A nova aliança no Espírito: a relação entre Isaías 59 e Atos 2

Isaías 59.19 estabelece não somente o cumprimento dos eventos do Pentecoste, mas uma temática sequencial e coerente com Atos 2, descrevendo: (1) o som veemente e impetuoso (2) do vento/Espírito e as ‘palavras na boca’/ falando (Joel 2), (3) que causa (4) o universal (5) temor do (6) nome e da glória do Senhor. (7) Desta maneira, o Redentor (Sl 16) (8) vem a Sião/Jerusalém (9) a Jacó/Judeus, que sob seu arrependimento, (10) receberá a aliança/promessa do Espírito (11) que não se apartará dele (Jesus) nem de seus filhos e nem dos filhos de seus filhos para sempre. Assim, Isaías 59.19-21 serve como uma declaração programática para o livro de Atos, tendo como base a passagem (Is 61.1-2) do primeiro volume de Lucas. Em Lucas, Jesus é o portador do Espírito; em Atos, seu doador. Esta tese resolve um número de quebra-cabeças nos estudos de Atos.

Na conclusão da narrativa do Pentecoste em Atos 2, Pedro cita uma obscura passagem de Isaías “a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe.” A passagem que os acadêmicos tem negligenciado, é o pilar da temática, da profecia programática da nova aliança, para o livro de Atos.[1]

Concepções cristãs tradicionais a respeito da nova aliança encontraram apoio no Novo Testamento em Hebreus 9, nas narrativas Pascal (“a nova aliança no meu sangue”) e no Antigo Testamento, principalmente em Jeremias 31.31-33 e Ezequiel 36.26-28. Por outro lado, parece que nos últimos cinco séculos de estudos cristãos, outra igualmente explícita promessa do Antigo Testamento a respeito de uma aliança tem sido quase completamente ignorada, a saber, Isaías 59.19-21. Esta passagem, que também promete uma nova aliança trazida pelo ‘redentor’ diante do arrependimento de pecados, é citada duas vezes no Novo Testamento: Romanos 11.26-27 e Atos 2.38-39. Enquanto a literatura recente registrou com maior ênfase o cumprimento da Escritura por Lucas-Atos, as profecias de Isaías 59 não recebem nenhuma séria atenção[2]. Mesmo a literatura específica sobre esta passagem tem deixado de relacioná-la ao assunto de Atos 2, apesar das claras alusões por todo o capítulo que ocorrem em uma notável sequência paralela, e particularmente na paráfrase de conclusão de Isaías 59.21 como seu clímax[3].

Aqui um problema de intertextualidade emerge: “confiança” literária convincente na forma de vocabulário idêntico, porém ao mesmo tempo deixando de prover a matriz de fluxo contínuo no texto. A audiência original, que lia o texto em voz alta e cujos ouvidos eram requintadamente afinados às palavras da Escritura, quase que era também atenta às estruturas da narrativa[4]. De certo, essa é a tese principal de Rebeca Denova, embora ela não trate a contribuição de Isaías 59 com a estrutura de Atos[5]. De forma contrária, Craig Evans oferece evidências da influência literária incidental de Joel na narrativa do Pentecoste, mas os dados dele falham em demonstrar que a estrutura da narrativa do Pentecoste foi assim moldada[6]. De forma semelhante, Ludemann e Wedderburn produziram muitos paralelos literários extra bíblicos fascinantes ao texto de Atos, mas também falharam em mostrar que o argumento de Lucas foi afetado. Finalmente, Craig Keener discute a conexão da profecia programática de Lucas (Isaías 61.1-2) e Atos 1.8 com 2.16-21, interpretando Joel como “programático para Atos”[7]. A observação de Keener é bem próxima, mas a citação que faz de Joel não responde precisamente aos temas explícitos em Atos 2 e a questão de Isaías 59.19-21. Essas análises conseguiram apenas sugerir um mosaico de fontes para Atos 2 com uma narrativa incoerente[8].

Em contrapartida, este artigo mostrará que, embora com uma menor ocorrência de vocabulário idêntico, dependência literária em Atos 2 e dos capítulos próximos, aparecem como sinônimos e sutis alusões à estrutura ou sequência de eventos na profecia de Is 59.19-21 – a negligenciada promessa do redentor do Espírito da aliança[9].

Os primeiros capítulos de Atos ampliam a sequência de Isaías, que inclui:

(1) O forte som impetuoso (2) do vento/Espírito e as “palavras na boca”/”falando”(Joel 2), (3) que causa (4) o universal (5) medo do (6) nome de Deus e Sua glória. (7) Dessa forma, o redentor (Sl 16) (8) vem a Sião/Jerusalém (9) a Jacó/Judeus, que, sobre o arrependimento deles, (10) receberá a aliança/promessa do Espírito (11) que não se apartará dele e nem de seus filhos e nem dos filhos de seus filhos para sempre. Vamos examinar cada uma delas por vez. A sequência de apresentação neste artigo segue aquela de Atos como se aplicando à passagem de Isaías 59, mesmo que de início as duas divirjam um pouco. Cada seção cita um segmento relevante da passagem de Isaías seguida de uma discussão de sua aplicação aos primeiros capítulos de Atos.

A primeira parte desse artigo examina os primeiros cinco temas da correlação entre Is 59.19-21 e Atos. A segunda parte deste artigo tratará de temas da seção 6 até 11, com uma discussão das duas profecias programáticas que proporciona o assunto para o Evangelho de Lucas (Is 61.1-2) e Atos (59.19-21). O artigo conclui com uma breve pesquisa de algumas implicações práticas e teológicas deste estudo. Examinemos agora os cinco primeiros temas em sua sequência.

O SOM IMPETUOSO DO VENTO/ESPÍRITO

(‘Ele virá como uma corrente de águas, que o vento/Espírito do Senhor impele’)

A narração do Pentecoste começa com um fenômeno enigmático: “E de repente veio do céu um som, como de um vento veemente e impetuoso… línguas, como de fogo, foram vistas por eles [línguas] repartidas[10], como que de fogo, as quais pousaram [lit.:sat] sobre cada um deles.” (αὶ ἐγένετο ἄφνω ἐκ τοῦ οὐρανοῦ ἦχος ὥσπερ φερομένης πνοῆς βιαίας…καὶ ὤφθησαν αὐτοῖς διαμεριζόμεναι. γλῶσσαι ὡσεὶ πυρὸς καὶ ἐκάθισεν ἐφ ἕνα ἕκαστον αὐτῶν). Certamente, isso tem a intenção de soar como teofania[11]. Alguns explicam a inclusão que Lucas faz do vento e das línguas com os eventos do Sinai em paralelo ao Pentecoste[12], como simbolizando a inauguração de uma nova aliança[13].

