Profetizando Vida e Morte na Nova Aliança

Este artigo tem o propósito de apresentar à igreja alguns esclarecimentos bíblicos sobre recente artigo do irmão Gutierres Fernandes Siqueira, publicado em seu blog Teologia Pentecostal, sob o título “Profecia de morte? Uma ideia antibíblica!

Todavia, este aqui não é um embate, nem se propõe como arma em desfavor de um irmão em Cristo. Viso tão somente instruir a Igreja, apresentando alternativa a um ensino em particular, na esperança que a verdade prevaleça em favor da causa do Reino, sem partidarismo ou vanglória. 

Em primeiro lugar, cumpre expor preliminarmente que Gutierres é um jovem promissor que se apresenta como assembleiano pentecostal, talvez, mais por estar afiliado a uma denominação que pertence a este ramo teológico do que por um sentimento de legítima pertença. Ultimamente alguns de seus ensinos têm contrariado décadas de tradição teológica demonstrando certo divórcio de princípios elementares da fé Pentecostal (posso estar equivocado), conquanto um deles será objeto de análise mais criteriosa procurando estabelecer aquelas contradições flagrantes que fogem ao padrão de toda uma tradição teológica. Eu particularmente verifiquei mudanças que assumem outros direcionamentos, não progressos visando fundamentar teologicamente certas normativas pentecostais.

Em segundo lugar, é público e notório que Gutierres tem feito uma aproximação com a teologia reformada ao longo dos anos e isso pode explicar algumas dessas mudanças e propostas. Este fenômeno não acontece exclusivamente com ele, mas pode denunciar que algumas circunstâncias pontuais estejam ocorrendo. Não com o florescimento da teologia reformada nas fileiras pentecostais, mas de um pentecostalismo que tem sido negligenciado por descuido quanto ao progresso acadêmico da teologia propriamente dita. Talvez esta seja a principal razão para certo sincretismo teológico que desvirtua ensinamentos importantes do Pentecostalismo (e reformado também) nos quais esta tradição teológica se enraiza. Este não é um mero alerta, tanto quanto não foi alerta de somenos importância quando o conhecido teólogo reformado John Gresham Machen cumpriu estudos em Teologia Sistemática na Alemanha e teve contato muito próximo com o liberalismo teológico. Machen era um teólogo conhecido pela inflexibilidade na defesa da ortodoxia e principal fundador do seminário que é hoje talvez o mais prestigiado dos Estados Unidos da América: Westminster Theological Seminary. Este é um lembrete de que não é bom tentar ao Senhor, visto que toda aproximação de uma tradição teológica diferente deve ser feita não a partir das curiosidades intelectuais, e deve ser mediada por todas as cautelas. 

Na Alemanha, Machen estudou nas Universidades de Marburgo e Göttigen onde foi instruído pelos maiores nomes do liberalismo teológico à época. Um de seus professores, Wilhelm Herrmann, exerceu poderosa influência sob o espírito de Machen gerando posteriormente um tempo de intenso conflito religioso [1]. Foram necessários alguns bons anos sob a supervisão pastoral de homens como B.B Warfield, Francis Patton e William Armstrong para que Machen fosse completamente desintoxicado.

Este deve ser um alerta para os pentecostais que nos últimos tempos têm flertado com o movimento reformado brasileiro sem filtrar apropriadamente o que de lá pode se extrair de bom. É recomendável sim examinar todas as coisas e reter o que é bom, como nos orienta o apóstolo Paulo, mas não vejo, além de uma teologia de santificação, o que de bom um pentecostal possa absorver da pneumatologia reformada como defendida no Brasil e nos mais prestigiados redutos. Não reterá praticamente nada em relação aos dons, já que a ampla maioria dos escritores reformados é composta por cessacionistas convictos. As exceções ficam por conta de Wayne Grudem, Vern Poythress, John Piper, Don Codling, Sam Storms, Donald Carson e alguns poucos nomes além destes.  Todavia, mesmo que leia homens como os citados acima, o estudioso Pentecostal não precisa tornar-se um Reformado ou ser obrigado a negar ensinamentos bíblicos como o caso da profecia de morte. Preliminares encerradas, vamos aos pontos expostos no ensaio.

Gutierres inicia dizendo que foi confrontado por uma falsa profecia nos idos de 2007 quando ensinava sobre o amor como princípio regulador dos dons espirituais, muito embora não tenha apontado objetivamente qual afirmação causou (ou possa ter causado) a ira do espectador que lhe dirigiu a profecia de morte. Não basta dizer que estava ensinando sobre o amor como princípio regulador dos dons espirituais. Isso é muito vago, por que eu poderia elencar aqui vários pontos que motivariam a ira de irmãos ao ensinar sobre isso. Por exemplo, se em uma igreja que crê nos dons revelacionais e se esforça em buscá-los, eu disser que os dons são desnecessários apenas porque Paulo enfatiza o amor como superior a línguas e profecias, eu posso facilmente causar a insatisfação de sinceros irmãos. Faltou maior clareza a respeito disso.

