Interpretação de Línguas, Julgando Palavras Proféticas, e Mulheres em 1Co 14:26-40)

O Dom da Interpretação de Línguas

As instruções de Paulo em relação ao uso de línguas na reunião corporativa da igreja são expostas em quatro partes:

Primeiro, “que haja apenas dois ou no máximo três” (v. 27a). Não há maneira definitiva de saber se isto significa dois ou três no total, ao longo da reunião, ou dois ou três antes da pausa para que alguém possa interpretar, havendo depois disso mais línguas. Estou inclinado a pensar na primeira.

Segundo “cada um por sua vez” (v.27b). Evidentemente os Coríntios tinham caído no hábito de muitas pessoas falarem simultaneamente em línguas, de modo que nenhuma interpretação era possível ao passo que uma alta e caótica mistura de vozes se estabelecia e a ninguém beneficiava.

Terceiro, “que alguém interprete” (v. 27c). Isto seria ou a pessoa que falava em uma língua (lembre-se do v.13) ou alguém conhecido pela congregação que tivesse o dom da interpretação. Não podia ser alguém que tivesse espontaneamente recebido a interpretação no mesmo momento que alguém falava em línguas, pois Paulo esperava obviamente que a pessoa falando em línguas soubesse antecipadamente se uma interpretação estava ou não disponível. De fato, ele diz que se não estamos antecipadamente seguros de uma interpretação, não devemos sequer começar a falar.

Quarto, na ausência de interpretação, podemos ainda assim exercitar nosso dom, mas fazendo-o na privacidade de nossa própria vida de oração devocional e nos nossos momentos privados de adoração (v.28). Claramente, as palavras “na igreja” e as palavras “consigo mesmo e com Deus” estão em contraste. Assim falando consigo mesmo e com Deus significa fora da reunião da igreja, sem dúvida em privado.

Precisamos agora de nos focar no que é o dom de interpretação. Se algumas coisas que Paulo têm dito lhe parecem difíceis de entender, existe algo onde não pode haver disputa, e é isto: se línguas são usadas na reunião corporativa da igreja deve haver uma interpretação que as acompanhe. Por quê? Porque sem interpretação ninguém é edificado, nem aquele que fala é fortalecido espiritualmente. Olhe de novo para a ênfase de Paulo na nossa responsabilidade de nos edificarmos mutuamente:14:1-3; 14:12; 14:18-19 e 14:26.

A interpretação de línguas pode ser o mais negligenciado dom no corpo de Cristo. É também um dos mais importantes dons, no sentido em que ele sozinho torna possível a introdução do discurso em línguas e suas óbvias bençãos para a assembleia reunida dos crentes. Mas antes de olhar para o que este dom é, deixem-me explicar o que ele não é.

O que o Dom de Interpretação Não É

Este dom não é habilidade de interpretação revelacional em uma ampla escala. Não existe qualquer razão para crer que alguém que tem este dom possa de maneira abrangente interpretar línguas, visões, ou outros fenômenos reveladores. Embora não mencionado no NT, pode bem existir um charisma de interpretação amplamente concedido. José atribuiu a Deus sua habilidade de interpretar sonhos (Gn 41:14-16), mas assim, também, o faria qualquer um que possuísse um dom espiritual. Daniel também foi capacitado a interpretar sonhos reveladores (veja Dn2 e 4 e especialmente 5:14-16). O dom de interpretação (1 Co 12:10), por outro lado, não está  sozinho, está intrinsecamente ligado com as línguas.

Este dom deve ser distinguido da habilidade de traduzir um idioma estrangeiro.

Todos nós temos visto tradutores nas Nações Unidas, por exemplo, onde pessoas altamente educadas interpretam discursos para os representantes de vários países.

Isto é um talento impressionante, mas é uma habilidade humana naturale aprendida, que não requer qualquer unção sobrenatural de Deus. Interpretação de línguas, por outro lado, não é uma menor “manifestação” (1 Co 12:7) do Espírito Santo que o dom de milagres ou profecia.

O que o Dom de Interpretação É

O carisma da interpretação de línguas é a habilidade empoderada pelo Espírito para traduzir uma elocução pública de línguas para o idioma da congregação. A palavra “traduzir”, no entanto, é um pouco ambígua. Existe um espectro a partir da tradução literal em uma extremidade para ampla soma na outra extremidade, onde quer que o dom de interpretação é exercitado.

