Os dons espirituais da atualidade como análogos aos dons apostólicos: a afirmação da obra extraordinária do Espírito Santo dentro da teologia cessacionista: Parte II

Continuação do capítulo anterior…

VI. CONTEÚDO CIRCUNSTANCIAL RECEBIDO POR MEIO DE PROCESSOS NÃO-DISCURSIVOS

Há muito temos discutido o conteúdo do ensino. Vamos agora considerar o segundo tipo de conteúdo – a saber, o conteúdo circunstancial. Nesta categoria nós temos declarações como as que seguem. Numa igreja americana alguém diz: “eu sinto que nossa igreja irmã em Xangai está em luta espiritual e passando por ataques”. Certa vez, C.H. Spurgeon apontou na direção da galeria da igreja dele e disse “jovem rapaz, as luvas que você tem em seu bolso, você não pagou por elas”[1]. Em uma outra ocasião, Spurgeon disse “há um homem que é sapateiro e que mantém sua sapataria aberta aos domingos; ele a abriu no último Sabbath pela manhã; pagaram-lhe nove pences por um serviço[2] e lucrou quatro pences. Sua alma foi vendida a Satanás por quatro pences”. Uma mulher na Suíça teve uma visão de um auditório em Essex onde Os Guinness estava prestes a palestrar e onde uma garota estrangeira estava prestes a impedir o encontro[3]. Todos são casos de conteúdo circunstancia obtidos por meio de processos não-discursivos.

Indubitavelmente esse tipo de conteúdo causa maiores dificuldades. No entanto, elas são consideravelmente reduzidas se atentarmos ao fato de que a informação obtida não é muito diferente em seu conteúdo daquelas obtidas por meio de canais óbvios. Por exemplo, em princípio a igreja em Xangai podia estar habilitada para fazer chamadas de longa distância para irmãos e irmãs dos Estados Unidos. Spurgeon podia ter obtido a informação (mas não foi o que ocorreu) da pessoa que havia roubado o par de luvas ou daquele que abriu sua loja no domingo. Os Guinness poderia ter efetuado uma chamada de longa distância para aquela mulher da Suíça. O tipo de informação envolvida não é impressionante. O impressionante é que a informação veio por meio de processos não-discursivos. Não houve qualquer chamada de longa distância ou qualquer outra comunicação cientificamente analisável pela qual a informação chegou ao receptor. Tais informações como um processo espiritual operando no nível da crença ordinária, ou concebida no nível dos dons espirituais. Se o cânon está completo, não há caminho pelo qual essa informação pertença ao nível 1 ou nível 2. Ademais, não há nenhuma razão prática pela qual a informação precisa pertencer ao nível 1 ou nível 2. O ponto em especial é que o receptor tenha recebido a informação, não que a informação tenha um status especial. Consequentemente, eu arguiria que a informação deste tipo pertence à mesma ampla categoria daquela informação recebida por um telefonema de longa distância, pelo jornal novo ou pela observação direta. É simplesmente uma informação sobre o mundo, não mais, não menos. Em princípio, não é uma informação que desafie as Escrituras mais do que a informação sobre se escovei ou não meus dentes após o café da manhã[4].

Eu penso que pessoas que têm problemas com processos não-discursivos têm problemas com a obviedade. Nos casos envolvendo processos não-discursivos, não houve nenhuma ligação de longa-distância. Assim, de modo lógico, a pessoa em questão deve ter recebido a informação diretamente de Deus. Consequentemente a informação deve ter sido diretamente inspirada por Deus e deve carregar a completa autoridade divina. Esta última conclusão cria a dificuldade mais dolorosa porque se a conclusão é verdadeira, a informação recebida competiria com a autoridade da Bíblia. Cessacionistas sentem que devem rejeitar completamente esse tipo de processo para proteger a suficiência e exclusividade da autoridade bíblica; Os não-cessacionistas, em contraste, sentem que devem se submeter a tais informações de modo acrítico, contrariando o caráter falível das fontes modernas.

Ambos lados precisam se acalmar. O erro crucial está em confundir o envolvimento de Deus com a falta de envolvimento da criatura humana e pecado humano, e, além disso, confundir o envolvimento de Deus com a plena autoridade divina do resultado. Deus, em certo sentido, está diretamente envolvido no crescimento da grama e do vento que sopra: “Fazes crescer erva para os animais” (Sl 104:14), no entanto o crescimento da erva não é inspirado. Por conseguinte, ainda que as pessoas não estejam conscientes das fontes dos seus pensamentos, suas palavras ou visões, as fontes estão ali em consequência de aspectos de suas personalidades. Lideranças nos círculos carismáticos são bem cônscios de que muitas pessoas podem falar em línguas ou entregar profecias na carne, ou seja, eles sabem que mesmo os processos não-discursivos são psicologicamente motivados. [5]

Sonhos são um bom exemplo.  A maioria dos ocidentais enxergam hoje a maioria dos sonhos basicamente como um produto do inconsciente ou de uma imaginação descontrolada. Presumivelmente houve muitos sonhos mundanos, ordinários nos tempos do Novo Testamento tal como hoje. Contudo alguns sonhos foram revelatórios (Mt 1:20-24). Atos 10.10 sugere que Deus pode se utilizar de uma experiência humana normal, tal como a fome funcionando como um meio pelo qual ele traz um sonho ou visão apropriados.

