Parecer de teólogos e historiadores sobre o Montanismo

Como compreender o Montanismo classificando-o a uma vertente autenticamente cristã se os pareceres de muitos escritores de sua época foram contrários à Nova Profecia? Este é um questionamento muito intrigante, demonstrando ser a questão muito desafiadora (para muitos, loucura). Afinal, qual seria o propósito desta querela? Para atestar o pluralismo religioso em franco desenvolvimento através das diversas correntes emergentes daquele momento histórico afim de se fomentar os rumos de um debate? Para demonstrar o percurso heresiológico motivado por um falso cristianismo, criando uma intolerância com o credo alheio? Ou, apresentar um coletivo de indivíduos que viveram fidedignamente nos parâmetros instituídos pelo Mestre e Cristo a fim de declará-los inocentes de tanta injúria desde as severas oposições de Hipólito de Roma, Apolinário, Apolônio, Milcíades, Seraphion (opositores contemporâneos de Montano, Maximilla e Priscila)? Se nos norteamos exclusivamente pelo conjunto de autores e suas alegações cujo legado é reverenciado pelo Romanismo tenhamos como certa mais uma injustiça contra o grupo. Por quê? Asseveremos com vigor neste ponto, porque os opositores dos montanistas foram os prenunciadores do dogmatismo católico, ou seja, viciados e encantados pelo veneno do falso ensino conformista contribuíram para deter quem queria reviver o espírito do verdadeiro. Se pelo contrário apelarmos somente para Tertuliano, poderemos ter um desequilíbrio analítico, apesar de ele ter sido um dentre os Pais da Igreja mais conservadores. O que fazer, então? O referencial teórico, sem dúvidas, não pode ser outro senão o conteúdo doutrinário da Escritura, conjugando-a com todas as informações relacionadas, sejam elas pró ou contra. Por essa razão, fazendo referência a um dos pontos mais elencados nos estudos, a profecia, é necessário, como diz o texto bíblico, não desprezar as profecias, examinando tudo e retendo o bem (I Ts 5:20-21), analisando suas manifestações e comportamentos à luz das Escrituras, referencial padrão para qualquer movimento que se intitule cristão. Além disso, uma incursão no campo da História é também de suma importância. Em vistas disso, aproveitamos para juntar Teologia e História para que através das palavras de estudiosos e de pesquisadores possamos extrair deles suas visões sobre o movimento de Montano.  

Uma das primeiras menções encontradas sobre o movimento das quais dispomos no início de nosso percurso, lidas há algumas décadas, foi a leitura de um opúsculo da História da Igreja, de autoria de J.M. Carrol, sobre o trajeto de sua Igreja Batista através dos séculos. No singelo tratado que nos inquietou, Carrol afirmou:

O rápido curso seguido pelas igrejas leais logo provocou um grande desprazer aos fanáticos da religião do Estado, muito, senão a maioria, dos quais não era de genuínos convertidos. O nome “cristão” entretanto foi negado às igrejas que não aceitavam os novos erros. Uma vez privados disto, foram chamados por outros nomes, alguns por uns e outros por outros, como sejam: Montanistas, Tertulianistas, Novacianos, Patelina, e alguns, ao menos, por causa do costume de rebatizar os que haviam sido batizados na infância, foram chamados anabatistas.  

Carrol classificou os cristãos nominais ou a maioria deles como “fanáticos da religião do Estado”, enquanto os verdadeiros foram denominados de “genuínos convertidos”. Pelo texto, sua intenção demonstrou a negação de uma minoria que rejeitava os erros comportamentais e doutrinários da maioria. A grande massa religiosa, entretanto, “detentora” de um poder extra-humano (talvez pensassem desta maneira), repudiava os pequenos grupos, ordenando sobre eles a pena de não puderem ser cristãos devido suas discordâncias. O caráter reacionário do montanismo atraiu para eles a desonradez neste contexto. No entanto, uma boa resposta para tanta infâmia, justifica-se em razão de ser ele um movimento reacionário com a insígnia de cristão, motivando-nos, a saber, qual seu diferencial dentro da conjuntura de sua época e qual sua sintonia com o primitivismo cristão. Neste primeiro momento, é explícita uma separação de partes que culminaria com o cisma.

