O desconhecido avivamento brasileiro da década de 60: Parte 2

[…]Continua

O pedido de 200 lideres presbiterianos

Segundo Boatright, no último dia da campanha de 1953 ele recebeu representantes de um grupo que estimou ter por volta de duzentos presbíteros e pastores presbiterianos. Eles pediram uma reunião privada com ele naquela noite.[1] Boatright estava com viagem marcada para regressar aos Estados Unidos no dia seguinte às 05:30 da manhã, mas ainda assim concordou de se reunir com eles após a campanha da noite.

Os lideres perguntaram a Boatright: “O senhor tem algo que nós não temos. Nós estamos vendo salvações e milagres na campanha que nós não vimos em nossos ministérios. O que tem você que nós não temos?”

Eu devo tomar um breve desvio aqui para explicar o pano de fundo da resposta de Boatright.

O Boatright era pentecostal, sim, mas ele sempre falava para mim e seus outros discípulos nos Estados Unidos que não havia ido ao Brasil  a fim de expandir o pentecostalismo. Assim, enquanto ele pregou que Jesus salva e cura, e sempre acreditava que os milagres aconteceram para estender a misericórdia de Deus aos sofridos e oprimidos, além de confirmar a verdade do evangelho de redenção. De fato, durante alguns anos do Avivamento ele nos disse que foi muito criticado por vários pentecostais por não falar abertamente sobre os dons do Espírito Santo ou por não falar em línguas estranhas. Ele nos dizia, “Eu explicava aos tais irmãos pentecostais que Deus não me enviou para o Brasil para pregar pentecostalismo. Ele me enviou para o Brasil para ganhar almas para Cristo por meio do evangelho.” 

Talvez isso explica porque em seu relato sobre o encontro com os presbiterianos, ele estava no primeiro instante hesitante para falar sobre o batismo do Espírito Santo e os dons extraordinários, assim como porque no inicio do seu encontro ele ressaltou que tinha o mesmo Deus, a mesma fé, Bíblia, e Evangelho que eles. Afirmou que não havia diferenças. Mas segundo Boatright, o grupo insistia, “Não! O senhor tem algo que nós não temos. Nos explique o que é!”

Finalmente, ele acabou de lhes dar a resposta que queriam. Ele então abriu a sua Bíblia e leu as passagens dos Evangelhos e Atos que falavam da Pessoa e poder do Espírito Santo. Daí ele explicava a necessidade do poder do Espírito Santo na vida dos que pregam o evangelho, e falou lhes sobre o batismo do Espírito Santo. Ao explicar-lhes tais coisas, os lideres presbiterianos pediram-lhe que ele impusesse as mãos sobre eles e que orasse pela unção do Espírito Santo. Ele impôs as mãos em mais ou menos vinte (20) dos lideres, e o Espírito Santo caiu sobre eles. Então os vinte colocaram as suas mãos nos seus colegas, e todos foram batizados no Espírito Santo.

Boatright partiu do Brasil no dia seguinte como estava planejado. Sua viúva (a Ruby) me disse que ela tinha filmagem em 16mm de alguns destes pastores despedindo-se de seu marido no aeroporto. A alegria deles foi palpável, ela me disse, e alguns foram obviamente progrediram sob o poder do Espírito Santo. Mas infelizmente, depois de décadas o filme se tornou pó.[2]

Testemunho do Boatright ao voltar aos EUA

Eu perguntei à viúva de Boatright como havia sido por ocasião de seu retorno de São Paulo em 1953. Seu marido era um homem fisicamente poderoso, um “homem dos homens” como nos costumamos dizer nos Estados Unidos. Mas ela me disse que depois de explicar os acontecimentos, ele desmaiou nos braços dela chorando e dizendo, “Ó Ruby, não fui eu, foi de Deus, foi totalmente de Deus.”

O ano de 1954

Boatright nos disse que quando ele voltou para o Brasil em 1954, São Paulo estava inflamada com o fogo do Avivamento. Os irmãos e irmãs, principalmente os presbiterianos nos dias primeiros do Avivamento, foram avançando a obra dramaticamente.

Lições do inicio

São muitas lições para nós a respeito do inicio do Avivamento, e todas as lições precisam ser sondadas. Mas para agora, devemos dizer que algumas lições precisam ser notadas aqui. Vou sinalizar quatro delas.

