Resenha Crítica: The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation

Garnet Howard Milne, The Westminster Confession of Faith and the Cessation of Special Revelation: The Majority Puritan Viewpoint on Whether Extra-biblical Prophecy Is Still Possible. Studies in Christian History and Thought.  Bletchley, Milton Keynes, UK and Waynesboro, GA, USA: Paternoster Press, 2007. Pp. xix, 334. ISBN: 978-1-84227-521-4.


A Tese retrabalhada de doutoramento de Garnet H. Milne documenta as controvérsias e a ambivalência por detrás do histórico esforço puritano de impor uniformidade doutrinária nas Ilhas Britãnicas através da Confissão de Fé de Westmister (CFW) durante a era de Cromwell (1653-1658). Este esforço provou-se difícil, em parte por causa da seção inicial, que procurava proteger a autoridade da Escritura da competição de “revelações imediatas” — não apenas aquelas do Papado e da Reforma Radical, particularmente os Quakers, mas também das reivindicações de experiências reveladoras por muitos daqueles dentre seus próprios quadros puritanos.

Seguindo um persistente — embora de forma alguma não desafiado — histórico tema cessacionista, no qual foi trazido para dianteira no período da Reforma, a CFW portanto declarou que:

Foi do agrado do Senhor, em diversos tempos, e em diversas maneiras, revelar-se e declarar sua vontade para a sua Igreja (Hebreus 1:1) e após isso… comprometer o mesmo plenamente na escrita (Pv. 22: 19-21; Lucas 1:3, 4; Rm. 15:4; Mt. 4:4,7,10; Is. 8:19,20), o que tornou a santa Escritura bastante necessária (2 Tm. 3:15; 2 Pe. 1:19), aquelas antigas maneiras de Deus revelar sua vontade ao seu povo sendo agora cessadas (Hb. 1:1,2).

Assim, as “diversas maneiras” da revelação divina (profecia, visões, sonhos, dons miraculosos do Espírito, etc.) são agora reduzidas a uma única forma: escrita. Neste caso, diretamente falando, como toda a revelação de Deus foi canalizada para sua forma permanentemente escrita,  canônica, “suficiente”  para a salvação (pp. 123-33), segue-se então que as “imediatas” ou “extraordinárias” formas de revelação, forçadamente cessaram. Quaisquer reivindicações pós-apostólicas a estas revelações “imediatas” era necessariamente uma reivindicação a adicionar novo conteúdo à Escritura (p.287). Assim, a mente de Deus está agora acessível apenas através da exegese (p. 56) com a adicional possibilidade de “mediata” revelação, ou seja, a “iluminação” Calvinista da Escritura pelo Espírito. Será mesmo?

Aparentemente, relatos destas extintas “diversas maneiras” de revelação persistiram entre figuras-chave na Reforma bem como alguns dos teólogos Puritanos mais associados com a criação da CFW (pp.206-18). Os extratos da dissertação de Milne documentam várias tentativas contemporâneas para reconciliar estas aparentes experiências carismáticas com a declaração da CFW.

A polêmica contra estas experiências que foram banidas, incluía na sua maioria uma remarcação que simplesmente reafirmava a posição da CFW em vez de oferecer uma explicação coerente para o cessacionismo. Esta abordagem emprega uma espécie de desmitologização, no qual a profecia do NT representava revelação “extraordinária” ou “imediata”, ao passo que hoje profecia é transmutada à pregação “ordinária”, ou sua “mediata” revelação expressada nas palavras da Escritura (pp. 246-67). Por exemplo, William Lyford “demonstra como os Puritanos ainda destilavam as duas classes de profecias vindas do texto, e assim justificam a continuação de uma em um sentido não miraculoso.”

Estes dons podem ser adquiridos, ou infusos; primeiro eles foram infusos imediatamente para a honra do Evangelho e para a difusão acelerada do mesmo. Depois disso eles são continuados para o bem da Igreja com a ajuda do estudo e oração: Mesmo quando o dom da cura é agora continuado no estudo e arte da Medicina” (p.191).

