Revelatio Extra-Scripturae: A sangrenta polêmica sobre Revelação Especial extrabíblica entre João Calvino e os Anabatistas

Muito se tem dito sobre as condutas nada apreciáveis de João Calvino (1509-1564) nos embates doutrinários que manteve com os anabatistas e outros adversários pontuais da Reforma. As análises apresentadas de tais confrontos, ora apresentam Calvino justificado por um espírito de época, onde os homens foram “perdoados” de seus comportamentos mais extremados — tal qual Lutero e seu antissemitismo—, ora, apresentam-no como carrasco implacável que violava consciências a serviço de uma teologia intolerante. Mas quem é efetivamente réu na história?

É inquestionável o fato de que alguns Reformadores se excederam nas hostilidades contra seus opositores, e em muitas ocasiões pagaram o mal com o mal contrariando mandamento bíblico. Há quem os defenda e quanto a isto não vamos nos deter muito. Por outro lado, é preciso analisar a História mais de perto, avaliando a contraparte, seus métodos, discursos e ações a fim de se verificar como se comportaram e se provocaram injustamente a ira de seus adversários.

São flagrantes as estratégias desonrosas dos anabatistas contra  pilares importantes da Reforma. O artigo portanto visa esclarecer este lado da história, na demonstração das teses centrais sobre comunicações revelacionais imediatas, e como amparados na premissa epistemológica de ordinária revelação especial extrabíblica eles combateram os princípios normativos que reafirmavam o Sola Scriptura. Ao mesmo tempo, lançará alguma luz sobre a posição de Calvino acerca de textos controvertidos da Escritura, como o capítulo 1 da Carta aos Hebreus.

Não entraremos nos méritos das penas capitais impostas, se eram justas ou não. Mas esclarecendo alguns pontos importantes, estaremos diante de um panorama histórico delimitado e em melhores condições para responder, por exemplo, se os anabatistas foram apenas inocentes nas mãos de sanguinários homens da Reforma, ou se disseminaram a heresia e promoveram profunda instabilidade na Igreja. Se alguém tomar como integralmente verdadeiros determinados relatos de historiadores, certamente concluirá que foram vítimas indefesas de um sistema teológico duramente opressor. É fato que muitas mulheres e crianças anabatistas não foram poupados e seguiram por um caminho de suplício em razão de um anabatismo que em última instância eram obrigados a sustentar. Mulheres não poderiam manter uma condição de insubmissão ao credo de seus maridos, muito menos as crianças em relação à fé dos pais. Mas isto não foi suficiente para poupá-las da carnificina. Portanto, há um debate a ser travado no sentido de se definir quem foram verdadeiramente os vitimados em uma disputa ideologicamente cruenta como aquela. Faz-se necessário apresentar uma parte do conflito que tem sido historicamente negligenciada, bem como um pouco mais sobre o ensino anabatista tão duramente combatido por Calvino, e o quê exatamente o reformador de Genebra escreveu para refutá-lo.

Nuances de uma Histórica Refrega

A história registra que os anabatistas foram duramente combatidos – eufemismo para perseguição – por Calvino. Mas deve-se dizer que eles surgiram em um contexto religioso que propiciou perigosa liberdade autorizada pelo movimento reformista. Destarte, é imperativo entender qual mensagem alimentava os esforços deste grupo, bem como quem eles eram, a partir do estudo analítico dos escritos daqueles que os combatiam. Neste sentido, é interessante esquadrinhar um pouco certos documentos históricos que contam a forma como os Reformadores interpretavam as ações de seus rivais.

Quando escreveu a biografia de Calvino, Beza situou com absoluta precisão a disputa com os anabatistas traçando apontamentos específicos acerca da influência devastadora deles, assim como informou sobre as perturbações que causavam intenso distúrbio social em razão da movimentação articulada. Além da pregação apocalíptica de Melchor Hoffman mencionada por mim no volume 1 do livro Sob os céus da Escócia[1], Beza relata com riqueza de detalhes as disputas com Jean Stordeau e Pierre Caroli. A certa altura, ele nos diz que

Peter Caroli, o outro perturbador da Igreja, ocasionou muito maior distúrbio, mas eu só farei menção àqueles contra os principais cabeças, visto que um histórico completo do concurso sobrevive, e também podem ser anotadas a partir de uma carta de Calvino para Grynseus. ‘A Sorbonne, a mãe que deu à luz a este sofista mais impudente, tendo depois jogado-o como um herege, ainda que pouco merecia isso em suas mãos, ele foi, primeiro à Genebra, próxima de Lausanne, e depois para Neufchatel, tendo lhe acompanhado o espírito de Satanás e em cada lugar para o qual ele veio, deixou traços manifestos de sua torpeza’.[2]

