Sobre a cessação dos charismata: uma resposta aos Reformados cessacionistas

Muitos evangélicos hoje afirmariam como severa a repreensão do Bispo Butler a John Wesley: “Senhor, querer revelações extraordinárias e dons do Espírito Santo é uma coisa horrível, uma coisa muito horrível.” (Citado por Ronald A. Knox, Enthusiasm [Oxford: The University Press, 1950], p. 450). Qual a razão para tamanha aversão à experiência carismática contemporânea? A razão é porque simplesmente na longa evolução da teologia cristã, milagres têm dado significado à revelação adicional da nova doutrina cristã, principalmente, na Escritura. Reivindicar uma revelação ou um milagre, representa essencialmente uma tentativa de adicionar novo conteúdo à Bíblia.

O conflito moderno acerca da cessação dos dons miraculosos tem antecedentes tão antigos quanto os argumentos razoavelmente sofisticados do obsoleto judaísmo rabínico. Mas a doutrina cessacionista encontrou sua expressão no calvinismo da era pós-reforma, ao estabelecer que: 1) O papel essencial dos charismata miraculosos era atestar doutrina cristã normativa e seus portadores. 2) Embora Deus possa agir providencialmente de formas invulgares e até mesmo surpreendentes, verdadeiros milagres estão limitados à épocas de divina revelação, i.e., aqueles durante o período bíblico. 3) Milagres são julgados pelas doutrinas que eles pretendem confirmar: se as doutrinas são falsas, ou altera doutrinas ortodoxas, os milagres que as acompanham são necessariamente falsificados.

Já que é amplamente crido que somente a Escritura é a base para a doutrina Protestante, não é de se admirar que os argumentos tradicionais pós-Reforma contra milagres contemporâneos (o conhecido cessacionismo) tenham sido amplamente disseminados. Mas o caso para a continuação de toda gama dos dons e graças de Deus tem sido apenas recentemente articulado em termos além dos apelos usuais à experiência pessoal, aos baseados mais em sérios estudos históricos e bíblicos. Até mesmo nesta ultima área, o caso para contínuos dons espirituais geralmente repousa em raríssimos textos bíblicos, centrando-se em 1ª Co. 13:8-10. Teologicamente, o caso avança na simples afirmação de que porque milagres não estão limitados a funções evidenciais na Bíblia, e porque a profecia é dada sobretudo para “edificação, exortação e encorajamento” e não construída como adição a uma Escritura que é suficiente, a premissa básica cessacionista (que os charismata miraculosos necessariamente atestam nova doutrina) é contornada. Se a função dos charismata determina sua duração e sua função edificadora, em vez de simples funções evidenciais, determina então sua continuação.

A doutrina do cessacionismo, no entanto, merece um exame mais meticuloso de suas premissas fundamentais, e uma investigação mais ampla do relevante testemunho bíblico, da que tem sido recebida. É à esta necessidade que este artigo se dirige, no qual, estão sumarizados os resultados da minha dissertação PhD na Marquette University. Devido as restrições de espaço, este sumário está desfalcado de muitas referências bíblicas, suporte documental e opinião acadêmica.

O propósito desta pesquisa é acima de tudo apaziguador, empreendido com a esperança de que um entendimento bíblico da função carismática em seu cenário escatológico possa neutralizar o conflito sobre o cessacionismo.

A doutrina de que os reveladores e miraculosos dons espirituais cessaram na era apostólica pode ser melhor abordada examinando as premissas centrais da mais proeminente e representativa expressão moderna do cessacionismo, ou seja, a obra de Benjamin B. Warfield’s Counterfeit Miracles (CM). A tese deste artigo é que a polêmica de Warfield — a culminação de um argumento historicamente em evolução — falha devido suas inconsistências internas no que diz respeito ao seu conceito de milagre e sua hermenêutica bíblica.

Este artigo afirma que o cessacionismo contemporâneo se coloca de pé diante de certas concepções pós-Reforma e Iluminismo de milagre-como-evidência, em cima de ênfases pós-bíblicas sobre o Espírito Santo, o reino de Deus e suas expressões normativas no mundo, altamente evoluídas. A falha central do cessacionismo de Warfield é que este cessacionismo é muito mais baseado em dogmas do que nas Escrituras. Seu sistema representa uma falha grave em entender o retrato bíblico do derramamento escatológico do Espírito de profecia, expressado caracteristicamente nos charismata concedidos pelo Cristo exaltado até o fim desta era como manifestações do Reino de Deus em avanço.

