O Pentecostalismo “Reformou” suas Raízes?

Em 16 de março de 2006, William W. Menzies deu uma palestra na Vrije Universiteit, Amsterdam, intitulada “As raízes reformadas do pentecostalismo”.1 Nesta palestra ele defendeu que o pentecostalismo não é apenas uma extensão do movimento Wesleyano Holiness. Na sua opinião, esta seria uma simplificação excessiva e que Keswick, por exemplo, teria sido uma influência não-Wesleyana muito forte no pentecostalismo. De acordo com Menzies pai, o movimento pentecostal deve muito à tradição Reformada e em razão disto ele falou sobre as “raízes” reformadas no título de sua palestra.

Na análise da tese de Menzies, é importante antes de qualquer consideração, compreender o uso que ele faz da palavra “raiz”. Menzies entende que a tradição reformada é a autêntica raiz do pentecostalismo? Se esse é o ponto que ele desenvolve, o pentecostalismo não é realmente novo na história. Mais grave ainda, em essência, o pentecostalismo seria reformado.

Olhando para o uso que Menzies faz da palavra “raízes”, não percebemos essa compreensão histórica do conceito de radical (raiz), etimologicamente falando. Menzies também fala muito sobre o nascimento do movimento pentecostal ao pretender que o pentecostalismo seja o resultado natural da Reforma. Ele concorda que o movimento pentecostal não teve sua origem na tradição Reformada, mas ao lado dessa tradição.

Raizes Teológicas

Usando um conceito estranho de raiz, Menzies liga o fundamento teológico do movimento pentecostal à tradição reformada. Ele argumenta que os teólogos reformados tiveram “uma influência importante na formação de valores que mais tarde foram incorporados facilmente ao tecido do movimento pentecostal moderno”. Ao usar esse significado de “raiz”, Menzies quer dizer que o movimento pentecostal deve muito à tradição reformada. Definindo de forma um tanto mais acentuada: o movimento pentecostal depende teologicamente da tradição reformada (cf. Menzies 1975: pp. 81-98, ver Waldvogel, 1977).

Para provar que o movimento pentecostal tem raízes reformadas, Menzies usa o seguinte método: Depois de provar historicamente que o movimento wesleyano não pode ser a raiz exclusiva do pentecostalismo, ele menciona outras fontes de seu nascedouro, como o fundamentalismo, o movimento de Keswick e a teologia reformada. Esta última fonte ele lida mais extensivamente. Em primeiro lugar, a semelhança na teologia da justificação e da santificação é sublinhada por Menzies. Além disso, ele se refere ao trabalho teológico do carismático presbiteriano J. Rodman Williams (1988, 1990) e logo em seguida trata de alguns teólogos reformados mais ou menos representativos. Jonathan Edwards, Abraham Kuyper e mais extensivamente João Calvino são tratados. Os nomes desses teólogos reformados alternam-se com os nomes de Irving e Finney. Antes de sua conclusão, trata do problema do cessacionismo. Depois deste assunto ele chega finalmente à seguinte conclusão:

Neste artigo, procurei demonstrar que o movimento pentecostal moderno deve muito à tradição reformada (…) Nós, os pentecostais, temos uma enorme dívida para com os nossos antepassados da fé reformada.

A teologia reformada é uma das raízes

Até agora, a prova de Menzies das raízes reformadas do pentecostalismo é muito frágil. Gostaria então de avaliar este apelo à tradição reformada, embora minha avaliação é muito limitada. Podemos entrar na questão se Keswick é uma influência à parte da tradição Wesleyana ou não, e outras influências históricas.2 No entanto, passemos esta questão e vamos nos concentrar na tese básica de Menzies de que a Reforma pertence às raízes do pentecostalismo. Primeiro, pergunto o que realmente foi provado por Menzies. Em segundo lugar, lido com seu apelo à tradição reformada, especialmente seu apelo a João Calvino e Jonathan Edwards.