A estrutura literária em Atos 2.2, porém, parece mais próxima a Isaías 59.19b do que com a narrativa do Sinai em três pontos: 1) Enquanto no Sinai Deus desce no monte “em fogo” (LXX Ex 19.18) e, na verdade, há os sons (αἱ φωναὶ) das trombetas e a “resposta” de Deus (φωνῇ) traduzida como “trovão” na RSV, a relação literária é menos clara do que é com Is 59.20, onde a rara palavra para som “impetuoso/violento” (βιαίoς)[14] também ocorre em Atos 2.2 (βιαίας). 2) Em Atos 2.2 o ‘vento veemente e impetuoso’ (φερομένης πνοῆς βιαίας, Atos 2.2) ecoa a linguagem de Is 59.19b, אובי־יכּ רהֹנכ רצ חוּר הוהי הססנ וב (Porque Ele virá como um rio/corrente por uma estreita passagem [que] o vento [ou Espírito] de Jeová impele). O grego φερομένης em Atos corresponde a הססנ em Hebraico[15]. 3) E ambas as passagens, a polivalente característica de ח-וּר/ πνοῆς, respectivamente, sugerindo tanto ‘vento’ ou Espírito’ divino propõe um acentuado padrão em paralelo: aparecendo primeiro como um vento impetuoso e depois como o Espírito da aliança. Em Is 59.19 o vento (תרו) de Jeová impele o som corrente das águas, gerando temor de Deus por todo o mundo. Assim no versículo 21, a mesma palavra (תרו) é usada como o Espírito da aliança conferido ao profeta e seus descendentes. Semelhantemente, em Atos 2 o vento impetuoso (πνοῆς) ‘dos céus’, uma perífrase para Deus, imediatamente emerge como o πνευμα concedido aos 120 e por último aos 3.000 (2.4). Além disso, causa perplexidade, admiração (2.5-7), falando em suas próprias línguas, “as poderosas obras de Deus” (2.10). Porém, este ‘vento impetuoso’ é integrado com outro elemento repetido em Is 59.21, que Lucas enfatiza com abundante repetição.

AS PALAVRAS NA BOCA/DISCURSO

(‘meu espírito que está sobre ti, e minhas palavras que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca, nem da boca da tua descendência, nem da boca da descendência, da tua descendência)

Alguns estudiosos têm corretamente registrado a relação do Espírito e as repetidas referências do falar em línguas em Atos.

E a todos os que estão longe (>דע םלוע, cf. A todos quanto o nosso Senhor  nosso Deus chamar (2.38-39). Este ‘limitado e temporário’ vs. ‘universal e ‘permanente’ contraste pode estar por detrás da frase, ‘toda a casa’(ὅλον τὸνοἰ˜κον) possivelmente uma alusão para a presença do Senhor e a benção da Arca da Aliança que esteve apenas três meses com Obedom e ‘toda a sua casa’ (εὐλόγησεν κύριος ὅλον τὸν οἰ˜κον) – uma frase idêntica. Entretanto, a iniciação teofânica do chamado de Isaías como profeta, retratando Deus ‘assentado’ e enchendo a casa com a sua glória (πλήρης ὁ οἰ˜κος τη˜ς δόξης αὐτου˜) pode moldar o texto de Atos 2.3.

Enquanto não há desacordo sobre o resultado das conclusões teológicas, as repetidas referências de Lucas ao discurso inspirado pelo Espírito em Atos 2 expressa uma função diferente: enfatizar outro elemento de cumprimento dessa passagem programática: Is 59.21. Em Atos 2.2-4, Lucas mistura dois elementos de seu texto em Isaías: o ‘impetuoso’ som do v. 19 e a quíntupla referência ao discurso: ‘palavras…boca…boca…bocas…bocas’ do v 21 como o fenômeno que confere à audiência internacional uma temerosa atenção, discutida abaixo[16].

Ananias foi enviado a curar e comissionar Saulo, o agressor do povo do Senhor, como Elias aos invasores sírios cegos vindo de Damasco (2ª Reis 6.18-23). Assim, enquanto Saulo estava (g) em Damasco, (f) cego e jejuando, recebeu sua visão (um ato definido de Jesus, Is 61.1), (e) foi batizado (entrou na aliança do Espírito do redentor/Jesus, que Saulo ousadamente anunciou) (d) foi para Jerusalém (vs 26-29) (c) foi ‘fortalecido’ e foi (sem restrições/livre – Is 61.1-2) ‘entrando e saindo com eles em Jerusalém’ (v.31), (a) anunciando/fornecendo/ ensinando ousadamente (o Espírito sobre você e palavras na sua boca’ Is 59.21), porque Paulo, como a Igreja (vs 31) experimenta o [profético] consolo (τῃ˜ παρακλήσει) do Espírito Santo (πνεύματος ἁγίου). A narrativa da conversão de Paulo é ligada com temas de duas passagens programáticas de Lucas e Atos Is 61-1-2 e 59.19-21. O resumo (9.31) reflete novamente os temas de Is 59.19-21. Após Saulo, o proclamador de Jesus e seu Espírito se dirige às cidades gentias de Cesareia e Tarso, ‘a igreja por toda a Judeia e Galiléia e Samaria tinha paz e eram edificadas; andando no “temor do Senhor” [Is 59.19] e na consolação do Espírito Santo se multiplicava’. A paradigmática experiência de Saulo é repetida em Atos 10.45-46; 11.1. ‘Agora os apóstolos e os irmãos que estavam na Judeia ouviram que os gentios também receberam a palavra de Deus… [Para Cornélio: Pedro] o qual te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa … E, quando comecei a falar, o Espírito Santo caiu sobre eles, como também sobre nós no princípio. E me lembrei das palavras do Senhor, quando disse: João certamente batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo’. Portanto se Deus lhes deu o mesmo dom que a nós, quando havemos crido no Senhor, quem era então eu, para que pudesse resistir a Deus? E eles glorificaram a Deus, dizendo, “Até aos gentios [para ‘aqueles que estão longe’]  Deus deu o arrependimento para a vida.”

A noção de ‘palavra de Deus’ na Escritura não deve ser confundida com a explanação tradicional de pregação e doutrinas. Ao contrário, Lucas-Atos parecem conferir o mais bíblico sentido de ‘palavra de Deus’ como expressão principalmente do poder de Deus que efetua e também expressa os propósitos dele. Logo, “receber a palavra de Deus” em Lucas-Atos significa essencialmente não apenas apreender ideias, mas receber poder do Espírito da aliança que coloca as “palavras de Deus na tua boca”.

Para demonstrar o cumprimento da profecia da aliança, Lucas reitera a própria ênfase de Isaías com relação ao Espírito prometido e o discurso[17].