Interpretar uma elocução em línguas pode concebivelmente ser uma tradução literal, palavra por palavra, equivalente em duração à elocução em línguas. Vemos isto, por exemplo, na Sala Oval da Casa Branca, quando o presidente Russo e o presidente Americano se sentam em conversação e estão inteiramente dependentes da tradução literal palavra por palavra dos seus comentários ao outro. Em tais instâncias, uma paráfrase ou generalização poderia ser desastrosa.

Muitas vezes o que é dito em línguas é enigmático ou parabólico. Isto iria requerer que o intérprete explicasse o que foi dito e desembrulhasse seu significado, não diferente do que um crítico de arte faz quando “interpreta” um quadro e explica seu intento e sentimento.

Talvez o dom de interpretação dê expressão a uma mais vaga e mais fluida representação que captura a essência ou ponto essencial da elocução mas fica aquém de uma representação palavra por palavra. Ou pode simplesmente ser uma paráfrase do que foi dito.

Não vejo razão para pensar que o Espírito Santo não poderia capacitar alguém a interpretar uma elocução em línguas onde quer que fosse ao longo deste espectro. Assim alguém pode até falar em línguas a uma grande duração (30 segundos a um minuto) e a interpretação ser breve (5-15 segundos). É inteiramente possível que um intérprete possa fornecer uma longa, praticamente palavra por palavra tradução, enquanto que outro  fornece uma sumarização do conteúdo básico. Em qualquer caso, o movimento é sempre de uma obscuridade e ininteligibilidade da elocução em línguas para claridade e inteligibilidade da interpretação, de modo que todos na igreja possam dizer “Amém” ao que foi dito (1 Co 14:16). Neste modo todo o corpo é edificado.

O Conteúdo da Interpretação

Anteriormente notamos que as línguas podem ser uma forma de oração (1 Co 14:2), ou talvez adoração (1 Co 14: 16; cf. At 2:11; 10:46), bem como ação de graças (1 Co 14:16). Se a interpretação deve corresponder à elocução, a interpretação também tomará a forma de orações, louvor e expressões de gratidão a Deus. Por outras palavras, se o foco das línguas é dirigido a Deus, assim também será a interpretação em que é baseado. Isto levanta a questão sobre se existe algo como uma mensagem nas línguas, i.e., uma mensagem direcionada horizontalmente a pessoas em vez de verticalmente a Deus. Crentes Carismáticos e Pentecostais têm assumido que quando as línguas são interpretadas, o resultado é o equivalente de profecia. No entanto, quando uma língua é dada em público, existe um sentido em que a congregação está ouvindo casualmente a apaixonada adoração ou orações de um crente individual, muito como o que acontece quando lemos os salmos: estes são hinos de louvor e oração de um crente ou uma nação a Deus. Se uma interpretação é uma oferecida sem ser oração ou louvor ou ação de graças, devemos ter cautela ao tomá-la como uma genuína interpretação.

Julgando Palavras Proféticas

Nós que abraçamos alegremente os dons do Espírito precisamos honestamente encarar o fato de que demasiadas vezes as pessoas no ministério profético têm sido menos que diligentes no seu estudo da escrita Palavra de Deus e, portanto, menos capazes para testar e analisar eficazmente o que pretende ser a falada Palavra de Deus. Alguns têm se tornado tão enamorados pelo sensacionalismo das espontâneas palavras reveladoras que têm negligenciado as Escrituras.

Existe um inúmero de fatores do porquê das pessoas terem se tornado mais fracas no seu dever de julgar palavras proféticas.

Alguns se tornaram tão acostumados em ouvir a voz de Deus de que frequentemente simplesmente assumem ou tomam como garantido de que o que pretende ser uma palavra profética é plenamente da parte de Deus. Estão tão entusiasmados com a profecia que têm medo de reconhecer que algumas ditas “palavras” não são genuínas.

Também, é difícil desafiar alguém em relação à validade de sua palavra.

Confronto e desacordo são desagradáveis e iremos frequentemente usar de qualquer desculpa disponível para evitar isso. Afinal de contas, não queremos magoar seus sentimentos ou correr o risco de os desligar de modo a terem medo de alguma vez mais estarem abertos à possibilidade de Deus falar. Este admirável mas orientado senso de compaixão apenas agrava o problema.