Inicialmente, não acho que Menzies tenha de fato provado que a tradição reformada é a fonte do pentecostalismo. Mas no título de seu assunto ele fala sobre “as” raízes reformadas e de acordo com sua palestra, houve mais influências sobre o Movimento Pentecostal do que especificamente uma influência exclusiva da teologia reformada. Ele não provou nem tornou razoável que a influência da tradição reformada tenha sido decisiva. Teoricamente, por exemplo, é bastante possível que uma das outras influências tenha sido mais importante que a tradição reformada. É possível até que influências não mencionadas por Menzies tenham sido mais importantes para o movimento Pentecostal. É, portanto, impossível falar tão fortemente sobre as raízes reformadas. O título deste assunto não segue necessariamente a argumentação de Menzies na palestra, porque a palestra argumentou apenas que a Reforma é uma das muitas raízes do movimento pentecostal e eu sugeriria que é melhor mudar o título do seu tema de “Raízes Reformadas do Pentecostalismo”.

O apelo a João Calvino

Em segundo lugar, um importante apelo de Menzies é à teologia reformada de João Calvino. Isso é compreensível, porque Calvino é um teólogo representativo e uma espécie de pai de tradição reformada. Menzies vê uma abertura aos dons carismáticos na teologia de Calvino.3 Na verdade, o reformador fez observações positivas sobre os dons de línguas, profecia e milagres,4 e apesar dos extremos dos anabatistas radicais, Calvino chamou estes dons de um ornamento para o Evangelho.5 Em sua opinião, era uma deficiência estar sem esses dons.6

Estas observações positivas de Calvino foram qualificadas. O reformador de Genebra relativizou os dons através de uma nítida distinção entre os dons exteriores e interiores do Espírito.7 Os dons reais e eternos na teologia de Calvino são regeneração e comunhão com Cristo. Calvino não negou a vida na terra, mas em relação ao celestial e espiritual ele manteve a vida terrena em desprezo.

Se eu entendi corretamente Calvino, ele viu os dons carismáticos não como dons eternos, mas como bênçãos terrenas. As pessoas sem Deus podem ter certos dons externos do Espírito.8 Calvino viu a possibilidade de Satanás trabalhar esses dons. Ele negou que os dons tenham a ver com uma espécie de reflexo do nível espiritual interior do crente e não via os dons como um sinal de espiritualidade pessoal, mas como um símbolo da história da salvação. Para Calvino, esses dons eram uma testemunha única do novo evangelho (Sweetman, 1979).

Este princípio é muito rigoroso para Calvino em relação à revelação. Como o mais alto profeta, Cristo cumpriu todas as revelações.9 Falar sobre a nova revelação concernente às doutrinas do Evangelho é blasfemo.10  A Escritura é a revelação definitiva de Deus (Van ‘t Spijker 1986: pp. 194-95). A única maneira pela qual Calvino quer falar sobre profetas é como intérpretes da Palavra de Deus.11 Embora haja também, para ele, uma certa abertura para prever o futuro.

O apelo de Menzies a Calvino é direto e sem problemas. A sugestão é que existe um quadro teológico comum entre a tradição reformada e o movimento pentecostal. Os cristãos pentecostais acreditam em Pai, Filho e Espírito. Eles falam do Pai e da Criação; concordam com as doutrinas soteriológicas sobre o Filho e nossa redenção, enfatizam a obra do Espírito e a necessidade da experiência espiritual. Também são leais às Escrituras e as interpretam o mais literalmente possível. Dentro deste quadro teológico maior, os pentecostais diferem apenas em alguns assuntos “menores” relativos à doutrina do Espírito Santo. Aceitam as estruturas pneumatológicas maiores na teologia, mas apenas adicionam os dons carismáticos como algo “extra” à posição reformada clássica. Desta forma Menzies minimiza as consequências teológicas dos insights carismáticos.

Gostaria de saber se esse apelo a Calvino é possível. Considerando as opiniões dele sobre os dons do Espírito, também é possível dar outra interpretação e aplicação de sua teologia. É compreensível que os insights de Calvino também sejam usados para criticar a teologia pentecostal. Esse uso de Calvino também tem a ver com a estrutura completa de sua teologia.