Analogicamente, nos tempos modernos, nós podemos postular que um sonho pode ser simultaneamente um produto de certas predisposições psicológicas pessoais e um meio usado por Deus para trazer uma atenção pessoal sobre um tipo de conteúdo circunstancial.  Por exemplo, suponha que apenas antes de ir para a cama, Sally e seu marido conversem sobre sua tia Emma que está dirigindo a uma considerável distância para um encontro especial naquela noite. Na alta madrugada então, Sally tem um sonho no qual a tia Emma morre repentinamente em um acidente de carro. Sally então acorda e decide orar pela tia e por aqueles que são próximos. Depois, volta a dormir. No dia seguinte recebe a notícia de que Emma se envolveu em um acidente na mesma noite em que Sally orou. O carro ficou totalmente destruído, mas felizmente tia Emma não ficou ferida. O sonho não é infalível ou não adiciona conteúdo à Bíblia. No entanto, foi uma experiência psicológica falível que Deus usou para trazer Sally à oração em um momento que era crucial.

O crucial exemplo de Lucas e do livro de Apocalipse retorna para nos instruir. Não há intrinsecamente uma espiritualidade superior que pertença aos processos discursivos (Lucas) ou processos não discursivos (Apocalipse). Quando o Espírito Santo produziu o cânon, ambos os processos foram inspirados. No entanto, em outras situações, ambos os processos foram não-inspirados. Eles podem ter sido também influenciados por demônios (2ª Tm 2.24-26; Lc 8.32; At 16.17-18). Ambos podem ser falíveis e ter um caráter confuso, de acordo com a falibilidade geral do ser humano. Uma vez que a inspiração cessou com o encerramento do cânon, fontes modernas são sempre falíveis.

Suponha então aceitarmos que os processos não-discursivos são todos falíveis. Eles não são em princípio uma ameaça à autoridade única da Bíblia, no entanto algumas pessoas ainda podem ter problemas em entender sobre como lidar com eles. Como então validar o conteúdo? Se nós não damos qualquer credencial aos processos não-discursivos, na prática não o estaríamos recebendo de modo não-crítico porque eles não podem ser diretamente checados pelas Escrituras?

Nós temos visto que quando o conteúdo é conteúdo de ensino ou doutrinariamente orientado, os ouvintes podem verificar o conteúdo em comparação com as Escrituras. Mas como um conteúdo circunstancial pode ser verificado? Suponha que alguém reivindique por meio de processos não-discursivos que certo homem não pagou por suas luvas. Devemos crer ou não na reivindicação?

Situações como essas não são tão difíceis como podemos supor. Muitas vezes não importa aquilo em que acreditamos. Nós somos livres para permanecer duvidando, e somos bastante aconselhados a permanecer em dúvida em virtude da falibilidade de todo o processo não-discursivo moderno. Nos casos da vida de Spurgeon, a congregação recebeu uma ilustração de uma lição geral sobre suas necessidades e pecados particulares, ou seja, uma ilustração dirigida por Deus. Se Spurgeon está certo e há um rapaz que roubou as luvas, o rapaz sabe disso e recebe a mensagem de modo muito particular. Mas se Spurgeon está errado (e de fato pode estar em decorrência de sua falibilidade), então ninguém recebe a mensagem de modo particular, mas permanece uma lição geral para toda a congregação. Assim, nós podemos orar por uma situação sem saber com certeza se ela é tal como pensamos ser; podemos orar por um jovem rapaz sabendo que Deus sabe qual a real situação, e, podemos orar por igrejas irmãs em Xangai.

Claro que o perigo de abuso nunca está distante. Spurgeon falou para uma grande congregação, então seria presumivelmente impossível para as pessoas saberem exatamente quem Spurgeon tinha em mente. Ele podia até não saber quem era o indivíduo. Mas se o orador estivesse reivindicando que uma pessoa em específico pecou, o resultado poderia ser uma calúnia e isso é claramente antibíblico (Pv 10:18; Cl 3:8; 1ª Pe 2:1, etc). O orador então necessitaria ser repreendido.

Algumas pessoas talvez sintam certo desconforto sobre essa incerteza. Talvez elas tenham as razões que seguem. Quando nós recebemos uma chamada de longa distância de Xangai, nós sabemos o que está acontecendo lá. Mas quando nós sabemos por processos não-discursivos, não podemos ter certeza de que aquilo está realmente acontecendo. Como podemos responder a isso?

