O Perfeito de 1Coríntios 13:10 e a Cessação dos Charismata

RESUMO

O presente artigo analisa o texto de 1 Coríntios 13:10 dentro de algumas perspectivas adotadas a respeito do significado de to teleion. Mostra-se com uma perspectiva de equilíbrio após passar pelas visões anteriores dentro do contexto bíblico em questão, da análise histórico-fundacional daquela igreja e do exame exegético requerido pelo tema, apresenta tensões entre as visões, discute-as e promove o desfecho interpretativo. Ao final, disponibiliza uma aplicação pastoral com relevância eclesial à vida do leitor.

PALAVRAS-CHAVE

To teleion; dons; cessacionismo; escathon

1. Introdução

Sabendo da importância que a teologia bíblica possui para determinar o modo de viver de todo cristão, propomos uma análise das principais perspectivas sobre o significado de 1 Coríntios 13:10 como um meio decisivo ao assunto da cessação ou continuação dos carismas.

O texto será examinado à luz do seu contexto histórico, passando assim a perceber o que estabeleceu as marcas daquela comunidade, que mais tarde foi advertida por Paulo a respeito de vários problemas, principalmente dos dons espirituais. Por conseguinte, observaremos também fatores internos, sua teologia e vida moral como um indicativo do seu procedimento admoestado pelo apóstolo.

Depois disso, faremos uma exegese cuidadosa, mas não tão diminuta, passeando por textos anteriores ao capítulo 13, trazendo assim aquela bagagem contextual necessária para lançar mais esclarecimento ao tema que será tratado.

Por fim, a questão será vista à luz dos próprios eruditos, firmada sobre o respaldo de seus próprios conceitos e ponderada de acordo com a maneira mais natural e menos problemática no tocante ao texto discutido. Por isso, o nosso propósito não será expor extensamente a grande variedade de visões sobre o texto examinado, mas tornar disponível ao leitor aquelas perspectivas mais adotadas e suas principais argumentações.

2. O contexto em que a Carta foi escrita

Como pano de fundo à carta, a observação de que várias nuanças daquela época dirigia a práxis da igreja é algo bastante relevante, pois as tendências morais e filosóficas recebidas por tais cristãos permitia que a vida da igreja fosse adaptada a essa nova forma grega-cristã de cultuar ao Senhor.

Encontrar um tema que padronize de forma exata todo o conteúdo dessa epístola é tarefa difícil, pois são vários os problemas relatados nessa comunidade e diversas questões pendentes de resolução que são tratadas por Paulo. Todavia, a consideração de William MacDonald é importante em frisar que o tema dessa epístola “é corrigir a igreja mundana e carnal que não leva a sério atitudes, erros e atos que o apóstolo Paulo considerava alarmante” (2008, p.475), o que é algo bastante óbvio.

Prosseguiremos no exame desses ares que permeava a vida da sociedade anti-Deus na cidade de Corinto, e a maneira como essa tendência adentrava na igreja como um todo.

2.1 Um pouco de história antes

A cidade de Corinto era um centro comercial muito importante na época em que o apóstolo Paulo fundou ali uma igreja cristã. Sendo cosmopolita de governo romano, com cultura grega clássica, Corinto experimentava de alto prestígio como uma cidade que conseguiu ser reerguida um século mais tarde, após ter sido “destruída pelo romano L. Mummius Archaicus, em 146 a.C.” (MORRIS, 1981, p. 11).

Por isso, quando prosseguimos na investigação sobre os motivos de tão elevada importância no século I, percebemos que sua localidade era também fundamental para gozar de um avanço econômico bastante almejado.

Por que era uma cidade portuária e próxima a Acaia, Corinto “ficava 80 km a sudoeste de Antenas, perto do istmo que junta a Ática ao Peloponeso.”( Bíblia de Estudo de Genebra,1999, p.1298); isso se tornou importante mais tarde, pois com todo esse favorecimento geográfico, Corinto recebia embarcações, hospedava muitos visitantes e interagia também de maneira multicultural com seus hóspedes.

Assim, uma cidade em fervente desenvolvimento cultural e econômico, e com o mesmo histórico de soerguimento que possuía, fazia com que na mentalidade de todo aquele nascido em suas dependências fosse formado um alto padrão de si mesmo.

2.2 A moralidade coríntia

Como as circunstâncias em Corinto favoreciam certa pluralidade de raças e relacionamentos com estrangeiros, não seria de admirar que as marcas de uma sociedade de tão alta classe do século I não influenciassem também a moral de sua época.

Assim, todas aquelas disposições culturais e políticas em sua localidade impactaram profundamente o exercício da religião coríntia, pois não excluía a possibilidade de interagir religiosamente com a poligamia de estrangeiros e incrementar muitos elementos, como orgias e transes, por exemplo, em seus cultos de mistério.

William Barclay explica especificamente esta situação em que:

acima do istmo … elevava-se o monte do Acrópole, e sobre este ficava o grande templo de Afrodite, deusa do amor. Ligados a este templo estavam mil sacerdotisas, prostitutas sagradas, e ao anoitecer elas desciam do Acrópole e vendiam-se nas ruas de Corinto, até que se tornou um verbo grego: “Não é todo homem que pode sustentar uma viagem a Corinto”. (apud MACARTHUR JR., 2002, p. 104)

Dessa maneira, as diversas marcas pagãs eram penetradas no âmago da comunidade, tanto no ramo do pensar e sua admiração quase idolátrica à filosofia pagã (1Co 1:19,23,26-27), quanto em seu ascetismo e libertinagem expressadas nas admoestações do apóstolo Paulo (1 Co 7.1; 6.15-16).

Portanto, o contexto complicado desta cidade, aparentemente, mostra-se árido para o inicio de uma missão apostólica, mas este era o grande desafio de Paulo.

2.2 O contexto teológico

Com todo esse aparato de dificuldades, Paulo não mostrou timidez ao anunciar-lhes o Evangelho de Cristo; pelo contrário, após uma experiência de rejeição em Atenas (At.17.32), logo partiu para Corinto (At. 18.1).

