O batismo da Teologia Reformada: com Espírito Santo e com fogo

“Quando recebemos o Espírito Santo, dizem as Escrituras que somos batizados “com o Espírito Santo e com fogo” (Mt 3:11). Esse “fogo” representa as santas emoções que o Espírito produz em nós, de modo que “nos ardia o coração” (Lc. 24:32). […] Mencionei somente alguns textos, de um sem-número deles, que colocam a verdadeira religião exatamente em nossas emoções. Se alguém quiser refutar meu pensamento, deve então jogar fora a Bíblia e encontrar outro padrão pelo qual julgue a natureza da verdadeira religião”. Jonathan Edwards. A Treatise Concerning Religious Affections.

Sempre que leio textos como este, a pergunta que obrigatoriamente me ocorre, pugna por investigar as razões pelas quais alguns insistem na controvertida conclusão de que o citado batismo com fogo não deve ser objeto de busca incessante pelo crente. Edwards nos adverte que não só devemos orar por aquele, como nos aponta em seu tratado quais são as evidências e efeitos mais distintivos na vida do crente acerca destes batismos.

A objeção a este entendimento parte do princípio de que no mesmo capítulo encontra-se uma estipulação (vv. 10 e 12), segundo os objetores, prioritária, de um machado ceifando árvores que não produzem fruto, estas consequentemente lançadas ao fogo, em adição com a pá que recolhe trigo e palha a fim de ajuntá-los no celeiro; um para ser batizado pelo Espírito, enquanto o outro, com fogo, como sinal condenatório. Indagam se estas menções não seriam apontamentos precisos sobre o fogo do inferno. Eu vou mais além, em busca de paradigmas bíblicos, no caso, em busca daqueles personagens que não produziram frutos segundo o critério corrente do que seja produzi-los. Descobri o ensino evidente em que a ênfase de Jesus sobre produzir frutos nem sempre segue a mesma ênfase dos teólogos. Isso não seria estranho nos dias de hoje, já que os fariseus de sua época corromperam a lei mosaica segundo suas conveniências.

Assim, convém perguntar: O ladrão penitente é palha? Que frutos ele produziu? Penso que é disso que Edwards fala. Embora não tendo sido batizado com água, o foi no Espírito e com fogo, dada censura que dirigiu a um igual que ocupava lugar oposto na cruz:

Tu nem ainda temes a Deus, estando na mesma condenação? E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez. E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino (Lc 23:40-42).

O problema de algumas teologias é que elas funcionam a partir da premissa necessária de mandar “os outros” para o inferno. Contudo, é interessante observar que a interpretação padrão atual não era tão popular entre os reformadores, nem alcançou supremacia incontestável entre os puritanos. Esta interpretação padrão muito em voga nos círculos reformados da atualidade, se vale da união dos versículos 11 e 12 de forma partitiva. Deste modo, como já disse, o trigo é batizado pelo Espírito Santo, enquanto que a palha é batizada pelo fogo. Embora eu acredite que seja possível fazer tal distinção, não creio que seja o mais recomendado. Acredito que o versículo 12 está adicionando informações ao versículo 11. Aquele que batizará, fará mais coisas a saber, distinguir a palha e o trigo. A celeuma estaria na forma em que essa distinção se dá. Alguns afirmam que o batizando com fogo é o ser humano impenitente, enquanto outros, que seria o pecado que corrompe o ser do convertido. E há gritante diferença nesses dois aspectos. Um toca no quesito ontológico, o outro, aborda as questões do predicado. Um foca no ser, o outro, em suas qualificações negativas. O motivo pelo qual acredito que esta última opção é a melhor forma de interpretar é a partícula “vos”. João está se dirigindo neste versículo (ainda que de forma mais ampla tenha falado aos fariseus e “toda gente” anteriormente) àqueles que estavam sendo batizados. Ou seja, pelo menos em tese, eles estavam se arrependendo de seus pecados:

E eu, em verdade, “vos” batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele “vos” batizará com o Espírito Santo, e com fogo.