Beza também enfatiza o tom caluniador que revestia os ataques de Caroli contra Farel, Calvino e Pierre Viret, muito embora, o mais interessante seja perceber que tais disputas além de bastante concorridas, exigiram criterioso esmero, tendo em vista que os anabatistas seduziam as massas e causavam grande divisão nas igrejas da região:

Estes honrosos começos desagradaram muito a Satanás e aos seus, que fracassaram, como não seria sem cabimento no caso das primeiras mudanças de estado e de religião, em causar a ele grande transtorno. Ora, mal se haviam decorridos quatro meses antes que, de um lado, os anabatistas o viessem acometer (dos quais conta-se um certo Jean Stordeau, de quem mais adiante haverá menção, e de outro, um apóstata perverso chamado Pierre Caroli, doutor de Paris, que, sendo secretamente amparado pelos favores de alguns cidadãos importantes da região, lhe podia dar muito trabalho. Quanto aos anabatistas, soube ele (Calvino) tão bem e apropriadamente manejar as disputas públicas, que, quantas vezes o magistrado ali não pôs a mão, a partir desse momento, a raça perdeu a parada nessa igreja. Isso é tanto mais admirável em que a maior parte das igrejas da Alemanha estão ainda bastante envolvidas com os anabatistas e, se há igrejas que se desvencilharam deles, tem sido antes pelo rigor da justiça que de qualquer outra forma.[3]

Nota-se claramente que eles não eram quaisquer agitadores. Souberam atuar habilidosamente e se valeram de toda ajuda que puderam reunir com o propósito claro de disseminar transtorno às igrejas da Europa que estavam sendo reeducadas segundo o padrão do reformismo protestante. Beza faz questão de frisar que nas oportunidades em que não se levantou duríssima oposição, os anabatistas prevaleceram e conduziram ao abismo diversas igrejas. Estas observações revelaram não apenas o êxito anabatista em lugares estratégicos para a Reforma, mas igualmente sua abrangência. Tal como Beza menciona, esta irradiação alcançou a Alemanha ao mesmo tempo em que se verificava considerável sucesso no berço da Reforma.

Estes embates sinalizam claramente o clima tenso, o que naturalmente exigiu esforços que extrapolavam o simples debate retórico. Os anabatistas causavam grande convulsão social ao desencadear distúrbios naquelas cidades que, recém-libertas da hegemonia romanista, estavam desfrutando evidente paz. Um destes incidentes convulsionais culminou no expurgo de Calvino e Farel de certa cidade. Em resumo, Beza (1657, pp. 24-25) nos relata que

Por este tempo, isto é, em 1537, Calvino imprimiu duas epístolas que havia escrito da Itália, durante a viagem que dissemos haver feito, a certos de seus amigos na França. Uma trata de fugir das idolatrias e de guardar a pureza da religião cristã; a outra, daquele dever do homem cristão em conservar ou abrir mão dos benefícios desfrutados na Igreja Papal. Todavia, tumultos ocorreram na cidade, um após o outro que muito lhe afligiram e afetaram de maneira estranha. Veio a opor-se até mesmo à prática do evangelho, embora tivesse ela sido jurada por todos os cidadãos. Calvino, como tinha um espírito heróico, opôs-se aos sediciosos com firmeza e força, juntamente com Farel e outro bom personagem chamado Couraut, também ministro desta igreja, cego dos olhos do corpo, mas clarividente dos olhos do espírito; a quem o referido Calvino também o havia atraído de Basiléia, aonde se havia retirado em razão de ardentes perseguições da França, como dito já foi. O desfecho foi tal que, desejando o Senhor, de pronto, retirar seus servos da pressão e expurgar esta cidade de certos agitadores que abusavam do nome do Evangelho, plantar Seu nome em outra parte e, finalmente, burilar Seu servidor por uma experiência de coisas que, ao depois, lhe vieram servir grandemente, foi ordenado, a maior parte do Conselho sobrepondo-se à melhor, que saíssem da cidade no prazo de três dias, por não haverem querido ministrar a Ceia em uma cidade cheia de confusão e muito perturbada.[4]

Os esforços dos reformadores passaram a se concentrar no duplo objetivo de ensinar a verdade confrontando o erro, mas sobretudo no firme recrudescimento para que se estabelecesse em cada cidade a aceitação geral dos valores evangélicos. Nada obstante, como Beza mesmo mencionou acima, experimentaram o dissabor de serem vencidos e expurgados quando os padrões da nova religiosidade foram por eles inflexivelmente reclamados como padrão de vida em sociedade. Isto pode ser verificado quando Calvino e outros ministros aliados recusaram-se servir a Ceia àqueles considerados impenitentes e desregrados. Foram expulsos por se recusarem atender um padrão menos rigoroso de conduta pessoal.

