscila. Apenas reproduziam o que haviam aprendido e assimilado. Desta maneira, como, então, acreditar que Priscila possuía um espírito que não o de Deus?

Diante do exposto, cabe uma simplória pergunta: quais eram de fato as intenções de Eusébio de Cesareia? Nosso questionamento se faz pertinente, pois ao verificarmos o contexto histórico, a expansão do movimento e os seguidores renomados que fizeram parte da história montanista somos logo impelidos a acreditar que existia um diferencial nesse segmento da Igreja. Justo L. Gonzalez (2004, p. 138) declarou sobre o teor das profecias e do código de ética montanista o seguinte:

O que era novidade era o conteúdo das profecias de Montano e suas companheiras: declaram que outra dispensação se iniciava com a chegada da nova revelação concedida a eles pelo Espírito. Essa nova revelação não contradizia o que foi dado no Novo Testamento, mas o ultrapassava no rigor de sua ética e em alguns detalhes escatológicos.

Gonzalez destaca o conteúdo das profecias, ou seja, os montanistas acreditavam que Cristo estava trazendo um novo pentecoste sobre a Igreja através deles. Essa conclusão incomodava a liderança da igreja que vivia uma letargia espiritual, bastante centrada em formas herméticas de rituais e mecanizadas por uma prática repetitiva que impedia qualquer operação interior por parte do Espírito Santo. O mérito do grupo para a ação sobrenatural de Deus foi concebido por algumas razões práticas e devocionais: 1º. Os montanistas demonstraram uma sensibilidade espiritual que favorecia o movimento do Espírito; 2º. A prática de abstinência consagrava a Deus vidas que se esvaziavam de si mesmas para figurarem como canais da bênção para o povo redimido; e, 3º. O apego as Escrituras e o sentimento de retorno ao padrão primitivo chancela a ortodoxia do movimento. Na conclusão do historiador, não havia uma contraposição às doutrinas do Novo Testamento, portanto, havia uma prática bem alicerçada e fundamenta das obras montanistas, razão que nos provoca dúvidas sobre os propósitos dos registros de Eusébio. Ao acrescentar em sua análise um “ultrapassar” no rigor, Gonzalez parece concordar com o exagero. Contudo, seria interessante uma reflexão sobre as circunstâncias e pessoas envolvidas. Como mencionamos, os líderes da igreja estavam apáticos espiritualmente, afrouxando na conduta do regenerado (neste momento a Igreja aceitava prostitutas, gladiadores e outros de conduta reprovável; além de recepcionarem pacificamente os que negavam a Cristo como Senhor devido às perseguições romanas sem qualquer objeção ou disciplina) e muito preocupados com a questão da sucessão apostólica. A sucessão, na verdade, era a busca pelo reconhecimento entre os bispos para a concentração de poder e domínio sobre a Igreja. Essa má conduta administrada e favorecida pelos bispos da sucessão denegriram a imagem do Cristianismo de modo que a espiritualidade equilibrada não mais era tão almejada pelos cristãos nominais: era a consumação da apostasia. As virtudes tão apreciadas e defendidas pelo Mestre nos Evangelhos estavam em decadência, sendo poucos os cristãos que se dedicavam efetivamente aos jejuns, às vigílias, à santidade de vida, entre outras. Nesse contexto, surgem os montanistas retornando a uma prática diferenciada, promovendo a disciplina cristã que se vincula à ascese. O retorno às práticas do Cristianismo Primitivo incomodou porque não mais eram apreciadas. Desta maneira, os líderes da igreja consideraram a práxis montanista excessiva.

Percebamos que a ausência de espiritualidade de alguns líderes, de forma consciente ou inconsciente, ajudou a promover a negação dos mais rudimentares elementos fé cristã. Além do estado espiritual negativo de líderes da igreja passaram a mesclar alguns conceitos filosóficos com os institutos da fé, entendendo que o pensamento grego reforçaria suas concepções religiosas. Suas condutas são merecedoras de uma análise mais cuidadosa, mas já podemos adiantar que elas não se coadunam com a Verdade, pois existe uma identidade inflexível e autônoma nela, por isso é a Verdade (Jo 14:6), devendo seguir seu próprio rumo e estabelecer seu próprio modo de conhecimento independentemente do pensamento produzido pelas percepções de homens limitados.

Julgando, ainda, as prerrogativas dos montanistas, Cairns (2001, p. 82) informa:

O montanismo surgiu na Frígia em 155 como uma tentativa da parte de Montano em resolver os problemas de formalismo na Igreja e a dependência da Igreja da liderança humana quando deveria depender do Espírito Santo. Essa tentativa de combater o formalismo e a organização humana levou-o a reafirmar as doutrinas do Espírito Santo e da Segunda Vinda.

Cooperando com Cairns, para Paul Tilich (2007, p.58-59): “Os montanistas tinham duas ideias fundamentais: o Espírito e o ‘fim’. Acreditavam que o Espírito havia sido suprimido pela Igreja organizada”. Ora, com a evidência de que a Igreja passava por um esfriamento espiritual, a máxima da pregação montanista não poderia ser outra. Sua mensagem era, portanto, a abordagem vivificante do Espírito. Quem lê a obra de Hipólito de Roma percebe esse formalismo demasiada, um ritualismo hermético e uma orientação que caminhava para o marasmo religioso; porquanto, quando discípulos não veem estímulos supra-humanos, a graça e o poder, tendem a um comportamento tradicionalista ou rotineiro e um fazer sem o real sentido de sua prática. Os montanistas acreditavam que o Espírito era a pessoa pela qual a operação de vida espiritual fluía. Sem ele a Igreja estaria fadada ao fracasso espiritual, por isso foram tão incisivos em suas proclamações.


 

Referências

Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos: uma história da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2001.

Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. São Paulo: Fonte Editorial, 2005.

Gonzalez, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão: do início até o Concílio de Calcedônia (volume 1). São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

Hipólito de Roma. A Tradição Apostólica. São Paulo: Editora Vozes, 2014.

Santos, Francisco Heládio Cunha dos. Montanismo e os profetas catafrigas: uma análise contra-hegemônica da história do movimento montanista. Fortaleza, CE: Moriá Editora, 2011.

Tertuliano. Acerca del Alma. Tradução: J. Javier Ramos Pasalodos. Espanha: Ediciones Akal S.A., 2001.

Tilich, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: Aste, 2007.

Walker, W. História da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2006.

 

[1] Cláudio Apolinário, bispo de Hierápolis.

[2] Lucius Ceionius Commodus Verus Armeniacus

[3] O movimento montanista surgiu na Frígia, região centro-oeste na antiga Anatólia, atual Turquia, por volta do ano 155. Daí o designativo “frígios” ou “catafrigas”.

[4] Apollonius Ephesus – Apolônio de Éfeso (180 – 210).

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