Aquele elemento (o ensino que motivou a ira) é essencial para julgamento da profecia que ele, Gutierres, julgou como falsa. Ou seja, se o ensino era bíblico, pode-se ignorar a profecia, porque nada pode contra a verdade, senão a própria verdade. Agora, se o ensino era herético (em sua totalidade ou não), caberia avaliar a profecia com criteriosa atenção. Não necessariamente quanto ao aspecto da ameaça, mas ao alerta quanto a um possível ensino em contradição com as Escrituras. O propósito de toda profecia com este viés, geralmente visa  em primeiro lugar a correção do faltoso. Como diz o apóstolo Pedro, o Senhor não se demora, mas retarda sua ira com o fim de que os insubmissos se arrependam. Neste sentido, se os ensinos de Gutierres eram errados, e se se arrependeu do erro, a ameaça não se cumpre, por que o propósito inicial foi alcançado, ou seja, o arrependimento do faltoso. Além do mais, qualquer elemento estranho que componha a profecia poderá ser devidamente avaliado pela congregação ou por irmãos maduros. Não se deve invalidar toda uma profecia, apenas porque ela em um primeiro momento se equivoca em determinados pontos. Se até nossas orações carecem do Espírito intercedendo por nós com gemidos inexprimíveis para serem entregues (Rm 8:26), porque nem orar sabemos como convém, que dirá entregar profecias.

Nada foi relatado também sobre como a Congregação reagiu, não apenas quanto aos ensinos (havia mais alguém em desconforto além do profeta?), mas igualmente em relação ao conteúdo da profecia. Eu fiquei com a ligeira impressão que quem proferiu a profecia foi um pastor ou alguém com posição de liderança na igreja. Este é um detalhe importante. 

Gutierres diz também que após a prédica, só então após a prédica, o ouvinte foi até o púlpito e anunciou algo que seria uma profecia, anunciando sua morte pela pregação-ensino de supostas heresias. E ironiza ao dizer que continua vivo, que não é um ghost writer nem literal, nem figurado, mesmo que a profecia tenha se dado em 2007. A propósito, ele julga nove anos muito tempo? Esta foi a segunda pergunta que me fiz assim que li seu comentário e onde também verifiquei certo tom debochado, prática corrente entre os reformados que ele tem buscado suas influências. A Bíblia diz que mil anos são como um dia para o Senhor e há dezenas de profecias que distam 2.000 anos desde seu pronunciamento, sem cumprimento ainda; caso de muitas relatadas em Apocalipse. Este erro de acionar um cronômetro assim que profecias são ditas, ou interpretar palavras como “brevíssima” sob um espectro absolutamente humano, desconsiderando o prisma divino, é um erro recorrente. Pedro denuncia isso em uma de suas cartas ao responder o deboche irônico de muitos inimigos do evangelho:

sabendo primeiro isto, que nos últimos dias virão escarnecedores com zombaria andando segundo as suas próprias concupiscências, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação […] Mas vós, amados, não ignoreis uma coisa: que um dia para o Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia. O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a têm por tardia; porém é longânimo para convosco, não querendo que ninguém se perca, senão que todos venham a arrepender-se. 2Pe 3:3,4,8,9. [Grifo meu]

Não que Gutierres seja um zombador da promessa quanto ao retorno do Cristo. Eu uso o texto petrino para aplicar um princípio geral visando censurar o deboche de que ele aparentemente se valeu, sobretudo quando essa menção se relaciona com indícios de demora ou mudança nos termos da profecia anunciada como do Senhor. Gutierres mesmo cita uma profecia de Isaías ao Rei Ezequias que teve os termos mudados, ainda que no primeiro oráculo estivesse presente a fórmula “Assim diz o Senhor” (Is 38). Ele, o Senhor, tem o domínio e o poder, cabendo a ele próprio estabelecer termos e condições de sua soberana vontade. Então se Gutierres debocha daquilo que só é acessado no Conselho Secreto do Senhor (falo daquilo que não foi revelado), é acusado de irreverência que só se espera daqueles que não temem a ira santa. Miguel, contendendo com o diabo pelo corpo de Moisés não ousou proferir juízo difamatório. É preciso sempre lembrar destas pequenas questões de natureza espiritual. Enoque profetizou a segunda vinda de Cristo, e a despeito de a profecia compor um livro apócrifo, não devemos desprezá-la (Judas 14 cf Livro de Enoque 1:9). Então, a profecia, o Ministério profético e outras determinantes relacionadas ao assunto estão além de algumas tramas verbais como a que Gutierres precipitadamente tem sustentado.

Gutierres também não disse qual foi sua reação ao ouvir a profecia que ele hoje julga como falsa. Eu imagino que Paulo não ouviria calado uma profecia com este teor, quando absolutamente consciente de ensinar uma verdade bíblica. Aliás, esta seria uma grande oportunidade para ganhar um irmão em Cristo com a prática do amor e mansidão no convencimento do insubmisso de seu erro. Se a reação foi a de ouvir calado, deixar uma congregação inteira constrangida e se restringir a tão somente depois apresentar o caso ao seu pastor, errou. Talvez tenha se omitido em razão da inexperiência, mas se o foi, errou quem colocou um neófito à frente da congregação para ensinar um assunto que tinha potencial para gerar polêmica. Por fim, pior que não ensinar, é ensinar errado. Aqueles que ensinam, e não os que profetizam, serão alvo de muito maior rigor. Por isso Tiago alerta os ensinadores (ou que desejam ser), a que sejam tardios para falar. Muito embora a profecia possa vir com mistura de ensino, ela é, básica e principalmente uma revelação do Espírito Santo.