Os anabatistas também eram bem articulados como pregadores. Verdade seja dita, o povo lhes ouvia em razão de uma espantosa habilidade para lidar com os anseios do típico cidadão medieval. Eram envolventes ainda que o espírito revolucionário do movimento tivesse tomado lugar do pacifismo embrionário. Além do mais, nomes importantes da história protestante perfilaram seus quadros, como Menno Simons que abraçou o movimento em 1536. A adesão de nomes como este, determinaram certo prestígio aos anabatistas.

Exerceram tanta proeminência no período das reformas protestantes que ignorá-los é desconsiderar a discussão sobre a temática acerca da revelação especial extrabíblica, sobre reclamadas novas revelações diretas de Deus. Isto em associação à mensagem que atribuía absoluta irrelevância às Escrituras em virtude de uma alegada comunicação direta com Deus. Parte do prestígio que os anabatistas granjearam tem como explicação essa aura mística que denotava um privilégio espiritual difícil de ser alcançado pelo povo comum. Esta atmosfera contrariava o legado que reafirmava o sacerdócio universal dos crentes, e embora o homem medieval tenha sido liberto da ideia de manter representantes entre ele e Deus, era difícil não sucumbir à tentação de reverenciar um líder com uma aparente espiritualidade superior.

Nos tratados escritos por Calvino, adjetivações como fanáticos, entusiastas, cães virulentos, et al, referiam-se em sua grande maioria também aos anabatistas. Embora lançar mão de adjetivações como estas seja de todo modo reprovável, diante do contexto como exposto anteriormente, algumas exasperações podem ser absolutamente compreensíveis. Segundo Calvino, somente um fanático entusiasta poderia conceber que aqueles ensinos contrários à Palavra de Deus pudessem ser ensinos do Deus da Palavra. Lamentavelmente esqueceu-se das orientações bíblicas e entregou-se ao debate de forma muito eticamente rasteira em diversas disputas.

Ele se levantou contra uma impulsiva e insistente reivindicação de suprema autoridade revelacional sustentada pelos anabatistas. Para Calvino, meras impressões internas estariam sendo confundidas como revelações divinas com caráter infalivelmente autoritativo. No seu entender, toda e qualquer revelação então deveria ser mediada pela verdade bíblica, assim como esta própria verdade se evidencia em sua harmonia conjuntural. Em sentido contrário, evidenciava-se a falta de sobriedade dos anabatistas que se deixavam guiar por revelações em desarmonia com a revelação especial. A Bíblia deveria assumir valor determinante sobre o qual todos os crentes estariam obrigados a se guiar, muito embora os anabatistas sugeriam abrir mão desta normativa fundamental. Calvino então elabora uma denúncia contundente para este comportamento que se destacava como inaceitavelmente perigoso.

O que esses inflados entusiastas dirão acerca destas coisas, os quais reputam esta como sendo apenas a sublime iluminação, quando, abrindo mão despreocupadamente e dizendo adeus à divina Palavra, não menos confiantes que temerários, agarram sôfregos qualquer coisa que hajam concebido enquanto dormitam? Certamente que aos filhos de Deus lhes fica bem a sobriedade, os quais, ao mesmo tempo que, sem o Espírito de Deus, se veem privados de toda a luz da verdade, todavia não ignoram que a Palavra é o instrumento pelo qual o Senhor dispensa aos fiéis a iluminação de seu Espírito. Pois não conhecem outro Espírito além daquele que habitou e falou nos apóstolos, de cujos oráculos são continuamente convocados a ouvir a Palavra.[5]

Entretanto, no comentário acima, Calvino não nega enfaticamente que novas revelações possam acontecer. O que ele rejeitava claramente era uma obstinada determinação anabatista em se apoiar demasiadamente ao que poderia ser definido como revelações oníricas (sonhos), enquanto mantinham-se firmes em afastar-se do estudo da Palavra. E é aí que para ele residia um problema crucial, visto que nenhum profeta ou apóstolo verdadeiro havia repudiado as Escrituras. Os anabatistas então abriam um precedente perigoso, postulando comportamento que poderia induzir sinceros cristãos a erro. Era preciso uma incompreensão escriturística acima da média, juntamente com uma reprovável egolatria idólatra para nutrir o desejo de se assentar num trono que por direito de pertença, cabia ao Espírito de Cristo. 

