O Montanismo emergiu do Catolicismo?

Costuma-se classificar o montanismo como um movimento emergente dentro do catolicismo romano, dando margem para o credo de que a primeira igreja instituída pelo Cristo foi o romanismo. Mas, seria esse fato a verdade? Estaria o dogmatismo católico submetido aos ditames escriturísticos? Se o catolicismo foi a primeira igreja, por que o montanismo reagiu contra seus institutos reivindicando um retorno ao primitivismo cristão? Na verdade, o montanismo representou a vertente cristã oriunda dos apóstolos, enquanto o catolicismo desempenhou um movimento cujo papel alterou significativamente a doutrina pura do Cristianismo, criando dogmas e tradições que não se encontravam no cânon bíblico.

Para comprovarmos tal fato, em nossas leituras sempre nos deparamos com algum autor enfatizando esse rompimento, fazendo alusão ao catolicismo como o referido anteriormente. Conforme Allen:

O montanismo foi um movimento dentro da Igreja Católica [ocorrido] entre séculos II a VI. Enquanto os montanistas mantiveram muitas crenças comuns com a Igreja Católica, certas crenças distintivas eventualmente levaram a igreja católica a declarar o montanismo uma heresia. Crenças e práticas montanistas centradas na profecia, na crença no sacerdócio de todas as pessoas e nas práticas de estilo de vida ascético.

Nos primeiros momentos da Igreja Cristã não havia uma designação própria para o movimento a não ser o de cristão. O termo “católico”, utilizado pelos Pais da Igreja, parece não se referir a designação, mas a sua abrangência, levando em consideração a ordenação do Senhor para a proclamação do Evangelho e formação dos discípulos até os confins da terra, por conseguinte destacando sua vocação de universalidade. Portanto, confundir abrangência com nomenclatura não parece ser uma prática honesta, mas muito tendenciosa. Duas razões básicas para assentar nossa justificativa deveram-se ao fato de a Igreja não pretender denominações terrenas nem eleger para si alguma especificação. Os títulos de cristão e de montanista, por exemplo, foram dados pelos observadores e perseguidores de ambos os grupos. Para não confundir, o termo “Nova Profecia” não dizia respeito a uma denominação do movimento estampada em seus templos, mas a sua predica profética. Por essa breve consideração, acreditamos que o catolicismo não estava instaurado nos séculos I e II.

A igreja geral dos tempos dos montanistas passava por ocorrências nada proveitosas para sua saúde espiritual. Essa igreja já declinava de alguns procedimentos apostólicos, aceitando certas condutas impregnadas tanto pelos bispos como por práticas pontuais e locais de alguma comunidade que foi sendo assimilada pelas demais. As práticas das quais nos referimos encontram-se no Didaquê e nas diversas epístolas daquele tempo. Na maioria dos conteúdos, é perceptível uma reprodução correta do ensino apostólico, mas em outros momentos acréscimos não autorizados aparecem e começam a ocorrer no cenário cristão, tornando esses conteúdos apócrifos justamente pela ausência do ensino direto dos apóstolos. Devemos entender o problema ocasionado pelo incremento e pela interpretação baseada numa ideia cultural ou emotiva pelas quais fizeram uso aqueles bispos e pastores. Não se pode acrescentar ou retirar ensinos do texto canônico (Apocalipse 22:18). O Didaquê, estando arrolado dentro desses lapsos, passou a ser um conjunto de informações retiradas das práticas, das experiências e das tradições, incluindo aspectos do judaísmo, das comunidades no pós-apostólico. Esse escrito exerceu uma forte influência no contexto cristão, adquirindo fama e prestígio durante os séculos II e III. Vejamos o capítulo VII do Didaquê e o analisemos a seguir:

Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas, batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente. Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

O batismo sempre foi um tema muito recorrente em diversas discussões. Não deveria ser, visto que as Escrituras são tão precisas neste ensino que reinventar o conceito torna a prescrição apostólica incompleta (o que não é). Eis, então, a origem do batismo por aspersão, tomado como fundamental para o romanismo. Além disso, a prática se ampliou para infantes, indivíduos desprovidos de razão para compreenderem o sentido bíblico de convicção. Impõe-se também o pré-requisito do jejum que antecipa o ritual batismal. Em ambos os casos, percebem-se acréscimos ao texto da Escritura, pois em nenhum momento há ênfase para a prática descrita. Por alguma razão circunstancial e apócrifa criou-se na cartilha o ensino duma conduta divergente, provocando um desvio do sentido primeiro.

