Os dons espirituais da atualidade como análogos dos dons apostólicos: A afirmação da obra extraordinária do Espírito Santo dentro da teologia cessacionista – Parte III

VIII. Comandos ou direções

Agora, e quanto às instâncias que envolvem comandos ou direções pessoais? R.C. Sproul relata um incidente quando pensamentos surgiram abruptamente em sua cabeça “vá pelo mundo e pregue o Evangelho a toda alma viva… E leve Vesta  [a então futura esposa de R.C. Sproul] com você”[1]. Mais controversos são os casos nos quais um ser-humano dá um comando para outro: Abe diz para Bill “O Senhor diz que você está para se tornar um missionário em Moçambique”.

Começar com o termo “O Senhor diz” a meu ver é inapropriado, confuso e perigoso. É pedir para ser entendido como que reivindicando a infalibilidade da revelação. Neste sentido, Abe deveria dizer “Eu sinto que Deus está tocando em meu coração no sentido de que você deveria ir e se tornar um missionário em Moçambique”[2]

Ainda sem o perigo do modo de introdução, um comando como esse parece para algumas pessoas uma ameaça à suficiência da revelação bíblica. O Salmo 119:1 diz “Bem-aventurados os irrepreensíveis no seu caminho, que andam na lei do Senhor!”. Para estar sem culpa, tudo que é necessário é “caminhar de acordo com a Lei de Deus”. Nenhum comando ou regras adicionais são necessárias. Para os que pensam assim, a “lei de Deus” dá instruções completas em justiça. Similarmente 2ª Tm 3:16-17 indica que as Escrituras são suficientes “para que o homem de Deus seja equipado para toda boa obra”. Qualquer ordenança que adicione algo à Bíblia, se reivindicar infalibilidade ou não, é ilícita (Dt 4:2).

Em adição, comandos como os de Abe, frequentemente criam problemas práticos excruciantes. Suponham que Abe diga para Bill ir para como missionário para Moçambique, mas Bill não tem intuitivamente qualquer impulso próprio para ir. Bill está preso. Se ele não vai, se sente culpado por desobedecer a palavra do Senhor. Se ele vai, se sente infeliz porque ele realmente não quer ir e teme que aquela não seja verdadeiramente a vontade de Deus.

Contudo, grupos carismáticos tem tido, às vezes, tristes experiências onde pessoas manipuladoras têm usado comandos como esses para forçar uma obediência escrava aos seus caprichos. Tal como vendedores insistentes, pessoas têm usado comandos semelhantes para atingir fins pessoais. Compreensivelmente alguns líderes proibiram essa forma de mensagem totalmente, pois “Não é disso que a profecia trata”, eles dizem.

Certamente é uma prática perigosa, bem como há perigo de infringir a suficiência das Escrituras, cabendo então a nós termos precaução e até certa desconfiança sobre conteúdos extrabíblicos. Por outro lado, aparentemente, comandos extrabíblicos em determinadas circunstâncias podem merecer uma inspeção mais minuciosa.  Em alguns casos não são realmente adições às Escrituras, mas sim aplicação das Escrituras. Eles caem na área que eu chamo de conteúdo aplicado.  Considere, por um momento, aquela ideia de R. C. Sproul “vá por todo o mundo e pregue o Evangelho à toda criatura viva”. A linguagem é similar a de Marcos 16:15.  Problemas de crítica textual com a parte final de Marcos não nos permite afirmar de modo absolutamente certo que Marcos 16:15 é parte dos textos autógrafos, mas a ideia geral é bíblica, como é mostrado também em Mt 28:19. Não foi feita alguma adição estranha ou uma exigência inédita, no entanto nós temos um comando bíblico aplicado a R. C. Sproul. Para termos certeza que essa aplicação está correta, nós temos que ter algumas informações sobre R.C. Sproul, tais como: Ele tem os dons e qualificações espirituais necessárias para se tornar um pregador da Palavra?  Dados alguns conteúdos circunstanciais sobre Sproul, a aplicação é boa.

Em geral, tais aplicações usam comandos bíblicos e informações sobre o mundo. Apenas com algum grau de conhecimento sobre o mundo nós podemos asseverar se aquela aplicação é ou não apropriada.