Assim, prosseguindo em seu objetivo missionário, Paulo se estabelece nesta cidade e permanece hospedado com Priscila e Áquila (At. 18.2-3); em Corinto o apóstolo anuncia o evangelho e consolida a comunidade recém-formada no prazo de dezoito meses, por volta do ano 55 d.C.

Como vimos antes, o contexto histórico-cultural em que a cidade estava inserida requeria que Paulo fosse mais energético com eles possivelmente interagindo menos com a filosofia hodierna do que quando fizeram outrora com os atenienses (At.17.28 cf. 1 Co. 2.1-5). Todavia, após se converterem ao Senhor como esses cristãos vão conviver na ética do Reino? E como as religiões de mistério, com toda disposição lasciva que aquela sociedade possuía seria desarraigada daqueles novos crentes?

Com todas essas questões pendentes, Paulo trata desses assuntos de maneira bem específica. Isso acontece baseado no relato que ele recebeu pelos da casa de Cloe (1 Co.1.11) e por uma carta recebida (1 Co 7:1,25; 8.1;12.1;16.1) com muitos questionamentos relacionados à casamento, divórcio e novo matrimônio; liberdade cristã, santa ceia, dons espirituais, culto, ressurreição e coleta dos santos.

Dessa forma percebemos que a epístola aos coríntios traz uma bagagem de problemas relacionados à situação anterior, remontando o paganismo. Logo, quando Paulo trata das questões dessa igreja, ele o faz sabendo que aquela cidade tinha imprimido um mundo de religiosidade pagã na mente daqueles conversos.

Por isso, quando avançamos em nosso exame dos dons espirituais nesta epístola temos que estar sensíveis aos apelos contemporâneos da cidade coríntia, pois a maneira que esta igreja enxergava os assuntos relacionados à fé mostrava-se, também, como um espelho da religião mística, do culto ao transe e da má-compreensão do propósito real desses dons.

3. Problemas relacionados ao uso dos dons

A igreja de Corinto nutria tendências de soberba em relação à quase tudo que fazia. Até mesmo em relação ao cometimento de pecados graves, eles não mantinham o senso de humildade e vergonha necessária para reverter tal situação (1 Co 5.6). Por conseguinte, não foi diferente quando se tratava dos dons espirituais, se havia soberba até diante de pecados conhecidos naquela igreja, quanto mais em relação àquilo que Deus outorgara como uma expressão do poder do Espirito Santo.

Assim, Paulo trata sobre os dons espirituais entre os capítulos 12 e 14 mostrando qual é o verdadeiro propósito destes, a maneira que deveriam ser corretamente utilizados naquela comunidade e prossegue sua argumentação observando que há um caminho melhor, permanente e mais relevante que àqueles dons em discussão.

Com isso em vista, a epístola de Paulo aos coríntios tornou-se mais conhecida nos círculos evangélicos recentes por causa da questão carismática; e, como o assunto dos dons é algo bastante enfatizado em nosso tempo, consideramos que os problemas da igreja de corinto devem ser tratados com muita relevância para refrear os exageros ou reavaliar a importância de tais dons na igreja de Cristo.

Sendo assim, devemos considerar por certo que o desenvolvimento do debate carismático permanecerá durante muito tempo, e haverá versículos centrais para o apoio e/ou defesa de tal controvérsia.

Quanto a um texto muito utilizado nesse debate (1Co 13.8-13), caminharemos para sua análise, pois já que é um tema muito contemporâneo, e de muita importância, nos debruçaremos nesta questão. 

3.1 Quanto ao seu propósito na igreja local (1 Co 12-14)

Ao iniciar um novo assunto, Paulo se dirige aos coríntios com um tom de resposta a alguma pergunta emitida anteriormente por esses crentes; assim, a respeito dos dons espirituais(12.1), traz a ideia de um novo assunto que o apóstolo tratará a seguir.

Esse novo assunto se relaciona mais especificamente a maneira que aqueles congregados deveriam tratar com os dons do Espírito, não como ignorantes (12.2), pois sua situação agora era incomparavelmente superior àquela que possuíam quando eram pagãos.

Ademais, essa ignorância deveria ser evitada quanto ao que era definido como conteúdo do dom exercido (12:3), visto que a cautela em se perceber a doutrina trazida por determinada manifestação pneumática requeria exame, e não mera aceitação indiscriminada. Ainda assim, a importância requerida a esses dons deveria ser mantida, pois estava ligada diretamente a distribuição soberana do Espirito e da Trindade (12:4-6,11).

Prosseguindo em sua argumentação, Paulo ilustra a necessidade de todos os dons ao utilizar a ilustração do corpo como um exemplo da união necessária para o equilíbrio do exercício de tais dons. Afinal, Deus tinha concedido àquele povo, em razão do batismo com o Espírito nesta unidade, isto é, no corpo de Cristo (12.12,13).

Assim, não haveria necessidade de alguém ser um corpo de apenas “um membro”, mas a ação do Espirito na comunidade requeria que fosse reconhecido a importância de cada dom, pois nem todos eram apóstolos; nem todo mundo era profeta; todos não eram mestres; operadores de milagres não era algo para todos os crentes; assim como os dons de curar, nem todos não os possuíam (12:29).

Por isso, após fazer uma série de perguntas retóricas, Paulo explica a sequência do que seria a urgência real daquele povo, e, reverte a lista dos coríntios expondo (em graus de importância) o que deveria ser valorizado entre eles, porque “a uns estabeleceu Deus na igreja, primeiramente, apóstolos; em segundo lugar, profetas; em terceiro lugar, mestres” (12.28a cf. Ef. 4.11), o grau de importância é muito notório, pois esses dons estão relacionados à palavra; com funções primárias de trazer edificação ao corpo.

Logo, ele mostra que outros dons são necessários também, porque Deus ainda concedeu “depois, operadores de milagres; depois, dons de curar, socorros, governos, variedades de línguas.” (12:28b). Por conseguinte, o pensamento correto sobre esses carismas era de que deveriam ser buscados alguns quanto a sua importância, não por exclusividade; assim, os coríntios não deveriam tratar o dom como um fim em si mesmo, mas como um meio para a edificação do Corpo, pois o carisma é de caráter transitório e sua transitoriedade aponta para algo perene (12:31).

