Os escritos de Tertuliano testificam a fiel conduta montanista

Quando analisamos os textos de Tertuliano para conhecer seu pensamento, percebemos uma ávida disposição para levar a efeito cabalmente os ensinos bíblicos: desde ordenações morais do Antigo até o conjunto da fé neotestamentária. Apesar de detectarmos, em alguns momentos, certo conteúdo enigmático, seu trabalho é de suma importância para verificarmos o posicionamento cristão da Igreja de seu tempo. A análise dos textos deste Pai Latino da Igreja deve ser feita de forma segmentada e até evolutiva, tomando como pressuposto cada fase da vida em que manteve determinadas convicções. Essas fases não irão demonstrar necessariamente uma modificação do seu pensamento[1], mas transmitir maior discernimento sobre seu entendimento das Escrituras, além de demonstrar a letargia ocasionada pela apostasia na comunidade cristã cartaginesa que representa aquela espalhada pelo Império.

Ao contrário do que muitos pensadores acreditam, presumimos que Tertuliano não foi um escritor de cunho exagerado, antes tentou apegar-se aos textos apostólicos com a máxima cautela. Parece estranho dizer isso já que há tantos estudiosos de renome que o classificam com desvirtuada insígnia. É como foi mencionado: “O primeiro problema a enfrentar quando se fala do pensamento de Tertuliano é determinar se nosso autor teve um pensamento coerente e, ao menos em parte, autônomo. É bem sabido que os manuais e as enciclopédias, atribuindo a Tertuliano o mote credo quia absurdum[2], fizeram dele o representante por excelência do antirracionalismo cristão” (Podolok, p.109). Preferimos ter um pouco mais de precaução nesse julgamento, fazendo sempre um alinhamento com o texto sagrado, pois quem o julga desta maneira não parece entender o significado da vida de aspiração ascética na qual estava investido nosso ilustre escritor. Faz-se necessário pontuar que o ascetismo ganhou, ao que parece, duas formatações: uma em conformidade com os princípios de Cristo e outra extrapolando estes princípios. Para aqueles estudiosos, parece que Tertuliano enveredou pelo segundo caso, mas convém analisar detalhadamente o conceito de ascese bíblica.

Em curtas e brevíssimas palavras ascese é devoção e meditação. Devotar é ato de consagração que nos estimula a pensar um indivíduo cujo interesse se desvencilhou de uma determinada conduta mundana para aderir outra capaz de trazer toda virtude proveniente do Sagrado. Assim, virtude está associada ao bem, ao que é bom, ao que é agradável ao Ser Divino que é entendido como o princípio e o fim, a emanação[3] e a regressão (no sentido de retorno ao princípio). A consagração liga o indivíduo ao seu Criador, criando um ciclo de comunhão que lhe trará, sobremaneira, as virtudes que os distinguirão dos que são desprovidos desse favor, atestando também o caráter prazeroso do dom. Fruto da meditação encontra-se a reflexão aprumada nos preceitos de Cristo. Refletir sobre a ação digna de um fiel, alicerçando-a nas Escrituras sempre foi aspiração para qualquer pessoa regenerada (essa era a instrução desde a Era Apostólica, veja Efésios 4:1). Por isso, não podemos concluir que havia em Tertuliano uma conduta impositiva na qual a via era simplesmente a regra e nada mais, mas uma provocação para reconhecimento da autêntica regeneração. Seu autoexame da experiência vivenciada em Cristo não foi posta simplesmente por obrigação, mas também pela experiência de gozo emanada da salvação. Parece que estamos colocando Tertuliano como um sujeito rendido à emoção, demonstrando um lado oculto e levando-o por um sentimento que o “enfraquece”, mas, não nos enganemos, Cristianismo é paixão e convicção. Esse Tertuliano que pouca gente conhece é apresentado por ele mesmo em seu tratado Ad uxorem, quando ao tratar de assuntos concernentes ao casamento com sua esposa[4] escreve com a leveza poética de um coração quebrantado e sensível (no texto existem outros assuntos que merecem aprofundamento em outro momento). Veja alguns trechos para sua esposa:

É verdade que nós não rejeitamos a união do homem e da mulher: ela foi abençoada por Deus como alfobre[5] do gênero humano; ela foi inscrita no seu desígnio para povoar o universo e encher os séculos, e, portanto, é permitida, mas uma só vez. Porque Adão foi o único esposo de Eva, e Eva a sua esposa única: uma só mulher, uma só costela.

Deus te conceda capacidade para acolher integralmente este meu testamento; a Ele a honra, a glória, o esplendor, a majestade e o poder, agora e pelos séculos dos séculos. Amén. (Ad Uxorem, Livro I, II, 1 e 3)

“… onde há uma só carne, há um espírito: oram unidos, prostram-se unidos, jejuam unidos; instruem-se mutuamente, exortam-se mutuamente, alentam-se mutuamente. São iguais na Igreja de Deus, no banquete de Deus, nas provas, nas perseguições e nos consolos.” (Ad Uxorem, Livro II, c.9)

Não pretendemos aqui colocá-lo como um cristão irracional que se deixa levar pela paixão sem reflexão. Sua paixão não é carnal, é resultado da serenidade e da paz encontradas na fé. Essa paixão pelo Cristo é transmitida aos seus e aos que de comum convicção compartilhavam de suas vivências com as virtudes do Evangelho. A paixão era tão esplêndida que os mártires desejavam se desapegar dessa vida terrena para estar com Cristo não temendo a morte nem a dor. A fé, portanto, sendo bem transmita ocasionava uma pura devoção ao sentido primeiro do ensino, de modo que também demonstrava espiritualidade e comprometimento.