De acordo com Martin N. Dreher, uma das pretensões indiretas de Montano e suas seguidoras era demonstrar a escassez espiritual da igreja geral e de seus líderes uma vez que tal situação negativa contribuiria para uma série de implicações cujos efeitos acarretariam desvios do padrão primeiro. Devemos compreender, então, o montanismo como um movimento reafirmador do contexto de Atos. Reafirmar significa declarar uma conduta anterior perfeita, reascendendo sua chama como sinal de sequência do que foi iniciado e atestando também para a evidência pentecostal neotestamentária de continuidade do carisma. Vejamos a afirmação de Dreher (2009, p.36):

Quando Montanus terminou de ser batizado (156), entrou em êxtase e começou a falar em línguas. A maioria das pessoas não sabia mais do que se tratava. Apenas duas mulheres souberam. Elas também caíram no êxtase… e seguiram o novo profeta. Há muito que o dom de falar em línguas havia deixado de ser normal nas comunidades cristãs. O trio piedoso, formado por Montanus, Prisca e Maximila, queria testemunhar com sua glossolalia que a igreja de seus dias era pobre em relação à igreja antiga, pois lá a glossolalia fora algo normal. A hierarquia e o sacramentalismo não eram aceitos pelo movimento, mas Montanus conseguiu estabelecer uma estratégia que possibilitou um rápido desenvolvimento de seu movimento. Inclusive na África surgiram comunidades montanistas. Havia muita disciplina nessas comunidades: carne e vinho eram proibidos; havia prescrições quanto ao vestuário… as dádivas em dinheiro eram controlados; o jejum era observado com rigor.

Dentro deste contexto de incipiência espiritual dos cristãos gerais e o florescimento de um despertar espiritual entre os montanistas, a liderança estava em evidência, necessitando fazermos algumas ponderações sobre a mesma. Discutindo sobre a questão hierárquica na igreja e a concepção montanista sobre o assunto, Roque Frangiotti concebe uma crítica quanto à conduta de Montano. Frangiotti, escritor católico, justifica e aceita as formas hierárquicas como foram concebidas pelas autoridades patrísticas. Atesta que Montano, na verdade, insurge-se contra os bispos e propõe-se superior aos mesmos, desabonando qualquer vocação sagrada daqueles homens. Acreditamos serem necessárias algumas boas colocações para analisarmos os fatos. Para tanto, consideramos Frangiotti um autor versado e de ótima veia analítica, contudo, seu trato dedicado a Montano permite-nos algumas incursões. Montano, por mais catecúmeno que fosse, teoricamente incapaz de perceber certas nuances de religiosidade espúria, conseguiu enxergar a decadência moral e espiritual da transmissão vocacional de um bispo para outro, porquanto diagnosticou o problema do excessivo controle sobre a igreja como sendo febre eclesiasticista por autoridade e por poder terrenos. É correta a sagração de um bispo por outro já consagrado, mas não se pode aceitar o domínio que começaram a exercer sobre a comunidade cristã, provocando, após alguns anos, a proliferação de inúmeros dogmas racionais, culturais e emocionais (a ideia de um sumo-bispo surge dentro desta conjuntura).  Nas palavras de Frangiotti (2007, p. 58):

Mas, parece que o que mais provocou a condenação de Montano foi o fato de questionar a autoridade dos bispos. Na pretensão de que nele e por ele falava o Espírito Santo, tinha-se como superior à própria autoridade dos bispos… Exigia que todos acolhessem a “nova profecia” como uma real efusão do Espírito.

Não acreditamos que Montano tinha um fim em si mesmo para a emersão de um “super crente”, como dizem alguns sobre ele. Cremos que sua visão dizia respeito à necessidade de a membresia cristã vivenciar aquela experiência para que individualmente proclamasse os oráculos divinos, pois o dom que é do Senhor e por Ele enviado não deveria ser sujeitado à autoridade de um “servo”. O mesmo deveria ser instrumento de proclamação da dádiva e nunca ser empecilho ou obstáculo para a promoção das virtudes do alto. A crítica de Montano, percebemos, girava em torno da privação da natureza fluida do dom cujo objetivo era atingir a todos. Além disso, incorporar o Paracleto a sua experiência exprimia não um sentimento de autonomia, mas de universalidade, conceito próprio de uma doutrina muito corriqueira na vida da Igreja que é o sacerdócio universal de todos os crentes. Todos tem o poder de serem porta-vozes de Deus, porquanto estão vinculados a Ele pelo seu Espírito Santo.

