O desconhecido avivamento brasileiro da década de 60: Parte final

III. Bons Resultados do Avivamento

Os trabalhos dos primeiros oito anos mudaram para melhor o clima espiritual do Brasil. Nem todas as igrejas e denominações participaram no Avivamento, inclusive parte da Igreja Presbiteriana Independente foi radicalmente contra.[1] Mesmo assim, muitas igrejas tradicionais foram transformadas, ao passo que paralalelamente novas denominações foram estabelecidas.

As denominações oriundas do Avivamento

Não quero listar todas as denominações que foram formadas em razão do Avivamento, mas vale a pena de listar algumas delas:

Igreja do Evangelho Quadrangular: como mencionei no artigo anterior, a Igreja do Evangelho Quadrangular foi fundada como resultado deste avivamento.

A Brasil para Cristo também foi formada em razão dos esforços evangelísticos do Avivamento da década de 60.

Por sua vez, o grande amigo e conservo de Boatright, Rev. Epaminondas Silveira Lima,[2] fundou a Igreja Pentecostal da Bíblia. Alguns dos fundadores principais da Igreja Presbiteriana Renovada do Brasil eram participantes no Avivamento naquele período.[3]

Outras denominações pentecostais, grandes e pequenas, famosas ou não, surgiram por consequência deste Avivamento. Não posso listar todas elas. O fundador de outra denominação me relatou havia 20 anos atrás ter sido chamado por Deus para pregar o Evangelho quando viu Boatright orar por uma mulher cega que foi curada instantaneamente.

Boatright também conhecia e mantinha bom relacionamento com o Pr. Luigi Francescon, fundador da Congregação Cristã, e me disse que no auge do Avivamento o Pastor Francescon prometera, muitas décadas antes, que ele não morreria até que viesse o Avivamento no Brasil. Segundo Boatright, o grande missionário da Congregação Cristã lhe disse: “Tenho visto o Avivamento do Brasil. Posso ir para o gozo do céu agora.” Francescon faleceu em 1964.

Mesmo entre os Católicos Romanos há expressões que foram influenciadas pelo Avivamento. Muitos romanistas nominais foram convertidos nas campanhas evangelísticas. Boatright disse haver pregado várias vezes em mosteiros, conventos, e testemunhou muitos monges e freiras foram curados ou batizados no Espírito Santo naquelas reuniões.

Um Avivamento que transcendeu as denominações

Mas é preciso ser dito que o Avivamento foi mover que transcendeu denominações. O Boatright glorificava a Deus por isso e ainda que ele tivesse sido ordenado pela Igreja do Evangelho Quadrangular, jamais foi sua intenção plantar uma denominação que pudesse chamar de “sua”. Ele entendia que as novas denominações precisavam ser fundadas, e não resistia ao processo que resultou na formação delas. Mas seu alvo principal sempre foi a pregação do evangelho, a salvação das almas e, quando o soberano Deus permitiu, a cura dos enfermos. Em tudo ele quis fazer a sua parte para edificar a igreja e expandir o Reino de Cristo.CNE

Durante alguns anos antes do Avivamento no Brasil, Boatright havia trabalhado nos Estados Unidos como um evangelista itinerante e sempre focalizou na salvação de pecadores, pregando em grandes auditórios ou em uma grande tenda. Como pregador itinerante, ele nunca pregou em nome de sua própria denominação, mas exclusivamente em nome de Jesus Cristo. Seu chamado transcendeu a sua denominação nos Estados Unidos e agiu da mesma forma no Brasil. Quando as novas  denominações começaram a ser plantadas, ele celebrou o seu estabelecimento e as ajudou o quanto pode. Mas o seu foco sempre transcendeu quaisquer interesses denominacionais, e se prazer estava na missão a serviço da salvação de almas.