Assim posto, elenquemos outros trechos dos tratados produzidos por Tertuliano na fase montanista para compararmos com os princípios cristãos. É por uma análise comparativa que chegaremos aos pontos fundamentais das convicções montanistas, porque se Tertuliano as escreveu para o grupo e para os demais cristãos nominais e não reclamou em tratados posteriores a não recepção de suas instruções na comunidade da Nova Profecia, então, presumimos que os montanistas as confirmavam com exemplar resiliência, enquanto os psíquicos[6] as rejeitavam. Primeiramente, façamos uso do tratado sobre a monogamia (De monogamia), versando ainda sobre matrimônio, e em seguida o tratado De Ieiunio Adversus Psychicos (Acerca do Jejum contra os psíquicos) para demonstrar a perspectiva da comunidade da Nova Profecia, ambos escritos na fase montanista de Tertuliano.

Foi-nos dito que Maximilla e Priscila abandonaram seus maridos para seguirem a Montano, algo muito estanho para quem queria ter uma conduta espiritual. Acreditamos que Tertuliano não seria capaz de ingressar em um movimento que não consagrasse o matrimônio na mesma medida do Evangelho (os livros I e II de Ad uxorem[7] afirmam tamanha reverência ao matrimônio). Por isso, preferimos optar pela própria orientação de Tertuliano quando faz menção a fato semelhante em outro de seus tratados, vejamos:

Como o marido não lhe manifestou o seu despedimento, ela não o deixa; não tendo redigido o acto de repúdio, ela permanece com ele; não querendo perdê-lo, guarda-o. Ela tem à sua mão a liberdade interior que, por um prazer imaginado, lhe torna presente tudo o que não tem. Interrogo enfim esta mulher em pessoa: ‘Diz-me, minha irmã, foi na paz que o teu marido partiu à tua frente?’ Que responderá ela? Que foi discórdia? O vínculo é, portanto, muito mais forte: ambos têm um processo diante de Deus. A esposa assim ligada não se afastou. Mas foi na paz? Então tem de persistir neste sentimento e respeitar uma união doravante impossível de quebrar; aliás ela não tem que voltar a casar-se, embora tivesse podido quebrá-la. (De monogamia X, 3)

Sejamos didáticos. Tertuliano alude uma questão matrimonial na qual está em causa a união do casal. Como já mencionado em outro artigo, o sistema familiar da época era patriarcal, no qual o homem tomava todas as decisões. No caso, Tertuliano diz que o homem que não tomava a iniciativa de separação, mesmo tendo explicitado sua vontade, sua mulher não o deveria deixar. A mulher deveria está revestida e consciente do princípio da unidade estabelecida no Gênesis (Gn 2:22-24). Além disso, destaca-se a questão sábia da conservação do vínculo matrimonial, ainda que tenha existido algum fato danoso, e a indissolubilidade do casamento. Percebamos que toda a afirmativa tertulianista coopera com o preceito cristão sobre o assunto. Assim, a instrução tertuliana, dentro do contexto montanista, está alinhada com Mateus 19 (com uma pequena ressalva). Desta forma conduziu a questão de modo sensato. Em vista disso, tomemos seu escrito como exemplo, nunca querendo adequar a Bíblia a nossa realidade humana e carnal, não há sabedoria em tal atitude, mas submetamo-nos aos ditames escriturísticos e reconheçamos o seu valor em cada atitude nossa.

Era comum encontrarmos casais de cristão e não cristão no Império. Neste caso, quando não havia consenso, o homem, por iniciativa própria, abandonava a esposa pelo fato de ela ser cristã. A conduta feminina era, então, conforme vimos pelos exemplos de Perpetua e Felicidade, ficar sem contrair novas núpcias, prevendo a possibilidade de reconciliação futura ou não, guardando-se, assim, em celibato voluntário (todas essas considerações estão em perfeita sintonia com I Coríntios 7).