Outros estão tão preocupados sobre o desprezar palavras proféticas e extinguir o Espírito Santo que eles fazem acrobacias para não julgar ou avaliar criticamente o que é dito. Relacionado a isto está o seu medo de que se eles julgarem uma alegada palavra profética eles podem perder a benção ou benefício que Deus pretende para eles através dela. Eles não querem parecer críticos, muito menos céticos, do que pode muito ser a voz dos céus. Alguém uma vez justificou-me sua relutância em avaliar criticamente uma palavra profética dizendo, “Quero ser capaz de responder como Maria, a mãe de Jesus, fez, quando Gabriel trouxe noticias de sua iminente concepção virginal: ‘Seja isso feito em mim conforme a Tua palavra.’” Esta pessoa erroneamente acreditava que responder com qualquer outra coisa que não fé inquestionável e submissão à “palavra” poderia desqualifica-lo para colher o fruto que estava designado a ser produzido em sua vida. Entendo o seu zelo. Em certo sentido acho-o louvável. Mas pode ser também extremamente perigoso. A exortação de Paulo para julgar todas as palavras proféticas significa que não é falta de fé se primeiro avaliarmos o que é dito. Depois existe o fator adicional que eu chamo de temor profético. Quero dizer com isso o temor, a reverência eficaz, que algumas pessoas têm por aqueles especialmente dotados no ministério profético. Alguns de vós têm tanto temor a certos profetas que no momento eles abrem suas bocas vocês neutralizam o vosso cérebro, lançam o discernimento ao vento, e nunca pensam em abrir vossas Bíblias para ver se realmente o que eles dizem é verdade. O resultado é que todo o tipo de ideias escabrosas e não bíblicas passam por revelação divina. Pior ainda, pessoas acabam por ser magoadas, usadas e manipuladas, e a própria profecia acaba sendo zombada por aqueles fora da igreja e minimizada por aqueles dentro dela. Isto tem que acabar. Deixem-me simplesmente relembrar-vos que o apóstolo Paulo não foi de modo algum ofendido ou descartado pelos bereanos que “examinaram as Escrituras” (Atos 17:10-11) para determinar se o que ele disse era verdade.

Então como é que nós devemos “julgar” ou “pesar” ou “avaliar” palavras proféticas?

  • A igreja primitiva tinha que as avaliar à luz das tradições apostólicas (2Ts 2:15) legadas a eles por Paulo. A referência ao que eles foram “ensinados… por palavra” faz uma óbvia alusão à instrução oral recebida de Paulo durante sua estadia em Tessalônica. A “carta” que ele menciona é uma referência ou a 1 Tessalonicenses ou 2 Tessalonicenses. Para nós hoje, todas as palavras proféticas devem estar em absoluta conformidade com a Escritura. No deserto, Jesus testou as “palavras” de Satanás contra o que o resto da Escritura dizia e expôs como ele estava aplicando mal os textos (Mt 4).
  • Também medimos palavras proféticas por sua tendência a edificar ou construir (1 Co 14:3). Devemos sempre perguntar: edifica, fortalece, ou destrói e cria desunião e medo e dúvida e auto-desprezo? A “palavra” tem uma tendência para exortar e encorajar (1 Co 14:3)? A “palavra” tem uma tendência para consolar? (1 Co 14:3)? Ou ela leva ao desespero? Se a “palavra” é preditiva, é necessário exame empírico para determinar se acontece como profetizado.
  • Devemos também aplicar o teste do amor (1 Co 13) pelo qual todos os dons carismáticos devem ser medidos e subordinados. Paulo não parece se importar muito com qualquer dom do Espírito se ele violar as diretrizes do amor. Assim, faça sempre a pergunta: “Esta elocução profética parece ser motivada por egoísmo e uma tomada por poder e prestigio pela parte do profeta ou ela acontece como altruísta e desenhada para abençoar e encorajar aquele a quem ela se dirige”?
  • O teste de comunidade é também importante. A sabedoria exige sempre passemos a “palavra” por outros que têm perícia e experiência em avaliar a revelação profética.
  • Finalmente, existe o teste da experiência pessoal. Quando a Paulo foi dada uma “palavra” sobre o perigo que o esperava em Jerusalém (Atos 21:3-4 e 21:10-14), ele avaliou e respondeu à luz do que Deus já lhe tinha dito e mostrado (20:22-23). De fato, Paulo diz: “Sim, todos recebemos a mesma revelação e interpretação, que sofrimento me aguarda em Jerusalém, mas divergimos na sua aplicação.”