Além do mais, ele busca definir alguma distinção entre os profetas bíblicos e qualquer outro alegado profeta em qualquer tempo que fosse. A Bíblia para Calvino era o padrão normativo, enquanto os anabatistas negavam, por que segundo eles o Espírito lhes falava diretamente não havendo subordinação do Espírito à Palavra. Quanto a este padrão sustentado pelos anabatistas, Calvino resistiu à classificação da profecia como manifestação normativa, afirmando que ela deveria assumir sua condição extraordinária:

Por isso agora, desde que Cristo, o Sol da Justiça, brilhou, temos o perfeito fulgor da verdade divina, como costuma ser a claridade ao meio-dia, quando antes a luz era fosca. Ora, de fato, o Apóstolo não quis proclamar algo vulgar quando escreveu “haver Deus outrora falado aos pais, em muitas ocasiões e de muitos modos, pelos profetas; mas que nestes últimos dias começou a falar-nos pelo Filho dileto” [Hb 1.1,2]; pois ele quer dizer, mais ainda, declara abertamente que doravante Deus não falará como fez até agora, intermitentemente, pelos lábios de uns e de outros, nem acrescentará profecias a profecias, ou revelações a revelações, mas que no Filho consumou de tal modo todas as partes do ensino, que este será tido como o derradeiro e eterno testemunho de sua parte.[6] [grifo meu]

Calvino reafirma Cristo como o perfeito fulgor da revelação divina, mas há que se discernir que afirmar isto não é o mesmo que manter que todo processo revelacional se encerraria nele, e sim que a revelação sobre Deus e sua obra redentora estaria nele, Cristo, encerrada. Caso contrário, teríamos que afirmar que quaisquer revelações, mesmo apostólicas, devem consequentemente, ser descartadas. Além do mais, por “todas as partes do ensino”, Calvino refere-se tão somente àqueles ensinos sobre o Messias de que trataram os antigos profetas. Mas isto não excluiria, por exemplo, revelações particulares de caráter pessoal ou indeterminado, de acordo com o padrão instituído pelas Escrituras inspiradas. São importantes tais destaques, tendo em vista a regra cessacionista de conectar a oposição de Calvino face ao exacerbado misticismo anabatista, com um cessacionismo extremamente rigoroso, em que profecias ou revelações especiais extrabíblicas não seriam possíveis. Derek Thomas afirma que era tendência dos anabatistas citar novas revelações do Espírito como algo normativo da fé e comportamento cristãos[7]. Comentários como este abriram precedente para abranger a reafirmação cessacionista em que Calvino não é apenas refratário ao misticismo anabatista, mas é também um cessacionista inflexível.

Para Calvino, a profecia desde o Velho Testamento carreava um aspecto intermitente e tipológico que com a chegada de Cristo assumiu o status como contínua, não mais se sujeitando à intermitência. O silêncio anunciado pelo profeta Daniel que resultou em quatrocentos anos de vácuo profético, não mais seria verificado após o advento de Cristo. É este aliás o grande ensinamento expresso no derramamento do Espírito Santo em Pentecostes. É este o sentido que Calvino ressalta do texto aos Hebreus.

A profecia mencionada por Daniel cumpre-se nos quatrocentos anos de silenciamento da casta profética em Israel. Após este eclipse, João Batista é levantado para anunciar que a plenitude atingirá seu auge na pessoa de Cristo em seu ofício como Profeta, mas que o espírito da profecia continuará até o segundo advento do Filho de Deus. Ressaltando que no primeiro advento do Cristo, como personagem central de antigas profecias, agora falará dele próprio, por si mesmo, bem como anunciará todo o necessário para estabelecer definitivamente os ensinos sobre o Reino de Deus e o consequente acesso a ele. Quanto a isso, deixou de haver necessidade de se acrescentar profecias a profecias e revelações a revelação, sendo a Palavra do Cristo o fundamento derradeiro de seu testemunho. Toda dispensação profética, característicamente intermitente que apontava para o Messias, encerrara-se, portanto, em João Batista.

É com este espírito que Calvino manifesta suas incompreensões em vista dos ensinos anabatistas. Verificando os ataques à solidez do suficiente fundamento do ministério profético de Cristo para assentar doutrina definitiva, Calvino escreve que

quando Cristo já não estava longe, foi apontado a Daniel o tempo “para selar a visão e a profecia” [Dn 9.24], não somente para que a autoridade do vaticínio se evidenciasse segura do que ali se trata, mas também para que os fiéis ficassem de ânimo tranquilo, sem profetas por um tempo, uma vez que estaria iminente a plenitude e conclusão de todas as revelações.[8] (Grifo meu)

Em primeiro lugar é importante destacar que a plenitude de todas as revelações é Cristo, não significando, entretanto, que o espírito profético cessaria. Tal plenitude se relaciona neste contexto em especial tão somente com a perspectiva de que a intermitência do antigo profetismo, restaria findo com o advento da encarnação de Cristo. Calvino destaca o fato de que a antecipação do silêncio profético denunciado por Daniel não deveria perturbar o povo de Deus, e que a vinda de Cristo encerraria toda e qualquer dúvida com relação aos ensinos sobre o Messias, o Reino de Deus e sua justiça, muitas vezes anunciados de maneira enigmática na mensagem dos antigos profetas.

