O Rebatismo Montanista: “era do céu ou dos homens”?

O trajeto histórico de qualquer grupo social é marcado por muitas mudanças se o compararmos ao do seu caráter original. No caso do Cristianismo, por um lado, algumas modificações ocorridas não influenciaram negativamente sua essência; ao contrário daquelas que atingiram suas formas elementares e sua compleição, transformando-o num outro movimento com contornos que vão além dos marcos fundamentais. No tocante ao Montanismo, inserido nesse contexto, sua gênese demonstra uma reação contra essas instituições modificadoras, fazendo-se necessária uma incursão conceitual para elucidarmos certos dilemas teóricos que surgiram levantados por muitos que se debruçaram no estudo da religião, objetivando extrair ao máximo suas nuanças, mas que se perderam ao longo do caminho, cedendo aos ditames majoritários, perdendo a oportunidade de verem o que de fato foi esse movimento. Aspectos religiosos, quando bem analisados, permitem conclusões lúcidas e convincentes, não deixando este foco em solidariedade a certas conveniências.

O Cristianismo, quando surgiu, carregou em sua essência valores espirituais e oriundos do Messias que também se intitulou Deus. Dele proveio todo o conjunto integrado de preceitos inalienáveis e absolutos resultantes de uma ação divina bem articulada e projetada para que fossem observados incondicionalmente; afinal, a vontade Divina se sobrepõe à humana. A transferência do conhecimento divino, entretanto, não foi bem recepcionada pela geração agraciada pela presença do Ungido do Senhor por diversos fatores (soberba humana, filosofias céticas, poderes mundanos), apesar de encontrar refúgio em um remanescente; fato também verificado nas gerações próximas e posteriores, pois se analisarmos bem perceberemos uma série de digressões ao sentido aplicado no início. Analisemos a questão do batismo para chegarmos a essa conclusão, por exemplo.

Quais regras imutáveis foram apresentadas para os apóstolos sobre o batismo? Resumidamente, a primeira dizia respeito ao local do batismo: um lugar em que deveria haver muitas águas (Jo 3:23). Etimologicamente, a palavra batismo procede de “baptízein”, termo encontrado no grego eclesiástico, cuja significação é imergir e mergulhar.  Pode também ser traduzindo como “tingir”, uma vez que o sentido é pertinente ao assunto, porquanto para se tingir determinado tecido havia a necessidade de mergulhá-lo todo na tina com corante, abrindo precedente para o rito de imersão cristão. O segundo faz referência ao nome invocado quando da realização do rito: “…batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28:19). E o terceiro, é o ritual propriamente apresentado em Atos VIII, narrativa do encontro de Filipe, o evangelista, com o eunuco. As breves citações confirmam a maneira de ser do batismo, simples e objetivo.

Tertuliano assevera o rito da seguinte maneira: “… o homem desce à água, é imerso nela sob algumas poucas palavras, não saindo muito ou nada mais limpo” (Ad Baptismo, caput II). Por mais que alguns estudiosos falem que Tertuliano tenha incrementado este rito de acordo com as tradições da época, incutindo, inclusive, nas gerações posteriores, o batismo infantil, o que importa demonstrar neste momento é que Tertuliano apresenta simplesmente a fórmula prescrita para o batismo. As especulações sobre esse tratado e outras análises que se contrapõem a essa serão analisadas melhor em produção posterior, mas podemos adiantar que o tratado Ad Baptismo é, em muitos momentos, simbólico, texto no qual o autor, com forte influência espiritual, tenta espiritualizar todos os elementos constantes do ritual. A nosso ver, algo que não comprometerá o sentido original do rito. Além disso, Tertuliano não reconhece o batismo infantil como hoje é administrado no catolicismo romano; o escritor patrístico é lúcido nesta questão e a leitura do texto não nos deixará ter outra conclusão.

Em contrapartida, o Didaché (A instrução dos doze apóstolos), capítulo VII, apresenta o rito do batismo com uma série de acréscimos ao ensino original e uma grande modificação:

Quanto ao batismo, faça assim: depois de ditas todas essas coisas[1], batize em água corrente, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Se você não tiver água corrente, batize em outra água. Se não puder batizar com água fria, faça com água quente. Na falta de uma ou outra, derrame água três vezes sobre a cabeça, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Antes de batizar, tanto aquele que batiza como o batizando, bem como aqueles que puderem, devem observar o jejum. Você deve ordenar ao batizando um jejum de um ou dois dias.