A teologia de Calvino tem essencialmente uma estrutura soteriológica. Calvino coloca a obra do Espírito numa estrutura cristológica, isto é, o Filho que derramou o Espírito no dia de Pentecostes. A obra do Espírito é glorificar Cristo nos corações dos pecadores e assim, o Espírito é o Espírito de fé, porque ele nos leva a Cristo e nos une com ele. Além disso, ele nos ensina as imensuráveis riquezas em Cristo. Ele não é um Espírito de adição, mas é o Espírito de aplicação, porquanto, para Calvino, o Espírito não acrescenta nada à salvação em Jesus Cristo, mas nos traz na realidade do Salvador e Sua salvação.

Isso explica o caráter experimental da teologia de Calvino. A realidade da regeneração, a tristeza pelos nossos pecados e a alegria em Deus são pregadas. Calvino chamou os seus Institutos não de “summa theologiae“, mas de “summa pietatis“. Entretanto, a experiência espiritual nunca é um fim em si mesma, visto que a experiência é sempre a experiência da realidade da Palavra, de Cristo, do Deus trino. Por esta razão, a teologia de Calvino não é compatível com um interesse independente no Espírito e seus dons. Em suma, a visão de que os dons são essenciais para a vida cristã e disponíveis para cada cristão e para cada vez, não se encaixa com as estruturas mais amplas da teologia de Calvino.

O apelo a Jonathan Edwards

Menzies refere-se a Jonathan Edwards como um teólogo pré-pentecostal. Gostaria de saber se isso é possível. Já em 1738 Edwards escreveu sobre os dons do Espírito (Edwards 1989: pp. 149-73; 351-65, ver Gerstner 1991: pp. 161-179). Ele lidou com a questão de saber se um derramamento do Espírito implicaria a presença de dons. A resposta de Edwards foi negativa. O teólogo do avivamento deu razões diferentes para isso.

Edwards distinguia dons e graça, e comparou os dons do Espírito com as roupas. Os homens, segundo Edwards, podem ter roupas agradáveis sem viver no temor do Senhor. Para ele, os dons não eram uma prova de uma vida espiritual elevada. Desta forma, o pastor de Northampton rejeitou a posição carismática. Ele relativizou os dons muito mais em afirmar que o diabo pode trabalhar esses dons também. Nesse aspecto ele concordou com Calvino.

De acordo com o teólogo do avivamento, os dons espirituais pertencem ao período infantil da igreja (Edwards 1989: pp. 149-150). O Espírito Santo deu esses dons porque a revelação de Deus nas Escrituras ainda não estava terminada. Edwards conectou os dons carismáticos intimamente com os apóstolos. Com o fim do tempo apostólico, também o tempo de dons especiais terminou. Isto significa que Jonathan Edwards era um cessacionista (van Vlastuin 2001: pp. 89-91).

Menzies menciona o problema do cessacionismo, mas ele não lida realmente com isso. Sua sugestão implícita enxerga assim: Os teólogos reformados aceitam os dons do Espírito. Eles erram que os dons são apenas por um tempo. Ao afirmar que há uma “evidência esmagadora de que os dons do Espírito nunca cessaram inteiramente”, Menzies corrige a posição reformada e apela a esta teologia para manter a posição pentecostal. Esta maneira de provar as coisas, a meu ver, não é cuidadosa.

Lidar desta forma com a teologia reformada, dá a impressão de que podemos afastar a ponto da teologia reformada sobre a “cessação”, enquanto permanece o mesmo quadro teológico. Isso não é verdade. Porque Edwards rejeitou os dons carismáticos para este tempo e os valoriza em uma outra maneira, não é possível apelar a Jonathan Edwards para o movimento Pentecostal. Edwards até advertiu contra o uso dos dons carismáticos de línguas, profecias e milagres. Isso não é apenas uma diferença para a convicção teológica de Edwards, mas sua teologia é uma antítese contra o modo de pensar carismático-pentecostal. Pode haver muitos acordos entre este teólogo e teólogos pentecostais, mas esses acordos não podem justificar um apelo a Edwards para a marca mais característica do movimento pentecostal.