3.2 Quanto aos visitantes

Paulo centraliza mais ainda a necessidade de edificação quanto ao dom de profecia (14.1), pois esse dom beneficia o corpo.

Com profecia, não queremos dizer necessariamente pregação, embora tivesse alguma correspondência a esta; profecia, segundo o entendimento paulino no capítulo 14 “não é a transmissão de um sermão preparado cuidadosamente, mas a elocução de palavras diretamente inspiradas por Deus” (MORRIS, 1981, p. 153), ainda envolvia certa dose de “improviso organizado” como algo comum nessas manifestações (14.23); não extático (14:32) e também constituía–se um sinal para os crentes e incrédulos (14.22, 24-25).

Nestes termos, o dom de profecia deveria ser realizado em primazia na igreja e em uso posterior (menos importante, mas não desnecessário) o dom de línguas. Entretanto, os coríntios estavam enfatizando exatamente aquele dom que não trazia edificação à igreja, assim, Paulo adverte esses cristãos através do exame da natureza do dom de línguas em contraste à profecia (14:1-19); é importante observar que Paulo não exclui a necessidade do dom de línguas ser exercitado (14:39), mas considera os níveis de importância para a edificação do corpo.

4. Um caminho melhor

As definições a respeito do que são os dons espirituais e qual propósito destes fizeram-se necessário, pois, como havia supervalorização dos dons menos importantes, bem como o caráter de duração, também foram trabalhados por Paulo no capítulo 13.

Ademais, assim como havia dons mais importantes que outros, existia também um caráter de brevidade em cada um deles; Paulo contrasta agora os dons mais valorizados pelos coríntios com a perenidade do amor.

Ao iniciar sua argumentação concernente à brevidade dos dons, o apóstolo faz antes uma série de comparações sobre a importância do amor e a relativa inutilidade dos dons não realizados em consonância com este; os carismas por si mesmos não tem valor algum sem o amor (13.1-3), esse foi o argumento chave de Paulo.

Depois de expor no capítulo 12 a importância dos dons para o corpo, Paulo agora define o que é o amor (13.4-7), e isso com afirmações positivas: o amor é paciente e benigno (13.6,7), ou, seja, antes definir o que o amor não é primeiramente (13:4-6), Paulo fala do que ele é antes de tudo.

Isso reverbera a proposta de que esse era “um caminho sobremodo excelente” (1Co.12.31 b), pois o que poderia ser maior do que os dons outorgados poderosamente pelo Espírito? Não seria a atuação carismática um sinal de que a perfeição já é chegada? Como, pois, vislumbraremos algo mais precioso do que a atuação pneumática no culto ao ponto de nos submetermos a outra coisa? Essas eram questões que possivelmente possam ter sido levantadas pelos coríntios e, com não muita diferença, é levantada hoje também.

Essa era a fraqueza daqueles crentes: a utilização dos dons sem o amor, o que significava algo muito sério, e que deveria ser corrigido, pois, de maneira contrária, aquela situação permaneceria devido à insensibilidade dos coríntios; não importava quão grandes pecados aquela igreja possuía se houvesse manifestações carismáticas (até mesmo genuínas) em seu culto, isso seria um sinal da aprovação de Deus. Como Chantry bem endossou:

“Acaso há conduta vergonhosa, exaltação dos homens, presença do pecado, ausência da verdade? Se for assim, então a tais reuniões falta amor. Não importa quais sejam os dons presentes, falta o essencial. Apesar da presença espetacular de manifestações portentosas, a reunião ou pessoas sem amor se caracteriza pelo fracasso.” (CHANTRY,1996, p. 52)

Assim, tornam-se evidentes os problemas que aqueles cristãos estavam enredados, logo, toda inclinação referente a alguma atitude triunfalista mesclada à utilização de tais dons, foi corrigida por Paulo através de uma pregação “constrangedora” do que é agir em amor: sofrer, esperar e suportar (13.7). Porém, tudo isso era um fardo para eles.

5. O caráter passageiro dos dons

Como compartimento necessário à sua argumentação, Paulo depois de falar sobre a inferioridade dos dons em relação ao amor, agora discorre a respeito da brevidade (13:8-10) do que era mais valorizado por aquela comunidade.

“O amor jamais acaba” (13.8), constituía-se em uma afirmação bem mais rigorosa do que apenas falar que o amor é sobremodo excelente (12.31), pois requeria um contraste agora relacionado à maneira passageira que Paulo via esses dons, ou seja, aqueles crentes não deveriam se apegar além do que era necessário àquilo que passaria.

Porque o amor não acaba, com os dons acontecerá o contrário, eles terão fim; toda a sua utilização e o conhecimento que este produzia era parcial (13.9), haveria um estado de perfeição que suplantará eternamente aquela imparcialidade de conhecimento que os dons mediavam: o perfeito (13.10).

6. Quando vier o que é perfeito

A vinda do perfeito (gr. to teleion) é um ponto crucial nesta perícope (13.8-12), porque a questão principal antes de definir o “que é” este perfeito, é tê-los como algo perene e superior em relação àqueles elementos incompletos (profecias, línguas e ciência), e demostrar qual é o seu papel fundamental na concepção do apóstolo.

Acerca do papel principal, queremos dizer que o teleion representava um evento culminante na história, em que finalizaria àquelas manifestações carismáticas.

Porque Paulo realmente via que “era um sinal de imaturidade quando os crentes coríntios tratavam os dons do Espírito como revestidos de significação final” ( Bíblia de Estudo de Genebra,1999, p.1362), a perfeição para eles eram aquelas evidências carismáticas, o que Paulo considera como algo impossível.

Esse elemento escatológico obsessivo era bem comum daqueles crentes, a ponto de Paulo ironizar o pressuposto que o reino futuro já se fazia presente entre eles (13.8). Mais adiante, o apóstolo faz uma exposição sobre eventos associados à parousia, como a ressurreição, e corrige qualquer escatologia triunfalista que eles amadureceram tão rapidamente.