Calvino relaciona a autoridade da profecia de Daniel, ao tempo de silêncio profetizado; silêncio quebrado definitivamente por Cristo, ocasião na qual as sombras que encobriam as revelações do passado seriam dissipadas. E pelo fulgor da perfeita revelação do Filho de Deus os homens conheceriam as coisas que os olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração do homem, aquilo que Deus preparou. (1Co 2.9). Era a encarnação do Logos, profetizada enigmaticamente por Isaías (64.4). O que antes estava envolto pelas sombras, seria revelado de maneira inconfundível.

Ele reitera também que esta plenitude encerraria ao mesmo tempo todas as revelações circunscritas à doutrina sobre salvação. Quem quisesse ver o Pai, que mirasse o Filho em sua Missão. Calvino liga a profecia de Daniel com aspectos unicamente cristológicos para afirmar que a profecia doutrinária alcançaria seu ápice na elocução de Cristo. Em torno dele e de sua mensagem foram delimitadas as fronteiras das revelações posteriores com este caráter eminentemente doutrinário. Ele é a pedra angular, o fundamento sobre o qual o edifício deve ser erguido, iniciando-se por ele e prosseguindo através do ensino apostólico. Neste sentido, o ministério profético de Cristo proíbe alterações, não novas-revelações. Don Codling desloca o atual entendimento reformado sobre Hebreus 1 ao definir que

Na antiga dispensação, Deus se revelou numa variedade de tempos, lugares e métodos. A nova dispensação então foi anunciada quando Deus se revelou através do Filho. Mas qual é o significado da vinda do Filho nestes últimos dias […] O contraste é entre a era da realização inaugurada por Cristo e a era da promessa, antes da vinda de Cristo […] O falar de Deus através de seu Filho foi a inauguração, e não o fim dos últimos dias. Dessa revelação plena se estabelecem os limites para qualquer revelação subsequente. [9]        

Além do mais, ao dizer que o advento de Cristo já não estava longe (sem profetas por um tempo), evidente que Calvino fez uso de uma figura de linguagem, tendo em vista que o interregno entre a profecia de Daniel e o advento do Senhor é contado como uma soma expressiva de tempo. Quatrocentos anos não são um piscar de olhos.

Mas Calvino prossegue com seu raciocínio no que concerne à segurança dessas últimas e suficientes revelações doutrinárias sobre a salvação do homem e de seus assuntos correlatos. Sobre isto ele afirma que

com esta perfeição da doutrina, que Cristo trouxe, pôs-se um fim a todas as profecias, de tal sorte que violam sua autoridade quantos, não contentes com o evangelho, o remendam de algo estranho.[10] 

Em resumo, é perfeita a revelação de Cristo sobre doutrinas acerca da redenção humana, o que desautorizaria qualquer outra revelação/ensino que procurasse estabelecer novas doutrinações a este respeito. E qual a importância de ressaltar esta questão? É que os anabatistas militavam com um pano de fundo muito semelhante aos judaizantes dos tempos neotestamentários, que impunham tradições humanas aos gentios a fim de que estes fossem aceitos. O autor da carta aos hebreus observou que as prescrições cerimoniais da lei mosaica haviam, em Cristo, assumido um status de obsolescência. Ele enfatiza que sangue de carneiros e bodes não purifica o homem de seus pecados (Hb 9.12). A exigência de uma pureza batismal, nos moldes como defendidos pelos anabatistas, era algo estranho ao Novo Testamento.

Com efeito, os anabatistas surgiram afirmando que as pessoas não poderiam ser consideradas como parte do corpo de Cristo, apenas por ostentarem determinada cidadania. Assim, repudiavam o batismo daqueles que não o haviam estabelecido a partir de uma confissão pública e consciente de pecados, e administrado por um ministro devidamente capacitado para tal. Neste sentido, consideravam inválido o batismo feito sem o atendimento destes requisitos, e exigiam de seus membros um batismo segundo regras exclusivistas.