1) No primeiro e direto resultado do enchimento do Espírito em Atos 2.4 é enfatizado por construção paralela: “foram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.” [18]

2) Interessantemente, os verbos cheios/deu deram resultado a palavras, uma sequência que segue Is 59.21, ‘Meu Espírito que está sobre ti, e minhas palavras que coloquei na tua boca. Talvez para mostrar a relação desse tema, Lucas altera o locus do Espírito em Isaías de ‘sobre’ para (ךָילע LXX: πνευ˜μα τὸ ἐμόν ὅ ἐστιν ἐπὶ)[19] cheios (ἐπλήσθησαν) aqueles que lhes concedia. Essa descrição torna claro que o Espírito doador de discurso de alguma forma estava dentro dos que o receberam, daí as palavras estavam em suas bocas como Isaías descreveu. Lucas ainda ecoa a LXX quando usa o mesmo verbo para Espírito ‘concedendo’. δίδωμι: ἐδίδου (imperfeito em Atos) e ἔδωκα (aoristo em Isaías).[20]

3) Pelas bocas da multidão, Lucas oferece um quádruplo testemunho do cumprimento do tema “falando” de Isaías: “cada um os ouvia falar na sua própria língua.” (2.6) […] ‘Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?’ (2.8) […] falar em nossas próprias línguas?’ (2.11)[21].

4) Após o uso de um arcaísmo do Antigo Testamento, Pedro levantou a voz’[22] em fórmula de discurso que introduz duas seções proféticas, Joel 2 e Salmo 16, é semelhante: “escutai as minhas palavras” (2.14,22). Pedro repetidamente salienta “seja-me lícito dizer-vos” (2.29), “e com muitas outras palavras ele testificava e os exortava, dizendo […],” resultando em: “os que receberam a sua palavra…” (2.40-41). A esse respeito, Joel, Davi e mesmo Deus (o Jesus exaltado) são retratados como profetas que falam (2.16, 25,31,33,34 respectivamente).

5) O acréscimo de Lucas, “e eles profetizarão” nessa citação de Joel chamou a atenção dos estudiosos que ofereceram uma variedade de razões para essa inserção[23]. Se, entretanto, Lucas deseja salientar a relação do Espírito com discurso para apoiar sua tese que Is 59.21 está aqui sendo cumprida, então esse acréscimo é compreensível. Em tudo isto, o objetivo de Lucas parece apresentar impressionante evidência da relação com o Espírito e “palavras na boca”, um importante tema em Is 59.21 e nas demais conjecturas em Atos onde o Espírito é derramado[24].

QUE CAUSAM

 (‘Pois/Por causa’)

Um pequeno, mas significante detalhe em ambos os textos demonstra de uma forma ainda mais clara a dependência de Lucas sobre Is 59. A relação causal entre o som teofânico e a reação temerosa dos ouvintes internacionais é explícita em ambas as passagens. Is 59.19 afirma que a resposta universal de medo tanto do nome e da glória[25] de Jeová dá-se como resultado ou “por causa de” (כִּֽי־ LXX: γὰρ) do som teofânico. Lucas amplia essa conjunção em: γενομένης δὲ τη˜ς φωνη˜ς ταύτης συνη˜λθεν τὸ πλη˜θος (‘e correndo aquela voz, ajuntou-se uma multidão’): com essa ampliação, parece que ele estabelece o cumprimento através deste detalhe em sua passagem de Isaías. O som está aqui ligado com uma maior ampliação e ênfase da profecia: os temas do temor de Deus[26].

O UNIVERSAL TEMOR DE DEUS

(‘do oeste e…do nascer do sol’)

Por muitas gerações o universalismo de Lucas tem sido comum entre os comentadores[27]. Lucas diz: ‘novas de grande alegria, que será para todo o povo’ (Lucas 2.10), salvação… preparada perante a face de todos os povos, uma luz para as nações’ (Lucas 2.30-31), a genealogia de Jesus associada ao progenitor de todos os povos, Adão, vs o Evangelho de Mateus a Abraão (Lucas 3.38), e o anúncio de João de que toda carne verá a salvação de Deus (Lucas 3.6). Lucas termina seu Evangelho com a instrução ‘e, em seu nome, se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados, em todas as nações, começando por Jerusalém’ (Lucas 24.47). Atos reitera essa instrução para ser testemunhada “até os confins da terra”(1.8)[28].

A questão, porém, é porque Lucas destaca esse assunto? A explícita referência à profecia de Joel certamente confere apoio para a diversidade, ao universal, com certeza, mas com um foco no derramamento do Espírito na estrutura social [29]. Por outro lado, a passagem de Isaías 59 enquadra-se melhor no foco internacional ou geográfico de Atos 2.5, 9-11a. De fato, a descrição do grupo listado por Lucas  é: “homens de todas as nações debaixo dos céu” (v. 5, também 4.12) [30]. “Debaixo do céu” pode ser sugestivo da trajetória do sol no firmamento (2.19-20), o sol que nasce e se põe, sobre todos os povos de todas as regiões geográficas. Na maioria das vezes que a expressão ‘do levantar ao cair do sol’ aparece na Escritura Hebraica, o reconhecimento do Senhor está em questão [31]. Esse é o caso também em Is 59.19, ‘Eles temerão o nome do Senhor desde o poente, e a Sua glória desde o nascente do sol (heb. ברעמ˙מ > ברע, ‘entrar, ir, recuar – o movimento do sol) e [temer] [32] a sua glória desde o nascente do sol.

Lucas lista 17 nações, incluindo a Judeia e a Galileia, que parecem ser representativas do mundo conhecido. Lucas usa especificamente Is 59.19 para mostrar o temor universal, e talvez hegemonia, de Cristo Senhor.[33]

 O TEMOR DO NOME DO SENHOR E SUA GLÓRIA

(Eles [temerão] o nome do Senhor desde [o poente] e Sua glória, desde o nascente’.)

Dado que a reação característica do mundo a poderosa, veemente incursão do Senhor em Is 59.19 é ‘temer’- o nome do Senhor e de sua glória – então parece que Lucas está incrivelmente por repetição parafraseando este tema por cinco vezes! Os verbos: ‘pasmados’ (συνεχὺθ, 2.6)… ‘maravilhados e dizendo’ (ἐξίσταντο δέ καὶ ἐθαύμαζον, 2.7) … ‘maravilhados e perplexos’ (ἐξίσταντο δέ πάντες καὶ διηπόρουν, 2.12), todos parecem parafrasear o verbo de Is 59.19, ‘temer’  רְאי< וְיִֽירְא֤וּ)  LXX: φοβηθήσονται). Em todos os casos, a ‘reação de temor’ é enfatizada e ampliada – todos em resposta aos sons que a diversificada multidão estava ouvindo.

Este uso do ‘temer’ de Isaías em Atos 2 também responde a recorrente questão: porque Lucas cita o fenômeno celestial de Joel, já que parece quase estranho ao relato da vinda do Espírito? Seguramente há mais sobre a citação do que elementos verbais para abordar, ‘todos os que invocam a Deus serão salvos.’[34] A seção mostra que Jesus exaltado realiza maravilhas e é soberano nos céus e na terra (2.19; 2.22, cf.4.24; 14.15; 17.24). Se, entretanto, o resultado esperado da vinda do ‘dia do Senhor’ e do Espírito é medo, então esses presságios teofânicos que provocam ansiedade certamente contribuem para isso[35].