Antes de apresentar algumas lições sobre a profecia no Novo Testamento, ou como ele acertadamente chama, Nova Aliança, é preciso fazer algumas afirmações introdutórias. Primeiro, como disse Paulo, o evangelho é profecia no seu sentido mais absoluto, por que é cheiro de vida para vida, ou cheiro de morte, para morte (2Co 2:16). Este foi um alerta desconsiderado por Gutierres (ou não?) em sua reflexão ao escrever o artigo.

Sim, porque já no título epigrafado, Gutierres assinala que profetizar a morte de alguém é algo absolutamente contrário ao ensino bíblico, embora faça um reparo ao mencionar logo de início que este tipo de profecia, segundo ele, só se verifica na Antiga Aliança, não na Nova. Assim sendo, bíblico, é, mesmo que só esteja, em tese, em um dos testamentos (ou alianças). A validação de sua afirmação dependeria então de ser verdadeira a tese que ele apresentou ao distinguir ambas as alianças como base suficiente para diferenciar o Ministério profético em ambas as alianças tão profundamente quanto supôs.

Muito embora este tipo de pronunciamento aparentemente desvia o foco do ponto central, já que a divisão entre testamentos cumpre mais uma função pedagógica que necessariamente uma separação com contornos dispensacionalistas, tenho em vista aqui não apenas a progressividade da revelação, mas também a unidade orgânica da Bíblia como um livro integral.

Quanto à progressividade da revelação e sua importância na interpretação bíblica, por exemplo, podemos ilustrar o inter-relacionamento dos livros de Levítico e Hebreus. Nossa capacidade para entender Levítico é fortemente ampliada com a leitura de Hebreus, e arriscaria dizer que para um gentio como eu e Gutierres, as lentes de Hebreus abrem nossos horizontes para compreender muito mais fácil e apropriadamente Levítico. Com efeito, nós só entendemos a significação cerimonial das instituições cúlticas do AT (e.g. sacrifícios de animais), quando o autor aos Hebreus expressa que o derramamento do sangue de Cristo possui muito maior significação que o sangue de touros e de bodes (Hb 10:4). É por isso que nós não derramamos mais sangue de animais em cerimônias rituais de purificação pelos pecados, muito embora haja quem ilustre o céu como Cristo diante do Pai apresentando suas mãos e sangue com vistas a aplacar a ira de Deus. E teólogos reformados como o Dr. Heber Carlos de Campos, em As Duas Natureza do Redentor afirmem que Jesus mesmo estando no céu sinta fome, sede e cansaço em decorrência de sua natureza humana.

Mas já que Gutierres insiste em separar testamentos, eu aceito os termos, sobretudo em razão não apenas da prática em abundância do dom de profecia no NT, como do ensino em geral que norteia a maioria de nossas relações e práticas comunitárias. Além da Bíblia, pretendo me valer de alguns testemunhos de importantes puritanos tais como John Knox, para robustecer minha proposta em defesa de que na Nova Aliança (tempo que inclui todos os nascidos após a morte e ressurreição de Jesus, até seu segundo advento) houve sim profecia de morte.

Agora vamos às afirmações categóricas de que Gutierres se vale para enfatizar seu ponto de vista e os textos ou autores que usou para referendá-los. Gutierres diz:

  1. Quando um assunto está exclusivamente no Antigo Testamento devemos observar o “princípio do continuísmo” entre as duas Alianças.Ora, por que em o Novo Testamento não se usa a profecia como juízo diretivo? Há continuidade nessa forma profética entre as duas alianças? Vemos claramente que não.

Isto seria verdade se, a questão de profecia com natureza judicial e seus contornos diretivos fosse assunto exclusivo do AT. Mas estou absolutamente convencido que não é. Como ele não definiu juízo diretivo apenas quando verificada ameaça de morte, fico ainda mais à vontade. Mas desconheço profecia que não seja diretiva, nem que seja desprovida de juízo (julgamento de alguém ou algo). Portanto, ao passo que Gutierres não conceituou o que seja juízo diretivo, parto da premissa mais simples, ou seja, que seu sentido diretivo corresponderia a um juízo ou direção diretamente ajuizado contra ou em relação a algo ou alguém. Vejamos:

A profecia de Ágabo

Ágabo predisse a captura, detenção e condenação de Paulo (At 21:11). Isto não seria um juízo diretivo? Devemos lembrar, inclusive, que este acontecimento é o cumprimento profético mencionado a Ananias sobre Paulo em confirmação ao ministério deste: “vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel; pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa “sofrer” pelo meu nome (9:15-16). 