  1. Oração por Avivamento é essencial. Deus utiliza métodos para realizar seus fins, e oração é uma ferramenta essencial. Os fieis que oravam com foco durante nove anos antes que o Avivamento fosse inaugurado servem com exemplos da importância de intercessão diligente.
  1. Num avivamento, pregação corajoso e evangelístico é essencial. Moramos numa época em que pregação pastoral domina a igreja. Tal pregação é essencial à saúde da congregação. Porem, pregação evangelística é algo diferente; utiliza métodos diferentes; produz efeitos diferentes; e é preciso nas épocas de avivamento. O Boatright foi chamado “pastor,” mas ele não era um pastor. Era evangelista, um evangelista cujo fruto alcançou bem mais pessoas do que Wesley e Whitefield juntos[3] e foi instrumental em lançar um dos grandes avivamentos na história da igreja.
  1. Avivamento deve ser continuado por nativos. De verdade, eram brasileiros que oravam pelo Avivamento, e brasileiros que principalmente avançaram o Avivamento. O Boatright, e Harold Williams, eram catalisadores, mas o Avivamento era algo do reino de Cristo e desde do inicio assumiu um caráter brasileiro.
  1. A fusão de Palavra e Poder é essencial. Talvez uma das coisas mais importante no Avivamento do Brasil foi a fusão de Palavra de Poder. A base principal do Avivamento estava uma igreja presbiteriana com doutrina calvinista. Os que dizem que a presbiteriana não faz parte essencial da igreja brasileira estão errados. Foi doutrina saudável que motivava o agir dos crentes que oravam pelo Avivamento. Foi doutrina saudável que inspirou os fieis a dar as suas vidas à realização do Avivamento. A vida do casal Silveira Lima nos oferece um exemplo da importância de fidelidade bíblica que preparou a vereda do evangelista Raymond Boatright. Ao mesmo tempo, não devemos negar a importância do elemento pentecostal no Avivamento. Veio dos pentecostais o poder que foi instrumental para o lançamento e avanço do Avivamento. Os que crêem—inclusive os acadêmicos teológicos—que o poder do Espírito Santo não faz parte essencial num avivamento estão errados. O Avivamento do Brasil destaca o fato que Palavra e Poder, coragem e sabedoria, e tantas outras coisas essenciais em Deus precisam ser parceiros, não oponentes. A DNA do Avivamento do Brasil implantou Palavra e Poder na igreja brasileira.

Agora, vamos dar uma olhada à continuação do Avivamento do Brasil.

  1. A CONTINUAÇAO DO AVIVAMENTO

Como já disse acima, quando Boatright voltou para São Paulo em 1954, a cidade estava nas chamas do avivamento. Os duzentos lideres presbiterianos estavam avançando a evangelização do Brasil por si mesmos. A Cruzada Nacional de Evangelização foi criada cedo no Avivamento, com o Boatright e Harold Williams servindo como co-presidentes e brasileiros-chave servindo com eles na diretoria. A Cruzada mobilizou tendas para a propagação do evangelho.

As grandes campanhas nos primeiros oito anos

O Boatright continuava em pregar como itinerante durante os oito anos do Avivamento. Nos primeiros quatro anos ele se concentrou no Sul. Os quatro anos seguintes, se concentrou no Nordeste, baseando-se no Recife.[4]

No sul, quando o clima era bom, ele pregaria no ar livre. Quando o clima era mal, ele alugaria auditórios. Usualmente ele pregaria sobre o curso de dez ou doze horas, pregando para cinco ou seis audiências. Uma multidão entrava enquanto a multidão anterior saía. Em cada culto, depois da sua pregação, ele orava pelos enfermos. Depois da sua morte, a sua viúva, a Ruby, me disse que depois muitas horas de pregação ele ficava tão cansado ao fim da noite que ele botaria seu paletó numa cadeira e pessoas numa fila iria tocá-lo para serem curadas.

Multidões inumeráveis participaram nas campanhas. Falando do tamanho das multidões ao ar livre ele me disse, “Foram tantas pessoas nas campanhas que nós somente poderíamos as contar por acres.” (2.5 acres fazem um hectare.) Quando ele faleceu em 1980, se estimava que somente uma pessoa havia pregado a mais pessoas que do Boatright na historia da igreja, o evangelista americano, T.L. Osborn. [5] Quando considerarmos que a maioria das pessoas alcançadas pela pregação do Boatright era de brasileiros, temos uma ideia do tamanho deste Avivamento.

O impacto em São Paulo era extraordinário. Em 1971 Boatright nos contou que, depois da campanha evangelística de Billy Graham na cidade em 1956, o grande amigo de Boatright, o Rev. Epaminondas Silveira Lima, um dos diretores da campanha de Billy Graham, lhe falou que Billy Graham mesmo disse: “Eu não precisava vir aqui. O Boatright já fez a obra.” Mas não era o Boatright que fez a obra. Foi Deus.