Lucas pode aqui estar de novo mostrando por alusão o cumprimento de vários temas chaves: céu, sol, a vinda do Senhor, com o resultado de uma aparição universal de Joel 2.32: ‘todo aquele’ e ‘nome do Senhor’ – todos eles ecoam a passagem de Isaías.[36]

Os quatro usos da expressão ‘perguntar’, em sua forma de verbo identifica a resposta da multidão aos eventos do Pentecoste. Mas em sua forma nominal o termo se estende a resposta aos eventos celestiais de Joel (‘prodígios … e sinais’ 2.19), os ‘sinais e prodígios’ de Jesus exaltado (2.22) e as ‘maravilhas e sinais’ dos apóstolos (2.43)[37]. Aqui sumarizado: “E temor caiu sobre toda alma.” Certamente o arrependimento, batismo e devoção aos ensinos dos apóstolos, a fraternidade, as orações e refeições em comunhão todas expressam o “temor do Senhor”, mas o tema do ‘porque’ parece aludir um temor mais universal e amplo em ‘cada alma’.[38]

A relação do ‘porquês’ entretanto, envolve uma progressão: o derramamento do Espírito e discurso que causam ‘maravilha’, (2.7) e presságios a ‘maravilha’ nos ‘acima nos céus e embaixo na terra’- a expressão do poder divino no cosmos[39], o qual os espectadores recém experimentaram no poderoso, imponente vento. Tudo isso serve de introdução para ‘o dia do Senhor, o grande e manifesto dia’ – o dia do redentor de Isaías. Estas maravilhas expressam a mesma fonte como ‘obras poderosas, maravilhas e sinais’ de Jesus, ‘que Deus por ele fez no meio de vós, como vós mesmo sabeis’ (2.22). Quando ‘maravilhas’ e ‘sinais’ são feitos pelos apóstolos, isto significa, que estes são expressões físicas de Jesus, que, ‘tendo recebido do Pai o prometido [aliança] Espírito Santo, ele derramou [expressão de Joel] este que vocês veem e ouvem!’ O crucificado, o desgraçado Jesus, efetivamente, tomou a função de Deus: estas “maravilhas” são uma atribuição da sua entronização (cf. Lc 22.69): “assente-se à minha direita, até que ponha os teus inimigos como escabelo para os téus pés.” Dessa forma, Jesus é retratado como gerando tanto as maravilhas no céu e os sinais na terra (‘Eu mostrarei maravilhas acima no céu e sinais embaixo na terra’). Pedro então recolhe a rede: “Saiba, pois, com certeza toda a casa [inclusive os líderes traidores?] de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo’, logo, há relação de ‘temor sobre toda alma’ e as ‘maravilhas e sinais’ dos apóstolos.[40]

Essa resposta de temor, então, parece resumir a resposta universal aos eventos do Pentecoste, que para Lucas, é identificado com o temor universal de Deus descrito em Is 59.19. O capítulo conclui, significantemente, com uma glorificação a Deus (2.43) – uma expressão de temor devoto – sendo visto com ‘graça’ por ‘todo o povo’, ecoando novamente os temas de Isaías 59. Lucas, entretanto, se esforça para enfatizar que este ‘temor’ universal cumpre ainda outro tema de nossa passagem.

(Is 24.14, 16: ‘Dos confins da terra ouvimos cantar’ (ףנֺכמ ץראה תרמז זּנעמשׁ) Lucas novamente abandona a LXX aqui para o Hebraico. Na escuridão da meia-noite (‘o sol está envergonhado’), de repente (ἄφνω < Atos 2.2) os ‘fundamentos’ (τὰ θεμὲλια < Is. 24.18d) tremeram’. A conversão do carcereiro segue Is 59.19-21 e a promessa da aliança do Espírito para ele e seus filhos. Ele ‘temeu muito’. Mas Paulo e Silas disseram, ‘Creia no Senhor Jesus, e você e sua casa serão salvos.’(16.31).’E eles pregaram a palavra do Senhor para ele e para todos os que estavam em sua casa’ (v. 32) , ‘e  logo foi batizado, com toda a sua casa’ (v.33), e ‘alegrou-se com toda a sua casa’ (v.34). É este ainda outro exemplo da obsessiva repetição de Lucas do cumprimento da Escritura, nesse caso, Is 59.21, ‘essa promessa é para vós, a vossos filhos, e a todos os que estão longe’ (Atos 2.39). ‘Colocarei meu Espírito sobre vós, e minhas palavras nas vossas bocas e na boca de vossos filhos… para sempre’ A história conclui com os líderes traidores sendo compungidos e ‘temeram’ (v.38).

O tema da injusta prisão e reivindicação do prisioneiro é substancial em Atos, como nos casos da prisão de Pedro (4.1-310, e João (5.17-4; 12.1-19) e prisões de (e por) Paulo (8.3; 9.1-20; 16.19-39; 22.4-27.44; 28.31). Os últimos sete capítulos de Atos registram a prisão de Paulo e repetidas reivindicações.

Continua no próximo…


Título original: The Programmatic Prophecy of Acts.

Tradução: Márcia Elias.


NOTAS E REFERÊNCIAS

[1] E.x., maiores comentários por C. K. Barrett, A Critical and Exegetical Commentary on the Acts of the Apostles: In Two Volumes. Edinburgh: T&T Clark, 1998); J. Dunn, The Acts of the Apostles (Valley Forge, PA: Trinity Press International, 1996); E. Haenchen, The Acts of the Apostles, A Commentary (Trans. B. Noble and G. Shinn, updated by R. McL. Wilson. Oxford: Blackwell, 1971); L. T. Johnson, The Acts of the Apostles. Vol. 5, Sacra Pagina Series (Collegeville, MN: The Liturgical Press, 1992); H. C. Kee, To Every Nation under Heaven: The Acts of the Apostles (Harrisburg, PA: Trinity Press International 1997); J. Pelikan, Acts (Grand Rapids: Brazos Press, 2005).