Duas Histórias

É um fato importante mencionar que Boatright nunca encorajou alguém a sair de sua denominação ou igreja local se fosse possível manter a sua fé e obedecer a Deus. A respeito disso, ele gostou de contar a história de uma médica presbiteriana que estava morrendo com uma enfermidade gravíssima e incurável, que os mais renomados médicos brasileiros  e norte-americanos puderam ajudá-la. Ele peregrinou entre os centros clínicos especializados em várias partes do mundo, mas nenhuma esperança foi anunciada. Sua empregada sofria com uma deformidade que deixara a mão atrofiada. Certa noite esta mesma empregada foi para uma  das Cruzadas de evangelização que Boatright esteve conduzindo numa tenda no interior de São Paulo. Quando Boatright orou por ela, sua mão atrofiada voltou ao normal imediatamente. No dia seguinte, ao ver a empregada curada, perguntou o que havia acontecido. A mulher então respondeu: “Jesus me curou, senhora, na tenda, quando um pastor americano orou por mim. Se a senhora fosse até lá e deixasse o pastor americano orar pela senhora, você será curada.”

Aquela noite a doutora foi levada para a tenda deitada em seu próprio leito. Muita fraca e com menos da metade de seu peso corporal, ela estava absolutamente incapacitada de andar. Boatright orou por ela depois da sua pregação. Não testemunhei resultados na hora, mas quatro noites após, aquela senhora se aproximou dele na tenda, andando com liberdade e com todo o seu peso restaurado. Ela tinha sido curada.

A doutora era uma mulher de grande riqueza e depois de um tempo de oração, organizou uma obra evangelística e social com crianças de rua. Pregava na rua, aquela nobre mulher de posses! Um dia ela e seu marido, que tornaram se bons amigos de Boatright, perguntaram ao evangelista, “Devemos nós deixar a igreja presbiteriana?” O Boatright respondeu, “Se a igreja presbiteriana não proibir o seu trabalho, fique nela!” O casal permaneceu presbiteriano, e Boatright sempre celebrou isso.

Algo que Boatright disse, quando nós nos encontramos com o Pr. Manoel de Melo na sede de Brasil Para Cristo em 1980, causou muito impacto na minha vida. Nosso grupo incluiu Boatright, nosso intérprete o Milton, o missionário americano Billy Joe Hart, e eu. Boatright me introduziu como seu filho, e Pastor de Melo, batendo o seu peito com orgulho e alegria, disse, “Eu sou seu filho também!” Daí, ele, tornou se sério e, olhando para Milton e eu e Billy Joe, apontou para o Boatright e disse, “Este homem podia ter sido o dono do Brasil. Eu me lembro de quando mulheres com crianças nos seus braços ficariam numa fila por doze horas esperando ouvir este homem pregar.” Boatright respondeu, “Mas eu não queria ser o dono do Brasil. Não quis construir o meu reino. Só quis pregar o evangelho e construir o reino de Deus.”

Uma das razões que cristãos brasileiros não conhecem mais de Boatright é porque ele jamais tentava se promover. Ele sempre acreditava que a obra do Senhor tinha por seu alvo a glória de Deus. Se este fosse glorificado, ele Boatright contente.

  1. As Fraquezas do Avivamento

Apesar das grandes coisas realizadas no Avivamento do Brasil, o movimento expressou fraquezas também. Era como queijo suíço, com alguns buracos e queijo.[4] Boatright me falou sobre as fraquezas perto do fim da sua vida. Em sua opinião, eram dois problemas principais: (1) a falta de mestres da Bíblia em número suficientes para alimentar e abastecer o Avivamento, e (2) a transferência das tendas da Cruzada para a denominação Quadrangular. É preciso falar um pouco sobre estes pontos e evitar que aconteçam em novos moveres do Espírito no futuro.

A falta de mestres da Bíblia

Perto do fim de sua vida, no fim dos anos 70, Boatright e eu fomos juntos à San Francisco/Califórnia para uma conferência liderada por alguns mestres da Palavra no movimento carismático. Três dos mestres principais foram descritos como “calvinistas carismáticos”.[5] O conteúdo bíblico do ensino da conferência foi riquíssimo, e Boatright gostava muito do ensino a que se dedicavam os verdadeiros mestres da Palavra.

Alguns dias depois eu estava visitando Boatright em sua casa em Los Angeles e lhe perguntei: “O que achou da conferencia, papai?” Estávamos tomando café na cozinha, e ele, com uma voz quieta, que revelava os pensamentos mais profundos do seu coração, me disse: “Foi uma maravilha. Nós pentecostais precisamos deste tipo de ensino ao longo de décadas.” Daí, depois de uma pausa momentânea, ele adicionou, “A falta do ensino bíblico destruiu o Avivamento do Brasil.”