Comprovando o conceito anterior e fazendo referência ao sentido apocalíptico do grupo que é produto de uma percepção espiritual dos diversos desígnios para o povo de Deus, W. Walker(2006, p.86) menciona:

…Montano e seus companheiros representavam um reavivamento do espírito apocalíptico e anunciavam o próximo fim do mundo. O Senhor estava na iminência de retornar… Sua chamada era o martírio, e seu dever era esperá-lo e jamais fugir da perseguição. Como uma preparação para o final de todas as coisas, eles purificavam a si mesmos e rompiam os laços com a sociedade. Os frígios, como eles eram frequentemente chamados, jejuavam mais tempo e mais elaboradamente do que os outros cristãos…  

O “espírito apocalíptico” é uma percepção implícita e explícita no doutrinamento cristão. Implícita, pois nas entrelinhas e nas palavras dos textos sagrados podemos discernir a proferição de sentenças futuras. O termo que melhor ilustra essa posição é o “vigiai”. Vigiar representa a atenção às ocorrências prévias dos fatos apocalípticos e do quiliasmo, conforme atestou o Cristo quando mencionava seu retorno iminente, denotando exatamente que essa seria a expectativa cristã. É explícita porque a alusão ao “fim” é encontrada nos discursos de Cristo e de todos os seus apóstolos no cânon. Há uma expectação do “fim” provocada pelo sentido de os crentes vigiarem a fim de não perderem o que alcançaram n’Ele. Lembremo-nos das parábolas do Evangelho de Mateus 25, da explanação de Paulo aos Tessalonicenses (I Ts 4), de João quando diz: “filhinhos, é já a última hora…” (I Jo 2:18). Ora, todas essas sentenças previnem a Igreja do que está porvir, imbuindo ela no sentido de purificação para o tão almejado encontro com Cristo. A purificação ou, conforme as melhores colocações dos apóstolos, a santificação é produto da fé. Quem serve a Cristo purifica-se a si mesmo promovendo a santidade pelo seu Espírito (Colossenses 3:1-10).

Demonstrando uma concepção da apatia eclesiástica de que a Igreja geral estava viciada com o mundanismo e com o formalismo, Justo L. Gonzalez (2004, p.139-140), respeitado historiador da Igreja, decorrendo ainda sobre diversos aspectos do montanismo considera:

O código de ética montanista era muito rigoroso, e era de fato um protesto contra a facilidade com que o resto da igreja perdoava pecados, bem como contra a adaptação progressiva da igreja para se conformar às exigências da sociedade secular. Com relação ao martírio, eles se opunham ao conceito tradicional de que ele não deveria ser procurado, pelo contrário, deveria ser evitado desde que fosse possível fazê-lo sem negar a fé… Montano e seus seguidores eram organizadores sérios…

Gonzalez nos apresenta um cenário pelo qual o reacionismo montanista marcou a História. Segundo ele, os montanistas procuravam viver sem a influência da secularização da igreja geral, resgatando os preceitos simplórios das Escrituras, colocando-os sempre em primeiro lugar por mais que isso parecesse um terrível desatino para os bispos. Quando analisamos o Montanismo é necessário contextualizá-lo a fim de verificarmos os elementos sociais e religiosos que o cercavam. Para eles, ao negar as interferências do mundo atestavam a vocação de eleitos e de porta-vozes do Espírito. Enquanto os outros religiosos não se interessavam pelos sacrifícios e abstinências necessárias para alcançar tão notável beneplácito, os montanistas altruisticamente praticavam e tentavam influenciar os não-praticantes.