Este aspecto do movimento é confirmado pelas palavras de Justo Gonzalez:

A igreja é uma comunidade voluntária e não uma sociedade dentro da qual nascemos. […] A consequência imediata de tudo isso é que o batismo de crianças deve ser rechaçado. Esse batismo dá a entender que uma pessoa é cristã simplesmente por ter nascido em uma sociedade supostamente cristã. Porém, tal entendimento oculta a verdadeira natureza da fé cristã, que requer decisão própria. […] Assim, de imediato, se deu a essas pessoas o nome de anabatistas, que quer dizer “rebatizadores”. Naturalmente, esse nome não era de todo exato, porque o que os supostos rebatizadores diziam não era que era necessário batizar-se de novo, mas sim que o primeiro batismo não era válido e que assim o que se recebia depois de confessar a fé era o primeiro e único batismo.[11]

Quanto a este aspecto do ensino anabatista relacionado à observância necessária da pureza do rito batismal, Calvino afirmou que este erro já havia sido verificado entre os Donatistas que mediavam a eficácia e o valor do sacramento pelo valor do Ministro administrante. Calvino reitera, então, que os anabatistas incorriam no mesmo erro ao acusarem os reformadores de terem sido batizados no Papado por homens idólatras e maus, insistindo incorretamente na administração posterior de outro batismo, pois era o mesmo

erro dos donatistas, que mediram a eficácia e valor do sacramento pela dignidade do ministro. Tal nos dias de hoje são os nossos anabatistas, que negam que estamos devidamente batizados, porque o fomos no Papado por homens idólatras e maus; portanto, eles furiosamente insistem em rebatismo. Contra esses absurdos seremos suficientemente fortalecidos se refletirmos que pelo batismo fomos iniciados não em nome de qualquer homem, mas no nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; e, portanto, que o batismo não é do homem, mas de Deus, independentemente de quem ele pode ter sido administrada.[12]

Enquanto os anabatistas impunham severas restrições e passaram a considerar o batismo como essencial à salvação, Calvino indicou que a ordenança batismal repousava na exclusiva autoridade da Trindade, desvinculando a eficácia do rito ao ministro, achado impenitente ou não. Enquanto os anabatistas procuravam estabelecer que o rito era em si um caminho para a salvação escatológica, outorgando sobrecarregado valor ao sacramento, Calvino, por sua vez, disse:

Evidentemente, não nego que seja dever do homem piedoso subtrair-se a todo relacionamento íntimo ou pessoal dos réprobos, não se imiscuindo com eles em nenhum relacionamento voluntário; uma coisa, porém, é evitar o convívio dos maus; outra, por aversão a eles, renunciar à comunhão da Igreja. […] Se comungar com o indigno fosse ilícito, certamente Paulo ordenaria que olhássemos em volta para vermos se porventura haveria alguém na multidão de cuja impureza seríamos poluídos. Ora, quando ele só requer de cada um a prova de si próprio, evidencia que de modo algum somos prejudicados e algum indigno se imiscuir conosco. Nem outra coisa ele tem em vista quando acrescenta depois: “Quem come indignamente, come e bebe juízo para si” [1Co 11.29]. Paulo não diz para outros; mas, para si. E com razão, pois não deve ser posto no arbítrio de cada um a quem deva receber e quem deva repelir. Este reconhecimento, que não pode ser exercido sem legítima ordem, é de toda a Igreja, como depois se haverá de dizer mais amplamente. Portanto, será injusto ser alguém, pessoalmente, poluído pela indignidade de outrem, a quem nem pode, nem deve, barrar o acesso.[13]

Nesta mesma seção das Institutas (IV, I. 16-17), Calvino prossegue denunciando aquilo que reputava como falsa piedade e zelo exacerbado dos anabatistas — embora não os cite diretamente:

Mas, se bem que, de inconsiderado zelo de justiça, esta tentação sucede por vezes até aos bons, contudo descobriremos que o excessivo rigorismo nasce mais do orgulho, da arrogância e de falsa opinião de santidade, que da verdadeira santidade e de seu verdadeiro zelo. Assim sendo, aqueles que são mais ousados que os demais a fomentar defecção da Igreja, e como que vanguardeiros de insígnias, estes, na maioria das vezes, nenhuma outra coisa têm senão que, pelo desprezo de todos, se ostentam ser melhores que os demais.[14]

Os anabatistas de certa forma geraram repercussão positiva entre o povo – pelo menos no início do movimento – em razão do pacifismo ideológico e de sua oposição à ideia de um cristianismo nacionalista, em que todos os homens são feitos cristãos pela imposição do Estado. Eles pugnavam que uma profissão de fé só poderia nascer livremente, não por decreto estatal. Mesmo assim, a imposição de um novo batismo era estranha a Calvino. Mas é igualmente verdade que o tom do zelo característico do discurso anabatista contra a impureza da igreja católica era visto com simpatia pelo povo.

