O batismo no Espírito Santo e os dons espirituais

“E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam em línguas, e profetizavam” (Atos 19: 5-6).

 

Eu creio que os “discípulos” (Atos 19:1) que Paulo encontrou em Éfeso eram crentes em Jesus. Paulo também pressupôs isso ao perguntar: “Recebestes vós o Espírito Santo, tendo crido?” (Atos 19: 2). Eles, porém, haviam sido batizados apenas no batismo de João Batista (sob confissão de pecados e não sob confissão do senhorio de Jesus Cristo) – Atos 19:3. Isso se dera porque Apolo, aquele que os evangelizou, só conhecia o batismo de João (Atos 18: 25). Com respeito, porém, ao anúncio de Jesus, a Bíblia diz que Apolo falava com “precisão”, sendo instruído no caminho do Senhor (Atos 18:25) e poderoso nas Escrituras (Atos 18: 24).

Se eles já eram crentes, não eram, todavia, batizados no Espírito Santo. Isso só aconteceu após a chegada de Paulo (Atos 19: 6). Ainda, porém, que não fossem crentes antes da chegada de Paulo, deveriam já ter se tornado depois dos esclarecimentos de Paulo e do batismo nas águas (Atos 19: 4-5). Somente após o batismo nas águas, Paulo lhes impôs as mãos para que fossem batizados no Espírito Santo (Atos 19: 5-6).

Não há, pois, que confundir a regeneração com o batismo no Espírito Santo. A regeneração é anterior ao batismo nas águas e nele representada. O batismo nas águas é administrado aos adultos após professarem sua fé. Os discípulos de Éfeso, entretanto, só receberam a plenitude do Espírito APÓS o batismo nas águas.

A experiência de Éfeso foi uma experiência definida. A imposição de mãos era acompanhada por oração específica para receber o Espírito e acontecia normalmente após o batismo em água (Atos 8: 14-17).

A ordem natural é o arrependimento seguido pelo batismo nas águas. Somente depois do batismo em água, vem o dom do Espírito Santo (Atos 2: 38). A Bíblia fala da “doutrina dos batismos e da imposição de mãos” (Hebreus 6: 2). Note como se fala em “batismos” (plural), relacionando-os à imposição de mãos. Isso se dá porque, na ordem habitual, a imposição de mãos acontece entre o batismo nas águas e o batismo no Espírito Santo. De modo excepcional, porém, alguém pode ser batizado no Espírito Santo antes do batismo nas águas (Atos 10: 44-48).

O batismo no Espírito Santo é uma experiência de impacto, como se pode depreender das expressões: “CAIU o Espírito Santo sobre todos” (Atos 10:44), “VEIO sobre eles o Espírito Santo” (Atos 19:6) e “de repente… todos foram CHEIOS do Espírito Santo” (Atos 2: 2 e 4).

Poderíamos definir o batismo no Espírito Santo como capacitação para serviço, poder para testemunhar concedido pelo Espírito Santo (Atos 1: 8). A Bíblia não o relaciona com a conversão nem com a santificação (que tem a ver com o “andar no Espírito” – Gálatas 5:6). Antes, está relacionado com a obra de Deus e o exercício da função no corpo de Cristo.

A capacitação para o serviço envolve primeiramente ousadia ou intrepidez sobrenatural: “… todos foram cheios do Espírito Santo e anunciavam com ousadia a palavra de Deus” (Atos 4: 31). Também envolve o acesso aos dons espirituais: “E, impondo-lhes Paulo as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (Atos 19: 6).

A Bíblia fala da associação do dom do Espírito Santo com a operação de milagres e carismas em geral:

Aquele, pois, que vos dá o Espírito, e que OPERA MARAVILHAS entre vós, fá-lo pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:5).

E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão… E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias e profetizarão” (Atos 2: 17, 18).

João Calvino, apesar de, às vezes, identificar o batismo com o Espírito Santo com a regeneração, em certas ocasiões, entendeu o batismo com o Espírito Santo como concessão de dons[1]:

            “… batismo com o Espírito Santo, isto é, as graças visíveis do Espírito Santo concedidas pela imposição de mãos. Não é novidade indicar essas graças pela palavra ‘batismo’. Como no dia de Pentecoste, é dito que os apóstolos relembraram as palavras do Senhor sobre batismo de fogo e do Espírito. E Pedro menciona a mesma coisa quando viu essas graças derramadas sobre Cornélio e sua casa, e seus parentes (At. 11:16)” (INSTITUTAS IV, xv, 18).

            “… Não é novidade o nome do batismo ser traduzido como dons do Espírito, como vimos no primeiro e no décimo primeiro capítulos (At. 1: 5 e 11:6) onde Lucas disse que Cristo prometeu aos apóstolos mandar o Espírito VISÌVEL, ele chamou isso de batismo… quando o Espírito desceu sobre Cornélio, Pedro lembrou as palavras do Senhor: ‘Sereis batizados com o Espírito Santo” (COMENTÁRIOS SOBRE ATOS 19: 5).

Conforme R. T. Kendall, sucessor do Dr. Martin Lloyd-Jones na Capela de Westminster, o Dr. M. Lloyd-Jones cria na atualidade e disponibilidade dos dons espirituais, bem como no batismo no Espírito Santo como experiência posterior à regeneração. Observa, inclusive, que “esta era a razão pela qual o seu editorial habitual não publicava seus livros sobre o Espírito Santo, um fato conhecido entre os que vivem na Grã-Bretanha[2].

Kendall diz que Lloyd-Jones se classificava como “metodista calvinista” (como Whitefield). Ele se animava com o avivamento do século XVIII por causa das poderosas manifestações do Espírito Santo. Assevera Kendall:

            “Doía muito em seu coração que tantas pessoas reformadas, que criam na sua teologia em geral, não receberam o que cria acerca do Espírito Santo. De uma maneira pública e privada, dizia vez após vez: ‘Sou um homem do século XVIII [o século de Whitefield e Wesley], não um homem do século XVII [o século dos puritanos]”.[3]

Onde e quando foi pregada a mensagem bíblica acerca do Espírito Santo, houve poder, mas também houve santidade. É dentro de um ambiente de muita sede de Deus e de busca de santidade que essa doutrina é redescoberta da forma equilibrada e bíblica.

Um verdadeiro mover do Espírito nos liberta de hábitos e preferência mundanas, elevando os padrões morais, a devoção e a reverência no culto. Deus tem prazer de coroar esse ambiente dando a compreensão prática da doutrina acerca do poder do Espírito e dos dons. Se essa igreja esfriar, fica apenas a casca como a de Corinto.

Igrejas sem santidade e equilíbrio doutrinário confundem os dons com extravagâncias, a liberdade do Espírito com danças sensuais, coreografias e ritmos inadequados para a adoração a um Deus excelso e santo.

Urge que cristãos bíblicos estejam na linha de frente, cheios do Espírito Santo, mostrando o modelo e elevando o padrão.Precisamos de um poderoso avivamento!


[1] Aqui não nos interessa a discussão sobre qual seria a crença de Calvino acerca da cessação dos dons. Essa discussão mereceria um artigo inteiro. Queremos apenas mostrar que a exegese de Calvino lhe permitia compreender o “batismo no Espírito Santo” como experiência relacionada aos dons.

[2] KENDALL, R. T. Holy Fire. Charisma House, 2014.

[3] KENDALL, R. T. Holy Fire. Charisma House, 2014

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Categorias: Batismo no Espírito,Reforma & Carismas

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