Tudo isto significa que nós não podemos presumir que toda a ideia ou imagem ou palavra que vem às nossas mentes (ou a mente de um profeta reconhecido) é uma revelação da parte de Deus.

Também significa que existe uma grande diferença entre profetizar falsamente e ser um falso profeta. Todos nós temos uma vez ou outra, alguns mais, outros menos, profetizado falsamente. Temos falado palavras que pensávamos ser da parte de Deus mas que, de fato, não eram. Mas isso não faz de nós falsos profetas. Só faz de nós humanos! Falsos profetas no Novo Testamento eram não Cristos inimigos do evangelho (cf. Mateus 7:15-23; 24:10-11; 2 Pe 2:1-3; 1 João 4:1-6).

Quem são os “out­ros” no vs. 29 que devem julgar ou pesar o que é dito? Estes são provavelmente os outros “na congregação” como um todo, ou seja, todos os outros crentes presentes. 1 Tessalonicenses 5:20-21, que apela à avaliação de elocuções proféticas, é dirigido a toda a igreja, não a um grupo especialmente dotado. [1]

Qual a natureza deste julgamento a ser feito? não é determinar se a elocução é do Espírito ou do Diabo, mas se o que é dito é compatível com o que o Espírito já disse (na Escritura, na tradição apostólica, etc.) Se a profecia congregacional do NT é frequentemente uma mistura de divina revelação, interpretação e aplicação humana (veja Atos 21:4-6; 21:10-14,27-35), é essencial que a igreja avalie e analise o que é dito, rejeitando o que é errado e aceitando o que é correto (cf. 1 Tessalonicenses 5:19-22); veja também 1 João 4:1-6). Apenas assumindo que parte do que os profetas dizem é a sua própria contribuição, e portanto possivelmente errônea e ilusória, Paulo poderia  ordenar que suas elocuções fossem avaliadas.

A levada disto é simples. Em qualquer altura que seja o recipiente de uma palavra profética, abra sua Bíblia e examine cuidadosamente e examine o que foi dito. Fazer assim não é um sinal de descrença ou cinismo ou orgulho, muito menos de suspeição da pessoa que falou. É a sua obrigação Cristã. Minha esperança é que cada um de nós determine em nossos corações nem ser céticos que acabam extinguir o fogo do Espírito nem ser tolos que tolamente acreditam em tudo o que lhes é dito.

(3) 1 Coríntios 14:34-35 e o Papel das Mulheres na Igreja

Temos várias indicações no NT que o dom profético foi outorgado sobre e exercido por mulheres não menos do que por homens. No discurso de Pedro no dia de Pentecostes ele disse explicitamente que a característica da era presente da igreja foi a dádiva do Espírito a homens e mulheres do dom profético (Atos 2:17-18).

Em Atos 21:9 Lucas se refere às quatro filhas de Filipe como tendo o dom de profecia. E em 1 Coríntios 11:5 Paulo deu instruções sobre como as mulheres deveriam orar e profetizar na reunião da igreja. O quê então significa, aqui em Coríntios 14:34, quando ele diz: “as mulheres devem estar em silencio nas igrejas. Pois não lhes é permitido falar”?

Antes de responder a essa questão, observe que o v.33 está com o v.34, não com o v.33a. É usual para Paulo reforçar seu ensino dizendo que é prática comum em todas as igrejas (cf. 1 Co 4:17; 7:17; 11:16; 16:1). Por outro lado, se o v.33b está ligado com o v.34, somos deixados com a declaração um tanto quanto banal de que Deus é um Deus de paz em todas as igrejas. Mas quem alguma vez questionaria isso?

Como, então, reconciliamos 1 Coríntios 11:5 e 14:34-35? Aqui estão as muitas alternativas.