Este clamor despertou a atenção de figuras proeminentes do protestantismo, bem como das massas em geral, assim como gerou a oposição estatal, que via naquelas ideias os elementos de um perigoso levante popular. Era preciso combate-los, sobretudo porque em uma determinada vertente o movimento se afastara do pacifismo inicial.

Além do mais, alguns pregadores anabatistas anunciavam claramente mensagens que desautorizavam o próprio Cristo. O conflito liderado por Melchor Hoffman em Münster tornou-se um exemplo paradigmático. Gonzalez nos diz que Hoffman

começou a anunciar que o dia do Senhor estava próximo. Sua pregação inflamou as multidões que correram para Estrasburgo, onde segundo ele seria estabelecida a Nova Jerusalém. O próprio Hoffman predisse que seria encarcerado por seis meses e que então viria o fim.[15]

A princípio, não há nada de errado em pregar que o dia do Senhor está próximo. Mas o problema desta pregação apocalíptica de Hoffman era o evidente desprezo em relação ao ensino do próprio Cristo que disse não nos competir “saber tempos e épocas que o Pai estabeleceu por sua exclusiva autoridade” (At 1.7). Hoffman errava também ao procurar estabelecer geograficamente o Reino, determinando, inclusive, sua localização específica e restrita a um contexto que reverbera mais a mente do salmista e seu apego por uma Jerusalém territorial, do que uma Jerusalém celeste que se estabelece como Reino abrangendo céus e toda terra. Por fim, despreza aspectos da mensagem de Apocalipse, como o estabelecimento das duas testemunhas mártires, bem como outros desdobramentos referentes ao texto joanino.

A questão primordial apontada por Calvino subjazia nesses erros teológicos primariamente grosseiros. Ora, como poderiam alegar serem portadores de novas e diretas revelações de Deus, se os anabatistas erravam em questões básicas da doutrina revelada nas Escrituras? Qualquer outra revelação vinda deste grupo deveria ser rechaçada, ou, no mínimo avaliada com máximo rigor e critério.

Por fim, para Calvino, o profeta em todos os sentidos é aquele que não está restrito à capacidade de predizer o futuro, por que, segundo ele, nem todos os profetas ou apóstolos evidenciaram esta capacidade. O profeta também seria aquele que maneja bem a Palavra da verdade, interpretando-a adequadamente e aplicando com assertividade às necessidades da Igreja.

Conclusão

O propósito deste ensaio não foi justificar Calvino das acusações de intolerância que seus opositores lhe atribuem a exatos cinco séculos. É fato que ele foi intolerante e se excedeu no confronto com muitos de seus adversários, por mais que fossem merecedores de determinadas adjetivações negativas. Ao cristão cumpre tratar os que se opõem com mansidão e piedade, tal como Estevão tratou seus algozes. E nos parece que Calvino não estava muito preocupado com as implicações negativas ao usar termos pouco recomendáveis. Sua despreocupação é flagrante, tendo em vista que muitos daqueles comentários desnecessários foram lançados nas Institutas, seu legado mais importante, conhecido e estudado. Convinha lembrar a verdade de que a palavra branda desvia o furor, enquanto a dura suscita a ira. E nem seria demais lembrar que seu comportamento ao escrever, instila até hoje os piores sentimentos de repulsa entre os que dele discordam, estimula o tom belicoso, e aparentemente tem servido como justificativa para o destempero praticado por muitos calvinistas, especialmente os mais jovens.

Este ensaio propôs então delinear com maior precisão o contexto de parte dos confrontos que se mantinham naquela época e apresentar como agiam os partidários anabatistas, contraparte de Calvino e outros Reformadores.

O movimento anabatista realmente iniciou sua luta apostando no pacifismo bíblico e isto despertou a simpatia e adesão de muitos nomes importantes. Mas é igualmente certo que abandonaram aquele pacifismo inicial e lançaram mão de métodos violentamente revolucionários. A história precisa realçar este ponto com maior precisão. Não para justificar o pecado odioso de Calvino em sua luta particular, mas para promover a justiça histórica, na precisa apresentação da verdade, a fim de sabermos que todos pecamos e carecemos da glória de Deus.


Notas

[1] GONZALEZ, 1989, p. 102 apud CUNHA, 2016, p. 30.

[2] CALVIN. John. Tracts relating to the Reformation by John Calvin with His Life by Theodore Beza. Translated from the original Latin, by Henry Beveridge, ESQ. volume first. Edinburgh: Printed for the Calvin Translation Society, 1844, p. 30, tradução nossa. “Peter Caroli, the other disturber of the Church, occasioned greater and longer disturbance, but I will only give the leading heads, because a full history of the contest is extant, and may also be learned from a letter of Calvin to Grynseus. The Sorbonne, the mother who gave birth to this most impudent sophist, having afterwards thrown him off as a heretic, though he little deserved this at her hands, he went, first to Geneva, next to Lausanne, and afterwards to Neufchatel, the spirit of Satan so accompanying him, that in every place to which he came he left manifest traces of his turpitude.”