Percebemos que no Didaché o ritual de batismo é profundamente modificado, visto que passa por um processo de antagonismo explícito: de imersão passa para aspersão. Não obstante questões de água fria ou quente e jejum, aquilo que surpreende é o ato de derramar água por três vezes na cabeça, objetando o primeiro ensino. Na verdade, todo ensino que contraria o preceito bíblico estabelecido era tido por herético. E por que esse não foi assim classificado?  

Os fundamentos da fé cristã deveriam está circunscritos às Escrituras, não permitindo acréscimos ou mutilações ao seu texto. Uma fuga ao ensino canônico consistia na incrementação humana em detrimento ao conteúdo expresso e dito divino. Atitudes como essa redefinição de uma ordenança preciosa para o Cristianismo foi uma forma de emancipar o homem da vontade divina, possibilitando uma gerência do movimento cristão a partir dele próprio, administrando o curso da cristandade pelos olhos do bispado emergente e em vias de cristalização. Deus, nesse contexto, figurou como aquele que delegou toda ministração para os protagonistas do novo momento, os bispos da sucessão (a qual chamamos equivocada). Ora, a igreja geral passava por uma decadência espiritual tão forte que não percebeu seu desvio nas incrementações doutrinárias e práticas cristãs. Além disso, por mais que não admitissem, o trabalho escriturístico e epistolar dos Pais consistiam em dogmatizar a igreja, adequando práticas apócrifas da comunidade às suas convicções, não se sujeitando, exclusivamente, às prescrições apostólicas. Pela falta de definição do que seria o cânon bíblico, verificou-se a dificuldade para tratar das questões doutrinárias, ao ponto de meras práticas não condizentes com as obras da Igreja Primitiva, por mais devotadas que parecessem, serem classificadas como autenticamente cristãs e dignas de perpetuação. Um erro!

O rebatismo Montanista reivindicava não só o cumprimento perfeito do rito evangélico do batismo, mas também uma reação contra esses institutos criados pelos homens de poder sobre a igreja geral. Sabemos que a prática efetiva do batismo selava a orientação de Cristo na qual ordenava seu cumprimento para aqueles que faziam profissão de fé, tornando-se, verdadeiramente, discípulos do Mestre. O discípulo para Cristo era aquele que o seguia respeitando todos seus preceitos, enquanto o discípulo da igreja geral já nascia viciado com condutas contrárias ao fiel Cristianismo, concretizando um afastamento progressivo do sentido primeiro. A negação do nome de Cristo, talvez, fosse a pior prática encontrada entre eles, pois eram levados a renunciá-lo diante de certas circunstâncias temerárias. Revestidos da autoridade proveniente da firmeza de fé, os Montanistas rejeitavam os apóstatas, “obrigando-os”, após uma possível retratação e arrependimento, a serem rebatizados para demonstrarem a certeza da autêntica fé. Obviamente, não foi uma questão tratada pacificamente, visto que gerou um paradoxo diante da situação. Mas, qual atitude correta tomar diante dos feitos de quem praticou apostasia?

Em uma análise sobre a possibilidade de os hereges receberem o novo batismo ao ingressarem na igreja geral podemos vislumbrar certas medidas nada coerentes para se tratar problemas de semelhante natureza, uma vez que Bettencourt traz algumas informações sobre a época, tentando também justificar o tipo de prática proveniente da tradição (administração humana) e desqualificar as medidas montanistas para o batismo, Bettencourt afirma:

A situação se tornou mais grave quando o bispo S. Cipriano em 255-6 passou a apoiar a sentença e a praxe do re-batismo. Tal posição era fortalecida pelo fato de que os hereges montanistas batizavam *em nome do Pai, do Filho e de Montano ou de Priscila (fundadores da corrente montanista)*. Tal Batismo era evidentemente inválido, pois não observava a fórmula ensinada pelo Senhor Jesus (cf. Mt 28,18-20); se, porém, o batismo dos montanistas era inválido, parecia a muitos cristãos que o batismo de qualquer facção herética devia ser igualmente tido como inválido. Em Roma o Papa S. Estevão opôs-se ao costume do re-batismo, ameaçando de excomunhão os cristãos da África do Norte, caso insistissem em re-batizar os hereges batizados fora da Igreja Católica; apenas se deveria exigir que tivessem penitência para entrarem em comunhão com a Igreja Católica. Dizia textualmente o Papa uma frase que ficou célebre: *Se os hereges vêm a nós, qualquer que seja a sua seita, nada se inove, mas siga-se a Tradição, impondo-lhes as mãos para que façam penitência* (o Papa supunha naturalmente o Batismo conferido segundo a fórmula do Evangelho). O mesmo Pontífice enviou semelhantes determinações aos bispos da Ásia Menor que re-batizavam; em 256, informado de que 87 bispos reunidos em Sínodo haviam reafirmado a necessidade do re-batismo, o Papa os excomungou (não se sabe, porém, se tais bispos tinham recebido previamente as instruções de Estêvão I).