De acordo com Roger Olson (2001, p.30) a reação montanista dizia respeito à decadência espiritual dos bispos de sua época, bem como alguns comportamentos indecentes da igreja por eles guiada, ratificando o parecer de outros historiadores quanto à mentalidade do grupo. Devemos levar em conta que o testemunho cristão estava em crise, pois como poderiam viver sem praticar o que estava prescrito? Como eram vistos os cristãos naquele momento? Como pessoas cristãs poderiam ser interessadas em favores do mundo social e político? O desajuste era tão aparente que existia até mesmo gladiadores e concubinas que não queriam abandonar suas práticas reivindicando a insígnia de cristãos. Vejamos:

…Montano rejeitava a crescente fé na autoridade especial dos bispos (como herdeiros dos apóstolos)… Considerava as igrejas e seus líderes espiritualmente mortos e reivindicava uma “nova profecia” com todos os sinais e milagres dos dias ideais da igreja primitiva no Pentecostes.

Portanto, a crítica de Montano era procedente, pois uma igreja que não poderia verificar espiritualidade em sua liderança era merecedora de uma severa oposição. Tolerar o intolerável não pareceu bem aos olhos do profeta montanista. Alimentamos sua decisão com a suposição de que o mesmo cumpria os ditos contra a igreja de Pérgamo (Ap 2:12-17) que tolerava a doutrina de tropeços de Balaão, estimulava a idolatria e seguia a doutrina do nicolaítas. A invencionice da sucessão apostólica equivocada redundou, como sabemos, em atos de idolatria para com os que ocupavam o “patamar dos mais elevados na igreja”. Fato que foi vislumbrando antecipadamente por Montano e por ele censurado.

Considerando os mesmos fatores de Olson, Cairns (2001:82) faz alusão ao modismo de dependência a este “clero” indecente da seguinte forma:

O montanismo surgiu na Frígia em 155 como uma tentativa da parte de Montano em resolver os problemas de formalismo na igreja e a dependência da igreja da liderança humana quando deveria depender do Espírito Santo. Esta tentativa de combater o formalismo e a organização humana levou-o a afirmar as doutrinas do Espírito Santo e da Segunda Vinda.

Vejamos os pontos de Cairns quando relaciona a liderança humana, as doutrinas do Espírito e a segunda vinda. Seria contraditório dizermos que Montano tinha ojeriza pela autoridade, pois sua insatisfação era com homens carnais como guias e nunca com homens espirituais. Sua atitude de se mostrar um profeta revestido do carisma divino, dotado com uma predica de santidade sobre a preparação para o mundo vindouro a fim de dar ao povo um direcionamento demonstra sua intenção e uma exigência de bastante espiritualidade para a função ministerial de modo que suas intenções parecem ser mais nobres do que como foram exploradas pelos seus opositores.

Para embasar nossa argumentação, Paul Tilich (2007, p.58-59), abordando o aspecto reacionário do movimento, deixa-nos colocações importantes e reflexivas quanto ao contexto apresentado quando afirma:

Contra a ordem em desenvolvimento surge a reação do Espírito, comandada por Montanus. Foi de tal forma séria que um teólogo como Tertuliano ingressou mais tarde no movimento. A reação montanista contra a fixação eclesiástica do cristianismo vai se estender pela história da igreja de um ou outro modo.Os montanistas tinham duas ideias fundamentais: o Espírito e o “fim”. Acreditavam que o Espírito havia sido suprimido pela igreja organizada… A igreja não mais conseguia entender o espírito profético… A outra ideia era a do “fim”. Logo depois do desapontamento a respeito da vinda iminente do fim anunciado por Jesus e pelos apóstolos, os pais apostólicos começaram a se estabelecer no mundo. Esse desapontamento causou enormes dificuldades e forçou a criação de uma igreja mundana, capaz de viver no mundo. O montanismo reagiu contra essa igreja mundana… Assim, também eles tinham que se estabelecer no mundo; também se tornaram igreja. Mas se transformaram numa igreja estritamente disciplinada, antecipando, até certo ponto, o tipo de sectário de igreja aparecido mais tarde na época da Reforma e depois…

Tilich destaca o Montanismo como o precursor e o estimulador do reacionarismo dos movimentos posteriores uma vez que seriam influenciados pelo não conformismo notificado naquela gente simples, os frígios. Sua pneumatologia e escatologia são os elementos de suas convicções mais vigorosos capazes de expressar como nenhum outro uma fé inspirativa, singular e estritamente preocupada em ser bíblica. Há no “Espírito” e no “Fim” uma relação de proximidade, por conseguinte não poderiam está fora do discurso proferido muito embora incomodasse bastante os bispos decadentes.