“Explique-me, papai,” questionei e ele me respondeu: “Não haviam mestres suficientes no Brasil para abastecer o Avivamento com ensino básico. Por conta disso eu implorava mestres nos Estados Unidos para irem ao Brasil e servir o Avivamento. Mas meus apelos caíram em ouvidos moucos.” Ele pausou novamente antes de continuar e concluiu dizendo o seguinte: “No vácuo, muitos falsos mestres entraram no Avivamento e causaram grandes danos.” Nunca vou esquecer a tristeza na sua voz. Nunca. Foi a tristeza de um Pai da Igreja com um fardo pesado na consciência.

Muitos dos plantadores das igrejas eram homens simples com pouca formação bíblica. O Avivamento cresceu com conversões, curas, e libertações. Igrejas foram formadas com rapidez, e se mantinham com pregações direcionadas para salvação, curas, e libertações. Muitos pastores foram ordenados sem preparo teológico, relativamente novos convertidos. A vasta e rápida expansão do Avivamento não proporcionou tempo para estudar. Mas em qualquer caso, onde estavam os professores que poderiam ensiná-los? No fim, o Avivamento produziu um movimento com poder mas não um movimento com profundo entendimento da Bíblia.

O Brasil está ainda pagando um preço alto em razão da falha de mestres que deviam ter ido para cada canto do Avivamento para aprofundar o conhecimento bíblico dos rebanhos de novos convertidos.

A transferência das tendas e seus equipamentos

A transferência das tendas da Cruzada Nacional de Evangelização para a então nova Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil, na opinião de Boatright, causou danos ao Avivamento.

A transferência foi feita por Rev. Harold Williams quando Boatright estava nos Estados Unidos. Nem Boatright, nem os os diretores brasileiros da Cruzada participaram na transferência. Mas ele e aqueles diretores não quiseram lutar contra aquela destinação por pensarem que tal ação iria causar escândalos em desfavor do Avivamento que estava ganhando as manchetes dos jornais. Para a glória de Deus, ficaram calados sobre o assunto.

Porém, na opinião de Boatright a transferência causou danos ao Avivamento porque tirou ferramentas importantes no trabalho de evangelização, das mãos de muitos trabalhadores que precisavam delas.

Enquanto Boatright estava contra a transferência, ele ficava em favor da Quadrangular no Brasil até o fim de sua vida e era grato pelo papel dela em sua formação como pregador. Ele também tinha alegria em manter amizade com seus lideres e pastores, e gostava de pregar nas suas igrejas. Eram boas as recordações, por exemplo, de Harold, seu amigo íntimo.

É preciso dizer também que por vezes divisões acontecem em avivamentos. Devermos analisá-las cuidadosamente e deixar o julgamento final nas mãos de Deus, que sabe bem mais do que nós os motivos mais secretos que povoam o coração dos homens. Harold Williams fazia parte integral do Avivamento, especialmente no início, e deve ser honrado por sua participação magnífica. Ele deve ser honrado também por seu papel essencial em formar a Igreja do Evangelho Quadrangular no Brasil, uma das grandes denominações do Brasil e do mundo.

Imagino que as contas de poupança celestiais de ambos Boatright e Harold Williams estão crescendo cada dia mais por conta do seu trabalho juntos, e que qualquer discordância que estes dois amigos tenham tido no passado seria totalmente esquecida na glória celestial. Que Deus mesmo os abençoe pelo trabalho empreendido.

A maior falha

Se a transferência das tendas foi um erro — e eu não me considero capaz de julgar este assunto — foi algo menor em comparação à falta de mestres. Creio que Boatright, até o fim da sua vida, pensava a mesma coisa.

O odre é importante, mas o vinho, muito mais. Sem o vinho, o odre não tem propósito. A Grande Comissão requer ensino básico. O apóstolo Paulo, que fez milagres várias vezes em seu ministério, escreveu pouco sobre milagres e os dons do Espírito. Ele concentrava bem mais no ensino do evangelho.

Em qualquer caso, o tempo dos tempos chegou ao seu fim. Mas em nossos dias não precisamos das tendas. Precisamos do conteúdo do pleno evangelho. A falha principal do Avivamento do Brasil era doutrinário, e os buracos no queijo ainda precisam ser enchidos.