Sendo assim, entendo que tanto o Espírito Santo, quanto o fogo, são batismos que têm uma mesma pessoa como objeto. Ainda que possa haver certo espaço à ideia de que os destinatários “batizandos” sejam diferentes, parece-me pouco provável.

Por outro lado, convém dizer que não é necessário se apegar à conclusão pentecostal de que deveríamos afirmar que o duplo batismo administrado pelo Espírito com água e fogo estabelece irrefutavelmente a teologia da “segunda benção”. Ao entender que os destinatários são os mesmos, eu estou mais inclinado a sustentar a ideia conceitual de enchimentos, como foi proposta por D.A Carson:

[…] Em resumo, eu vejo suporte bíblico para a tese de que todos os verdadeiros crentes receberam e foram batizados no Espírito Santo, ainda que ele não tenha sido derramado sobre cada um em quantidade equivalente (se me é permitido usar a linguagem de quantidade que está inerente na metáfora “ser cheio”). De que outra forma poderíamos explicar a unção específica que caracteriza o serviço de alguns ministros que, aparentemente, não a possuíam antes? Apesar de não encontrar apoio bíblico para a teologia da segunda benção, encontro apoio para uma teologia da segunda, terceira, quarta ou quinta benção. [tradução minha. grifo meu]. Showing the Spirit. Baker: 1987, p.160.

Podemos entender que o batismo com “fogo” é um intensificador do Espírito Santo que denota certo realce purificador em sua relação com o crente. Pelo menos é o que Calvino sugere:

A palavra fogo é adicionada como um epíteto, e é aplicada ao Espírito, porque ele tira nossas corrupções, como o fogo purifica o ouro. Da mesma forma, ele é metaforicamente chamado de água em outra passagem, João 3:5. [Harmonia dos Evangelhos].

Matthew Henry também não está distante desse diapasão:

Aqueles que são batizados com o Espírito Santo, são batizados como que com o fogo. Os sete espíritos de Deus aparecem como sete lâmpadas de fogo (Ap 4:5). O fogo ilumina? Também o Espírito é um Espírito que ilumina. O fogo aquece? E os corações não queimam dentro deles? O fogo consome? E o Espírito de julgamento . como um Espírito que arde, não consome as impurezas das corrupções dos pecadores? O fogo torna tudo o que alcança semelhante a si? E se move para o alto? Também o Espírito torna a alma santa como Ele mesmo o é, e tende a se dirigir para o céu. Cristo diz: “Vim lançar fogo na terra” (Lc 12:49). [Comentário ao Novo Testamento I, p. 24].

Essas definições não se afastam de certas tradições que se divorciaram do padrão hermenêutico dos reformadores. Falo das interpretações relacionadas à soteriologia, haja vista que muitos sustentem o componente soteriológico envolvido na perícope. Destarte, se o fogo é condenatório como se impõe, afirmam consequentemente que envolve a dinâmica relacionada entre salvação e miséria eternas. Portanto, até mesmo em tradições estranhas à teologia reformada a ideia do batismo com fogo tem o significado de purificação. Se estas proeminentes tradições não se divorciaram aí, duas coisas devem ser ditas: 1) A atual interpretação é fruto de uma preferência dogmática mais inclinada ao hipercalvinismo; 2) se a majoritária parcela de teólogos reformados, incluindo Calvino, optou pela via do fogo como elemento purificador e não condenatório, em associação com outras tradições, então esta interpretação deve merecer especial atenção.

Mas o que dizem as outras tradições? Talvez quem expresse a tônica com muita propriedade e de maneira sucinta é John Wesley:

Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo – Ele deve enchê-lo com o Espírito Santo, inflamando seus corações com o fogo do amor, que muitas águas não podem apagar. E isso foi feito, mesmo com uma aparência visível como que de fogo, no dia de Pentecostes.

Matthew Poole (1624-1679) afirma algo bastante parecido, embora mais naturalmente tenha sido influenciado, por óbvias razões, pelo background de Calvino e não de Wesley:

Ou, com o Espírito Santo e com fogo; alterando e renovando os corações daqueles que acreditam nele, pela operação do Espírito Santo, consumindo e destruindo outros que ele não vai acreditar, como com o fogo.