Às vezes erros humanos podem ser cometidos mesmo quando há disponível um comando bíblico e um conteúdo circunstancial válido. Considere Atos 21:4 “Eles pelo Espírito diziam a Paulo que não subisse a Jerusalém”. Este é um texto difícil. Mas talvez tenha acontecido como se segue. “Por meio do Espírito” os discípulos em Tiro obtiveram a informação sobre o que aconteceria a Paulo em Jerusalém (Observe Atos 20:23: senão o que o Espírito Santo me testifica, de cidade em cidade, dizendo que me esperam prisões e tribulações). Essa informação foi recebida por meio de processos não-discursivos. Os discípulos também estavam familiarizados com os mandamentos bíblicos concernentes à proteção da vida humana (Pv 22:3, etc). Quando eles reuniram as normas bíblicas com a informação sobre o mundo, eles inferiram que Paulo não deveria ir. Mas a inferência estava incorreta por causa do chamado especial de Paulo (Atos 20:22-24; 21:14).

Quando alguém dá um comando pouco usual atualmente, esses comandos podem ser uma combinação de normas bíblicas com conteúdo circunstancial. Por exemplo, o comando “pregue o evangelho” endereçado para R.C. Sproul combina a norma bíblica de Mateus 28:19 com conteúdo circunstancial sobre os dons de Sproul. Às vezes tanto a norma bíblica quanto o conteúdo circunstancial podem vir por meio de processos não-discursivos.  Então a pessoa que emite o comando é incapaz de definir exatamente de onde vem o comando. É simplesmente um comando com origem não-discursiva. Não é infalível, claro, mas ainda é em alguns casos um comando que traz uma aplicação válida de determinada norma bíblica.

Consequentemente há uma inegável possibilidade que comandos válidos possam vir por meios de processos não-discursivos. Mas, conforme já observado, cautela deve ser tomada na avaliação desse comando. O conhecimento de outros, tanto o conhecimento sobre a Bíblia e o conhecimento sobre a situação e pessoas envolvidas, devem ser usadas para julgar qual a resposta apropriada. Deve ser ressaltado que o Senhor deseja serviço de nossos corações (2ª Co 9:7), não obediência escrava de alguém que carrega um fardo opressivo (Mt 11:28-30; 1ª Jo 5:3). Na raiz, o ser de Deus é sempre limpo “Ame o Senhor seu Deus com todo seu coração e toda sua alma e com todo seu entendimento” esse é o maior e mais importante mandamento, e o segundo é algo como “ame seu próximo como a ti mesmo”. Toda a Lei e os Profetas se resumem nesses dois comandos normativos (Mt 22:37-39). O povo precisa aprender a devotar toda sua energia para obedecer a clara vontade do Senhor. E no processo o que é menos claro (por exemplo, ir à Moçambique), fará sentido depois.

Acolhendo os dons espirituais

Retornemos então ao ponto principal. Já foi dito que em nossos dias Deus pode trabalhar por meio de processos discursivos e não-discursivos. No tempo dos apóstolos ambos ocorreram de modo inspirado. Em nosso tempo, o cânon das Escrituras está completo e a inspiração cessou. Processos modernos são falíveis, mas eles são análogos aos processos que ocorreram entre os apóstolos. No entendimento moderno dos dons espirituais, estamos seguindo as pistas daquilo que ocorreu nos tempos apostólicos.

O quê, então, estamos fazendo sobre os dons espirituais da atualidade?  Os dons modernos incluem dons discursivos (ex: dom de ensino) e dons não-discursivos (ex: pessoas que podem dar uma palavra de modo espontâneo [Cl 4:6]). A possibilidade dos dois tipos de dons podem inferidos a partir de uma distribuição análoga dos dons nos tempos dos apóstolos. Ademais, Cristo e o Espírito Santo são a fonte de todos aqueles dons (Ef 4:7,11; cf 1ªCo 12:11). São eles, não nós, que decidem quem usa processos discursivos ou não-discursivos como obra do Espírito Santo.

Em resposta, nós devemos acolher os dons espirituais de todos os tipos, honrá-los e recebê-los (12:14-26). Nós temos especialmente que buscar o amor (1ª Co 13) e aqueles dons que servem para edificar a Igreja (1ª Co 14). Ao mesmo tempo, temos que discriminar cada qual (1ª Ts 5:21-22) e exercer o discernimento, porque manifestações modernas são sempre falíveis. Todas as coisas devem ser avaliadas à luz das Escrituras à qual nada pode ser acrescentada (Dt 4:2; Ap 22:18-19).