No máximo então, alguém poderia falar de dons espirituais continuando apenas em um sentido análogo. Semelhantemente, o “oficio” de apóstolo ou profeta com seus dons não mais continua, mas os ofícios “ordinários” de pastor e mestre são permanentes. “Espíritos privados” (reivindicações para a pessoa em particular ou “imediata revelação”) têm sido substituídos pela disseminada “palavra” escrita universalmente. Este último termo, “palavra”, tipicamente descrita na CFW, não denota mais a ideia bíblica da revelação, mas Escritura. A frequente conjunção Puritana — quase identificação — de “palavra”  como sendo Escritura e Espírito teve o efeito de negar revindicações de dons espirituais contemporâneos, os quais se eles pareciam ocorrer, apenas expressariam um “forte instinto” de capacidade humana natural (p.212) ou pior. Os Puritanos frequentemente atribuíam às reivindicadas fontes de revelações a Satanás, à astrologia, ou à invocação de espíritos condenados (pp.141-42). Em todo caso, o cessacionismo convenientemente anula uma acusação de blasfêmia contra o Espírito Santo!

Já que o cessacionismo foi formulado explicitamente para proteger a Escritura, é talvez muito estranho que os redatores da CFW tenham dedicado tão pouco interesse em demonstrar suporte bíblico para esta doutrina. Ironicamente, o primeiro rascunho foi devolvido aos delegados à Casa dos Comuns na insistência de que eles listassem referências bíblicas relevantes como suporte para suas doutrinas. De acordo com isso, eles anexaram apenas Hebreus 1:1-2 à atual declaração cessacionista. Os redatores da CFW de alguma forma relacionaram a frase, “nestes últimos dias ele nos falou pelo seu Filho” com o cânon da Escritura do NT— uma interpretação estranha, já que Atos explicitamente identifica o Jesus exaltado como comunicando “aquilo que vocês veem e ouvem” (milagres e profecia, Atos 2:33) os quais também são locados nos “últimos dias” (Atos 2:17).

Millne dispõe a “hermenêutica” dos Puritanos sobre estas passagens nas pp.123-40, o que simplesmente corresponde a uma reiteração dogmática da reivindicação cessacionista: “Cristo, pelo seu ofício profético, calou, e selou todas as anteriores visões, profetas e profecias” (citando John Lightfoot, p.138). Surpreendentemente, está ausente uma exegese séria ao que suas passagens-chave realmente dizem. Uma tênue exceção pode ter surgido no ensaio de Edward Irving que usou 1ª Co 13:10 como um texto-prova para o continuismo. Seu oponente, J. Mann, por outro lado empregou o verso 8 para demonstrar que as línguas tinham cessado — uma resposta popular, embora exegeticamente incorreta, em uso por cessacionistas até mesmo hoje em dia. Em vez de suporte bíblico, a base para o cessacionismo é largamente histórica, filosófica, e acima de tudo, especulativa. Milne sumariza então os argumentos de escritores Puritanos representativos:

  1. Que não existem mais pessoas qualificadas para transmitir dons miraculosos.
  2. Que é uma questão de “sobriedade” ensinar que milagres cessaram, presumivelmente para neutralizar o “entusiasmo.”
  3. Que houve uma alteração na medida do Espírito Santo concedido à igreja definida.
  4. Que milagres sobrenaturais não mais são necessários para estabelecer a igreja usando uma tal validação ou autenticação sobrenatural de seu ensino. Este quarto argumento era o mais comum (pp.194-95).

A tese de Milne sobre o conflito entre aqueles que reivindicavam experiências reveladoras e aqueles que esposaram o cessacionismo — estranhamente, alguns reivindicavam membresia em ambos os grupos — foi resolvida por sua afirmação que a Seção I da CFW quis dizer mais ou menos o que disse. Enquanto ele documenta numerosas tentativas Puritanas e outras contemporâneas de fazer figas, redefinição de termos ambíguos ou uma descarada negação da seção, Milne afirma que era pelo menos possível espremer sonhos ‘’providenciais” ou “moções” angélicas para a categoria de aprovada revelação “mediata”. Esta revelação certamente não consistia de “nova doutrina,” mas a comunicação de um dever pessoal “para os piedosos ou para alertar-lhes sobre determinado perigo imediato” (p.289). Neste sentido extremamente restrito, Milne argumenta que a Seção 1 da CFW sugeria na verdade uma continuista epistemologia religiosa! Em última análise, ele sugere que o cessacionismo da CFW é atenuado pela reivindicação de que a Escritura se dirigia a toda eventualidade na vida, especialmente enquanto assumia significância adicional em aplicações especificas via iluminação “mediada”, como uma espécie de caixinha de promessas.