Que havia certa medida de escatologia mesclada ao fator carismático, Paulo reconhecia muito bem (1:4-8), mas a questão crucial era como manter saudável essa expectativa escatológica associada a uma correta utilização dos dons para a edificação do corpo; ou, seja, o perfeito tornará obsoleto os dons mencionados no versículo 8 (profecias, línguas e ciência). Paulo faz isso de maneira incisiva, ensinando inclusive a cessação desses dons.

Entretanto, não podemos imaginar que ele dizia que a ciência (conhecimento) acabará, pois o versículo 8 trata de dons (línguas e profecia), e ciência aqui nesse texto diz respeito ao dom de conhecimento (12.8), esse é o contexto, pois usar profecias, línguas e ciência como algo mais geral é inconcebível, assim como “pensar que ao conhecimento, a linguagem e a verdade teriam de desaparecer no sentido absoluto da palavra” (CHANTRY,1996, p. 53) parece ser algo estranho ao texto.

Tendo isso em vista, do que se trata o perfeito, ou, melhor dizendo, o que é o teleion?

Com esse pano de fundo temos diante de nós um importante fator para analisar acerca do perfeito no versículo 10. Assumindo a identidade do perfeito podemos ter uma ideia basilar a respeito da continuação ou cessação desses dons, o que é alvo de grande debate.

Analisaremos aqui três principais perspectivas do “perfeito”. Poderíamos dispor sob exame mais uma gama de interpretações possíveis, mas em nível de acesso apenas essas três serão aqui abordadas.

O Perfeito como sendo o fechamento do Cânon

Essa é uma perspectiva bem comum em círculos reformados e dispensacionalistas, pois, segundo essa posição, esses dons (profecias, ciência, línguas e outros revelacionais) chegariam ao fim com o fechamento do cânon do Novo Testamento, esse pensamento permeia toda argumentação do capítulo 13.

Assim, quando o versículo 9 diz que esses dons são realizados “em parte” (ek merous), é correspondente a afirmativa de que a vontade autoritativa e revelacional de Deus acontece apenas parcialmente.

Visto que o Novo Testamento (a revelação completa) não tinha sido completado; dessa maneira, a progressão do pensamento requer que o versículo 10 tenha um contraste “revelacional”, com o perfeito, para, então, se chegar a conclusão de Chantry que “o que realmente Paulo afirma é que “quando vier o que é suficiente, o inadequado e parcial desaparecerá”, porque a maturação requerida no versículo 11 aponta para o amadurecimento da revelação canônica, por isso “as línguas cessarão e o conhecimento se acabará no momento que o Novo Testamento for completado” (CHANTRY,1996, p. 54).

Por conseguinte, o pensamento dominante permanece sob o escopo maior rumo á canonicidade Bíblica, assim a afirmação do versículo 12 de “ver face a face, constitui-se da mesma forma em uma metáfora, significando simplesmente ter a falta de clareza devido à revelação limitada removida” (COMPTON, 2004, p. 100).

Como essa construção teológica mantem uma forte ênfase na palavra “teleion” relacionada ao amadurecimento revelacional, também, esta, reafirma uma larga rejeição a alguma relação desse perfeito com algum fator escatológico devido implicações que gerariam dessa correlação.

Esboçando muito bem essa perspectiva, Josafá Vasconcelos (1998, p. 37) relaciona sua análise do versículo 12 como relacionado diretamente aos versículos seguintes (11 e 12), questionando o por que “a palavra “teleion” não pode ser metáfora também”. Nota-se aqui uma ênfase ao fato da palavra ser um gênero neutro, e, como tal, deve ser considerada como algo (um evento/fechamento do cânon?), não como a vinda de alguém (Cristo); ainda nesse raciocínio, a conclusão que se chega é “porque tem que ser Deus ou a face de Deus, ou o céu, e não o que, pelo contexto, parece realmente ser, aperfeiçoamento do conhecimento genuíno.”

Assim, a visão canônica do teleion requer um desenvolvimento de raciocínio mais moderno sobre a canonicidade do que os coríntios do primeiro século possuíam. Essa visão permanece progredindo em suas implicações. Juntando as peças, e verificando que várias delas realmente se encaixam muito bem, embora alguns itens “não encaixáveis” ainda permaneçam negligenciados.

Pontos fortes e fracos

Em primeiro lugar, a visão canônica do “perfeito” é bem honesta em perceber o claro contraste que existe no texto em questão; com isso queremos dizer que realmente existe uma linguagem mostrando o “perfeito” como contrário ao que é em parte (13:9-10), a maturidade como contrastando à maturidade (13:11) e o conhecimento parcial e obscuro como algo que será suplantado pela nitidez do que “veremos face a face” (13:12). Isso é algo notável, pois reconhecer que esse contexto é algo necessário para se chegar a uma conclusão coerentemente (logicamente) desejada parece ser mais indicado do que permanecer apenas no versículo 10 e depois passear por toda a Bíblia procurando a próxima palavra “perfeito” para encaixá-la no pensamento; o contexto é levado em consideração como exemplo de respeito à uma exegese amadurecida.

Todavia, o que poderia ser sinônimo de uma conclusão precisa mostrar-se com uma interpretação já viciada do texto em si; sim, porque embora seus caminhos rumo a uma coesão da perícope ande em bom termo, entretanto, sua conclusão é imposta, pois o texto requer necessariamente maturidade revelacional? É importante observar que o capítulo não está tratando apenas de conhecimento, mas também do amor (13.1-8 b) e da maturidade como Paulo falava comumente nesta epístola (13.8 cf. 14.20), porque, então, não poderia ser uma dessas duas possibilidades?

Embora as respostas sejam dadas, como se Paulo estivesse falando simplesmente de um conhecimento futuro, isso demanda na práxis da argumentação que o apóstolo falava realmente de conhecimento canônico pós-apostólico, o que acaba em anacronismo (levando Paulo a ver a história assim como a temos plenamente hoje).

