O propósito dos dons espirituais em 1Co 12-14

A igreja de Corinto era como a igreja Americana de nossos dias: socialmente estratificada, individualista e dividida. Apesar disso, Paulo os comanda possuir os dons espirituais (1ªCo 1:5,7), e os reprova por uma deficiência mais grave: falta-lhes amor, o princípio que deveria orientá-los sobre quais dons buscar. (12-14;1:10).

Os dons espirituais (1ªCo 13) são para edificação do corpo (1ªCo 14), e o amor deve coordenar nossa expressão acerca deles. Assim, a profecia é um dom que edifica os outros, portanto muito mais útil publicamente que línguas sem interpretação (1ªCo 13). Dons, incluindo profecia, não são garantia de compromisso; alguém pode profetizar falsamente ou mesmo se submeter à inspiração do Espírito Santo sem estar comprometido com Cristo (Mt 7:21-2,3; 1Sm 19:20-24).

Paulo relembra seus amigos em Corinto que eles experimentaram inspiração extática na religião grega antes de sua conversão, e aponta que a mensagem de Cristo, ao invés de uma inspiração geral, é o que importa (1Co 12:1-3.). Comunicar o conteúdo da mensagem de Deus, ao invés uma fala extática em línguas, é o mais importante. Esse princípio aplica-se não somente ao falar em línguas e às profecias, mas também deve ser estendido aos pregadores que confundem entusiasmo com unção ao entregarem um discurso vazio e sem bom conteúdo escriturístico.

Ele também relembra a seus ouvintes que todos os dons vêm do mesmo Espírito (12:4-11) e que estes são interdependentes (12:12-26). Paulo lista então os principais (apóstolos, profetas e mestres) e depois enumera outros dons sem colocá-los em uma ordem de importância ou autoridade (12:27-30). Argumenta com essa igreja para ser zelosa na busca pelos “melhores” dons (que são, esses que vão edificar mais a igreja; (Co 12:31), especialmente profecia (Co 14:1). Assim como é apropriado buscar os dons espirituais, embora nós escolhemos quais dons buscarmos determinando quais dons irão edificar mais o corpo de Cristo. Isto é permitir que o amor oriente nossas escolhas (1ª Co 13).

Paulo cobre esse ponto com algum detalhe: Ainda que mantivéssemos todos os dons espirituais em sua maior intensidade, nós não seríamos nada sem amor (13:1-3). Os dons finalmente passarão, mas o amor é eterno (13:8-13). Embora observando a prioridade do amor sobre os dons espirituais, Paulo descreve as características do amor (13:4-8a). Muitas das características que ele lista (não ser jactancioso, por exemplo) são precisamente opostas às características que ele inicialmente atribui aos seus leitores (cf. 5:2; 8:1). Assim, enquanto os cristãos de Corinto foram fortemente conduzidos para os dons, eles foram fragilmente conduzidos no caráter. Por essa razão, Paulo precisava enfatizar a importância do dom de profecia, que edificava a toda igreja, ao contrário do excesso de línguas sem interpretação, que edifica somente quem fala (1ª Co14). Embora Paulo focasse no que poderia servir a igreja como um todo, ele foi cuidadoso em não retratar negativamente o dom de línguas (14:4; 14-19,39). Ele exercia esse cuidado apesar de não saber que alguns cristãos posteriormente, ao contrário de (14:29), poderiam rejeitar os dons.

A relevância das palavras do apóstolo à igreja de Corinto levanta uma questão em saber se Paulo poderia ter aplicado o mesmo argumento para todas as igrejas de seus dias. Como muitos pentecostais e carismáticos percebem, algumas daquelas específicas restrições aos dons podem ser aplicadas para uma excessiva situação em Corinto, ao invés de todas as igrejas. Se como é provável, a igreja de Corinto composta em média de 40 membros sentados, eu suspeito que a dinâmica espiritual dos dons se aplicaria de forma diferente em uma igreja que possuísse 2 mil membros, onde muito mais limites deveriam ser necessários ou em uma reunião de oração considerando 5 membros, onde menos restrições seriam necessárias.

Da mesma forma, nas igrejas de hoje, onde os dons espirituais são suspeitos, a profecia poderia edificar a igreja não mais que as línguas poderiam, porque mesmo a profecia mais pura, aprovada por outros verdadeiros profetas, poderia somente introduzir divisão.

No entanto, alguns carismáticos insistem que a função pública de todos os dons, incluindo línguas e profecias, é tão importante que devemos possuí-los (12:31;14-1) mesmo se dividir a igreja. Outros carismáticos, contudo, reconhecem que essa visão perde completamente o ponto de Paulo. O propósito dos dons é fazer o corpo de Cristo forte, e se o uso público poderia dividir uma congregação não carismática, igrejas carismáticas deveriam honrar a unidade do corpo de Cristo em primeiro lugar. Isso não quer dizer que eles não devam trabalhar juntos de forma apropriada para levar a congregação a uma maior maturidade bíblica em matéria de dons espirituais.

Mas enquanto os dons são muito importantes e bíblicos, eles não são a questão mais importante no corpo de Cristo. O grande sinal de maturidade cristã é o amor.


Título original: The Purpose os Spiritual gifts – 1Corinthians 12-14

Fonte: www.craigkeener.com

Tradução: Douglas Ferreira

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Categorias: Dom de Línguas,Dom de Profecia,Estudos Bíblicos (AT/NT)

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