Da mesma maneira e tomando as informações do francês Jacques Liébaert (2000, p. 85), ainda sobre a oposição à hierarquia em franca ascendência institucional, podemos encontrar, além das citadas, outras informações relevantes do movimento montanista que demonstram uma unidade com os outros autores já citadas e uma crítica por não levar em conta o status quo ante da igreja geral. Verificasse em Liébart o papel desempenhado por Montano para remediar um problema sério: a concepção montanista da situação da igreja geral inspira-nos a não vê-los mais como ignorantes opositores, mas como pretensos agentes de restauração através do Espírito. É nítida a exposição da mentalidade montanista neste aspecto para inflamar a ideia de que o grupo tinha um viés espiritual, simplesmente espiritual. Vejamos:

… Montano, o iniciador, assistido por duas profetisas, prega a volta próxima de Cristo para um reinado terrestre de mil anos e, em consequência, o desprezo das realidades terrenas, a ruptura com a sociedade; exalta unilateralmente o celibato e incita ao martírio. Os montanistas acusam a Igreja institucional de suavizar o Evangelho, de pactuar com o mundo; se apresentam como os únicos possuidores do Espírito profético. As comunidades montanistas distinguem-se pelo papel preponderante nelas representado pelos “espirituais”, homens e mulheres, e também por fenômenos diversos de exaltação religiosa; são animadas pela convicção de constituir a elite espiritual da Igreja, de estar sob a monção direta do Espírito, que renova nelas o fervor e os dons da Igreja primitiva. Como o tempo, esse movimento que se pode qualificar de “renovação”, prelúdio de grande número de movimentos análogos ao longo da história, vai reforçar seu rigorismo moral, chegando aos limites do encratismo, como em Tertuliano. Embora não exclua necessariamente os ministérios ordenados, ele se encontrará progressivamente em conflito com o episcopado, cuja autoridade e poderes sacramentais ele contesta…

Seguindo a mesma linha e de uma forma bem mais melhorada, um historiador bastante antigo, H.H.Muirhead, fez também algumas colocações sobre os montanistas que valem a pena ser lidas. Ele fala de forma mais coerente e sensata, analisando com cuidado o problema da leviandade na qual os montanistas não pretendiam ser pariceiros, porquanto os pecados da versão anterior da igreja institucionalizada eram evidentes, atribuindo um caráter apologético ao movimento e a reverência aos compromissos cristãos. Segundo Muirhead (1959, p. 85-86):

…O movimento foi, propriamente falando, uma reação para fazer voltar o Cristianismo aos seus moldes primitivos, apesar de ter ido em certos pontos ao extremo, como acontece à maior parte das reações.

Insistiam em que os que tinham abjurado a fé sob a perseguição, provaram por este ato que nunca foram crentes e para serem readmitidos na igreja deveriam ser rebatizados, e é por isso que são chamados por alguns autores modernos “Anabatistas”.

Não obstante seu espírito puritano, sustentavam as doutrinas básicas das igreja apostólicas, embora pareçam ter dado excessivo valor aos dons celestiais, que afirmam receber por dispensação do Espírito Santo… Dizem alguns historiadores, ainda que contestados por outros, que os montanistas levaram as suas extravagâncias ao ponto de preferirem as suas profecias ao ensino das Escrituras.

Estudando as doutrinas dos montanistas, nota-se que eles se opuseram à hierarquia, sustentaram o sacerdócio universal dos crentes; praticaram rigorosa disciplina, rejeitaram o segundo casamento, exigiram frequentes jejuns e exaltaram a virgindade… Os montanistas mantiveram viva esperança de que o fim do mundo estaria próximo. Das inovações, que iam introduzindo nas igrejas, manipuladas pelos gnósticos e pagãos, foram implacáveis inimigos.  