Mas, se finalmente Paulo falava de cânon, de forma não consciente disso, parece ser muito difícil pensar que ele falava convictamente de algo misterioso para que seu povo entendesse a advertência misteriosa e fosse corrigido com algo que nem Paulo, nem eles mesmos sabiam do que se tratava. A exegese hoje busca oferecer a nós, o mesmo significado que o leitor original da carta entendeu (pelo menos em primeira instância).

Em segundo lugar, a exegese da perspectiva canônica permanece cuidadosa em perceber detalhes necessários como a realidade de teleion ser um gênero neutro, o que indica a chegada de um evento, não de uma pessoa; isso é importante porque por vezes nos deparamos com a concepção de que aquele perfeito é Cristo sem examinar corretamente a palavra grega, ou por uma associação hermenêutica popular que é dada àquele versículo.

Portanto ao se dizer que o “perfeito” ali é o cânon, alguns mares interpretativos foram atravessados com muita paciência, e não é prudente simplesmente renunciar essa possibilidade por ser ela incomum em nosso tempo, pois tem lá sua fundamentação; o fator que impulsiona essa explicação do cânon merece o mérito que possui, na aceitação dominante no século XIX ou XX, porque mantém em grande estima a importância da Bíblia, e isso é elogiável; ao ser considerado como algo “perfeito” diante dos homens, a afirmação requer o mais alto padrão de autoridade.

Porém, é inconcebível que to teleion signifique conhecimento canônico futuro, porque não há como dissociar o elemento pneumatológico ali discutido com a questão escatológica já esboçada no texto de 1 Co 1:7 em que Paulo reconhece que aquela igreja era tão abençoada com aqueles carismas que “ de maneira que não vos falte nenhum dom, aguardando vós a revelação de nosso Senhor Jesus Cristo”; deve haver algo que justifique que Paulo não está reverberando o que dissera anteriormente, antes Paulo falava dos dons relacionados à expectativa escatológica como um incentivo e fortalecimento ao progresso e perseverança daqueles irmãos (1 Co 8).

Agora, no capítulo 13, ele retoma o assunto, porém de maneira solene como uma exortação de que essa expectativa escatológica aponta para um evento que porá fim àqueles dons como formas imperfeitas de adquirir conhecimento.

Grudem explica muito bem essa relação de ambas as passagens afirmando que Paulo

[…] relaciona a posse dos dons espirituais e a situação deles na história da redenção (aguardando o retorno de Cristo), dando entender que os dons são dados à igreja para o período entre e ascensão de Cristo e sua volta. De maneira semelhante, Paulo olha adiante para o empo da volta de Cristo e diz “quando, porém, vier que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado” (1Co 13:10), dando a entender também que esses dons “imperfeitos” (mencionados nos v.8-9) estarão em operação até a volta de Cristo, ocasião em que serão superados por algo muito maior.” (GRUDEM, 1999, p.861)

Dessa maneira, não devemos dizer que isso seria apenas um incentivo pneumático e escatológico somente aplicado à situação daquela igreja coríntia, pois o texto transcende em sua aplicabilidade católica (cf. 1 Co 1.8,9).

Ademais, a asseveração de que Paulo está falando no versículo 12 (face a face) apenas em tom de contraste, demonstra um reducionismo da intenção escatológica que apóstolo vinha argumentando anteriormente, pois é necessário um referente maior que conduza ao esclarecimento do que era obscurecido como um espelho (v.12a), a visão esclarecida virá de maneira pessoal (retorno de Cristo) e a clareza que isso trará é uma derivação desse fator maior.

Afirmamos isso porque não seria incorreto divorciar essa linguagem de Paulo de toda aquela bagagem no Antigo Testamento em que “face a face” tem o significado de “olhar para Deus em pessoa […]”. Por isso observamos que com muita naturalidade isso acontecia na linguagem judaica: “ veja, por exemplo, Gênesis 32.30 e Juízes 6.22 (exatamente a mesma expressão em grego de 1 Co 13.12)” (GRUDEM, 2001, p.253).

Além disso, o fato de to teleion “representar um adjetivo neutro articular”, não implica que não possa significar também a vinda de alguém (não de algo), já que, também, a palavra pode “funcionar como um substantivo e traduzida como “perfeito” ou “o que é perfeito” (COMPTON, 2004, p. 100). Por isso, embora seja verdade a afirmação exegética de “perfeito” como um adjetivo neutro, não podemos ser dogmáticos quanto a oscilação da funcionalidade característica desta palavra no grego, como a visão do cânon geralmente faz. Dessa maneira, devemos admitir que a visão do cânon exige algo a mais do que o apóstolo pretendia àqueles leitores originais.

O perfeito como sendo o amadurecimento da Igreja

A visão do “perfeito” como o amadurecimento da igreja é amplamente defendida hoje também, visto que a alternativa anterior tem se mostrado insuficiente em suas argumentações. Há uma busca pelo sentido do “perfeito” em caminhos da linguagem de imaturidade versus maturidade. Esta perspectiva afirma que a “perfeição” equivale àquele estado no qual a igreja alcança plena maturidade espiritual.

Nesse pensamento, a linguagem de 1 Co 13.8-13 é vista como um processo de imaturidade rumo à maturidade, envolvida a ideia de que conhecemos ek merous (em parte, conhecimento não completo) como uma derivação revelacional que aquela igreja imatura tinha. Neste sentido, quando eu era menino (v.11), indica imaturidade rumo á edificação completa, por isso “1 Coríntios 13 revela mais claramente o propósito paulino do v.11” porque “ele entende um constante crescimento no processo do corpo de Cristo e uma realização gradual de novos graus de maturidade” (THOMAS, 1974, p. 87), toda essa ideia permeia a interpretação do perfeito.

Em um contexto posterior, Paulo adverte aqueles crentes quanto à sua imaturidade (14.20), apesar de aqui ser utilizada a palavra paidia, não nepios (13.11), o relativo contraste é visível em toda a argumentação paulina (Ef.4.4-6).