Na atualidade nós estamos acostumados em muitos tipos de situações a responder situações duvidosas. Além do mais, uma chamada de longa distância não é infalível.  Pode haver estática na linha.  A pessoa do outro lado da linha pode estar confusa acerca da situação que está acontecendo em Xangai ou pode estar mentindo sobre a situação; talvez esteja insano; ou talvez a voz que estamos ouvindo seja uma voz digitalmente alterada. Apesar destes problemas de falibilidade, é possível responder propriamente a uma chamada de longa distância.

Considere por um outro ângulo. Se a pessoa do outro lado de uma chamada telefônica tem mostrado ser duvidosa no passado, nós desconfiamos daquilo que ela diz em certo nível. De igual modo, se o processo não-discursivo de alguém não tem sido confiável, nós desconfiamos do que ele diz na proporção da sua confiabilidade. Se nós não temos nenhuma experiência com os processos não-discursivos dessa pessoa, nós desconfiamos mais ou menos na mesma proporção de qualquer estranho aparentemente bem-intencionado. Muito dessa prática de estimativa é muito comum nas relações humanas. Nós não estamos tratando com algo que não tenha algum precedente na experiência humana.

VII. PREDIÇÕES

Há ainda alguns tipos de conteúdo circunstancial que precisa de atenção especial. Um destes é o da área de predição. O que fazer quando alguém prediz o tempo em que Jesus voltará? Então seguramente nós podemos ignorar a predição porque contradiz as Escrituras (Mc 13.32-37; At 1.7). Nós devemos admoestar a pessoa que faz a previsão, usando nossas bases de advertências bíblicas contra a definição de datas para o retorno de Cristo.

Peguemos agora um outro exemplo. E se alguém disser que a Califórnia será submersa no mar em uma data tal? Se vivemos na Califórnia, deveríamos preparar nossas malas e ir embora? A primeira regra em tais situações deve ser, como sempre, lembrar que toda predição humana é falível. O que devemos fazer com a predição de possibilidades ou previsões econômicas? Nós devemos prestar alguma atenção nelas, mas nós sabemos que elas frequentemente erram ou erram em parte e acertam em parte.

Algumas pessoas talvez objetem que as predições e predições econômicas não são um paralelo real porque eles são discursivos ao invés de não-discursivos. Certamente as pessoas que fazem previsões o fazem por inferência, mas as pessoas que julgam a credibilidade da predição quase nunca conhecem os detalhes da meteorologia moderna ou de teorias econômicas, nem conhecem os detalhes dos dados sobre os quais as teorias operam a fim de produzir uma previsão específica. Na prática atual, nós julgamos a credibilidade por meios humanos comuns. Aquele tipo de previsão se provou confiável no passado? A pessoa tem se mostrado uma pessoa confiável nessa área? Essa previsão é o tipo de coisa provável que Deus faria?

Nossa conclusão geral permanece a mesma. Indubitavelmente o Espírito Santo pode trabalhar por meio de processos não-discursivos para produzir predições humanas. Ele também pode trabalhar por meio de processos discursivos para produzir predições humanas. Um não é intrinsecamente mais espiritual que o outro e nenhum é intrinsecamente mais falível que o outro. Nenhum tipo de predição é uma palavra divina extra canônica que demande uma crença submissa, mas é simplesmente uma informação putativa sobre circunstâncias futuras, para ser avaliada como nós avaliaríamos qualquer outra predição.

Uma vez que entendemos que predições baseadas em processos não-discursivos não são uma categoria especial divina e são tão falíveis como as predições baseadas em processos discursivos, nós estamos prontos para a prática da sanidade. Assim, não podemos rejeitar totalmente nem aceitar de forma crédula essas predições.

Continua no próximo capítulo…


Tradução: Renan Moreira

[1] E. W. Bacon , Spurgeon: Heir of the Puritans. Grand Rapids: Eerdmans, 1968, p. 156.

[2] Ibid

[3] O. Guinness, The Dust of Death. Downers Grove: InterVarsity, 1973, p. 299.

[4] Juntamente com muitos outros, Robertson está devidamente muito preocupado com quaisquer palavras extra afirmando ser “uma palavra vinda do Senhor”, ou afirmando especificar “sua vontade para a vida deles” (Final Word 88–95, esp. p. 89). Ele realça quão instáveis, confusas, opressoras e circunstanciais podem se tornar tais reivindicações. Mas a minha distinção entre conteúdo de ensino e conteúdo circunstancial aborda o problema. Conteúdo de ensino ou reitera as Escrituras ou é inválido) (assim não adiciona à Escritura). Conteúdo circunstancial propriamente compreendido, não é de todo “uma palavra vinda do Senhor”, no sentido de ser uma instrução sobre sua vontade, mas é simplesmente informação circunstancial. Se eu anuncio que eu escovei meus dentes não estou assim proclamando uma “palavra vinda do Senhor” expressando sua vontade (preceptiva).

[5] Veja, por exemplo, C. Brumback, What Meaneth This? (Springfield: Gospel Publishing House, 1947) 259; K. McDonnell, Charismatic Renewal and the Churches. New York: Seabury, 1976, pp. 145–146.

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