Sem maiores rodeios, Poole afirma um contexto com alcance duplo do fogo, tanto no mister de purificar o crente enquanto destrói as obras da carne, quanto na medida em que também é administrado como destruição do ímpio.

Por outro lado, John Gill foi um dos que embora tomando partido pela atual interpretação, discorreu acerca de ambas demonstrando de certa forma que assumir uma ou outra interpretação não deve ser motivo para dissensão entre nós. E como o assunto não assumiu contornos de polêmica naquele círculo que privava da proximidade com o Senhor, eu sustento que tal polêmica não vá além do que já foi. Se para alguns é fogo condenatório, que vejam essa condenação daquelas obras da carne, da qual somos purificados pelo Espírito. Neste sentido o batismo com fogo assumirá sim contornos que visam à condenação e extinção eternas, mas apenas daquilo que deve ser queimado em nossa natureza, servindo como instrumento de purificação daquele que recebeu o Espírito Santo no batismo. A água representaria o testemunho público da profissão de fé, enquanto o fogo, o selo da redenção. A santificação no cristão deve ser percebida tanto quanto foi o testemunho público da fé em Cristo como Senhor. Como reza a premissa, de que adianta chamar a Jesus de Senhor, Senhor, mas não obedecer-lhe os mandamentos? Cada um deve imitá-lo, sendo santo, porquanto sem santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). A propósito, o tema santificação permeia a Escritura como apontando uma evidência que extrapola o rito. O rito batismal, portanto, sinaliza uma formalidade, mas é a santificação em amor sacrificial que manifesta ao mundo de maneira absolutamente clara que somos filhos de Deus.

Se por um lado, teólogos como John Stott lutaram para erradicar qualquer noção dogmática de um inferno e seus tormentos, por outro, percebemos que algumas teorizações são produto de paranoia coletiva e vêem fogo estranho em tudo. E quem vê fogo estranho em tudo, não consegue enxergar o fogo verdadeiro; mesmo que a Verdade esteja bem diante dos olhos. Acaso não disseram que o Filho de Deus expelia demônios pelo poder de Belzebu? Os fariseus eram assim. Defensores criteriosíssimos da ortodoxia rigorista, não conseguiram discernir que estavam bem diante do cumprimento pinacular das antigas profecias. É certo que teologia esfria alguns, embora ela não devesse produzir esfriamento espiritual. Ela deve, preliminarmente, nos conduzir à compreensão de que as coisas espirituais se discernem espiritualmente.

Por fim, o que Edwards pretendeu dizer sobre o batismo com fogo? Creio firmemente que dizer que este seria a evidência da verdadeira conversão. E usa a expressão lucana quanto ao “coração que ardia” para expressar isto de maneira mais clara.

Tenho insistido com alguns para investigar mais a história de nossas tradições hermenêuticas. Há construções filosóficas que desconhecemos porque preferimos a comodidade de receber tudo mastigado e pré-digerido. Isso impõe ao intelecto inanição das mais odiosas. Além do mais, a agenda editoral brasileira parece-me estar mais comprometida com a dogmática e não necessariamente com a teologia bíblica que emerge do texto sagrado. Quantos de nós ignorávamos posicionamentos como os apontados aqui? E ignorávamos por absoluto desconhecimento, dada parcialidade com que as editorias manejam os assuntos e a agenda teológica brasileira. Ninguém pode crescer apropriadamente no conhecimento do Senhor se mantiver irrestritamente um compromisso com a teologia dogmática em oposição à teologia bíblica. Antes de tomar qualquer partido, é preciso conhecer as tradições e seus alinhamentos com a Palavra revelada, como Jesus asseverou em um de seus debates (Mt 22.29). Por vezes as tradições se desvirtuam, impondo a necessária obrigatoriedade de romper com esse desvirtuamento. Em resumo, seria uma escolha entre continuar com a teologia dos fariseus ou aprender com quem ensina como quem tem autoridade (Mt 7.29).

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