Aquela igreja geral que culminou no ápice do descaminho religioso, concebendo séculos após o romanismo, continuou a manobrar os conceitos das Escrituras e outros extra bíblicos na tentativa de justificar e consolidar a autenticidade de sua forma ideológica-religiosa, tentando suprimir todos os movimentos cismáticos ao longo da História Cristã os quais tentavam resgatar os primórdios de sua fé. Desta maneira, a suposição de que essa igreja geral era um embrião do catolicismo surgente do século IV não estaria equivocada. Para alcançar essa insígnia, seus métodos apelaram para argumentos como os da tradição, colocando o significado pleno e divino das Escrituras de lado. Anibal Pereira Reis nos dá uma indicação dos motivos pelos quais os romanistas acreditam que a Tradição sobrepõe-se às Escrituras, pois “… é fácil depreender-se o porquê do seu maior interesse pela Tradição considerada por êle como regra de fé mais importante por ser anterior, mais ampla e mais clara do que a Bíblia. Ela é elástica, amoldável e acomodatícia. Sacia-lhe melhor a sede de sofismar” (p.12).

Conforme Anibal(2012), teólogos católicos definem tradição “como o conjunto de doutrinas reveladas referentes à fé e à moral, não consignadas nas Escrituras sagradas, mas oralmente transmitidas por Deus à Igreja” (p.10). Percebamos que a Tradição, na verdade, refere-se a um discurso oral, mas sem vinculação com algum preceito das Escrituras. Trata-se de um acréscimo ou de uma subtração do significado de alguma doutrina. Esse elemento que se consolidou na igreja desviada ocasionou um desdobramento de problemas organizacionais, estruturais e governamentais. Primeiro, foi-se percebendo uma perda da representação individual uma vez que os cristãos se deixavam representar pelos bispos da sucessão equivocada, aceitando tudo quanto se ensinava sem oferecer uma resistência ou objeção aos novos dogmas que iam sendo implantados. A falta de vivência do indivíduo, percorrendo os caminhos de interpretação pessoal, por exemplo, desqualificando-o como um sacerdote nos padrões ensinados pelo apóstolo Pedro (I Pe 2:5), o limitou em quesitos de desenvolvimento espiritual. Pelo contrário, o bispado interessado em “puxar” para si a responsabilidade exclusiva da interpretação e direcionamento do rebanho criou uma estrutura hierárquica capaz de “encantar” os leigos inconsequentes e corromper os padrões simples de liderança cristã, pois o pastor não era para ser um dominador da comunidade, mas um servo da Igreja.

Para Allen, “Montanus era um autoproclamado profeta cristão perto do final do século II. Ele acreditou que o Espírito Santo deu novas profecias e direção para a igreja através dele, bem como duas profetisas, Priscilla e Maximilla”. Vejamos alguns pontos da citação. Qual profeta ou qual cristão detentor do dom de profecia não se utiliza da dádiva com autoproclamação? Afinal, o ministério de profeta não dependia de gerência episcopal nem muito menos quem tinha dom de profecia, pois o ministério era vocacional, enquanto o dom era dado para edificar a comunidade cristã local, dádivas dadas diretamente por Deus. Em nossa visão, Montano era um crente possuidor do dom da profecia, porque o ministério dizia respeito aos fundamentos da Igreja como foram os apóstolos. Tanto apóstolos como profetas alicerçaram doutrinariamente a Igreja, estavam restritos aos primeiros momentos da era cristã para fornecerem a orientação precisa para o encaminhamento da comunidade segundo os propósitos divinos. O período apostólico durou até a morte do último apóstolo, João. Tomando como base o referencial, podemos entender que os profetas figuraram dentro do mesmo tempo em razão de terem uma participação secundária e vinculada aos apóstolos. Era como se dos apóstolos emanasse o doutrinamento, enquanto dos profetas a sua explicitação exata e precisa em locais não contemplados com o conhecimento da verdade. Óbvio, uma situação temporária. Mas, não posso negar a possibilidade de uma pequena extensão do período do ministério de profeta até a posse do cânon na comunidade. Se ocorreu, acreditamos que este período possa ter antecedido os tempos do Montanismo. Em seus comentários sobre o ministério de profeta, Esequias Soares nos ajuda a esclarecê-lo melhor:

Os profetas eram homens que falavam sob o impulso direto do Espírito Santo, e cuja motivação e interesse principais eram a vida espiritual e pureza da igreja. Sob o novo concerto, foram levantados pelo Espírito Santo e revestidos pelo seu poder para trazerem uma mensagem da parte de Deus ao seu povo (At 2.17; 4.8; 21.4).

O ministério profético do AT ajuda-nos a compreender o do NT. A missão principal dos profetas do AT era transmitir a mensagem divina através do Espírito, para encorajar o povo de Deus a permanecer fiel, conforme os preceitos da antiga aliança. Às vezes eles também prediziam o futuro conforme o Espírito lhes revelava. Cristo e os apóstolos são um exemplo do ideal do AT (At 3.22,23; 13.1,2).

A função do profeta na igreja incluía o seguinte: (a) Proclamava e interpretava, cheio do Espírito Santo, a Palavra de Deus, por chamada divina. Sua mensagem visava admoestar, exortar, animar, consolar e edificar (At 2.14-36; 3.12-26; 1Co 12.10; 14.3); (b) Devia exercer o dom de profecia; (c) Às vezes, ele era vidente (cf. 1Cr 29.29), predizendo o futuro (At 11.28; 21.10,11); (d) Era dever do profeta do NT, assim como para o do AT, desmascarar o pecado, proclamar a justiça, advertir do juízo vindouro e combater o mundanismo e frieza espiritual entre o povo de Deus (Lc 1.14-17). Por causa da sua mensagem de justiça, o profeta pode esperar ser rejeitado por muitos nas igrejas, em tempos de mornidão e apostasia.

Neste clima de reação, Montano incomoda o grupo da sucessão. Querendo eles levar as comunidades dentro de uma visão hermética, Montano, Maximilla, Priscilla e outros se emanciparam desse regime, exigindo uma orientação divina, porquanto discernem a limitação humana. Entretanto, não consideramos a reação montanista como um ato de insurreição rebelde, pois para assim fazermos teríamos que atestar a condição de a igreja geral está em plena harmonia com os ditames escriturísticos, o que não era o caso. A atitude montanista demonstra uma insatisfação sã com zelo pelos postulados apostólicos a fim de resguardá-los. Se alguns reclamam e acreditam que as profecias montanistas eram falsas, lembrem-se de quem as afirmou uma vez que era contrário ao grupo, rememorando também que Tertuliano atesta coerência naquelas proferições. Resgatar uma conduta dentro do modelo bíblico como fizeram os montanistas, praticando a ascese do piedoso reforça seu grau de comprometimento já que não queriam modificar nem remover os padrões fincados como fizeram o dogmatismo religioso e muitos teólogos da época.


Referências

Allen, Robert. Crenças montanistas. Disponível em: http://peopleof.oureverydaylife.com/montanism-beliefs-2618.html. Acesso em 15 Fev 17.

Reis, Anibal Pereira. O Vaticano e a Bíblia. São Paulo: Edições Cristãs, 2012.

Didaquê. Disponível em: http://www.compiladorcristao.com/blog/wp-content/uploads/2013/08/didaque.pdf. Acesso em 15 Fev 17.

Gilberto, Antônio. O dom ministerial de profeta e o dom de profecia – Lições Bíblicas Aluno – Jovens e Adultos – 3º Trimestre de 2010. Rio de Janeiro, CPAD, 2010.

 

Comentários

Categorias: Montanismo

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não pode ser publicado.