  • Alguns dizem que 14:34-35 é uma interpolação pós-Paulina, i.e., uma inserção no texto do capitulo 14 por algum escriba depois da sua composição original por Paulo. Assim não existe nenhum conflito com 11:5. Aqueles de nós que acreditam na integridade textual de 1Corintios acharão isto singularmente não atraente, bem como desnecessária. Aqueles que abraçam esta visão apelam ao fato de que existem um número de manuscritos antigos que colocam os vv.34-35 no fim do capítulo em vez de entre os vv.33 e 36. Contudo, isto é bem compreensível dado a aparente natureza intrusiva dos vv. 34-35. Podemos ver como escribas posteriores, convencidos que estes versos interrompem a discussão de Paulo de dons espirituais, os moveriam para o fim do capítulo onde eles pudessem funcionar como o inicio de uma nova discussão. Devemos notar, contudo, que não existem quaisquer manuscritos que omitam os vv.34-35 do argumento de Paulo.
  • Alguns acadêmicos liberais argumentam que Paulo simplesmente mudou de ideias. Ele inicialmente permitiu que mulheres falassem em 11:5 mas após uma reflexão aprofundada se reverteu a si mesmo em 14:34-35.
  • Alguns dizem que em 11:5 Paulo não aprova realmente que as mulheres falem na igreja. Ele diz apenas que se elas fossem fazê-lo com a cabeça descoberta seria uma desgraça. Ele omite condenação da prática até o fim do capitulo 14.
  • Alguns sugerem que 11:5 descreve uma reunião informal diferente da reunião pública, corporativa da igreja. Assim as mulheres podem orar e profetizar em grupos privados menores, mas não na assembleia pública. Contudo, não existe nada no capitulo 11 que sugira isto. 1 Coríntios 10:14-22 é sobre a Ceia do Senhor, o que sempre ocorria na assembleia corporativa, e 1 Coríntios 11:17,18,20 claramente indica que Paulo está descrevendo o que acontece na assembleia corporativa da igreja como corpo reunido.
  • Outros dizem que apenas as esposas estão em vista em 14:34-35 e que mulheres solteiras podem portanto orar e profetizar na igreja. Contudo, o capitulo também tem esposas em vista e as permite falar. Ademais, porque Paulo proibiria de falar as mulheres casadas que seriam provavelmente mais velhas e mais maduras ao mesmo tempo em que permitiria falar as mulheres solteiras provavelmente mais novas e menos estáveis? Veja Tito 2:3-5.
  • Outra visão sugere que talvez os homens e mulheres estivessem sentados em lados opostos da sala e que algumas das senhoras estivessem ou gritando as perguntas aos seus maridos e assim perturbando a adoração, ou talvez estivessem apenas tendo conversas entre elas durante o progresso do culto.
  • Mas existe pouca evidencia de todo que homens e mulheres estavam segregados desta forma na igreja primitiva. Ademais, não existe qualquer indicação em 1 Coríntios que as mulheres em particular fossem rebeldes. E mesmo que algumas fossem perturbadoras, porque então Paulo imporia silencio absoluto sobre todas as mulheres? E devemos nós acreditar que não existiam de todo homens rebeldes? Eu teria que pensar que em um lugar como Corinto existiam pelo menos um punhado de mulheres bem educadas e ortodoxas na doutrina, bem como pelo menos alguns homens perturbadores, rudes, e ousados! Além disso Paulo se dirige na carta a situações rebeldes e perturbadoras (11:33-34: 14:27,29,31) não impondo silencio mas estabelecendo diretrizes que trazem ordem. Não esqueçamos também que as diretrizes estabelecidas por Paulo são as mesmas encontradas em todas as igrejas (14:33b), não apenas Corinto mas Tessalônica e Filipos e Éfeso e Colosso. Parece improvável que o problema de mulheres barulhentas e perturbadoras ocorresse em todas elas.
  • Outros têm argumentado que os vv. 34-35 são um slogan Coríntio que Paulo cita, apenas para refutá-lo em os vv. 36-38. Blomberg cita sete razões porque isto é improvável.
  • “Ao contrário de todos os outros amplamente conhecidos slogans em 1 Coríntios, estes versos (1) não são concisos ou em forma de provérbios; (2) não refletem a ala libertina da igreja; (3) requerem a presunção de que existia um significante elemento Judaizante na igreja, o que é pouco suportado na carta; (4) não são qualificados por Paulo mas rejeitados em absoluto; e (5) como o melhor que podemos dizer representam uma explicação que nunca foi proposta na história da igreja até ao século vinte. Ademais, (6) esta visão requer tomar a conjunção Grega “e” (‘ou,’ deixada sem tradução na NVI) no inicio do verso 36 como uma completa rejeição do que veio antes, embora nenhum outro uso de “e” em Paulo funcione dessa forma. Finalmente (7) presume que ‘as únicas pessoas’ no verso 36, um adjetivo plural masculino (monous) se refere apenas a homens em vez de tanto homens como mulheres, embora nenhuma outra referência plural aos Coríntios alguma vez destaque os homens desta forma sem o fazer explicitamente assim” (280).
  • Uma visão muito improvável é que Paulo não está nem proibindo mulheres de falar em línguas nem de profetizar na reunião pública. Mas já temos visto que as mulheres frequentemente profetizam e não existe absolutamente nada no contexto que indicasse que Paulo tinha o falar em línguas em mente quando chega ao vv. 34 e seguintes.
  • A visão mais popular entre acadêmicos conservadores entende Paulo estando a proibir mulheres de participar no julgamento ou avaliação sobre os profetas (14:29). Por outras palavras, Paulo não está impondo silencio absoluto sobre todas as mulheres. Em vez disso ele está apelando ao silêncio apenas em uma situação, nomeadamente, a avaliação pública de elocuções proféticas.