E Boatright não era o único pregador. Do seu púlpito em Los Angeles em 1971 ele nos contou que uma vez nos anos 1950 ele enviou o Manoel de Melo para o Recife, e ele pregava lá a centenas de milhares de pessoas.[6]

Em nossos dias, as campanhas evangelísticas são organizadas meses ou anos antes que elas serem realizadas. Mas não foi assim durante os primeiros oito anos do Avivamento do Brasil. Durante aquele tempo, duas coisas extraordinárias se destacaram concernentes às campanhas: (1) as numerosas multidões que se reuniram e (2) o fato que Boatright jamais ter organizado uma campanha como evangelistas hoje em dia fazem para garantir o enchimento de um estádio, auditório ou campo. Durante o Avivamento, as multidões se reuniram quase que espontaneamente. Perto do fim da sua vida ele me disse, em São Paulo, quando fomos hospedados por Billy Joe e Josephine Hart, “Posso encher qualquer estádio que eu quiser neste país. Conheço quem ligar por telefone para garantir um estádio cheia das pessoas. Mas isto não é o caminho de Deus.” Eu respondi por lhe perguntar, “Então, qual é o caminho de Deus?” Ele me disse, “O caminho do Senhor é o seguinte: Ele mesmo abre uma porta e você tem que entrar por aquela porta. Depois, se você for fiel, Ele abrirá outra porta.” Estas palavras me marcaram. Verdadeiros avivamentos não são organizados por homens, são organizados por Deus mesmo. O Avivamento do Brasil foi criado por Deus, não homens. Homens participavam como instrumentos do Avivamento, sim, mas o Avivamento vem como o dom de nosso soberano Deus.

Eu era luterano, e eu me lembro Boatright me dizendo com muita alegria que ele havia montado grandes campanhas com os luteranos no Rio Grande do Sul, um estado que houve (e há) uma população com muitos luteranos. Ele me disse que gostava demais dos luteranos. Outros evangelistas eventualmente seguiram o Boatright no Rio Grande do Sul, inclusive um evangelista americano que, nos anos 1960-1970, surfava as ondas do Avivamento naquele estado e, na sua revista, se promoveu como a chave do avivamento. Mas ele não era.

As ondas foram criadas no Rio Grande do Sul durante o Avivamento do Brasil nos anos 1950.

Uma vez no Sul ele acordou à uma grande grupo de cinco mil homens em volta da casa em que ele foi hospedado. Ao investigar o propósito deles em reunir ali, descobriu que os homens queriam ser ordenados para pregar. Ele não sabia o que fazer, então pô-se a jejuar e orar o dia inteiro. Ao fim do dia ele orou por duzentos homens na multidão, impondo suas mãos sobre eles; e daí os duzentos oraram pelo demais cinco mil homens. Muitos foram ungidos para pregar aquele dia e foram para o campo como evangelistas do Avivamento. Cada ano seguinte enquanto Boatright pregou no Brasil, ele encontrou homens que lhe disseram que eles foram ungidos aquele dia. Eu encontrei um deles em 1980 que plantou várias igrejas. Lamento que eu não me recorde de seu nome agora, mas eu me lembro de sua aparência, confiança e alegria. Um acontecimento assim pode perturbar muitos acadêmicos ou teólogos, mas apesar de ser algo incomum, Deus ungiu muitos obreiros daquele dia com os resultados que demonstraram a salvação de milhares de pessoas na plantação de centenas de igrejas pelo país. Deus é Deus.

Quando Boatright começou a focalizar o nordeste, ele quis morar permanente no Recife e mudou-se com sua família lá. Linda ainda se lembra do seu tempo no Recife. Mas sobre o curso daquele ano a saúde da sua esposa enfraqueceu e não foi possível permanecer no Recife. Ele e sua família voltou para a sua casa em Los Angeles.

A Cruzada Nacional de Evangelização e as tendas

Relativamente cedo no Avivamento, o Boatright e Harold Williams formaram juntos com alguns brasileiros a Cruzada Nacional de Evangelização. Este órgão mobilizou numerosas equipes de evangelização para propagar o evangelho em cada canto possível, utilizando tendas para a pregação evangelística.

A ideia das tendas surgiu com Boatright, que havia pregado o evangelho nos Estados Unidos em uma grande tenda durante os anos antes do Avivamento do Brasil começar. Alguns dizem que ele trouxe a sua própria tenda, ou uma porção dela, para o Brasil. Pode ser, não sei. O que eu me lembro ele dizendo é que as leis brasileiras fizeram difícil a importação de tendas dos Estados Unidos ao Brasil. Enfrentando este obstáculo, o que poderiam ele e a diretoria da Cruzada fazerem?