[2] Štefan Porúbčan, S.J. (Il Patto Nuovo in Is. 40-66 [The New Covenant in Isa. 40-66 ], Analecta Biblica 8 [Rome: Pontifical Biblical Institute, 1958]) discute Isa. 59.21, esp. in pp. 206-09, 259-60, mas não faz ligação com NT. Também, Wonsuk Ma, Until the Spirit Comes: The Spirit of God in the Book of Isaiah (Sheffield, UK: Sheffield Academic Press, 1999), pp. 151, 156. David W. Pao (Acts and the Isaianic New Exodus [Grand Rapids: Baker Academic, 2000], p. 116) lista uma referência a Is 59.21 somente em um nota de rodapé.Bart J. Koet (‘Isaiah in Luke- Acts’, ch. 5 in Isaiah in the New Testament, eds. S. Moyise and M. Menkin [London: T & T Clark, 2005], pp. 79-100) não mencionam Is 59 assim como K. D. Litwak (Echoes of Scripture in Luke-Acts: Telling the History of God’s People Intertextually [London: T & T Clark, 2005]). E também, Petrus Gräbe (New Covenant, New Community: The Significance of Biblical and Patristic Covenant Theology for Contemporary Understanding [Milton Keynes, UK: Paternoster, 2006]).

[3] John Christopher Thomas, in ‘The Charismatic Structure of Acts’ ( JPT, 10.13 [2004], pp. 19-30), defende que a estrutura de Atos é determinada por ‘fabricantes literários’ e.x., Atos 6.7; [8.3]; 9.[28-]31; 12.24; 16.5[-6]; 19.20, em cada caso resumindo o ‘propagar do Evangelho e o crescimento da Igreja’. Pode-se também observar que cada um desses criadores literários – declarações resumidas – envolve o propagar especificamente, da ‘palavra’ (poder profético) de Deus, minhas passagens suplementares entre parênteses. Ele demonstra que existe uma estreita correlação entre esse criadores e o conteúdo de cada exemplo: unção carismática pelo Espírito Santo nos indivíduos ( ‘filhos’? 2.39), espalhando-se geograficamente (de Jerusalém até Roma – os dois territórios de Is 59.19, oriente e ocidente! Este artigo mostrará isso a partir de Isaías ‘nome de Senhor/Jesus’, o exaltado, ativo Senhor/Jesus, Jerusalém’, ‘judeus’, ‘gentios’, ‘aliança/promessa’, sinais e maravilhas’. Um tema recorrente em Atos de aprisionamentos injustos com autoridades vindo a temer o nome do Senhor e liberando seus aprisionados cumpre outra profecia de Isaías (24.14-26) veja nota 39.

[4] Para uma intrigante reconstrução de como a audiência primitiva ‘ouvia’ as citações e alusões bíblicas na leitura de Lucas-Atos, ver a seção de François Bovon, ‘the art of quotation’  em seu ‘“How Well the Holy Spirit Spoke through the Prophet Isaiah to Your Ancestors!” (Acts 28.25)’, New Testament Traditions and Apocryphal Narratives, Princeton Theological Monograph Series (Allison Park, PA: Pickwick Publications, 1995), pp. 43-50. A cultura Judaica/Cristã consistia de pelo menos alguns que ‘examinavam as Escrituras diariamente’ (Atos 17.11) ou semanalmente (Lc 4.16, 2 Co 3.14-15; 1 Tm 4.13). A atitude para com a Escritura no Prológo do Sirac (1.1) é instrutiva. Na verdade como uma expressão da tradição do Hebraico mashal de sabedoria, Lucas-Atos, assim como outros livros do Novo Testamento, parecem fazer sutis alusões e padrões como um recurso de ensino, já que o inesperado ‘Aha!’ fenômeno de insight/descoberta após intensa ‘busca’ tem o efeito de reforçar a memória sobre aquele insight.

[5] ‘O argumento que molda a trama do enredo consiste de uma demonstração de que aquilo que os profetas disseram que aconteceria na verdade aconteceu, do nascimento … de Jesus de Nazaré até a missão de Paulo em Roma. Esse crédito sobre o enredo da estrutura profética é ainda mais visível em Atos. The Things Accomplished among Us: Prophetic Tradition in the Structural Pattern of Luke-Acts. JSNTSup 141 (Sheffield, UK: Sheffield Academic Press, 1997), p. 28. Para uma revisão do papel do enredo na narrativa em Lucas-Atos ver William Kurz, Reading Luke-Acts: Dynamics of Biblical Narrative (Louisville, KY: Westminster/John Knox Press, 1993), pp. 17-36.

[6] Craig Evans, ‘The Prophetic Setting of the Pentecost Narrative’, ZNW 74.1-2 (1983), pp. 148-150. A lista de Evans’s na nota 6 mostra que enquanto na verdade Lucas e Joel compartilham palavras comuns, eles não compartilham uma narrativa coerente tal qual Atos 2 faz com Is 59.19-21.

[7] Craig Keener, The Spirit in the Gospels and Acts: Divine Purity and Power (Peabody, MA: Hendrickson, 1997), p. 190.

[8] A. J. M.  Wedderburn, ‘Traditions  and  Redaction  in  Acts  2.1-13’,  JSNT  55  (1994), pp. 27-54 (27). O artigo suplementa o trabalho de G. Lüdemann, Early Christianity according to the Traditions in Acts: A Commentary (London: SCM, 1989). Esses estudos dos pormenores das ‘fontes’ por detrás do texto sugere uma falha em separa-se de uma cultura acadêmica moderna e aglomerar ‘fontes’ e documentos para valorizar o processo historiográfico de Lucas e seus escritos. Por seu próprio relato, a cultura Cristã de Lucas incluia muitas viagens, exposição a maior parte das poucas comunidades Cristãs, uma familiariedade com as numerosas testemunhas dos eventos que ele registrou. É passado o tempo da propagada noção de que a ‘igreja’ para qual o documento do NT foi escrito era uma comunidade tão fechada que não ‘conhecia’ a mais ninguém. Pesquisas recentes demonstraram substancial troca de teologias e ideias na igreja primitiva. Ver, ex., Richard  Bauckham (ed.), The Gospels for All Christians: Rethinking the Gospel Audiences (Grand Rapids: Eerdmans, 1998). Lucas escrevendo práticas e visões  para a sua obra, então, não se limitava a editar uma massa conflitante de doumentos, como um moderno acadêmico da Bíblia. Se existia material oral ou mesmo escrito sobre o Pentecoste, seria o caso de Lucas os conhecer, mesmo até que não fizesse notas de rodapé em seus escritos, tal como Wedderburn (Traditions and Redaction, p. 30, n. 6) sugere em seus comentários em J. E. H. Hull (The Holy Spirit in the Acts of the Apostles [London: Lutterworth Press, 1967]). Barrett tenta reconstruir o processo de coleta de ‘informação’ feito por Lucas, não necessariamente fontes literárias, e conclui que Lucas não estava interessado em criar uma obra prima literária de ‘arranjo habilidoso’ e ‘de precisão cronológica’( Acts, vol. 1., p. 57). Mais do que buscar pela mensagem de Atos em uma variedade de estranhas fontes seculares, não poderíamos simplesmente considerar a séria metodologia de Lucas (Lc. 24.27, 44-48; cf. At 1.16, 20) buscando pelos cumprimentos’ das Escrituras que reinvindicam a missão de Jesus ‘de acordo com o definido e de antemão conhecido plano de Deus e a própria orientação de Jesus em relação à Escritura? Para um resumo das recentes abordagens hermenêuticas para Atos ver ‘Madness in the Method? The Book of Acts in Current Study’, Currents in Biblical Research 2.2 (2004), pp. 223-93.