Devemos notar que Paulo já impôs silêncio duas vezes antes neste mesmo parágrafo, e em nenhum caso é o silêncio absoluto. Primeiro, no v. 28, ele diz àqueles que falam em línguas que fiquem “em silêncio” se não existir intérprete. Mas seguramente eles podiam falar de outras formas durante a adoração. Segundo, no v.30, ele diz àqueles que estavam profetizando que fiquem “em silêncio” se alguém estivesse para receber uma revelação. De novo, ninguém acredita que essas duas demandas para “silencio” significam tal que as pessoas não podiam de novo abrir as suas bocas durante a adoração!

Em outras palavras, existem sempre limitações contextuais no mandamento a “ficar em silêncio” (sigao). A restrição no discurso pode ser temporal ou tópica. No primeiro caso, alguém deve estar em silêncio enquanto outro alguém está falando (Atos 12:17; 15:12,13; 1 Co 14:30). No segundo caso, o que está em silêncio não fala de uma certa forma ou em um certo tópico, mas ele/ela pode falar de outras formas e em outros assuntos. Compare 1 Timóteo 2:12 com Tito 2:3-5. Assim, nesta visão, Paulo estaria restringindo discurso concebido para criticar elocuções proféticas, mas não proibiria outras formas de participação verbal.
Suporte adicional é encontrado na estrutura do parágrafo. Quando Paulo aconselha sobre as línguas ele primeiro restringe o numero que pode falar (“devem ser dois ou no máximo três) e depois dá instruções concebidas para assegurar que a congregação será edificada (“cada um por sua vez” / que alguém interprete” / “mas se não existe intérprete” / “que fique em silêncio na igreja” / e que fale consigo mesmo e com Deus”).

Depois Paulo se dirige para o assunto da profecia e faz o mesmo. Ele primeiro restringe o número que pode profetizar (“que falem dois ou três profetas”) e então assegura que a congregação será edificada insistindo a que os outros julguem. Nos vv. 34-35 Paulo se dirige de forma mais aprofundada aos assuntos levantados no v.29. Nos vv.30-33a ele toma v.29a (“que falem dois ou três profetas”). No vv. 33b-35 ele toma v.29b (“e que os outros pesem o que é direto”).

Se este esboço está correto Paulo estaria proibindo as mulheres de falar na igreja apenas em relação ao julgamento ou avaliação de elocuções proféticas. Evidentemente ele acreditava que isto implicava um exercício de autoridade restrito a homens apenas (veja 1Tm 2:12-15).

