O profetismo montanista como elemento de despertamento espiritual

Na Igreja Primitiva, era corriqueira a prática do profetismo. Homens e mulheres cristãos, revestidos do Santo Espírito, buscavam o dom de profecia, que era o mais anelado, até o conquistarem, por oração, com a finalidade de proclamar os oráculos de Deus para sua Igreja. Cooperando nesse sentido, os doze discípulos de Éfeso após receberem o batismo no Espírito Santo profetizaram (Atos 19:6). As filhas donzelas de Felipe, o evangelista, profetizavam (Atos 21:9). Assim praticavam porquanto havia uma instrução apostólica para esse fim: o dom de profecia foi arrolado dentre os nove dons espirituais prometidos à Igreja pelo apóstolo Paulo, em sua primeira Epístola aos Coríntios (cap. XII), servindo para o propósito específico de edificação do Corpo de Cristo.

A profecia é uma manifestação espiritual ocorrente e recorrente em toda História do povo de Deus. No Antigo Testamento, a mesma era proferida de forma bastante particular: enchimento espiritual temporário de um profeta, exposição do pecado do povo e admoestação para seu arrependimento. O profeta falava “tomado” pelo Senhor, razão pela qual no seu discurso encontra-se a expressão: “Eu sou o Senhor teu Deus…” (Veja Isaías 43:1-3, Jeremias 23:31, Ezequiel 11:10). Esse fato não fazia o profeta acreditar que era Deus, mas que o próprio Deus falava por seu intermédio. No Novo Testamento, a efetivação do dom permitiu que a voz do Senhor fosse ouvida diretamente pelo seu povo, entretanto, de uma forma mais aperfeiçoada, uma vez que o Espírito passou a residir no crente. O objetivo da profecia é, segundo os escritos apostólicos, falar aos homens para edificação, exortação e consolação (I Co 14:3). Rienecker e Rogers (2003) enfatizam, etimologicamente, que os três termos utilizados por Paulo são indicativos para encorajamento e consolo, portanto não fazem referência à doutrinação. A doutrinação é prédica exclusiva do corpo apostólico e a permanência do dom de profecia na Igreja confirmava o ensino, tornando-o adorno espiritual que demonstra a integração da Igreja com o Senhor, sua devoção e sua consagração.

Após os tempos apostólicos, no século II, uma nova mentalidade surgiu, suplantando, paulatinamente, o carisma da Igreja. A preocupação demasiada com os rumos da instituição eclesiástica, a politização episcopal e o pensamento filosófico de bispos comprometendo a doutrina, ocasionaram a diminuição e até a eliminação dos dons espirituais no contexto da Igreja. Esta entrou numa fase letárgica e insensível quanto ao chamado do Espírito, testemunhando também uma redução de sua moral, ativismo agressivo e apostasia. Giesbrecht (2007, p.65) enfatiza o problema: “uma análise do final do século II demonstra vários sinais de fraqueza espiritual no testemunho da Igreja. A decadência moral que já começara há algum tempo estava se evidenciando na participação de atividades coercitivas”. Muirhead (1959, p. 74) contribui com semelhante posição asseverando:

O Cristianismo entrou no segundo período histórico sem literatura, sem cultura filosófica e sem posição social; no entanto ao terminá-lo já contava com esses três elementos. Houve nisso, é verdade, algumas vantagens, mas quantos prejuízos não trouxeram os erros filosóficos e a imitação das cerimônias pagãs vindas com a cultura do Cristianismo?! Além disso, o emprego de meios ilegítimos em busca de posição social e poder político abriu a porta a toda espécie de abusos. Este período notabilizou-se pelo crescimento e gradual corrupção do Cristianismo.