Essa perspectiva afirma que a igreja caminha para esse estado, e os coríntios não poderiam se vangloriar de algo pertencente à sua fase infantil, assim Paulo estaria admoestando aqueles irmãos explicando-lhes a brevidade daqueles dons por causa de sua presente situação como corpo de Cristo.

Ao examinar o uso de teleios no Novo Testamento, Godet conclui que o seu significado básico é de “ter alcançado determinado fim, acabado, completado, perfeito” (apud MCDOUGALL, 2003, p.201). Logo, espera-se que esses dons permaneçam durante toda a era da igreja.

Todavia, não devemos supor que é essa a exata conclusão que essa perspectiva mantêm, porque embora a igreja ainda não esteja em seu estado de perfeição, isso não significa aqueles dons (13.8) permaneçam. Mas como assim? Os carismas em questão não acompanharão a igreja como um sinal de sua imaturidade? Não necessariamente, afirma essa visão.

O artifício exegético bem comum encontrado por essa perspectiva é a distinção que Paulo faz quando diz que “havendo profecias, desaparecerão; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, passará”, prova a diferença do que acontecerá com as línguas em relação à profecia (geralmente entende-se como a pregação de hoje) e o conhecimento. Assim acontecerá algo distinto com as línguas, i.e, um evento de pausotai (cessação) natural ocorrerá, enquanto profecia e ciência experimentarão katargeo como uma expressão diferenciada dos modos que isso ocorrerá.

Ao examinar essa peculiaridade, Robert L. Thomas afirma que a distinção dos verbos foi proposital por Paulo para expressar uma ideia muito relevante, visto que o apóstolo “escolhe o verbo pauo antes que katargeo quando fala da cessação das línguas […] alguém pode identificar na voz média de pausontai como quando comparada à voz passiva dekatargethesontai e katargethesetai . Isso também pode ser explicado como uma distinção entre dons que são primeiramente revelacionais em caráter, dependendo mais diretamente de uma ação externa, e um dom para o propósito de confirmação […] portanto o último cessaria por si próprio ou causaria a sua própria cessação.”(1974, p. 81)

Assim, as línguas cessariam primeiro que os outros dons porque as línguas “cessariam” por si mesmas, indicando que seria um evento natural, não causado, espontâneo e fluente no seu determinado tempo.

A maneira como o verbo foi expresso é algo muito relevante, pois aponta (ainda que sutilmente) para a autocessação das línguas, ou seja, o perfeito colocará um fim nos outros dois dons, mas a línguas acabou por si só.

Fazendo assim, essa perspectiva possibilita a inutilização desse dom antes daquele estágio futuro, a perfeição.

Esse exame é fundamental para se sustentar uma perspectiva cessacionista dos dons sem precisar recorrer à visão do canôn; a fluência da passagem é bem mais tranquila e há pouco esforço interpretativo comparado àquela visão.

Pontos fortes e fracos

Primeiramente devemos estar sensíveis à uma visão que busca equilíbrio em cima de uma passagem tão controversa, isso merece todo respeito possível. Também, constatamos que a perspectiva da maturidade da igreja faz isso muito bem, reconhece os tons de contraste que o v.10 realmente possui e os aplica à um propósito futuro.

Em segundo lugar, há uma harmonia de todo o pensamento paulino a respeito do “perfeito”, as conexões do pensamento do apóstolo realmente caminha para uma maturidade como a visão sugere, assim não é sem motivo que “das vinte vezes que a palavra aparece no NT, oito ocorrências (quase a metade) estão no escritos de Paulo”, o que é muito significativo, também, é que das oito vezes que o apóstolo cita teleios “cerca de sete vezes, o faz com referência ao que é sólido ou completo, enfatizando o que é completo, perfeito ou intacto” (THOMAS, 2003, p.201-202).

Todavia, não devemos conceber que a maturidade da igreja era o único propósito que teleion se referia, pois embora isso faça parte do escopo de argumentação paulina (14.20), não devemos assumir que to teleion aponte apenas a uma questão de maturação.

Entretanto, essa interpretação falha ao reduzir a função do teleion exclusivamente à maturação espiritual da igreja, que o crescimento do povo de Deus está nos compartimentos do pensamento paulino é notório, mas afirmar que esse era o principal ou a primeira referência que o “perfeito” apontava, não pode ser sustentada neste texto pelas razões apresentadas acima. Isto é, há uma forte persuasão retórica em Paulo que mostra um evento de culminação escatológica (cf. 1.4-8; 13.10,12), não de superação eclesiológica.

Portanto, embora a maturidade da igreja seja uma advertência paulina na epístola aos coríntios, devemos asseverar que esta é uma consequência natural do que acontecerá naquele Dia, não algo que Paulo falava a priori.

Porém, o ponto mais crítico do cessacionismo nessa perspectiva é que há um exagero minimalista sobre a maneira como Paulo utilizou o verbo pauo como um recurso que favorece a cessação deste dom (pelo menos neste texto).

Afirmar que a voz média deste verbo (pausontai) é decisiva para afirmar que este dom não pode mais acontecer nos dias de hoje é algo difícil de conceber, pois o fato de que “cessarão” não respalda uma distinção suficiente dos outros dois dons (profecia e ciência) como se este fosse passar por um processo diferente dos outros, ou como se fosse causar sua própria cessação.

Isso é um problema porque é complicado afirmar que Paulo pretendia ser tão clínico na utilização deste verbo para afirmar uma mudança tão drástica deste dom (sua cessação), pois a maneira como foi relatada pelo apóstolo demanda apenas um reconhecimento de sua fluência estilística ao falar destes três dons (profecia, línguas e ciência), ou seja, ele utiliza “desaparecerão”, “cessarão” e “passará” como elementos intercambiáveis, não de uma maneira tão clínica e perscrutadora como pretende a visão acima.