[9] Então temerão o nome do Senhor desde o poente, e a sua glória desde o nascente do sol; então virá como uma corrente de águas, que o vento/Espírito do Senhor impele. E virá um Redentor a Sião e aos que em Jacó se converterem da transgressão, diz o Senhor. Quanto a mim, esta é a minha aliança com eles, diz o Senhor: o meu espírito, que está sobre ti, e as minhas palavras, que pus na tua boca, não se desviarão da tua boca nem da boca da tua descendência, nem da boca da descendência da tua descendência, diz o Senhor, desde agora e para todo o sempre.

[10] A descrição inexplicável de línguas individuais como ‘fendidas’ ou ‘repartidas’ ou ‘divididas’ para διαμεριζομεναι, como representada na mitra de um bispo, parece inapropriada. Noutro lugar sinais, maravilhas, milagres, e os dons do Espírito Santo são ‘constituídos’ ou ‘distribuídos’ (μερισμοις), em Hebraico.

[11] 2.4 Isto é semelhantemente descrito em 1 Co 12.7 e 11. Ademais, διαμεριζω é usado para descrever a distribuição do pão na páscoa em Lc 22.17 e na vestimenta de Jesus em 23.34. A RSV parece acertar: ‘distribuído’ como benefícios destacando o ‘dando’ ou ‘colocando’ o Espírito do discurso profético ( ‘línguas’) sobre cada um dos ‘filhos’ de Israel, os 120 (Is 59.21)

[12] Hull, The Holy Spirit in the Acts of the Apostles, pp. 31-32 Isto é negado por J. D. G. Dunn, (Jesus and the Spirit [London: SCM Press, 1975], pp. 140-41), embora a negação de Dunn pareça contradizer essa associação que ele faz em seu Baptism in the Holy Spirit (London: SCM Press, 1970), pp. 47-49. A analogia do Sinai, embora possa ser útil ao propósito de Lucas, é no mínimo, incidental e restrita a esse fenômeno (Atos 2.2-3): seus temas não se prolongam por todo o capítulo como em Is 59.19-21.  Todavia, a aliança do Sinai sugere mais do que receber um novo código de ética e identidade nacional, como a teologia tradicional enfatiza. (Ver o tratamento do tema do Sinais em Atos 2 por Max Turner, Power from on High: The Spirit in Israel’s Restoration and Witness in Luke-Acts [Sheffield, UK: Sheffield Academic Press, 1996], pp. 179-89). Mas, a implícita analogia com o Pentecoste (a celebração da Festa no Sinai, ou Shevou’ot, ‘primícias’) representa a aliança feita com os israelitas para ser ‘sacerdotes’, quer dizer, aqueles que receberam revelação de Deus para passar a outros. Pelo menos, o Pentecoste como uma festa agrícola de celebração dos primeiros frutos (do Espírito) é uma analogia observada por Paulo (Rm 8.23). O termo ‘primeiros frutos’ também sugere pelos múltiplos dos 12 e do Espírito o surgimento de protótipos do ‘Novo Israel’ (Tg 1.18; Ap 14.3-4), os 120 (provavelmente não uma alusão aos 120 sátrapas sobre o mundo gentio em Dn 6.1 como se os 12 fossem governar sobre as 12 tribos de Israel, LC 22.29-30) guiados pelos 12, que foram recém ratificados pelo divino no contexto imediato – uma seção demasiadamente longa (Atos 1.16-26). Assim, Dunn, Jesus and the Spirit, p. 183. Interessantemente, em Lucas 9 e 10, os 12 e 72, respectivamente, (representantes do Novo Israel?) foram comissionados para anunciar/apresentar o Reino de Deus.

[13] Alternativamente, pode-se argumentar que Lucas está inserindo aqui um paralelo de constrate (a nova aliança vs a antiga, como 2Coríntios 3) com os eventos de Números 11, que ocorreu imediamente após os eventos do Sinai:

  • Deus enviou fogo sobre os filhos de Israel para puni-los pela murmuração (11.1-3, cf. Is 29.24); em Atos Deus envia línguas de fogo sobre os 120 (e os ‘homens de Israel’ 1.15; 2.22,36) para ‘falar dos poderosos feitos de Deus’(2.11).
  • Os filhos de Isarel mais tarde estavam ‘assentados e chorando’ (καθίσαντες ἔκλαιον, 4); em Atos 2.3 a bênção (Lc. 24.50-51) das labaredas teofánicas “pousou sobre eles’ (ἐκάθισεν ἐφ’ ἕνα ἕκαστον αὐτω˜ν) ‘onde estavam sentados (οὑ˜ ἠ˜σαν καθήμενοι) ‘falando das grandezas de Deus’. Antes (Lc 24.49) Jesus ordenou os discípulos a ‘ficar na cidade’ (lit. ‘sit’ καθίσατε), que pode ser um eco da narrativa de Elias/Eliseu na LXX Four Kingdoms 2. Croatto, ‘Jesus, Prophet Like Elijah, and Prophet-Teacher Like Moses in Luke-Acts’, JBL 124.3 (2005), pp. 456-57.
  • Em Números 11 o Espírito vem sobre os 70 ançiões, e ‘eles profetizaram’ (11.25). Entretanto, Moiséis desejou que ‘todo o povo do Senhor fosse profeta, e que Deus colocasse o Espírito dele sobre ele!’ (11.29) Em Atos o Espírito veio sobre 120, expressão de “todo o Israel’- ‘cada um deles’.

Números registra que enquanto 70 profetizaram, ‘mas depois nunca mais’ (11.25), implicando a retirada do Espírito. Atos afirma que a ‘promessa é para vocês e para seus filhos”.

[14] A LXX, βιαίας, traduz uma expressão em Hebraico: ‘como um estreito rio ou constrito’(רהֹנכ רצ). O ‘I-shaped’ ribeiros (regatos) na encosta Norte-Sul de 900 metros de cumeeira em Judá era notório por seu violento, fluxo barulhento quando afunilado em passagens estreitas, com apenas poucos metros de largura, mas com 30-50 metros de profundidade, então por isso o heb., רצ (‘constrito’). A LXX, talvez não familiarizada com esse fenômeno, apesar disso captura o sentindo: ὀργὴ, raivoso, violento.

[15] Ou, ‘faz fugir’. O verbo hebraico é o polel de  סונ,, ‘fugir’.

[16]  A conexão de Lucas com a vinda do Espírito da aliança é com o discurso, como ecoa de Is 61.1-3 e 59.19-21. O capítulo 9  diagrama estes cumprimentos em um paralelo de constrate: a) respiração e morte (ἐμπνέων) b) contra os discípulos do Senhor, c) amarrando eles; d) deixou Jerusalém, e) encontrou Jesus, f) ficou cego e g) foi para Damasco.