Conclusão

Chegamos a uma avaliação da conferência de Menzies sobre as raízes reformadas do pentecostalismo. De acordo com seus próprios argumentos, é melhor deixar de lado certa ênfase e falar sobre as raízes reformadas do pentecostalismo. Penetrando mais profundamente em seu apelo à tradição reformada, percebemos problemas. Menzies não adentrou no caráter problemático deste apelo. Se focamos nas expressões diretas de dois teólogos reformados, descobrimos que um apelo direto é impossível, porque se mergulhamos na estrutura sistemática da teologia de Calvino, descobrimos uma teologia centrada em Cristo sem um interesse independente pelos dons pneumatológicos. Penso que é problemático reivindicar esta teologia como fonte de uma teologia mais carismática. Indo para a estrutura do quadro teológico de Edwards, uma pontual e estrita posição cessacional deve nos fazer muito cuidado ao chamar Edwards de teólogo pré-pentecostal.

Não nego a influência da tradição reformada no movimento pentecostal. Mas a palestra de Menzies não me convenceu dessa influência. Menzies não deixou claro que tipo de influência ele queria enfatizar e não explicou de que maneira a tradição reformada influenciou o movimento pentecostal. Até que esse trabalho seja feito, há argumentos dentro da tradição reformada para manter não apenas uma diferença, mas até mesmo um contraste entre a tradição reformada clássica e o movimento pentecostal moderno.


Tradução: Renato Cunha

Título original: Does Pentecostalism Have Reformed Roots?


Notas finais

1 WIlliam W. Menzies, “As raízes reformadas do pentecostalismo”, conferência no Vrije Universiteit, Amsterdam em 16 de março de 2006.

2 BB Warfield em suas obras sobre o perfeccionismo coloca Keswick na tradição Wesley / Santidade: “De Wesley a Keswick pode parecer superficialmente um pouco longe. Há, sem dúvida, espaço entre esses limites para muitas variedades distinguíveis de ensino. Todos estão unidos, no entanto, por concepções fundamentais comuns de caráter muito duvidoso “(Warfield 1932: 557-558).

3 Como J. Rodham Williams, que tem um capítulo ‘O Movemento Carismático e Teologia Reformada’ em sua A Peregrinação Teológica, http://home.regent.edu/rodmwil/ .

4 CO II, 383, 404-405, 660; CO IL, 531-532 ( Institutas II.xvi.16, III.ii.9, III.xx.33 e 1 Co 14:32). Para uma avaliação completa de Calvin, ver Van Vlastuin (2006).

5 CO XLVIII, 251 (comm., Atos 10:46).

6 CO IL, 531 (com 1 Cor. 14:32).

7 CO XLVII, 182-183 (João 7: 38-39).

8 CO II, 405 ( Institutas III.ii.9).

9 CO VI.21; IL.362 (Catecismo de Genebra, pergunta 39, Comentário aos Romanos 12:6).

10 CO XLVII361-362 (João 16:13); Ver Krusche (1957: 213-215).

11 CO IL.239, 506-507, 519 (Romanos 12: 6-7, 1 Coríntios 12:28, 1 Coríntios 14:6).


Referências

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Menzies, W.W. (1975) ‘The Non-Wesleyan Origins of the Pentecostal Movement.’ In: V. Synan (ed.), Aspects of Pentecostal-Charismatic Origins. Plainfield: Logos International, 1975, pp. 81-98.

Van ’t Spijker, W. (1986) Reformatie en geschiedenis. Goes: Oosterbaan & Le Cointre.

Sweetman jr., L. (1976) ‘The Gifts of the Spirit: A Study of Calvin’s Comment on 1 Cor. 12:8-10; Rom. 12:6-8; Eph. 4:11.’ In: D.E. Holwerda (ed.), Exploring the Heritage of John Calvin: Essays in Honor of John Bratt. Grand Rapids: Baker, pp. 273-303.

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Waldvogel, Edith L. (1977) The Overcoming Life: A Study in the Reformed Evangelical Origins of Pentecostalism. (PhD dissertation) Harvard University.

Warfield, Benjamin B. (2003) The Works of B.B. Warfield. (vol. 8) Grand Rapids: Baker.

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