Há lições aqui tanto para carismáticos quanto para não-carismáticos. Alguns carismáticos precisam se tornar mais explícitos sobre a falibilidade no sentido de definir apropriadamente o caráter misto dos dons não-discursivos. Eles precisam aprender a avaliar os dons discursivos.  Contudo, indiretamente eles têm dito: “Eu não preciso de você” (1ª Co 12:21) para os dons discursivos porque, supostamente, estes dons são menos espirituais que os não-discursivos.[3].

Em outro sentido, alguns não-carismáticos precisam aprender o valor dos dons não-discursivos. No entanto eles estão prontos a dizer “não preciso de você”, porque em termos de fundamento, supõe-se, é que os dons não-discursivos cessaram com o término do Cânon das Escrituras.  No entanto, o que eles têm mostrado é apenas que os dons não-discursivos inspirados cessaram com o término do cânon.

Nós também precisamos nos tornar mais evidentes onde a analogia é quebrada, a saber, aquilo que diz respeito à crucial distinção entre conteúdo de ensino e conteúdo circunstancial. O conteúdo inspirado na Bíblia é, de acordo com minha definição, todo conteúdo de ensino. Em contraste, nossa moderna configuração lida com o conteúdo de ensino e o conteúdo circunstancial. Consequentemente, não há uma analogia apostólica para nosso moderno conteúdo circunstancial. Para ser claro, os apóstolos e todos mais na Bíblia tiveram que se confrontar com desafios para aplicar os princípios bíblicos gerais à circunstâncias particulares. Mas as aplicações que os apóstolos fizeram em suas próprias vidas foram inspiradas e assim compreende parte da divina norma bíblica. Informação apostolicamente autorizada sobre circunstâncias, no entanto, por mais trivial que possa parecer (2ª Tm 4:13), é divinamente autoritativa e permanentemente instrutiva para a Igreja. A esse respeito, isso pertence ao lado divino, enquanto nossa informação circunstancial moderna pertence ao lado criado sobre a qual a palavra divina é aplicada. A relação entre nosso conteúdo de ensino moderno e o moderno conteúdo circunstancial não é simétrico ou balanceado. No entanto, o conteúdo de ensino moderno é autoritativo  enquanto re-expressa as Escrituras. O conteúdo circunstancial moderno não é eclesiasticamente mais autoritativo, não importa o quão sincero possa ser.

O debate sobre a cessação da profecia

Agora vamos olhar por um momento para um debate emaranhado. Pessoas debatem se “Profecia” no NT e a Igreja Primitiva foi divinamente inspirada e infalível.  Possuía completa autoridade? Richard B. Gaffin Jr. diz que foram inspiradas[4]. Wayne A. Grudem faz um contraponto ao afirmar que não foram[5]. Muitas pessoas acreditam que do resultado desse debate é crucial para o futuro do movimento carismático. Mas atualmente o resultado dos debates faz pouca diferença prática hoje.

Suponha que Gaffin esteja certo. Então a profecia cessou com o término da era apostólica e do cânon das Escrituras. O fenômeno moderno é falível e consequentemente não é idêntico ao fenômeno da profecia do NT. Mas processos não-discursivos como ensino de conteúdo são análogos à profecia, assim como uma pregação moderna é análoga à pregação apostólica. Consequentemente os princípios gerais concernentes aos dons espirituais, como articulado em 1ª Co 12-14 e outros, ainda são aplicáveis. O que os carismáticos chamam de profecia não é realmente a profecia mencionada no NT. Invés disso, é uma analogia falível. É realmente um dom espiritual para falar falivelmente por meio de processos não-discursivos. Em contraste com a pregação que é um dom espiritual para falar falivelmente por meio de processos discursivos.

Processos não-discursivos com conteúdo circunstancial não são, em certo sentido, análogos à profecia bíblica inspirada. Mas podem funcionar positivamente no serviço do Espírito, apenas como conteúdo circunstancial por meio de processos discursivos.