[17] Isto é verdade porque o modelo de Lucas aqui (Is 59.21) identifica as palavras de Deus com as do próprio profeta (Ma, Until the Spirit Comes, p. 140). O’Reilly (Word and Sign: A Study in Lucan Theology [Rome: Editrice Pontificia Università Gregoriana, 1987], pp. 69-70) mostra que o sermão de Pedro no Pentecoste é estruturado ao redor da centralidade ‘da palavra’.

a (14) Σταθεὶς δὲ ὁ Πέτρος σὺν τοι˜ς ἕνδεκὰ … b ἐπη˜ρεν τὴν φωνὴν αὐτου˜ και ἀπεφθέγξατο c τὰ ῥήματά μου.

d (17) ἐπὶ πα˜σαν σάρκα

e οἱ υἱοὶ ὑμω˜ ν καὶ θυγατέρες ὑμω˜ν  f (18) ἐκχεω˜ ἀπὸ του˜ πνεύματός μου g (19) τέρατα … καὶ σημε˜ια τέρατα h (21) τὸ ὄνομα κυρίου

i (21-22) σωθήσεται … ἀκούσατε τοὺς λόγους τούτους

h’ (22) Ἰησου˜ν τὸν Ναζωρα˜ιον

g’ τέρασι καὶ σημείοις

f ’ (33) του˜ πνεύματος τού ἁγίου … ἐξεχεεν

e’ το˜ις τέκνοις ὑμω˜ν

d’ καὶ πα˜σιν το˜ις εἰς μακράν

c’ (40) ἑτέροις τε λόγοις πλείοσιν b’ διεμαρτύρατο καὶ παρεκάλει a’ λέγων σώθητε

[18] A ênfase de Lucas sobre a dádiva do Espírito resultando em elocução é um ponto de vista não compartilhado por todos e.x., B. Duhm, Das Buch Jesaia (Göttingen: Vandenhoeck und Ruprecht, 5. Aufl., 1968), p. 406.

[19] Antes, em Atos 1.8, Lucas parece estar contente, ao referir-se a Isaías 59, mantendo a redação original, vindo sobre: ἐπελθόντος του˜ ἁγίου πνεύματος ἐφ’ ὑμα˜ς, onde o ‘sobre’ é repetido: ἐπελθόντος and ἐφ’ ὑμα˜ς. Em seu capítulo seguinte, Lucas destaca a ideia do Espírito e palavras na boca.

[20] A tradução da LXX compreende uma paráfrase ao final deste versículo, enquanto Lucas segue o texto hebraico. Lucas tende a corrigir seu texto da LXX ‘em direção a um Hebraico Vorlage’ (Koet, ‘Isaiah in Luke-Acts’, p. 87). Haenchen, Acts, p. 185, insiste que o uso de Atos da LXX aqui requer que o discurso de Pedro origina-se em Lucas. Uma explicação alternativa pode ser que Lucas usou a LXX onde podia porque seus leitores, que liam Grego, estariam mais familiarizados e confortáveis em consultar a tradução de sua língua nativa, como seria verdadeiro, assim como os leitores do Inglês hoje. O fato de Lucas corrigir a LXX, nesse caso, com o Hebraico original aponta para uma conclusão oposta a de Haenchen a respeito da fonte do sermão de Pedro.

[21] Lucas aqui está corrigindo a cobrança de alguns observadores que ao invés de serem preenchidos com o Espírito, os que falam em línguas estavam bêbados, essencialmente um acusação de falsa profecia, baseado na mesma crítica dos profetas Hebreus (ex. Jr 13.13; Is 28.7).

[22] A sugestão de Haenchen é baseada em ולוק אשנ, significando, sutilmente, ‘começar a falar’ (Atos, p 178, 3).Os paralelos do AT, entretanto, usam uma variedade de verbos, a maioria carrega a ideia de ‘levantando a voz’ usualmente clamando em alta voz ou falando alto ( e profeticamente) a um grupo, ex. Gn 39.15 ou Jz 9.7. Quando a expressão é usada por Lucas  carrega a ideia de alto ( Atos 14.11; 22.22) discurso profético (Lc 1.42; 11.27; Atos 4.24).

[23] Ex., Peter R. Rodgers, ‘Atos 2.18: ĸαὶ προφητεύσουσιν’ (JTS 38.1 [1987], pp. 95-97). O acréscimo de Lucas, ‘e profetizarão’ (ĸαὶ προφητεύσουσιν) pode aludir a um termo quase idêntico em Números 11.25, 26 e 1 Sm 19.20 onde a conexão de Espírito com a frase, ‘e profetizaram’ (LXX: ĸαὶ προφητεύουσιν) repete-se.

[24] Atos 10.46; 19.6 e provavelmente também em 8.18 onde o recebimento do Espírito era algo ‘visto’, como em 2.23 ‘derramou isto que vós agora vedes e ouvis’. A pregação apostólica é também marcada pelo ‘abrindo a boca’ como em At 8.35; 10.34; 18.14; cf ἀνοίξει του˜ στόματός μου em Ef 6.19, provavelmente baseado na exortação de Jesus em Lc 21.15. ‘Lucas é valioso, mas indiscriminado quanto a fazer perguntas a respeito de experiências religiosas das comunidades Cristãs primitivas… no caso da profecia: ele as fragmenta indiscriminadamente com glossolalia’ Dunn, Jesus and the Spirit, p. 195). A fragmentação de Lucas, entretanto, faz mais sentido se ele descreve o cumprimento de Isaías 59.21, que é o temor induzido pelas maravilhas do impetuoso vento como emblemático do ‘impelido Espírito’e acompanhado por ‘palavras na boca’.

[25] 25 ˙וארייו ברעמ˙ מ םשׁ־־תא הוהי ש˙משׁ־־חרזמ˙מוּ ודובכּ־־תא

[26] A noção de ארי (temor) e seus cognatos carrega o forte elemento de ‘respeito’  e ‘atenção’, ‘atentando’, ou ‘desejo de ouvir’. O verdadeiro ouvir resulta no reconhecido conceito de obediência que consiste em fé e fé que consiste em obediência.’ G. Kittel, ‘ἀκούω’, TDNT 1, p. 219.

[27] E.x., Haenchen, Acts, 169-71, esp. p. 169, n.5; A. Schlatter, The Theology of the Apostles. Trans. A. Köstenberger (Grand Rapids: Baker [1922] 1999), pp. 38-39; Gary Gilbert, ‘The List of Nations in Acts 2’, JBL 121.3 (2002), pp. 497-507; and W. R. Hanford, ‘Deutero-Isaiah and Luke-Acts: Straightforward Universalism?’ CQR 168.1 (1967), pp. 141-52.