A segunda premissa sobre a qual me apoio é que a morte de Paulo foi profetizada nesta mensagem de Jesus a Ananias (ainda que indireta e enigmaticamente). Profecia somente confirmada por Paulo como elemento-chave para ele não buscar livramento em função dos perigos anunciados na profecia de Ágabo, sobretudo por que o martírio era o ápice daquele sofrimento anteriormente anunciado a Ananias. Paulo diz que o Espírito Santo havia garantido que tribulações terríveis estavam se avizinhando, incluindo a morte (At 20:24,25; 21:13, et al). Penso que a própria despedida de Paulo aos presbíteros em Mileto carrega um tom realçado que sinaliza um último encontro, com a expressão “não vereis mais o meu rosto” (20:25b). Era o prenúncio da morte dele (At 20:25) e Ágabo apenas confirma isso dias depois em Cesaréia, em mensagem tomada com essa força dramática não apenas por Paulo, mas, sobretudo, pelos líderes de lá que de todo modo tentaram dissuadi-lo de seguir viagem rumo à Jerusalém. Essa reação carregada de emoção angustiada foi alvo da consideração do apóstolo (21:13). Penso que o choro dos presbíteros e outros líderes de Éfeso não foi mero choro apenas em razão de mais um encarceramento de Paulo. Afinal, ele já havia sido preso uns pares de vezes. Açoitado, escarnecido, apedrejado (At 14:19) etc. Então, penso que a dramaticidade das palavras de Ágabo deram a entender, no mínimo, que aquele era o último encontro com o apóstolo.

A morte de Herodes Agripa (At 12:20-25)

Embora a tese malsã de John Stott, que se popularizou especialmente em nosso país, a ideia de não ser possível extrair teologia do livro de Atos, é preciso tomar esse texto como uma profecia nos aspectos como Josefo[2] a tomou, afirmando que a condenação de Herodes se deu como juízo contra a vaidade humana, objeto de punição por Deus que é zeloso pela glória que a ele pertence.

Jesus e a figuera estéril, fariseus, escribas e doutores da Lei.

Na dúvida se Jesus estaria legitimado como exemplo, ocorreu-me quando ele profetiza contra a figueira estéril (Mc 11:13,14); quando profetizou contra os fariseus, escribas e doutores da lei. Quando profetizou a morte de idólatras, impuros, assassinos, etc. que não herdariam o Reino dos céus, ou, mais eufemisticamente, experimentariam a segunda morte. Lembram da tese acima, de que o evangelho é uma profecia absoluta que profetiza vida ou morte?

As duas testemunhas mártires em Apocalipse 11

Espero que Gutierres se recorde agora das duas testemunhas mártires de Apocalipse (Ap 11:5). Ou julga que são simbólicas? Porque é dito neste versículo que irão morrer quaisquer daqueles que intentarem o mal contra ambos os profetas. Estranho já que Gutierres diz no ponto seguinte que João Batista foi o último profeta da Antiga Aliança e usou o texto de Mateus 11:13 para consubstanciar seu raciocínio (vou tratar desse texto mais adiante).

Ananias e Safira (Atos 5)

Outro caso que ilustra uma profecia de morte no Novo Testamento. O texto em si, que não iremos transcrever aqui, dá conta, mais objetivamente falando, da profecia com diretiva de morte no caso de Safira. Veja o verso 9: “tornou-lhe Pedro: Por que entrastes em acordo para tentar o Espírito do Senhor? Eis aí à porta os pés dos que sepultaram teu marido e eles também te levarão”. (At 5:9). Eu acho não ser necessário explicar que, embora não esteja ai a forma oracular “Assim diz o Senhor”, esta é uma profecia que anuncia clara e exatamente a morte de Safira. E estou particularmente convencido que Pedro sabia o que aconteceria à Ananias, tanto quanto sabia por antecipação o que aconteceria à Safira, embora no segundo ato, fiquem mais claros a partir da expressão indireta: “Tu morrerás”.

Ágabo prediz fome (At 11:27-30)

Penso que esta predição ao assinalar grande fome nos dias do Imperador Cláudio, está predizendo muitas mortes igualmente. A profecia se cumpriu como registra Lucas no verso 28b e foi objeto da mais cuidadosa atenção dos presbíteros que recolheram donativos para envio aos irmãos da Judéia, pelas mãos de Barnabé e Saulo (vv. 29-30). Suponho, muitos morreram em razão desta fome profetizada.

Profecia contra Elimas, o judeu mágico (At 13:4-11)

Em que pese não ser uma profecia de morte, é profecia com elementos imprecatórios, muito semelhante à profecia contra Ananias e Safira. Paulo diz contra Elimas: “Pois agora, eis que está sobre ti a mão do Senhor, e ficarás cego, não vendo o sol por algum tempo […]” (At 13:11). O cumprimento desta profecia promoveu a conversão de Sérgio Paulo, procônsul em Salamina (v. 5,7). Então, neste sentido, houve edificação.

O impuro em Corinto (1Co 5:1-5)

Eis uma profecia diretiva com prenúncio de morte feita na Igreja de Corinto, por procuração, tamanha gravidade do caso. Paulo diz: “Eu, na verdade, ainda que, ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja, em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor [Jesus].”

Isto significava a exclusão da igreja com suas bençãos, privilégios e proteção, na devolução do faltoso ao reino que Satanás governa com absoluta crueldade. E o que Satanás veio fazer senão matar, roubar e destruir? Portanto, este tipo de excomunhão vislumbra sofrimento, doenças físicas e, porque não dizer, a morte como igualmente muito provável.