Para Martin N. Dreher (2009, p.26), esta situação configurou os caminhos da depreciação da fé cristã, ou seja, sem o brilho e o vigor dos primeiros idos da Igreja, percebeu-se que “…o entusiasmo do cristianismo primitivo estava desaparecendo…”. Além dessa situação, pontua-se a questão do governo episcopal que para legitimar um poder não proveniente de Cristo, mas da concepção equivocada de alguns bispos que persuadiram outros a uma conduta de dominação, emerge reivindicando obediência da Igreja para si. Segundo eles, o poder e a autoridade dos apóstolos lhes foram transferidos de modo que poderiam administrar a Igreja segundo seu próprio entendimento, inclusive, “rejeitando” os postulados apostólicos e acrescentando suas conveniências. Mais um equívoco! A Igreja precisava apenas de homens vocacionados que a fizessem guardar tudo quando os apóstolos ensinaram. Dreher (2009, p.27) faz menção ao fato: “Um dos mais decididos defensores do episcopado monárquico foi Inácio de Antioquia, que afirmou que cada comunidade teria de ter um bispo ao qual deveria obedecer sem restrições”. Por outra via, o Didaquê e o tratado de Hipólito de Roma sobre a tradição apostólica favoreceram esse pensamento. Além disso, o Didaquê trazia regras e condutas não assistidas pelas Escrituras, enquanto Hipólito tornava o ritual cristão hermético, sem as possibilidades de fluidez nas quais o Espírito gostava/gosta de trabalhar. Ambos favoreciam um conceito chamado de tradição. Acreditava-se que essas prescrições haviam sido ensinadas pelos apóstolos e a Igreja os tinha incorporado em sua vida comunitária de modo que deveriam ser guardadas pelas gerações subsequentes. Na verdade, verifica-se a ocorrência de uma tradição oral, muito flexível e muito vulnerável, porquanto, nela, encontram-se discrepâncias e heresias diante das doutrinas epistolares. Consideramos, no entanto, que os dois documentos tem valor histórico, mas não plenamente de regras de fé.

Portanto, explanado brevemente o ambiente no qual se encontrava a Igreja do século II, percebemos a formulação de uma equação nada favorável ao Cristianismo: decadência moral, frieza espiritual, emersão de um poder humano e incremento da doutrina à filosofia resultaram na posterior institucionalização do Cristianismo no século IV. Inconformados com o desastroso comportamento eclesiástico emergem os Montanistas, liderados por Montano, Maximila e Priscila que passam a praticar e a resgatar no meio dessa Igreja contaminada as experiências encontradas em Atos dos apóstolos. Buscaram uma vida disciplinada e carismática através de profecias. Essas profecias incomodaram principalmente os bispos, pois desafiavam o seu poder e redirecionavam a atenção da Igreja.

A ênfase de Montano ao proclamar sua profecia como elemento espiritual, necessário e imprescindível à Igreja figura, até hoje, para muitos, como um ato heterodoxo. Por qual razão? Possivelmente duas foram as mais relevantes: não perceberam a frieza espiritual do momento que impedia a assimilação de um ato que era próprio da Igreja Primitiva e uma suposta indicação de que Montano reconhecia-se como o próprio Paráclito ou pelo menos era o único oráculo ao seu serviço. Para podermos fazer um julgamento correto acerca das profecias do grupo seria necessário conhecermos o conteúdo de suas profecias. As que temos, não parecem indicar um problema teológico (Santos, p.116-121). Nem nos parece, pelos escritos de Tertuliano, que Montano desejaria ser o Espírito que orienta; sua intenção, supomos, era simplesmente ser um cristão cheio do Espírito que se consagrava para despertar o povo de sua acomodação espiritual.

Mas tenhamos um cuidado de analisar o que nos foi transmitido. Se Montano se autoproclamava o Paráclito, então, é porque ele reivindicava essa identidade. No começo do artigo, demonstramos que a conduta dos profetas bíblicos aludia a um discurso igual: eles falam como se fossem o Senhor, mas nem por isso se achavam o Senhor. Acreditamos que o mesmo sentimento repousava no entendimento de Montano, levando-nos a acreditar que sua prática tinha a intenção de ser estritamente bíblica. Quanto mais fundamentado nos preceitos bíblicos maior seria sua influência. Esse era o parecer quanto à operação do Espírito naqueles tempos. Vejamos o que afirmou Irineu apontando uma suposta razão para a negação do fluir do Espírito:

Outros, para rejeitar o dom do Espírito distribuído nos últimos tempos sobre o gênero humano, segundo a vontade do Pai, não admitem a forma do Evangelho segundo São João, na qual o Senhor prometeu enviar o Paráclito. Mas rejeitam do mesmo modo o Evangelho e o Espírito profético. São verdadeiramente infelizes os que sustentam que há falsos profetas e que encontram nisso o pretexto para expulsar da Igreja a graça profética, comportando-se como aqueles que, por causa de pessoas hipócritas, se abstém de relações com os irmãos. É normal que tais homens não aceitem tampouco o apóstolo Paulo, pois, na Epístola aos Coríntios, ele falou com precisão dos carismas proféticos e conhece homens e mulheres que profetizam na Igreja. Por tudo isso, portanto, essas pessoas pecam contra o Espírito de Deus e caem por isso mesmo em um pecado irremissível. (Ange, 1999, p.249-250 APUD Irineu, Contra as heresias III, 11,9)