Se alguém perguntasse porque Paulo permitiria que mulheres profetizassem mas não avaliassem as profecias de outros, a explicação está na natureza da própria profecia. Profecia, ao contrário do ensino, não implica o exercício de uma posição autoritativa na igreja local. O profeta era apenas um instrumento através do qual revelação é reportada à congregação. Quem profetizava não interpretava oficialmente (ou autoritativamente) ou aplicava Escritura à vida. Profetas não apostólicos não proclamaram os padrões teológicos e éticos pelos quais a igreja era direcionada, nem são eles retratados como exercendo autoridade governamental na igreja.

Mas avaliar ou criticar ou julgar elocuções proféticas é outro assunto. Nesta atividade dificilmente poderíamos evitar explicita instrução teológica e ética de outros crentes. Se presumirmos que em 1 Timóteo Paulo proíbe mulheres de ensinar ou exercer autoridade sobre homens, é compreensível porque ele permitiria que mulheres profetizassem em 1 Co 11:5 mas as proibiria de julgar elocuções proféticas de outros (especialmente homens) em 14:34.

Esta visão também explica o apelo de Paulo “à Lei” (i.e., o VT) no v.34. o VT não ensina que as mulheres devem estar em silêncio durante todo o tempo na adoração (cf. Ex 15:20-21; 2 Sm 6:15,19; Sl 148:12). Mas o VT endossa a chefia masculina no lar e na adoração, consistente com o ensino de Paulo aqui e não só.

Com tudo isso dito, devo contar-vos que eu não mais abraço essa interpretação. Um estudo mais aprofundado levou-me a outra visão que agora creio ser mais persuasiva.

  • Quando Paulo diz às mulheres para “estar em silêncio ” ele não as está proibindo de fazer uma contribuição verbal à reunião, seja na forma de adoração, ou oração, ou profetizando ou lendo a Escritura ou partilhando um testemunho ou atividades semelhantes. Penso que Paulo está proibindo mulheres de se engajarem em uma interrogação pública do marido de outra mulher. Porque digo isto? Existem duas razões.
    A primeira é achada no v.35. Ali Paulo diz que sua fala era motivada por um desejo de “aprender”. O “falar” que Paulo silencia era suas perguntas numa tentativa de ganhar conhecimento e introspeção. Se elas querem aprender, e é perfeitamente correto e bom que elas queiram, elas devem esperar e perguntar a seus maridos em casa. Note bem: Paulo não diz “se elas têm algo para contribuir elas devem contar a seus maridos mais tarde em casa,”mas sim, “se elas desejam aprender algo elas devem perguntar  a seus maridos mais tarde em casa.”

Mas porque seria inapropriado para mulheres, na reunião da igreja, fazer perguntas em sua busca por conhecimento? A resposta está na segunda chave para compreender esta passagem. É a palavra traduzida “vergonhoso” no v.35 ou “impróprio”.

Porque seria “vergonhoso” ou “impróprio” para mulheres publicamente interrogar ou fazer perguntas aprofundadas a outros homens que não seus maridos na assembleia pública da igreja? Christopher Forbes diz que “existia no mundo Greco-Romano no [primeiro século] … um forte preconceito contra mulheres falando em publico, e especialmente contra elas falarem com maridos de outras mulheres. Em uma sociedade com estritamente definidos papéis de gênero e sociais, e uma forte visão dos direitos do homem sobre a sua esposa, tal comportamento era tratado como totalmente inapropriado” (pp. 274-275).

Portanto, mulheres são livres para orar e profetizar dentro da assembleia. Mas quando surgem assuntos que elas não entendem, elas devem se refrear de fazer inquérito aprofundado. Por quê? Porque existe um tempo limite em uma qualquer reunião e Paulo não quer que ninguém ou nenhum grupo domine a reunião (o que parece ser pelo menos parte da razão para sua instrução nos vv.27-31 onde ele põe limites em quantos podem falar em línguas e profetizar). Mas, mais importante, “fazer perguntas a maridos de outras mulheres (especialmente quando isto pode levar a discussões extensas) seria grosseiramente impróprio, e como tal não deve ser permitido” (276).

Poderíamos razoavelmente argumentar que, se tal visão está correta, a proibição de Paulo no v.34 a mulheres já não é aplicável. Pois todos reconhecerão, pelo menos na sociedade ocidental, que hoje não existe vergonha ou impropriedade em uma mulher fazendo uma questão em público ao marido de outra mulher. Sendo perfeitamente cândido, nenhuma interpretação é sem problemas. Se nada mais, isto deveria ser um alerta a todos nós contra sermos demasiadamente dogmáticos neste assunto controverso e frequentemente divisor.