Mas Gutierres prossegue em seu raciocínio ao dizer que:

  1. A profecia entre o Antigo e o Novo Testamento apresenta semelhanças e diferenças.O Ministério Profético acabou em João Batista, o último profeta da Antiga Aliança (cf. Mateus 11.13). A profecia no Antigo Testamento começava com uma autoridade incontestável. A expressão “assim diz o Senhor” não se repete na profecia do Novo Testamento, pois essa não tem autoridade escriturística ou canônica, ou seja, não é Palavra de Deus como fala definitiva ou oficial. Ágabo, por exemplo, utiliza a expressão “isto diz o Espírito Santo” em lugar do tradicional “assim diz o Senhor” (cf. Atos 21.11). A mudança é sutil, quase imperceptível, mas mostra claramente a continuidade e descontinuidade do Ministério Profético entre Antigo e Novo Pacto.

Aqui ele inicia sua defesa manejando equivocadamente o texto de Mateus 11:13. Ao afirmar que o Ministério Profético se encerra em João Batista ele labora em erro, por que o que se encerra em João Batista é a função da profecia que aponta para a vinda do Messias. Neste sentido, João é o último profeta a cumprir este propósito. Mas o ministério profético prossegue, inclusive no cumprimento parcial da profecia de Joel, quando o Espírito de profecia é derramado (e continua sendo) sobre toda carne. Pelo menos é isso que extraio das palavras de Pedro em Atos 2.

Depois ele diz que a profecia no AT era incontestável, sobretudo se iniciasse com a fórmula oracular “Assim diz o Senhor”. Ora, não é de todo verdadeira essa afirmação, sobretudo porque no AT há farta denúncia da existência de falsos profetas desencaminhando o povo. Além de prescrições que garantiriam a remoção destes (Dt 13 e 18).

Micaías também denunciou na presença de dois reis que o Senhor havia colocado espírito mentiroso na boca dos profetas de Acabe (1Rs 22:19-23). Há diversos textos que expõe o perigo da falsa profecia e do falso profeta entre o povo. Portanto, nem sempre aquele que se dizia profeta, ou que anunciava “assim diz o Senhor, era reconhecido como um profeta verdadeiro. Eu sugiro a Gutierres uma leitura das teses de Grudem a respeito do termo “profeta” em todos os contextos. Eu particularmente fui muito edificado.

Mas Gutierres prossegue: “A expressão “assim diz o Senhor” não se repete na após profecia do Novo Testamento, pois essa não tem autoridade escriturística ou canônica, ou seja, não é Palavra de Deus como fala definitiva ou oficial.”

Antes de fazer esta afirmação, Gutierres deveria ter lido o Dr. Wayne Grudem e sua posição acerca dos apóstolos-profetas que ele estabelece como um único grupo em Ef 2:20 e 3:5. Para Grudem, gramaticalmente, ambos os textos não indicam dois grupos distintos (apóstolos do Novo Testamento e Profetas do Antigo Testamento), mas apóstolos funcionando como profetas.  Para quê? Sobretudo para revelar o mistério da inclusão dos gentios na Igreja.[3]

Sobre a menção a Ágabo, como já disse acima, ao anunciar grande fome, como se cumpriu segundo os registros de Lucas, os presbíteros se ajuntaram e recolheram donativos para enviar à igreja da Judeia. Quanto à profecia da morte de Paulo, todos choraram amargamente, sobretudo quando Paulo confirmou que além de cadeias e tribulações, ele estava pronto para morrer.

O erro mais grave, a meu ver, foi tentar mostrar uma alegada descontinuidade do ministério profético na Antiga e Nova Aliança, baseado apenas no apontamento de uma mudança oracular de entregar profecias. Segundo Gutierres, quando se muda “Assim diz o Senhor” para “Assim diz o Espírito Santo”, estipula-se aí uma fronteira entre um ministério profético “incontestável” de um ministério profético mais tênue, sem autoridade canônica. Eu entendo que certa mudança não significa necessariamente descontinuidade.

Gutierres diz também:

  1. É claro para o apóstolo Paulo que a profecia tem um tríplice propósito.“Mas quem profetiza o faz para a edificação, encorajamento e consolação dos homens”, escreveu o apóstolo em 1 Coríntios 14.3. Todos esses propósitos são consoantes com as profecias no Antigo Testamento, mas Paulo não menciona outro aspecto comum da mensagem veterotestamentária: o juízo. O teólogo Craig Kenner acredita que essa omissão se dá porque ele espera que as predições de juízo “sejam menos relevantes para a igreja”. Stanley M. Horton escreveu: “suas palavras (proféticas)trazem edificação (que constrói espiritualmente e desenvolve ou confirma a fé), exortação (que encoraja e desperta, e desafia todos a avançarem em fidelidade e amor), e consolação (que anima, revivifica, e encoraja a esperança e a expectativa).”  Ora, a profecia de morte não obedece a nenhum desses propósitos. A edificação comunitária da igreja pelos dons, o grande tema de Coríntios, passa necessariamente por uma profecia que edifica, encoraja e consola. Como a profecia de morte pode ajudar na edificação comunitária? E esses aspectos falam tanto da mensagem como da forma. O objetivo da profecia neotestementária é o crescimento da igreja e não a sua destruição.