A explícita tentativa de desqualificar os montanistas está presente no texto quando o mesmo diz que o “Nome” pelo qual o batismo deveria ser administrado deveria trazer o de Montano e Priscila. De forma sucinta, não há escritos montanistas que comprovem esta afirmação; bem como é cabível a informação de que quando Tertuliano combatia hereges no Ad Baptismo se referia aos cainitas (seita de vertente gnóstica), portanto não montanistas. Não podemos ampliar a concepção de Tertuliano, pois havia um problema em questão: a concepção errada de batismo para os cainitas. Os textos que trazem Montano e Priscila dizendo que eles deveriam ser reivindicados no ato batismal parte de seus opositores (Epifânio de Salamina), uns contemporâneos que não o viram face a face e outros que viveram décadas depois. Seguindo essa linha de pensamento, os opositores diziam que eles blasfemaram contra o Espírito Santo (um pecado imperdoável), atribuindo ilegalmente e imprudentemente para Montano e Priscila o nome do Paráclito, desse modo, divinizando os seres humanos ou reduzindo o Espírito Santo ao status humano. Parece-nos uma grande contradição da parte dos membros da igreja geral, pois ao recriminarem o rebatismo montanista estavam liberalizando princípios conquistados com o sangue do Cordeiro. Essa liberalização coadunava-se com o sentido de prodigalizar, ou seja, expor a perigos e arriscar os valores defendidos como imutáveis. A grande diferença entre os cristãos nominais e os montanistas era que os primeiros pareciam não está tão interessados em cumprir as prescrições apostólicas, enquanto os catafrigas firmavam-se e aprofundavam-se nos preceitos da primeira Igreja de Atos. A iniciativa Montanista orientava-se pelo seguinte raciocínio: a única prova dos apóstatas provarem arrependimento era serem batizados, contrariando uma legislação romana, razão da perseguição, “expondo-se” e demonstrando coragem para, se preciso fosse, cumprir com o batismo de sangue (martírio). O rito era tido, então, como um ato altruísta, abnegado e de completa dependência de Cristo, ou seja, o testemunho fiel da fé verdadeira.

É importante mencionar que o rebatismo era uma confirmação de arrependimento, não encontra no primeiro rito. O arrependido deveria obrigatoriamente exigir para si o batismo como fez o eunuco. Negar a ação de rebatizar era incorrer em excessiva autoridade ou, melhor, é tentar subtrair a prática ensinada por Cristo para submetê-la a uma decisão de homem.

Diante dos muitos desvios ocorrentes na época, uma forma de reivindicar o cumprimento fiel dos cristãos era olhar para o sentido primeiro das práticas da Igreja Primitiva. Os montanistas parecem ter tido esta sintonia e reagido contra os institutos dogmáticos implementados pelo avanço do poder eclesiástico, proclamado pelos defensores da causa da sucessão apostólica. O rebatismo montanista, portanto, é reacionário porque entende um desassuste espiritual que compromete o meio de salvação impetrado por Cristo entre os da comunidade da igreja geral. Significava uma rejeição à profunda mudança através de um instituto fundamental da fé: o batismo. A conotação particular dedicava-se a demonstrar que era necessário um retorno aos princípios, uma volta para o Cristo, para os primeiros ares do Cristianismo e uma negação para com o governo autoritário do homem cujo dogmatismo comprometia os pilares seguros da fé. Basta lembrar que no seio da igreja geral havia uma grande fragilidade de fé diante das perseguições. Muitos rejeitaram o nome de Cristo para reverenciarem César, temendo a morte, levando os montanistas a concluírem que eles não gozavam da certeza da vida eterna, de modo que não eram dignos de terem descido às águas batismais. Com algumas exceções, a maioria se comportava com práticas associando Cristianismo, tradições e místicas cristãs passando a introduzir na memória coletiva da comunidade um misto negativo para o Cristianismo como foi o fato da celebração anual junto aos restos mortais de Policarpo, discípulo de João.  


Referências

Bettencourt, D. Estevão. O Re-batismo e o Donatismo. Disponível em: http://www.universocatolico.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=576. Acesso em 08 JUN 2017.

De Gruyter, Walter. Ablution, Initiation, and Baptism – Late antiquity, early Judaism, and early Christianity. Germany: Hubert&Co.GmbH&Co.KG, GÖttingen, 2011 

Tertuliano. O sacramento do batismo. Tradução: Urbano Zilles. Petrópolis: Editora Vozes, 1981. 

[1] Recomendações diversas sobre o comportamento cristão.

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