Por conseguinte, o estudo descritivo histórico de Milne representa uma adequada prossecução de sua tese que satisfaz os requisitos da disciplina. Tendo dito isso, no entanto, uma leitura deste projeto pode deixar alguém sem um senso de encerramento. Um conclusivo capítulo de análise crítica quanto a viabilidade da Seção 1 da CFW contra suas próprias reivindicações, com discernimento bíblico e autoridade seria bem-vindo e não muito além do escopo da dissertação. Por exemplo, os seguintes problemas suplicam por escrutínio:

1) a noção Puritana da suficiência da Escritura que é confundida com os dons de profecia ou milagres cujos propósitos explícitos e biblicamente descritos não têm nada a ver com adicionar ao cânon ou inerentemente desafiar sua autoridade;

2) a surpreendente falta de interesse dos Puritanos em construir um caso verdadeiramente bíblico/exegético para o cessacionismo, aliás, é uma falta que aparenta viciar o valor insistente da CFW por autoridade bíblica;

3) as conceituações imprecisas e extra bíblicas por detrás de termos tais como: dons “análogos”, “mediato/imediato,” “ordinário e extraordinário,” “especial/geral revelação,” “fé,” “salvação,” “milagre,” “nova aliança,” “palavra,” “Espírito,” etc.;

4) o contemporâneo criticismo em que a CFW ironicamente atribuiu maior autoridade a si mesma do que à Escritura, em vista da diferença atribuída a si e a exigência que ela serve como o exclusivo credo das Ilhas Britânicas. Na ausência de um capitulo assim, isto é prova do que poderia ter sido oferecido, ou seja, o exame de um tema central na CFW e na tradição Reformada: teologia do pacto e sua relação com o cessacionismo de acordo com a Escritura.

A seção I da Confissão de Fé de Westminster representa uma tentativa como a de Uzá de segurar a arca: um esforço humanamente inspirado de proteger a autoridade da Escritura — um ato que, ironicamente, serve para impedir a mensagem explícita dela, ou seja, a própria essência da nova aliança que é a “imediata” experiência do Espírito de profecia.

No Velho Testamento o propósito central do povo da aliança era se tornar um “reino sacerdotal” — ouvindo e proclamando as revelações e poderosos atos de Deus a outros (Ex 19:5-6; Is 42:6-7; 1ª Pe 3:9). A Escritura descreve a nova aliança como “a lei escrita no coração” (Jr 31:31-33, semelhantemente Is 59:21). Esta aliança de “imediata” revelação é desenvolvida em Jo 14:26, 1ª Jo 2:27, 2ª Co 3:2-8 e Hb 8:10-11. A mesma nova aliança (do “Espírito de “imediata” profecia”) é o clima da mensagem contratual —  o endereço chave — do Cristianismo (Atos 2:38-39) onde a preparação para a aliança (arrependimento e batismo) bem como a aliança/promessa do Espírito é baseada em Is 59:20-21. “Um Redentor virá a Sião para arrependimento de Jacó. Esta é a minha aliança com eles, diz o SENHOR, meu Espírito que está sobre vós [Jesus? Is 61:1-2], e as minhas palavras que eu coloquei na vossa boca, não se afastarão dela, ou da boca de vossos filhos, ou da dos filhos de vossos filhos, diz o SENHOR, de agora e para sempre.” Este padrão de: 1) arrependimento e batismo, seguido por 2) a recepção da “imediata” experiência profética do Espírito cumpre a promessa do Batista que esboçou seu papel no Reino (preparação) e o papel de Jesus: cumprimento da promessa/aliança do Espírito e sofrimento (Mt 3:11 || Lc 3:16).