Eu confesso que fiquei particularmente com uma dificuldade. Por que em um único parágrafo Gutierres tece diversos comentários contraditórios, até os mais primários para fazer prosperar sua tese.  

Embora ele acerte ao mencionar o tríplice propósito da profecia, errou grosseiramente na aplicação. O próprio Paulo afirma reiteradamente em sua carta aos Coríntios que edificação também pode acontecer quando a profecia revela os segredos do coração do homem (1Co 14:24-25). Essas admoestações em relação a pecados praticados por crentes, ao invés de incrédulos, poderiam advir de profecias entregues publicamente, ainda que sem revelar nomes. Paulo repete a Timóteo o ensino de que os que vivem na prática do pecado sejam repreendidos publicamente, a fim de quê? “Para que também os demais temam” (1Tm 5:20). O que impede o Espírito de revelar este pecado e a necessidade de repreensão pública, através de uma profecia? Eu desconheço tais impedimentos. Paulo diz que “os pecados de alguns homens são notórios e levam a juízo, ao passo que os de outros, só mais tarde se manifestam”. (5:24). Esta manifestação, pode, desde que seguidas as prescrições apostólicas (sobretudo a presença do amor regulando a revelação de um pecado), revelar um pecado secreto. Eu mesmo já testemunhei isso em um culto.

Gutierres prossegue dizendo que na profecia da Nova Aliança não se verifica o elemento de juízo como percebido na da Antiga. Bem, penso ter apresentado evidência bíblica suficiente na demonstração que esta tese não se sustenta. Mas Gutierres procura se apoiar na afirmação do Dr. Craig Keener ao reiterar com as palavras deste, que o juízo na profecia da Nova Aliança está ausente por acreditar “que essa omissão se dá porque ele espera que as predições de juízo ‘sejam menos relevantes para a igreja’”. Ora, Keener diz que as predições de juízo são menos relevantes, mas isso não é o mesmo que afirmar impossibilidade. O fato de ter havido alguma mudança sutil nos elementos preponderantes de uma profecia na Nova Aliança, não significa, entretanto, que tal ou qual elemento verificado com menos regularidade, estará definitivamente ausente em toda e qualquer profecia posterior.

Depois Gutierres diz que a profecia de morte não cumpre nenhum dos propósitos elencados por Paulo, ou seja, edificação, consolo e encorajamento. Eu divirjo mais uma vez aqui. Ora, se algum membro da igreja está adulterando, sabe que caminha nos passos da adúltera, que são caminhos de morte, e é alertado por intermédio de uma profecia que está pisando em laços de passarinheiro, sujeito à disciplina duríssima do Senhor, e ouvindo isto se arrepender de seu pecado, confessá-lo e mudar seus caminhos, acaso não houve edificação, consolo e encorajamento? Creio que sim, incluindo do profeta que recebeu a profecia e a comunicou, a quem era dirigida a profecia e à congregação se o anúncio tiver sido público.

Wayne Grudem cita pelo menos um caso desse tipo de profecia que gerou encorajamento, edificação e consolo:

Eu ouvi um relatório disto acontecendo em uma Igreja Batista claramente não-carismática nos Estados Unidos. Um pregador missionário fez uma pausa no meio de sua mensagem e disse algo assim: “Eu não planejei dizer isso, mas parece que o Senhor está indicando que alguém nesta igreja acaba de abandonar sua esposa e família. Se é assim, deixe-me dizer-lhe que Deus quer que você volte a eles e aprenda a seguir o padrão para a vida familiar. “O missionário não sabia disso, mas na varanda sem luz estava sentado um homem que havia entrado na igreja momentos antes pela primeira vez em sua vida. A descrição lhe cabia exatamente e ele avançou e reconheceu seu pecado e começou a buscar a Deus. É por isso que é profecia (ao invés de alguma outra dádiva) que Paulo chama de “sinal aos crentes”. A distinção da profecia é que ela deve ser baseada na revelação, e Paulo pensa que o funcionamento da revelação na profecia é sempre algo que vem espontaneamente e apenas de Deus (ver capítulo 5). Onde houver profecia, então, é um sinal inconfundível ou indicação da presença e bênção de Deus na congregação – é um “sinal para crentes” – e mesmo um estranho que visita será capaz de reconhecer isso.[4]

O ensaio prossegue e Gutierres afirma algo que particularmente me causou assombro:

  1. E outro ponto importante: rejeite qualquer profecia fora do ambiente congregacional.A profecia não é um dom para manifestações em redes sociais, podcasts, programas de rádio e TV, sites de conteúdo, reuniões místicas em montes etc. A profecia se dá no culto para o culto visando unicamente à edificação do corpo de Cristo, isto é, a Igreja enquanto comunidade reunida no nome de Jesus. A profecia, embora carismática e livre, não entra em choque com outros dons dados por Deus à igreja, tais como o próprio ofício pastoral e de ensino. A profecia precisa estar sob a supervisão da congregação reunida para julgá-la segundo os critérios doutrinários das Escrituras. Basta ler atentamente 1 Coríntios 14 para essa simples conclusão. Donald Gee, o maior teólogo pentecostal da primeira metade do século XX, escreveu que “os dons não são expressos ‘na cozinha da irmã Maria’, mas na igreja. (…) A garantia da profecia na igreja é o fato de podermos examinar uns aos outros”