O outro motivo quanto a essa interpretação da cessação das línguas é a utilização da voz média não é um fator tão decisivo assim, por exemplo “a ação do mesmo aoristo médio “pauo” envolve necessariamente causalidade em Lucas 8:24, onde o vento e as ondas “cessaram” (epausanto), e não “por si mesmas”, mas pela ordem de Jesus” (RUTHVEN, 2008, p.120),. Assim não podemos admitir que só por que Paulo se utilizou da voz média ele imaginava, ou pretendia, todas aquelas implicações que essa perspectiva interpreta.

Sobre esse exagero na busca por uma definição exegética da voz média como determinante à formulação de uma doutrina, Carson argumenta que:

“Não é algo intrínseco à sua natureza, que exige que o cessar aparentemente independe da cessação da profecia e do conhecimento. Esta visão assume sem mandado que o interruptor a este verbo é mais do que uma variação estilística. Pior, ela interpreta a voz média irresponsavelmente. Em grego helenístico, a voz média afeta o significado do verbo em uma variedade de maneiras, e não apenas no futuro de alguns verbos, onde são mais comuns, mas também em outros tempos a forma do médio pode ser utilizada, enquanto a força ativa é preservada. Nesses pontos o verbo é depoente. Ninguém sabe a força que a voz média tem a não ser através da inspeção cuidadosa de todas as ocorrências do verbo sendo estudados” (apud MCDOUGALL, 2003, p. 197).

Assim, é necessário maior cautela em alguma afirmação categórica a respeito de uma particularidade tão específica quanto a que examinamos acima, porque além de se encontrar em sérios riscos como Carson exclamou, a afirmativa também desconsidera o contexto que liga as “línguas ainda como uma porção do charismata ek merous que se contrasta com o teleion e são abolidas por ele”; isso ainda traz outras dificuldades porque, “desde que as línguas são listadas no 12:10, 28 e 29 como um dom iniciado e mantido pelo Espírito de Deus, é absurdo inferir que elas cessarão “por si mesmas” alheia a alguma ação do Espírito” (RUTHVEN, 2008, p.120-121), logo, é muito difícil sustentar essa posição com todas estas considerações ponderadas com a honestidade devida.

7. Por que o Perfeito é o eschaton?

Com os respectivos exames das visões anteriores percebemos que há pouca concordância quando se trata da definição do que é esse “perfeito”, pelo menos nisso há harmonia no pensar, contudo, nossa proposta é mostrar que o teleion em 1Co 13.10 refere-se mais diretamente ao escathon como um evento que trará luz e culminação à todas as coisas, seja de conhecimento, maturação eclesial e todas as outras graças que possa fluir de fatídico Dia.

Por percebermos que as perspectivas anteriores não expressam com a devida simplicidade e trata o assunto até mesmo com uma determinada exiguidade interpretativa propomos estabelecer uma via que possa suportar de maneira coerente a argumentação paulina respaldada no texto em questão (1 Co 13.8-13).

Ao fazermos assim, queremos dizer que a melhor maneira de entender a fala do apóstolo aos coríntios é ver que sua argumentação parte de uma série de exortações ligando as manifestações carismáticas ali discutidas com a expectativa escatológica diversas vezes reafirmada na epístola (e.g. 15.23-28).

7.1 Desaparecerão, cessarão, passará (13.8)

Essa afirmação de Paulo parece ser bem pessimista comparada à grande dignidade que os coríntios depositavam quanto a estes dons. Uma asseveração que dê total certeza de que essas manifestações são passageiras, porque o amor jamais acaba pode ter sido um choque para aqueles cristãos; no entanto é isso realmente o que Paulo diz: Não adianta vocês se apegarem tanto àquilo que não possui valor eterno como o amor, pois eles acabarão.

Já explanamos que o propósito de Paulo ao utilizar verbos em modos diferentes (Pausontai e katargeo) não era para especificar milimetricamente a descontinuidade e/ou descontinuidade de determinados dons, mas utilizá-los como intercambiáveis para dizer, de maneira enfática, que eles terão fim. Essa sensibilidade interpretativa é necessária para não nos perdermos em detalhes não intencionados pelo o autor original em direção às inferências de discussão mais contemporânea, e as oscilações de sentido que o verbo adquirirá dependerão do seu contexto imediato.

Quanto a essa certeza da cessação de tais dons, devemos estar cintes de que, não apenas Paulo, mas todos os ramos da ortodoxia evangélica (seja ela tradicional ou carismática) afirmam também que esses dons terão fim na vinda do perfeito.

Isso é axiomático pois o teleion decidirá o a permanência daquilo que é em parte, mas a pergunta deve ser feita é: a que se refere ek merous?

7.2 Por que tanta controvérsia por causa de ek merous (13.9)?

Paulo diz que em parte conhecemos e em parte profetizamos, e, fazendo assim ele também se inclui naquele estado de incompletude; logo, quanto a isso há duas possíveis interpretações sobre ao quê se refere “em parte”.

Essa definição é necessária para alguns porque ela definirá se o teleion tem realmente alguma conexão com a perpetuidade e/ou cessação de tais dons, e, por outro lado, pode trazer luz quanto as conexões que essa perpetuidade carismática possui com o escathon.

A palavra ek merous então é colocada sob análise de duas possíveis interpretações, pois, a tendência bem erudita do Dr. Gaffin admite que “em parte” equivale a dizer que o “conhecimento presente é fragmentário e opaco (vv.9,12)”,ou seja, “o contraste entre “o parcial” e o “perfeito” (v.10;cf. vv.9,12) é qualitativo e não quantitativo – entre o que constitui a presente ordem de coisas […] e a era futura em seu caráter absoluto” (2010, p.120).

Dessa maneira, ek merous não pode estar tão intrinsecamente ligado à continuação/descontinuação de dons, pois “os dons não formam, por si mesmos, um lado do contraste, mas são parte de um quadro mais amplo” (GAFFIN JR, 2010, p.120). A intenção de Paulo é mostrar estados de conhecimento, o tempo presente como imperfeito, e o estado futuro de conhecimento, perfeito.

Ao falar sobre ek merous, Grudem estabelece como medidaa proposta de que, “em parte”, como modos de se conhecer, ou seja, to teleion em conexão com ek merous, aponta para um momento que “haverá uma forma superior de aprendizado e de conhecimento das coisas, igual à maneira pela qual “sou plenamente conhecido”(2001, p. 259). E assim prossegue a argumentação de ambos para que na reconstrução exegética de ek merous” possa se chegar a implicações mais contundentes.