Isto não significa que não existem diretrizes governando o papel da mulher na igreja. Existem duas áreas onde eu acredito que o NT é claro. Primeiro, Paulo diz em 1 Timóteo 3 e em Tito 1 que apenas mulheres devem servir como Anciãos. Segundo, em 1 Timóteo 2:11-12 ele diz que não permite a uma mulher ensinar exercer autoridade sobre um homem. Minha conclusão é que (1) apenas homens devem servir como Anciãos e que (2) apenas homens devem portar responsabilidade para o papel de pastor primaz e de ensino na igreja local. À parte destes dois assuntos, mulheres são capacitadas por Deus e liberadas para ministrar e servir em todas as capacidades na vida da igreja local.

Vamos então brevemente resumir em cinco sentenças o que temos visto nestes três capítulos.

  • Dons espirituais são o grande equalizador no corpo de Cristo. Todos os crentes, homens e mulheres, jovens e velhos, são dotados para ministrar, não apenas pastores e anciãos ou o tão chamado “clero”. “A cada um” é dado a manifestação do Espírito Santo.
  • Dons espirituais são concebidos primeiramente para a edificação do corpo. Eles são por sua própria natureza expressões “orientadas aos outros” do Espírito Santo em nós. Não são intentados para ser uma desculpa para que nos foquemos em nós mesmos e estejamos engajados na observação do nosso próprio umbigo; mas são concebidos para nos mover para fora de nós mesmos a fim de servir outros.
  • Dons espirituais exercidos sem amor são inúteis. Pior que inúteis, são irritantes, chatos e ofensivos. Dons um dia chegarão ao fim. O amor dura para sempre.
  • Línguas e profecia são o foco da instrução de Paulo no capítulo 14 não por serem mais importantes ou mais espirituais que outros dons, mas por serem mais suscetíveis a abuso. A resposta ao abuso, no entanto, nunca é o desuso, mas o uso devido de acordo com as diretrizes que Paulo providencia.
  • E, finalmente, resumirei nas palavras do próprio Paulo nos vv. 39-40- “Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.”

Título original: Interpretation of tongues, judging prophetic words, and women! (1 corinthians 14:26-40)

Tradução: Ângelo Lima (Portugal)


[1] Alguns insistem que “os outros” são os “outros profetas”. No entanto, o termo que Paulo usa para “outros” (hoialloi) usualmente significa “outros diferentes do assunto,” i.e., os outros além dos profetas cujas elocuções devem ser avaliadas (i.e., os outros que perfazem o grupo maior; i.e., a congregação como um todo). Se Paulo quis dizer “o resto” dos profetas presentes na reunião ele teria mais provavelmente usado um diferentetermo (hoiloipoi) que carrega o significado “o resto da mesma classe”. Poderia ser que Paulo se estivesse referindo aqueles que têm o dom de “discernimento de espíritos” (12:10). Em 1 Co 12:10 a palavra traduzida “discernimento” é o nome diakrisis. Em 14:29 a palavra traduzida “julgar” é a forma verbal relacionada diakrino. Apoiando esta visão está o facto que “discernimento de espíritos” em 12:10 parece estar ligado ao dom de línguas. Mas então porque Paulo não teria simplesmente dito, “e que aqueles que discernem espíritos julguem,” se de facto ele tinha tal grupo em mente? Além disso, se tomamos “os outros” como referência ou a um grupo especial de profetas ou aqueles com o dom de discernimento de espíritos, que deve então a maioria da congregação fazer quando profecias estão sendo proferidas e avaliadas? Parece que eles seriam compelidos a sentar-se passivamente aguardando que aprofecia terminasse e fosse julgada antes de saber se deveria crer nela ou não. Ademais, estas primeiras duas visões requereriam que crêssemos que mestres, pastores e outros lideres de igreja sem ou o dom de profecia ou de discernimento de espíritos devem sentar-se passivamente aguardando o veredito de um grupo elitista. Nada disto parece plausível. 

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Categorias: Dom de Línguas,Dom de Profecia,Reforma & Carismas

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