A solução se apresentou na forma de um brasileiro cuja vocação havia sido a construção de tendas para o circo. Antes do Avivamento, aconteceu que ele desenvolveu artrite nas suas mãos e precisava se afastar da sua vocação. Porém, ele foi curado milagrosamente no Avivamento e pode se dedicar exclusivamente à confecção das tendas para suprir as necessidades das cruzadas.

Boatright nos disse que eventualmente eram em volta de duzentos tendas e equipes propagando o evangelho. As equipes ganharam muitas almas e foram usadas para plantar igrejas de várias denominações. Entre as denominações figuravam Assembléia de Deus, Batista, Congregação Cristã, independentes de vários tipos, Metodistas, Presbiterianos, e muitas outras.

Foi uma curiosidade para mim quando uma revista cristã no Brasil celebrou o centenário do pentecostalismo no Brasil com uma edição especial e não deu menção a Boatright. Postou a foto de uma tenda no artigo principal, e mencionou algo a respeito do uso delas, mas não falou nada de Boatright e seus muitos colegas que foram instrumentos poderosos na evangelização do Brasil no meio do último século.

Alguns anos atrás em Orlando, eu me encontrei o pastor presbiteriano Dr. Xel Santana depois da sua pregação no culto que celebrou o quinquagésimo aniversário da ordenação do seu velho amigo (e meu), o Rev. Dr. Jonathas Moreira.[7] Disse-me que trabalhava com o “Slim” (o apelido de Boatright entre os seus amigos mais próximos) em muitas das campanhas no interior de São Paulo nos anos 1950.

Eventualmente o Rev. Harold Williams transferiu as tendas e o equipamento da Cruzada à sua denominação, a Igreja do Evangelho Quadrangular, cuja expressão brasileira foi fundada por ele com os frutos do Avivamento.

Quando os milagres pararam

Como eu já mencionei, Boatright pregou às multidões em campanhas sem organizá-las como os evangelistas hoje em dia fazem. As multidões foram recolhidas por Deus da forma que é comum em épocas de avivamento genuíno. Mas depois de oito anos, Boatright me disse que os milagres que haviam fluído como rios começaram a diminuir. “Era como se Deus tivesse ligado a torneira e, em seguida, desligado,” ele resumiu.

“Pregou a mesma coisa e usou os mesmos métodos?” eu lhe perguntei. “Sim,” respondeu-me ele. “Mas eu percebi que Deus mesmo estava mudando a administração de Sua obra no Brasil.” Percebendo que o dia das grandes campanhas foi chegando ao fim, Boatright começou a focalizar em plantar igrejas em áreas e regiões que não tinha expressões cristãs. A área poderia ser um bairro, uma cidade não alcançada, ou uma vila rural. Para conquistar esta realidade, ele começou a conduzir campanhas pequenas. Quando era efetivamente plantada uma nova obra, ele geralmente colocava um pastor para liderá-la. Sobre o curso de uma década, ele concentrou-se na nova etapa do Avivamento. Enquanto ele estava fazendo isso, seus amigos estavam construindo novas denominações.

E isto os leva a uma consideração dos resultados iniciais do Avivamento do Brasil.

Parte 1, você pode acessar clicando aqui.

Parte 3, leia aqui


[1] O Pr. Cassiano foi um dos representantes deste grupo. Ele está nos céus agora, mas espero que membros da sua família conheçam esta historia com mais detalhes.

[2] Depois sua mãe faleceu, sua filha Linda quis transferir a filmagem a um CD, mas a filmagem foi destruída. A mesma coisa aconteceu com exemplares de muitos jornais e revistas com reportagens sobre o Avivamento. Todas estas coisas foram guardados na garagem da sua casa, sem proteção adequada para preservá-las.

[3] O Whitefield e Wesley pregavam numa época diferente, sim; mas eu destaco o tamanho do Avivamento Brasileiro não para diminuir a sua obra mas para enfatizar a importância e lugar do Avivamento do Brasil na história da Igreja.

[4] Eu me lembro ele falando com muita alegria sobre suas campanhas no Recife, João Pessoa, Natal, e Belém.

[5] É bem provável que Billy Graham passou o numero de pessoas pregado por Boatright porque ele continuou nos anos 1980-1990. Também é bem provável que o evangelista alemão, Reinhard Bonnke, passou o numero das pessoas pregadas por Boatright também.

[6] O numero das pessoas que o Boatright mencionou era na faixa de 400.000 pessoas, mas eu não me lembro se este número pertenceu às pessoas em total ou o numero reunido cada noite.

[7] Xel Santana, homem com um currículo extraordinário, e Jonathas Moreira, que era o pastor presidente da Catedral da Igreja Presbiteriana Independente em São Paulo muitas décadas atrás, eram alunos no seminário presbiteriano em São Paulo nos anos 1950. Jonathas e eu somos amigos há 25 anos.

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