De contrapartida e com requintes ardilosos, escritores e historiadores tentam desabonar a prática profética dos Montanistas como ações exageradas e inapropriadas, considerando-as para além das práticas cristãs. Bonneau (2003, p. 275) destaca que “O movimento era conhecido por suas tendências ascéticas, sua valorização de celibato e sua inclinação ao martírio. Tertuliano descreve a impetuosidade dos profetas montanistas: êxtases, convulsões e crises desordenadas (De anima 9)”. Lembremo-nos que a Bíblia Sagrada, por exemplo, alude a experiência de Pedro, em êxtase, como uma ação provenientemente divina. Lucas registra a ação como um êxtase ou arrebatamento de sentidos (Atos 10:10 e Atos 11:5) e Pedro assevera ter passado pela experiência com a finalidade de contemplar uma visão, segundo a vontade de Deus. Êxtase ou arrebatamento de sentidos serviu para conceder uma orientação particular a Pedro, mas também pode significar enlevo e contemplação. Tanto em uma, como em outra, nos é permitido discernir que se tratava de uma experiência serena e pacífica, sem as ponderações malfadadas do supracitado autor. Para não ficarmos no plano especulativo com relação à ação Montanista, faz-se necessário aludir ao fato citado por Bonneau. Quem dispõe do tratado De Anima logo se surpreende com sua má intenção, pois no capítulo citado não há uma manifestação escandalosa; pelo contrário, há um ambiente ordeiro e, segundo a orientação de Paulo, com decência (conforme 1ª Co 14:23-24, 30-33). Tertuliano nos mostra um momento do culto no qual uma irmã tinha revelações de Deus e as dizia após o término do mesmo com muita paz de espírito (veja Santos: 2011, p.132).

Por isso, em Cartago, registrou-se um forte apego ao ideal Montanista de reavivar a fluência do Espírito, percebendo suas reais intenções, pressupomos. Tertuliano, ao aderir ao movimento, o defendeu com suas armas mais eficientes: a argumentação bíblica, a lógica(coerência) e o testemunho. O maior trabalho em defesa dos Montanistas, escrito por Tertuliano, foi De ecstasi, um composto de 7 (sete) livros. O vigor do escritor latino prevalece neste tratado, pois defende o movimento, rechaça aqueles que condenavam a Nova Profecia (designativo dos opositores aos Montanistas) e acusa os bispos de se preocuparem com o poder político na Igreja a ouvir o Espírito. Tertuliano, com sua veia advocatícia, trata a questão com a sabedoria de alguém que sabia qual o caminho o Montanismo estava trilhando: o retorno ao primitivismo cristão. Cristão ávido por provar a inocência de sua Igreja, propõe-se a argumentação contra seus acusadores e produz essa obra grandiosa e de vasto conteúdo: De ecstasi.

Sabemos da existência do tratado “Acerca do êxtase” (De ecstasi) devido aos registros de Jerônimo, em De viris Illustribus (Sobre Homens Ilustres), no qual nos diz: “Tertuliano, esse gênio elegante e contestador, o qual escreveu contra a Igreja e a favor de Montano em sete livros, zomba, dizendo que ele (Montano) era reputado como profeta por muitos de nós” (capítulo XXIV) e Tertuliano “menciona a Nova Profecia em muitos de seus livros, especialmente contra a Igreja em acerca da perseguição, sobre o jejum, acerca da monogamia, nos seis livros sobre o êxtase e no sétimo, contra Apolônio” (capítulo LIII).

Jerônimo destaca, no mesmo livro, que Tertuliano escreveu a referida obra no quadragésimo ano após o início do movimento dos Catafrigas. É visto que Tertuliano adiciona aos seis volumes que escreveu contra a igreja em De ecstasi uma sétima, dirigida especialmente a Apolônio, no qual defende tudo o que o autor antimontanista refutava. Apolônio foi um escritor que pode ter sido bispo de Éfeso, mas não há justificativas que comprovem essa informação nos escritos de sua época. Deu-se à tarefa de compor um tratado que desqualificasse o Montanismo, porém, utilizou-se de boatos e de fatos não confirmados que, posteriormente, foram rememorados por Eusébio de Cesareia. A ética e a verdade passaram a passos largos desses escritores.