Um ponto positivo de Gaffin é sua sensibilidade ao contraste de estados de conhecimento perfeito/imperfeito descrito por Paulo, e White estar correto após sua ponderação das perspectivas de Gaffin e Grudem sobre essa questão, pois embora ek merous tenha sua devida relevância neste texto (13.9), a verdade é que “no centro do debate sobre o que o NT ensina sobre a duração do dom da profecia permanece em 13:10 Coríntios ” (1992, p.179); todavia na seria prudente divorciar de maneira tão aguda as duas categorias. Pois, por que ambas têm que ser necessariamente autoexcludentes?

Quanto a esse perigo, Ruthven corretamente adverte-nos:

“Separar o “estado” do conhecimento derivado do dom do conhecimento neste contexto é diminuto: nem seria significativa a existência de um sem o outro, uma vez que este conhecimento espiritual não pode ser apreendido à parte da revelação (1 Co 2:14). Tal separação representa um equívoco em todo argumento de Paulo, que é o de corrigir problemas tratando com os dons espirituais, e não a aquisição de corpos de aprendizagem”(2008, p.120).

Essa observação de Ruthven é importante porque pondera de maneira eficaz o uso exagerado de minúcias exegéticas (com implicações anacronizando o próprio autor), como fez Gaffin ao ponto de concluir que “o tempo de cessação das profecias e línguas é uma questão aberta enquanto se considera essa passagem” (2010, p.121).

7.2 Quando, porém, vier o que é perfeito (13.10)

Em prosseguimento ao que foi dito com referência à esse “perfeito”, cremos que é inconcebível ser algum outro evento senão o escathon, isso por que até mesmo toda argumentação de Paulo desde 1.4-8, em que ele relaciona a permanência daqueles dons até o Dia de nosso Senhor Jesus Cristo, não deixando motivos para timidez ao retomar a esse assunto em 13.8-13, agora de maneira exortativa.

Esse é um princípio que permeia com muita naturalidade a epístola, e 15.24 em que ele afirma que “então (hotan), virá o télos”, como uma estrita relação do que falara anteriormente que “quando, porém, vier o que é perfeito (to teleion), então (hotan), o que é em parte será aniquilado” (13.10), isso prova que para Paulo era muito comum observar os carismas relacionados ao escathon.

Por escathon queremos dizer a consumação do plano de Deus, como um evento último, terminado, àquele estado eterno que trará luz a todas as coisas e que o veremos face a face –prosopon (13.12), ou, como na linguagem de Apocalipse 22.4: no Dia em que os remidos “contemplarão a sua face (prosopon )”.

8. Considerações finais

Após a análise realizada nos versículos do debate em questão, percebemos que por mais que os argumentos tragam certa timidez aos leitores devido o rigor acadêmico exigido por quem defende essa ou aquela perspectiva sobre o “perfeito”; e, ainda que o olhar clínico mostre-se amedrontador para aquele que não está muito arraigado nessas questões, contudo, o debate ainda é algo extremamente relevante à práxis da igreja contemporânea.

Afirmamos isso porque a prática eclesial é o reflexo do que ela crê e confessa, ainda que inconscientemente, pois para levantarmos críticas ao que for estranho aos nossos olhos, devemos nos dirigir primeiramente ao âmago da questão e para muitos 1 Corintios 13.10 é decisivo para se decidir a posição pneumatológica de uma igreja local.

Ponderando as perspectivas acima mencionadas, devemos nos resguardar para não errar em extremos em relação ao apagar do Espírito ou ao querer “acendê-lo” acima da medida bíblica. Ainda que o autor do texto tenha se posicionado mais inclinado à perspectiva do escathon/não-cessacionista; o fato é que há algo que une todos esses estudiosos e os mantêm em completa harmonia: esse debate apenas cessará quando o Dia de Cristo chegar e expor toda nossa ignorância dos assuntos que nos consideramos doutores. 


REFERÊNCIAS:

BÍBLIA de Estudo de Genebra. 2. Ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil. São Paulo: Cultura Cristã, 2009.

CARSON, D.A. A manifestação do Espírito: a contemporaneidade dos dons à luz de 1Coríntios de 12—14. São Paulo: Vida Nova, 2013.

CHANTRY, Walter J. Sinais dos Apóstolos: observações sobre o Pentecostalismo Antigo e Moderno. São Paulo: PES, 1996.

COMPTON, Bruce. 1 Corinthians 13:8-13 and the Cessation of Miraculous Gifts. Detroit Baptist Seminary Journal 9 (2004), 97-144.

GAFFIN JR., Richard B. Perspectivas sobre o Pentecostes. São Paulo: Os Puritanos, 2010.

GRUDEM, Wayne A. O dom de profecia: do Novo Testamento aos dias atuais. São Paulo: Editora Vida, 2001. GRUDEM, Wayne A. Teologia sistemática: atual e exaustiva. São Paulo: Edições Vida Nova, 1999.

MACARTHUR JR, John. Os Carismáticos: um panorama doutrinário. São José dos Campos: Fiel, 1988.

MACDONALD, William. Comentário bíblico popular do Novo Testamento. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2008.

MCDOUGALL, Donald G. Cessationism in 1 Corinthians 13:8-12. TMSJ 14/2 (Fall 2003) 177-213.

MORRIS, Leon. 1 Corítios: introdução e comentário. São Paulo: Edições Vida Nova, 1981.

RUTHVEN, Jon. On the Cessation of the Charismata. Sheffield: Academic, 2008.

THOMAS , Robert L. “Tongues . . . Will Cease,” JETS 17 (Spring 1974): 84.

VASCONCELOS, Josafá. Nada se acrescentará. São Paulo: Os Puritanos, 1998.

WHITE, R. Fowler. Richard Gaffin and Wayne Grudem on 1 Cor 13:10: A Comparison of Cessationist and Noncessationist

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