Aqui o desfecho não foi apropriado. Rejeitar profecia apenas pelo fato de que ela ocorra fora do ambiente congregacional é um claro desrespeito ao mandamento apostólico de não desprezar as profecias (1Ts 5:20). Examinar tudo, pode envolver, inclusive profecias entregues fora do ambiente congregacional porque o Espírito não se sujeita irrestritamente ao ambiente de culto. Eu poderia citar a adoração dos magos aos pés da manjedoura, poderia citar a transfiguração, a conversão do Eunuco pela pregação de Filipe, et al. em apoio à minha tese. Este era um equívoco que eu não esperava de alguém com a qualificação e vivência com os dons como Gutierres. Se as línguas na oração privativa edificam aquele que ora, porque uma profecia dita em uma conversa reservada, ou em uma publicação na internet, não renderia edificação, conquanto possa gerar inquietação na vida daqueles que rejeitam o dom ou a mensagem dada através deste, como Acabe o fez na Antiga Aliança ou vários escribas e fariseus o fizeram na Nova?

Além do mais, o Dr. Craig Keener levanta algumas questões pertinentes no tocante à uniformização absoluta das regras apostólicas sobre a regulação proposta por Paulo, tendo em vista que, mesmo seguindo todos os regramentos, uma profecia entregue em uma igreja que não acredita na contemporaneidade da profecia, poderia gerar divisão, o que a afastaria do escopo proposto por Paulo. Kenner então afirma:

A relevância das palavras do apóstolo à igreja de Corinto levanta uma questão em saber se Paulo poderia ter aplicado o mesmo argumento para todas as igrejas de seus dias. Como muitos pentecostais e carismáticos percebem, algumas daquelas específicas restrições aos dons podem ser aplicadas para uma excessiva situação em Corinto, ao invés de todas as igrejas. Se como é provável, a igreja de Corinto composta em média de 40 membros sentados, eu suspeito que a dinâmica espiritual dos dons se aplicaria de forma diferente em uma igreja que possuísse 2 mil membros, onde muito mais limites deveriam ser necessários ou em uma reunião de oração considerando 5 membros, onde menos restrições seriam necessárias. Da mesma forma, nas igrejas de hoje, onde os dons espirituais são suspeitos, a profecia poderia edificar a igreja não mais que as línguas poderiam, porque mesmo a profecia mais pura, aprovada por outros verdadeiros profetas, poderia somente introduzir divisão.[5] [Grifo meu]

Entao o problema da confusão alegada pelo Gutierres, de uma profecia entregue em um podcast, rede social, numa conversa privativa, ou adoração comunitária, não está necessariamente no dom de profecia ou onde a profecia é entregue, mas muitas vezes em quem recebe a mensagem. Em Corinto, todos acreditavam, mas sabemos que nem todas as presbiterianas, por exemplo, aceitam.

Esqueceu-se também de qualificar a cozinha da irmã Maria (penso na Maria de Lc 10 e não qualquer Maria), inda mais observando-se o contexto neotestamentário em que as igrejas funcionavam nos lares e onde cozinhas deixavam de ser cozinhas para se tornarem átrios. Além do mais, funcionar em cozinhas, salas de estar, corredores apertados e varandas é a realidade de muitas igrejas hoje. Não apenas uma realidade em nosso país, mais a de muitas nações africanas, sem dúvida. Então, convinha lembrar que segundo os princípios da Nova Aliança, igreja não é o templo, um prédio consagrado a este propósito, mas neotestamentariamente (e vale para os dias de hoje), qualquer ajuntamento de cristãos dispostos a ouvir a palavra de Deus, adorar o Filho na beleza de sua santidade e deixar-se invadir pelas doces consolações do Santo Espírito fluindo em dons, línguas, profecias e, por fim, na estimulação do mais genuíno amor entre os seus.

Por derradeiro, a despeito de citar Donald Gee, Gutierres parece ter desconsiderado que Gee entende a profecia contemporânea como sendo a palavra do Senhor para hoje. Tese rejeitada por teólogos como Wayne Grudem, porque sugere palavra autoritativa com a mesma força das Escrituras, dos apóstolos-profetas do Novo Testamento e profetas do Antigo Testamento, falando as próprias palavras do Senhor. Eu divirjo de Grudem neste ponto e fico com Donald Gee, mas citei apenas para considerar que Donald Gee não é uma unanimidade.

O testemunho dos Puritanos escoceses nos séculos 15 a 17.

Recordo-me que ainda em 2015 eu pessoalmente enviei ao irmão Gutierres um exemplar de meu livro, Sob os céus da Escócia: uma análise das profecias dos puritanos escoceses no séc. 17. Ele não só acusou recebimento como também redigiu e publicou uma resenha do livro em seu blog Teologia Pentecostal. Gesto do qual sou devedor da mais sincera gratidão. Mas lendo seu ensaio, fiquei em dúvida se Gutierres realmente leu o livro ou se apenas folheou.