Conclusão

O Avivamento brasileiro é um avivamento histórico. Faz parte ainda do povo de Deus no Brasil. Mas não sei se existe uma completa e profunda  revisitação do passado com vistas a preservar a memória deste mover espiritual. Partes da história existem de forma fragmentada nas várias histórias das denominações e o todo é maior que suas partes, bem como todo o resto espera ainda ser escrito.

As gemas estão na montanha, e precisam ser extraídas. Meu amigo, o Rev. Dr. Roque Lisa, de São Paulo,[6] no seu livro de 2013, Os Heróis dos Avivamentos, divulgou algumas importantes entrevistas de várias testemunhas do Avivamento cujos relatos lançam luz sobre o inicio do Despertamento. Pastor Ricardo Feres, de São Paulo, conhece alguns destes testemunhos e sua igreja tem raízes neste Avivamento.

Foi dito que existem vários relatórios que pertencem ao Avivamento, inclusive uma Tese de Doutorado sobre o Avivamento que foi escrita por um pastor presbiteriano de São Paulo cujos parentes participaram dele. Sem dúvida, a maioria das testemunhas já foram levadas à presença do Senhor; mas alguns ainda estão conosco. Vale a pena recolher os seus testemunhos. Também os jornais de São Paulo e outras cidades devem ter registros dos acontecimentos que pertencem ao Avivamento. As histórias de varias denominações igualmente devem ter informações importantes. Precisamos nos debruçar sobre este assunto e reavaliar a história clamando a Deus para revivê-la. Com algum esforço, até mesmo um livro sério sobre o avivamento deveria ser escrito.

Uma plena história não é necessária para elogiar ninguém, inclusive o próprio Boatright. Não precisamos construir estátuas verbais para os heróis; em absoluto. Precisamos conhecer a nossa história para melhor entender o nosso DNA espiritual, e com este conhecimento entender apropriadamente quem somos e para onde o Senhor deseja nos conduzir. Na história do Avivamento do Brasil há lições para nós e para futuras gerações.

Como americano cujo coração mora no Brasil, eu posso fazer esta colocação: a igreja brasileira tem uma dinâmica corajosa que eu não encontro em outros países por onde passei. Por quê? Sem dúvida as influências das várias culturas que se combinaram no Brasil fazem parte daquilo que é unicamente brasileiro. Mas será que o poder de Deus e a graça transmitida à igreja brasileira pelo Avivamento formou algo único que é destinado não somente para a futura transformação do Brasil mas sim para outras nações também?

As respostas para questões como assim estão com Deus. Mas acredito que se nós sondarmos a nossa própria história poderíamos achar as chaves para as portas que abrem o futuro, conhecer melhor a fusão ideal de Palavra e Poder, e abraçar um sistema eclesiástico melhor do que nossas infinitas divisões e cegueira dominical têm nos dado. Pode nos fornecer mapas para a jornada, armas para a batalha, sabedoria para a obra, plantas para as diversas partes da cidade de Deus, e nos dar razão para render as nossas vidas para algo bem maior do que foi produzido no avivamento passado.

O nosso Deus Onipotente é, era, e há de vir. Valeria a pena conhecer mais do Espírito que se moveu entre nós. Vamos lá, juntos, para a glória de Deus, a edificação da sua igreja, e na transformação deste mundo. †

Para ler a parte 2, clique aqui


[1] A mesma coisa aconteceu durante o Grande Despertar, nas colônias norte americanas, no meio do século dos 1700s.

[2] A filha do Boatright, Linda, me disse recentemente que seu pai entrou em uma grande época de luto depois da morte do seu grande amigo Epaminondas, em 1980.

[3] O Pastor Jonathan Ferreira dos Santos me disse isto quando nós nos encontramos na Vale da Benção (em Araçariguama, SP) havia mais ou menos 20 anos atrás, eu havia ensinado inglês por um semestre no seminário da IPRB em Cianorte/PR antes desse encontro.

[4] Algumas denominações que têm raízes no Avivamento têm mais queijo do que buracos, outras tem mais buracos do que queijo.

[5] Um era Batista reformado, outro fez seminário num seminário reformado, e o outro era criado em um lar presbiteriano.

[6] O Rev. Roque Lisa mora agora na Florida dos EUA.

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