Esse primeiro registro histórico do qual temos notícia é do século IV. Tempos nos quais o tratado sobre o êxtase teria desaparecido. Porém, o abade Johann von Trittenheim, por volta do ano 1492, catalogando os escritos cristãos ao longo da História (De scriptoribus ecclesiasticis), listando as obras de Tertuliano conhecidos por ele, elenca o tratado sobre o êxtase (foto 1), atestando tê-la visto na biblioteca na qual trabalhava. Portanto, esse tratado é de suma importância para conhecermos mais da história Montanista, no entanto, dele, estamos privados neste momento. Contudo, pensamos que pode estar esquecido ou escondido para que não venha à tona a vergonha de muitos.

Foto 1: catálogo manuscrito do abade Johann von Trittenheim com o registro do tratado de Tertuliano de Cartago “De ecstasi” , escrito no seguinte formato “De extasi”.

Diante do que temos analisado, é coerente tratarmos o Montanismo com muito mais respeito. Muitos acreditam seguramente neste movimento, inclusive, grandes avivalistas como John Wesley, pai do Metodismo. Collins (2010, p. 326) confirma nossa afirmativa:

Assim, depois de ler “The General Delusion of Christians with regard to Prophecy” (A Desilusão Geral dos Cristãos em relação à Profecia), Wesley fica totalmente convencido do que suspeitava havia muito tempo, a saber, que, “nos séculos II e III, os montanistas eram cristãos verdadeiros e escriturais”, apesar da antiga Igreja Católica tê-la condenado. Wesley oferece alguns indícios da dinâmica e da motivação dessa condenação nesta observação: “[Que] o grande motivo por que os dons milagrosos foram retirados tão depressa não foi apenas pela fé e a santidade estarem quase perdidas, mas por que até mesmo homens secos, formais e ortodoxos começaram a ridicularizar quaisquer dons que eles mesmos não tivessem e a censurá-los publicamente como loucura ou fraude”.

Portanto, profecia e Montanismo estão intimamente ligados. Afinal, perceberam que a promessa do Espírito estava para além dos tempos apostólicos e não podiam rejeitar tão venerável dom. Sua conduta partiu do exame das Escrituras uma vez que reverenciavam os Evangelhos e, principalmente, as Epístolas Paulinas, levando-nos a acreditar que a carta aos Coríntios lhes servia de meditação constante. Para encerramos, apresentamos uma orientação quanto à conduta no contexto pentecostal que Paulo Romero destaca para bem usufruirmos a comunhão com o sagrado. Acreditamos que esse conselho reflita o posicionamento de Montano, Maximila, Priscila e Tertuliano:

Todas as manifestações sobrenaturais – sonhos, visões, revelações, experiências pessoais ou coletivas – não têm a mesma autoridade que a Bíblia Sagrada. Esses fenômenos devem ser avaliados à luz das Escrituras, única regra de fé e prática para o cristão. Nos capítulos 12 e 14 de I Coríntios, a Palavra de Deus fornece as instruções necessárias para a operação dos dons espirituais com o propósito de edificar o Corpo de Cristo. As manifestações do dom de profecia devem ser julgadas pela congregação (I Co 14:29) e tudo deve ser feito com ordem e decência (I Co 14:40). (Romero:2005, p.26)


REFERÊNCIAS:

Ange, Daniel. A renovação – primavera da Igreja. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

Bonneau, Guy. Profetismo e instituição no Cristianismo Primitivo. São Paulo: Paulinas, 2003.

Collins, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

Dreher, Martin N. A Igreja no Império Romano – vol. 1. São Leopoldo, RS: Sinodal, 2009.

Giesbrecht, Bem. Guardando a fé. Rio Verde, Goiás: Publicadora Menonita, 2007.

Muirhead, H.H. O Cristinismo através dos séculos. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1959.

Stridonensis, Eusebius Hieronymus (Jerônimo). De viris illustribus. Disponível em http://khazarzar.skeptik.net/books/hieronym/viris_l.htm.

Rienecker, Fritz, e Rogers, Cleon. Chave linguística do Novo Testamento grego. São Paulo: Vida Nova, 2003.

Romero, Paulo. Decepcionados com a graça – esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2005.

Tertuliano. Acerca del alma. Espanha: Akal Ediciones, 2001.

Santos, Francisco Heládio Cunha dos. Montanismo e os profetas catafrigas – uma análise contra-hegemônica da História do movimento Montanista. Fortaleza: Moriá Editora, 2011.

The Tertullian Project. Disponível em: http://www.tertullian.org/works_lost.htm#DeEcstasi. Acesso em 27 Abril 2016.

The Tertullian Project. Disponível em http://www.tertullian.org/witnesses/trithemius.htm. Acesso em 27 Abril 2016.

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