Diversos registros entre os puritanos escoceses dão conta de profecias preditivas que vaticinavam morte a um sem-número de pessoas. Eu particularmente citei algumas em meu livro.

Fiz questão também de registrar a biografias de todos os puritanos de minha lista. Foram oito ao total. Em cada uma dessas biografias ficou claro que todos eram homens letrados academicamente e profundos conhecedores da palavra de Deus.

Para não me delongar demais, vou citar duas ou três profecias de morte desses puritanos, para demonstrar que elas não contradizem nenhum dos pressupostos da profecia da Nova Aliança. Todas elas foram registradas e publicadas em farta literatura puritana, com especial atenção para as publicações de John Howie, autor do maior e mais respeitado compêndio sobre historiografia puritana de todos os tempos.

A primeira profecia é de George Wishart, por ocasião de sua própria execução na fogueira. A primeira tentativa para executar Wishart se deu ao tentar explodir dois barris de pólvora amarrados ao corpo dele. Como o plano restou frustrado, um dos carrascos teve de se aproximar dele a fim de atear fogo à fogueira. Foi quando ouviu Wishart dizer o seguinte acerca do Cardeal Beaton, seu algoz e responsável pela condenação ao martírio:  

Esta chama tem chamuscado meu corpo, no entanto, não tem intimidado meu espírito. Aquele que, à distância, me fita com tamanho orgulho, jazerá dentro e alguns dias no mesmo local que me assiste, não com a presunção com que agora se ufana, mas mergulhado na ignomínia.[6]

A segunda é de John Knox e diz respeito a uma profecia em desfavor de Sir William Kirkaldy (Lorde de Grange). Esta profecia não foi dirigida diretamente por Knox a Kirkaldy, porque Knox estava acamado próximo de morrer. A mensagem foi dada a David Lindsay e James Lawson que ficaram encarregados por Knox a entregarem a Kirkaldy, o seguinte:

Vade, rogo-os, e dizei-lhe por mim, em nome de Deus, que deixe o caminho mau em que se envolveu. Nem aquela rocha, nem a sabedoria carnal daquele homem a quem ele considera um semi-deus, lhe serão ajuda; mas será arrancado daquele ninho e jogado por sobre os muros de forma vergonhosa, sendo seu corpo dependurado voltado para o sol: assim Deus me assegurou.[7]

A profecia se cumpriu exatamente como Knox predisse, e em 3 de agosto, Kirkaldy foi enforcado com o rosto voltado para o sol. Eu conto mais sobre o cumprimento desta profecia no livro Sob os céus da Escócia, espaço onde detalho mais questões sobre outras profecias de Knox e algumas situações que envolveram seu ministério profético.

Por fim, cito uma última, igualmente relatada em Sob os céus da Escócia, desta feita, profetizada por John Welsh, quando ele era cativo no Castelo do Lorde Ochiltree. Robert Fleming nos conta que certa noite, à mesa do jantar com alguns convidados do Lorde, Welsh entretia o encontro com um discurso piedoso e edificante, como era seu costume. Welsh foi bem recebido por todos os convidados, exceto por um em especial, um jovem papista que debochava com caretas irônicas o discurso de Welsh. Fleming nos conta que, de repente, Welsh parou e solicitou aos presentes que fizessem silêncio, a fim de observarem o trabalho do Senhor sobre o escarnecedor. Após esta menção, o jovem profano descaiu debaixo da mesa para grande espanto de todos.[8]

CONCLUSÃO

É interessante que este último caso se assemelhe muito com a narrativa de Atos protagonizada por Pedro, Ananias e Safira, como falamos anteriormente. E há muitos outros casos relatados em meu livro que comprovam as inúmeras profecias de morte e de imprecação proferidas pelos puritanos escoceses. Elas robustecem não apenas meu argumento, mas comprovam, sobretudo, que na Nova Aliança, não apenas o espírito profético permanece, mas ele denuncia o pecado, dirige juízo aos insubmissos desobedientes à palavra de Deus, e informa a santos homens que estão prestes a se encontrar com Jesus em sua glória celeste.


[1] Para maiores informações recomendo o artigo assinado pelo Rev. Dr. Valdeci da Silva Santos em: http://www.mackenzie.com.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_IX__2004__1/valdeci.pdf

[2] Antiguidades 19.9.2

[3] GRUDEM. Wayne. The Gift of Prophecy: in the New Testament and Today. Wheaton: Crossway, 2000, pp. 340-45.

[4] GRUDEM. Wayne. The gift of Prophecy: in the New Testament and today. Wheaton: Crossway, 2000, p. 153.

[5] The Purpose os Spiritual gifts – 1Corinthians 12-14. Artigo publicado em português no site Teologia Carismática em http://teologiacarismatica.com.br/o-proposito-dos-dons-espirituais-em-1co-12-14/ acesso em 12 de dezembro de 2016.

[6] Howie, 1828, p. 34 apud Cunha, 2016, p.114.

[7] Howie, 1835, p. 63 apud Cunha, 2016, p. 117.

[8] Fleming, 1801, p. 361 apud Cunha, 2016, p. 132.

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