Uma questão que pode ser colocada neste momento, após a verificação de várias opiniões “favoráveis” sobre o movimento, seria: negá-lo como uma vertente cristã não seria incoerente? Não traria um prejuízo para o Cristianismo uma vez que esse se fundamentou em sacrifício, disciplina e na expectativa do porvir, doutrinas fundamentais ensinadas pelo Mestre e pelos seus apóstolos? Paulo Romeiro(2005, p.24) pontua sobre esse aspecto e acrescenta: “…alguns teólogos creem que ao excluir o montanismo a igreja perdeu, pois um movimento que protestava contra o crescente formalismo e mundanismo na Igreja passou a funcionar na clandestinidade”. Para justificar sua afirmação, cita Tilich (2007, p.59-60):

A igreja cristã excluiu o montanismo de seu seio. Contudo, a vitória sobre o montanismo resultou em perda. Podemos vê-la da seguinte maneira: 1. O cânon venceu sobre a possibilidade de novas revelações. A solução do quarto evangelho de que sempre haveria novas percepções da verdade, sob a crítica do Cristo, foi, pelo menos, reduzida em poder e em sentido. 2. A hierarquia tradicional triunfou contra o espírito profético. Com isto excluía-se, mais ou menos, o espírito profético da igreja organizada levando-o a se abrigar em movimentos sectários. 3. A escatologia perdeu grande parte da importância visível na era apostólica. A organização eclesiástica passou a ocupar o primeiro lugar. A expectativa do fim reduziu-se ao apelo aos indivíduos para que se preparassem para seu fim pessoal que poderia vir a qualquer momento. Depois desse período a ideia do fim da história deixou de ter importância. 4. A rígida disciplina dos montanistas foi abandonada, substituída pelo afrouxamento crescente dos costumes. O que se passou nesta época tem-se repetido frequentemente na história da igreja. Surgem pequenos grupos com rigorosa disciplina; tornam-se suspeitos dentro da igreja; separam-se e formam grandes igrejas; em seguida perdem o poder disciplinar original.

Não é nossa pretensão dizer que os autores citados são ou foram defensores do montanismo. Apresentamos seus entendimentos a fim de vermos que todos tem uma percepção comum do sentido reacionário do movimento e de sua busca pela posse da vida da Igreja Primitiva. Muito embora discordem de pontos montanistas, dos quais fizemos intencionalmente questão de omitir neste para verificarmos um vislumbre daquilo que desperta para uma análise sensata do movimento, seus escritos reforçam a teoria de que o montanismo pode ser visto através de outro olhar, discernindo seus aspectos positivos fundados na doutrina cristã.


Referências

Cairns, Earle E. O Cristianismo através dos séculos – uma história da igreja cristã. Edições Vida Nova: São Paulo, 2001

Carrol, J.M. O Rastro de Sangue. Disponível em: http://solascriptura-tt.org/IgrejasNosSeculos/RastoDeSangue-JMCarroll.pdf. Acesso em 17 NOV 2016.

Dreher, Martin N. A Igreja no Império Romano (coleção história da Igreja) – volume I. São Leopoldo: Editora Sinodal, 2009.

Frangiotti, Roque. História das Heresias (Séculos I-VII) – conflitos ideológicos dentro do cristianismo. São Paulo: Paulus, 2007.

Gonzalez, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão – do início até o Concílio de Calcedônia. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004.

Liébaert, Jacques. Os padres da Igreja – séculos I-IV. São Paulo: edições Loyola, 2004.

Muirhead, H.H. O Cristianismo através dos séculos – volume I. Rio de Janeiro: Casa Publicado Batista, 1959.

Olson, Roger. História da teologia cristã – 2.000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Editora Vida, 2001.

Podolak, Pietro. Tertuliano. São Paulo: Edições Loyola, 2010.

Romero, Paulo. Decepcionados com a graça – esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Mundo Cristão, 2005.

Tilich, Paul. História do pensamento cristão. São Paulo: Aste, 2004.

Walker, W. História da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2006.

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