Devido a muitas más interpretações e à falta da preocupação de uma análise mais equilibrada nos documentos de Tertuliano por parte de alguns críticos, o montanismo foi e é classificado como introdutor de novas doutrinas que comprometem ou acrescentam aos textos bíblicos. Sobre essa percepção Tertuliano também tem algo a nos informar: uma preocupação em não estabelecer algo que não tem vindo dos apóstolos. No tratado De Ieiunio Adversus Psychicos abordando questões sobre práticas cristãs e doutrinárias, Tertuliano ensinava:

No que se refere aos jejuns os psíquicos de Roma juntam-lhes certos dias estabelecidos por Deus. Segundo o Evangelho, os dias de jejum, como creem os espirituais, são aqueles em que o esposo nos foi tirado. Seriam esses os únicos dias de jejum mandados aos cristãos, uma vez que as antigas prescrições da Lei e dos Profetas foram anuladas… Quanto aos outros (dias de jejum), isso depende da vontade, segundo os tempos e os motivos de cada um, e não de qualquer imposição da nova disciplina. Assim fizeram os Apóstolos, não impondo mais nenhuma obrigação de jejum certo e a observar em comum por todos. Por isso, até (o jejum) das estações, que os seus (antepassados) observavam nos dias de quarta e sexta-feira, os fazem eles sem ordem (isto é, aqui e ali conforme querem e segundo o arbítrio de cada qual), e não como se fosse uma lei preceituada, além do dia mais importante, que é aquele em que, por volta da hora nona, Pedro estava em oração, como referem os Actos. (De Ieiunio Adversus Psychicos II, 1-3)

A ironia no pensamento de Tertuliano se torna evidente em textos como o acima. A nomenclatura psíquicos ou “espirituais” é uma referência aos cristãos nominais e decadentes que não acertavam com os preceitos do Caminho e mesmo assim se vangloriavam em sua má conduta, julgando-se, ainda, os fiéis seguidores de Cristo. Como montanista, Tertuliano exorta-os, demonstrando seu apego demasiadamente errado, segundo ele, numa conduta simples por parte daqueles cristãos. O jejum não deveria ser imposto, mas espontâneo, era a sua máxima para que os cristãos não caíssem num ritualismo insipiente nem religioso. Exemplos de jejum na Bíblia demonstram esse posicionamento. O jejum de Daniel (Dn 9:3) cheio de sinceridade e desprendimento, a sacralidade em Joel (Jl 1:14) que convocava o povo a um sentimento de consagração voluntária e a contrição e submissão aos ditames de Cristo serviram de base para praticarem o ato diligentemente, fato que parece não funcionar da mesma maneira com os psíquicos, levando Tertuliano a dizer: “Os psíquicos são mais ímpios do que os próprios pagãos…”.

Para cumprir fielmente a prática cristã era necessário evidenciarem uma boa consciência e o alinhamento com as Escrituras. Portanto, a Escritura é a solução para toda e qualquer controvérsia, muito embora esteja em causa uma questão simplória. Tal conduta reforça a tese de que Tertuliano defendia e escrevia sobre aquilo que cria e vivenciava na coletividade de sua comunidade sempre amparado pelo fundamento apostólico (cf. Campenhausen). Se houve uma interpretação equivocada, não o censuremos imediatamente. Precisaremos conhecer as razões e as motivações de sua fala para não perdermos sua finalidade. O mais coerente a fazermos é destacar seu gênio apologético que saltava e que fazia com que proferisse sentenças profundas e muito bem sólidas na defesa do Evangelho.


Referências

Campenhause, Hans von. Os Pais da Igreja: A Vida e a Doutrina dos Primeiros teólogos cristãos. Rio de Janeiro: CPAD, 2005.

Cordeiro, José de Leão. Antologia Litúrgica: textos litúrgicos, patrísticos e canónicos do primeiro milénio. Bragança, Portugal: Secretariado Nacional de Liturgia Casa Santa Ana, 2015.

Podolak, Pietro. Tertuliano. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

Tertuliano. Ad Uxorem (livro I e II) disponível em http://www.tertullian.org/works/ad_uxorem.htm . Acesso em 13 set 2016.

__________. De ieiunio adversus psychicos. Disponível em http://www.tertullian.org/latin/de_ieiunio.htm. Acesso em 13 set 2016.

____________. De monogamia. Disponível em http://www.tertullian.org/latin/de_monogamia_app.htm . Acesso em 13 set 2016.

[1] Como verificamos com Agostinho de Hipona em Retratações.

[2] A tradução do latim seria “creio porque é absurdo”.

[3] A emanação no sentido filosófico é muito semelhante ao aqui posto. Plotino afirmava a doutrina da causalidade, na qual determinada coisa é causada por outra que a determina e a condiciona, atestando assim o conceito do princípio supremo, classificado como Uno. Plotino é posterior a Tertuliano e viveu entre 205 a 270 e fez parte do movimento do neoplatonismo.

[4] Há quem considera este tratado sobre a relação entre a mulher cristã e o homem pagão como uma orientação de Tertuliano para a Igreja, por isso não representando uma relação entre ele e sua esposa.

[5] viveiro onde se criam plantas até a época de serem transplantadas.

[6] Tertuliano chama de “psíquicos” os cristãos nominais que se aproveitavam dos títulos para imporem seu dogmatismo desviante. Alguns historiadores dizem que esses psíquicos eram os católicos, numa tentativa de reivindicar o título de primeira instituição de Cristo na terra. Apesar disso, associam acertadamente o substantivo aos católicos da época, pois a “insígnia” em Tertuliano representa o cristianismo misto cuja consequência produzia um profundo mal estar espiritual.

[7] Tradução: “Para a esposa” ou como alguns traduzem “Para sua esposa”.

Comentários

Categorias: Montanismo

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não pode ser publicado.