[28] E Gilbert, ‘List of Nations’, p. 519.

[29] O ‘toda a carne’ certamente é um termo universalístico abundantemente confirmado nas Escrituras Hebraicas (Gn 6.17; 9.16; Is 66.23) mas carrega mais a ideia de ‘todos os tipos de animais ou humanos’ ou ‘variedades de pessoas’, e.x., macho ou femea, do que faz com ‘todas as nações ou povos do mundo.’ O contexto em Joel parece se dirigir a ‘filhos de Sião’ (2.23) ‘no meio de Israel’ (2.27)… ‘no Monte Sião e em Jerusalém (2.23; Hb 3.5). O material Paulino de diversidade – os tipos de pessoas e seus status  – na igreja parece parafrasear Joel 2.28-29, e.x., em Gl 3.26-29, cf Cl 3.11.

[30] 30 Atos também repete a expressão em 4.20 ‘não existe outro nome debaixo dos céus entre os homens pelo qual se pode  salvar.’ É o ‘nome debaixo dos céus’ uma alusão a Is 59.19?

[31] E.x., Sl 50.1 ‘O Senhor… falou e chamou a terra desde o nascimento do sol até o seu ocaso.’ Sl 113.3; Ml 1.11. Próximo a ideia de reconhecimento universal do Senhor e o fraseado de Is 59.19 é Is 45.6: ˙ועדי שׁמשׁ־חרזמּמ הבדעמּמוּ.

[32] O acusativo no Hebraico (˙ועדי שׁמשׁ־חרזמּמ הבדעמּמוּ.) toma forma de verbo, ‘temer’, então, é o temor de Deus que é universal, os termos ‘nome’ e ‘glória’ de Deus são usados aqui como metonímeos.

[33] E Gilbert, ‘List of Nations’, p. 519.

[34] Haenchen, Acts, p. 86; I. Howard Marshall, Luke: Historian and Theologian (Grand Rapids: Zondervan, 1971), p. 161; and Turner, Power from on High, p. 272.

[35] Ex. 15.11, 14; Dt. 4.34; Sl. 139.14; e, mais importante, Is. 24.16-23, como acima.

[36] Lucas pode estar usando o conselho rabínico de citar parte do todo, já que aquele que se lembra dessa passagem de Joel continua com o tema de Lucas em Isaías Sião/Jerusalém: ‘mas no monte Sião e em Jerusalém estarão os que escaparem, como disse o Senhor // e entre os sobreviventes aqueles que o Senhor chamar.’

[37] É claro que o exaltado Senhor Jesus está ‘derramando o que vós vistes e ouvistes’ que é maravilhas de teofanias entre os apóstolos (2.33). O derramamento implica expressões de entronização como descrito em Ef 4.7-13. A singular sequencia, ‘sinais e maravilhas’, descrevendo tanto eventos celestiais e os milagres dos apóstolos, parece cobrir a ideia de uma mesma fonte divina e essência Cristológica.

[38] Seria uma tentação aqui sugerir que este temor é uma resposta a percepção que alguém apoiou uma tentativa frustrada de ataque ao Messias. Essa é a questão central de Pedro: os eventos de teofanias do Pentecoste e as maravilhas que continuam e os sinais, características essenciais do Jesus terreno, estavam agora sendo manifestos entre os apóstolos. Esses sinais e maravilhas, então, representam a quase física presença do Senhor Jesus, mostrando o fracasso da revolta: ‘Este Jesus que vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo.’

Nessa conexão, Lucas pode ter dependido das alusões da retribuição divina de IS 24.14-26 para fazer o elo entre maravilhas dos céus e o temor dos ‘homens de Israel’, dessa forma dando racionalidade e cumprimento escriturístico para a introdução da traição e castigo de Jesus pelos pérfidos em Atos 2.22-23, 35-37. Contra o universal cântico e louvor ao Senhor em Is 24.14-16 um agudo contraste surge no v.17, tal qual na narrativa do Pentecoste. ‘Mas eu [Pedro?] disse, “… ai de mim! … sim, os pérfidos tem tratado perfidamente”… Naquele dia o Senhor castigará os exércitos do alto nas alturas, e os reis da terra sobre a terra. E serão ajuntados como presos numa masmorra, e serão encerrados num cárcere; e outra vez serão castigados depois de muitos dias [Joel 2.28-29; Atos 2.17-18] eles serão castigados. A lua se confundirá, e o sol se envergonhará; mas os do Senhor reinarão no Monte Sião e em Jerusalém e diante de seus anciões manifestará a sua glória (cumprido em Atos 1.15-26?). Então ‘homens de Israel’ que estavam entre ‘homens sem lei’ que traiçoeiramente (Is 24.16) crucificaram o redentor deles que maravilhosamente ‘veio a Sião’ está agora ameaçando punir tanto os céus e a terra. O interesse de Lucas na exaltação de Jesus (Lc 24.51 e Atos 1.9-11; 2.24-36) é ligado com não apenas a dádiva do Espírito e maravilhas, mas com proeminentemente, seu governo cósmico que também gera temor.

Lucas pode ainda aludir a Is 24.33 ao mencionar as trevas da hora sexta a hora nona em 23.44, embora ele não mencione um terremoto. Curiosamente, Mateus faz muito mais que isso (27.52-54, cf. 2Sm 22.8-10). De qualquer forma, o uso de Lucas de Is 24.14-23 é mais óbvio, embora invertido em Atos 16.22-39 onde líderes traiçoeiramente  ‘colocaram em prisão’ (δεσμωτήριον, Isa 24.22) Paulo e Silas. Todos os aprisionados, prisioneiros gentios, entretanto, foram libertados de suas algemas (Is 61.1c; Lc 4.18) após ouvirem os cânticos de louvor.

[39] Daniel 6.26c-27 ‘porque ele é o Deus vivo, e que permanece para sempre; seu reino nunca será destruído e seu domínio durará até o fim. Ele salva, livra e opera sinais e maravilhas nos céus e na terra…’ Cf. Is 24.23

[40] Nota Os temas do AT de maravilhas, nome, redentor, aliança, Israel/Jacó combinados em: Sl 77.14-15 (LXX:76.15-16): Tu és o Deus que faz maravilhas (ἄφνω < Atos 2.2) os ‘fundamentos’ (τὰ θεμὲλια < Is. 24.18d) tremem’. Tu com teu braço redimiu ao seu povo, os filhos de Jacó e de José’ Sl 78.4-6 (LXX:77.4-6); 105.5-10;111.2-10; 135.7,9,12-13; JR 32.20: ‘que fez sinais e maravilhas na terra do Egito, e neste dia em Israel  entre toda a raça humana, e fez para si um nome, neste dia. Trouxe seu povo Israel da terra do Egito com sinais e maravilhas, com uma mão forte e braço estendido, e com grande terror.’ As palavras em itálico indicam temas em Is 59.19-20.

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