[3] BEZE. Theodore de; L’Histoire De La Vie Et Mort de feu Mr Jean Calvin fidele Seruiteur de Jesus Christ. Geneve: Pour Pierre Chouët, 1657, pp. 23-24, tradução nossa. “Ces heureux commencemens despleurent grandement à Satan et aux siens qui ne faillirent pas, comme il n’estoit mal-aisé sur les premiers changemens d’eslat et de religion, de luy faire fascherie. Car à grand peine se passèrent quatre mois, que d’un costé les anabaptistes le vindrent assaillir (desquels estoit un certain Jean Stordeau dont il sera parlé ci après), et de l’autre un meschant apostat nommé M. Pierre Caroli, docteur de Paris; lequel estant secrètement soustenu et appuyé du crédit d’aucuns des principaux, lui pouvoit beaucoup donner de peine. Mais quant aux anabaptistes, il les seut si bien et beureusement manier en dispute publique, combien que le magistrat n’y mit pas la main, que dés lors la race en fut perdue en ceste Eglise. Ce qui est d’autant plus admirable, que la pluspart des Eglises d’Allemagne en sont encore bien fort empeschées; et s’il y en a qui en soyent délivrées, c’a esté plustost par la simple rigueur de justice qu’autrement.”

[4] op. cit., pp. 24-25, tradução nossa. En ce temps-la, assavoir Tan 1537, Calvin fit imprimer deux epistres, lesquelles il avoit escrites d’Italie, au voyage que nous avons dit qu’il y fit, à certains de ses amis en France. L’une est, de fuir les idolâtries et de garder la pureté de la religion chrestienne; l’autre, du devoir de l’homme chrestien à tenir ou quitter des bénéfices en l’Eglise papale. Cependant survindrent en la ville des séditions les unes sur les autres, qui l’affligèrent et pourmenerent d’une estrange façon. Mesmes on se vint opposer à la pratique de l’Evangile, combien qu’elle eust esté jurée par tous ceux de la ville. Mais lors Calvin, comme ilavoit un esprit vrayement héroïque, s’opposa fort et ferme aux séditieux, avec ledit Farel et un autre bon personnage nommé Couraut, aussi ministre de cette Eglise, aveugle des yeux corporels, mais clair voyant des yeux de l’esprit; lequel aussi ledit Calvin avoit attiré de Basle, là où il s’ estoit retiré à cause des ardentes persécutions de la France, comme dit a esté. L’issue fut telle, que le Seigneur voulant tout d’un coup retirer ses serviteurs de la presse, purger ceste ville de certains mutins qui abusoyent du nom de l’Evangile, planter son nom ailleurs, et finalement façonner son serviteur par une expérience des choses qui depuis luy ont grandement servi: il fut ordonné, la plus grande part du conseil surmontant la meilleure, que les susdits sortiroyent de la ville dans trois jours, pour n’avoir voulu administrer la Cène en une cité ainsi troublée et meslée.

[5] Institutas, 1.9.3.

[6] Institutas, 4.8.7.

[7] THOMAS. Derek. A Visão Puritana das Escrituras: uma análise do capítulo de abertura da Confissão de Fé de Westminster. São Paulo: Os Puritanos, 1998, p. 20.

[8] Institutas, 2.15.1.

[9] CODLING. Don; Sola Scriptura e os Dons de Revelação: como lidar com a atual manifestação do Dom de Profecia? Natal: Editora Carisma, 2016, pp. 129, 130, 131.

[10] Institutas 2.15. 2.

[11] GONZALEZ. Justo. História Ilustrada do Cristianismo: A era dos reformadores. São Paulo: Vida Nova, 1989, pp. 98-99

[12] João Calvino in The Reformed Churches and Roman Catholic Baptism: an Anthology of Principle Texts. Peru Mission Press, 2004, p. 8. Tradução nossa. “[…] error of the Donatists, who measured the efficacy and worth of the sacrament by the dignity of the minister. Such in the present day are our Catabaptists, who deny that we are duly baptized, because we were baptized in the Papacy by wicked men and idolaters; hence they furiously insist on anabaptism. Against these absurdities we shall be sufficiently fortified if we reflect that by baptism we were initiated not into the name of any man, but into the name of the Father, and the Son, and the Holy Spirit; and, therefore, that baptism is not of man, but of God, by whomsoever it may have been administered.”

[13] Institutas, 4.1.15.

[14] Ibid., 4.1.16.

[15] GONZALEZ, op. cit., p. 102.

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