Por outro lado, suponha que Grudem esteja certo. Então a profecia continua. Mas tal profecia é falível. Não é idêntica com a profecia inspirada do AT. É de fato um dom espiritual para falar falivelmente por meio de processos não-discursivos. Se o conteúdo é bíblico, sua autoridade deriva da Bíblia. Se o conteúdo é circunstancial, não é uma adição à Bíblia (não divinamente autoritativa). Consequentemente é apenas informação e não tem qualquer autoridade. Consequentemente, Grudem termina substancialmente com  a mesma conclusão prática de Gaffin.

Assim, não há nenhuma necessidade para Gaffin e Grudem discordarem sobre o fenômeno moderno. Eles discordam apenas sobre o rótulo que devem dar ao fenômeno (“não-profecia” versus “profecia”) e sobre se o fenômeno do NT é idêntico ou meramente análogo ao fenômeno moderno.

Tanto Gaffin e Grudem já têm conhecimento da falibilidade do fenômeno moderno. Gaffin precisa apenas dar um passo adiante para integrar o fenômeno moderno na teologia dos dons espirituais. Dado esse passo de integração teológica, nós encontraremos que há uma justificativa analógica para o uso desses dons na Igreja hoje.

Grudem, por outro lado, precisa apenas clarificar o status da profecia. Profecia, ele diz, é falível, mas ainda revelatória. Ainda deriva de Deus e ainda é necessária para o bem estar da Igreja. Gaffin e muitos outros encontram algum tipo de dificuldade com esse tipo de descrição. Como algo pode ser revelatório e não competir com a suficiência das Escrituras? Eu explico como, em parte distinguindo conteúdo de ensino de conteúdo circunstancial. Conteúdo de ensino não pode adicionar nada às Escrituras, mas apenas reproduzir aquilo que já está nas Escrituras. Conteúdo circunstancial tem ao mesmo tempo o status de uma chamada de longa distância, que não reivindica qualquer autoridade especial. Portanto é óbvio que nenhum tipo de conteúdo ameaça a suficiência das Escrituras.

Se carismáticos e não-carismáticos pudessem concordar nestes pontos, eu penso que o debate dos dons espirituais modernos estaria largamente ultrapassado.  Mas há ajustes práticos. Pessoas que valorizam processos não-discursivos têm tendência a migrar para círculos carismáticos, onde dons não-discursivos são priorizados. Pessoas que valorizam dons discursivos tem migrado para círculos não-carismáticos. Cada grupo tem tendência a priorizar pessoas do seu próprio tipo.  Nós todos precisamos aprender novamente de 1ª Co 12  a importância de todos os dons, incluindo aqueles que ainda temos que nos acostumar.

Nós não podemos ditar antecipadamente que os dons discursivos ou não-discursivos devem sempre ser dominantes, ou que devem ter características excepcionais em toda comunidade cristã. O Senhor dá “os dons para cada um conforme Ele determina”, não como nós determinamos (1ª Co 12:11). Por outro lado, nós podemos estar confiantes que o Senhor regerá e guiará sua Igreja por meio das Escrituras completas. Ele não adiciona nenhuma reivindicação divinamente autoritativa. Consequentemente a natural proeminência pertence ao conteúdo de ensino, cuja autoridade deriva das Escrituras (Ef 4:11)…


Título original: Modern Spiritual Gifts Analogous to Apostolical Age: Affirming Extraordinary Works of The Spirit Within Cessationist Theology

Tradução: Thiago Holanda


[1] R. C. Sproul, “Striking a Chord in the Heart of the Believer,” Table Talk 14/11 (Novembro 1990), p. 13.

[2] cf. Grudem, Gifts, p. 260.

[3] Tais lições estão incluídas no teor do que é dito em Gifts. pp. 253-263.

[4] Assim, por exemplo, Gaffin cautelosamente abre uma porta para os modernos dons não-discursivos em Perspectives on the Pentecost, p. 120: “Muitas vezes, também, o que é visto como profecia é na verdade um espontâneo trabalho do Espírito na aplicação da Escritura, uma compreensão mais ou menos repentina producente acerca do que o ensino bíblico tem sobre uma determinada situação ou problema. Todos os cristãos precisam estar abertos a esses trabalhos mais espontâneos do Espírito “. Gaffin fala aqui daquilo que eu classifico como conteúdo de ensino obtido através de processos não-discursivos. Robertson permite fenômenos semelhantes em A Palavra Final, p. 84.

[5] Gaffin, Perspectives.

[6] Grudem, Gifts.

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Categorias: Dom de Profecia,Reforma & Carismas

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