Semelhantemente, após citar Is 59:20, Paulo parafraseia esta aliança (v.21) com uma generalização explicitamente anti-cessacionista: “Pois os dons (charismata) e vocação são irrevogáveis” (Rm 11:29). A “vocação” neste contexto poderia ser o chamado a serviço profético como conforme Is 59:21, invés (anacronicamente) do primeiro estágio da ordo salutis, a “vocação” para “salvação.” (O cessacionismo Puritano exigia que ninguém hoje pudesse ser “chamado” por Deus como os profetas bíblicos, a saber, por “imediata” revelação [p.241].

Mais relevantemente, o apóstolo Paulo contrasta a relação das duas alianças no que diz respeito ao modo de revelação: escritura versus a direta e imediata revelação aos corações pelo Espírito. Deus fez seus servos “competentes para serem ministros de uma nova aliança, não da letra, mas de Espírito; pois a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2ª Co 3:6). Estaria a posição epistemológica da CFW na Escritura escrita e a negação de “imediata” revelação como a essência da nova aliança de fato, pelo avesso — ou seja, como mais característico da Velha Aliança?

Certamente isto parece ser o ponto que Jesus faz em João 5:38-39 onde a “Palavra” não habita naqueles que “procuram as Escrituras,” pensando que “nelas [eles] pudessem ter vida eterna.”

Para os redatores da CFW, a “Palavra” que habita, era praticamente identificada com Escritura ou uma afirmação em credo da própria CFW, ainda que talvez iluminada pelo Espírito. Em contraste, o verdadeiro reconhecimento deve seguir o ensino da “grande confissão” feita por Pedro: “Bem aventurado és tu, Simão  filho de Jonas! Pois não foram a carne e o sangue que te revelaram isto, mas o meu Pai no céu” (Mt 16:17, ecoando Jr 31:33?). A normatividade da confissão de Pedro é confirmada pelo fato de que esta confissão “revelada” (não apenas dogmática ou credal) representa o “fundamento” da igreja e as “chaves para o reino”. Este modo “imediato” de apreender revelação como a chave para a nova aliança (recepção do Espírito de profecia) é consistente com a natureza explícita da nova aliança em outros lugares do NT, como acima.

Finalmente, a própria essência de um fiel relacionamento para com Deus (i.e., “imediata” revelação) é expressada mais proeminentemente na tentação do primeiro e do Segundo Adão. Em ambos os casos, o assunto é a epistemologia espiritual: “Deus disse?” Tal como Eva e Adão encararam uma escolha de duas árvores: uma, uma opção Satânica que os faria “como Deus” (eles já o eram) e “sábios”.

Jesus também foi desafiado por Satanás a tornar-se um verdadeiro “filho de Deus” (ele já era) através de uma interpretação humana/Satânica da Escritura — por acreditar, juntamente com os rabis da Velha Aliança, que toda a revelação agora estava congelada na Escritura. Ao contrario de Adão, a declaração de tese de Jesus respondendo à tentação ou às tentações foi que vivemos por  “toda a palavra que procede [“imediatamente”] da boca do Pai” Mt 4:4). Aplicar Escritura sem revelação “imediata” resulta em tentar a Deus e adorar a Satanás. São Paulo ecoa a resposta a esta principal tentação: “O justo viverá por sua fé — não “a fé” como um credo, mas como “imediata” revelação e resposta (Rm 1:17).

A calamidade que se segue é um resultado explícito da negação desta revelação a “corações tolos” descritos na última metade de Romanos 1. A Escritura não parece fazer a distinção Puritana entre revelação “geral” e especial. De acordo com a autoridade da própria Escritura, “imediata” revelação não cessou porque está provada ser a essencial experiência da Nova Aliança. Em sua negação de “imediata” revelação como normativa para a experiência dos crentes e sua expressão de uma articulação humana da fé Cristã derivativa e intelectualizada, a Seção I da Confissão de Fé de Westmister, apesar do embargo de Milne, parece ter escolhido a árvore errada.


Título original:

Tradução: Ângelo Lima

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