A abordagem deste artigo, portanto, é rever:  1) a evolução histórica do cessacionismo e o conceito de milagre do qual depende; 2) pesquisar o cenário teológico na Escritura contra o qual a polêmica cessacionista deve ser examinada; 3) sondar algumas passagens representativas da Escritura que sumarizam o tema recorrente no NT de que dons espirituais são concedidos para o avanço do reino de Deus e para maturidade da igreja até ao fim da era presente. Isto tudo será seguido de uma revisão de alguns princípios bíblicos aplicáveis ao cessacionismo.

A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DO CESSACIONISMO E SUA VISÃO DE MILAGRE

O texto “Protestant Polemic”, de Benjamim Warfield, escrito contra a continuação de milagres é “Protestante” no sentido em que procura proteger o princípio central de autoridade religiosa na qual sua tradição foi criada: a revelação final e normativa de Cristo na Escritura. Desde antes da virada do século até Warfield responder com sua obra, Counterfeit Miracles (1918), a autoridade religiosa Protestante vinha sendo cada vez mais atacada, na visão de Warfield, por uma variedade de movimentos religiosos concorrentes. Warfield percebeu que estes corpos religiosos e.g., Católicos Romanos, proto-pentecostais como os Irvingitas, curandeiros da fé, bem como Cientistas Cristãos e os teologicamente liberais, eram, em até certo sentido heterodoxos, porque todos eles compartilhavam uma falha ameaçadora em fé ou prática: abertura a dons miraculosos contemporâneos.

Contudo, o cessacionismo não tem suas origens no cristianismo ortodoxo mas sim no judaísmo normativo dos primeiros três séculos da era comum. Com efeito, uma antiga forma de cessacionismo foi direcionada a Jesus. Uma das acusações que culminou em sua execução foi que ele tinha violado os mandamentos de Deuteronômio 13 e 18, que proíbem realizar um sinal ou uma maravilha que levem o povo à perdição atrás de falsos deuses. O Mishnah e Talmud desenvolveram uma sofisticada polêmica cessacionista, usada não apenas contra os antigos cristãos carismáticos, mas intra-muros dentro do judaísmo por rabis concorrentes. (Ver Fredrick E. Greenspahn, “Why Prophecy Ceased.” JBL 108 1 [Primavera 1989]: pp. 37-49).

Teólogos cristãos no início atacaram os judeus com seu próprio cessacionismo, mas não empregaram a polêmica contra outros cristãos até ao quarto século. Estes apologistas, e.g., Justino e Orígenes, argumentaram que Deus tinha retirado dos judeus o Espírito de profecia e milagres transferindo-o á Igreja como prova do seu continuado favor divino. Assim eles vieram a partilhar com os judeus uma bizarra visão de milagre, qual seja, o evidencialismo. Em resumo, a primária, se não exclusiva, função de milagres era confirmar/atestar e vindicar o portador de um sistema doutrinal.

Contra algumas seitas cristãs que reivindicavam acesso único ao Espírito, que os charismata cessariam com eles, os ortodoxos repetidamente citaram 1ª Coríntios 13:10 como prova da continuação dos dons Espirituais em toda a Igreja até à parusia. Na época de Crisóstomo (d. 407), contudo, o cessacionismo providenciou a hierarquia eclesiástica com uma pronta base lógica contra reclamações à diminuição da atividade carismática em igrejas importantes. Seus argumentos cessacionistas corriam em duas direções contraditórias, ou seja, milagres apareciam incondicionalmente, requeridos como estrutura de armação para a Igreja, a qual, uma vez estabelecida não mais requeria tal suporte; ou, condicionalmente, que se a Igreja se tornasse mais justa, os charismata reapareceriam.

João Calvino focou a polêmica contra o Catolicismo Romano e a reforma radical, eliminando suas reivindicações de autoridade religiosa que eles basearam em milagres e revelações. Calvino popularizou a restrição de milagres à confirmação dos apóstolos e especificamente ao seu evangelho, embora ele fosse menos rígido sobre o cessacionismo do que a maioria dos seus seguidores. No entanto, com Aquino através do Iluminismo, o conceito de milagre assumiu um molde crescentemente racionalista, até que se tornou uma pedra angular da apologética Iluminista de Locke, Newton, Glanville e Boyle, mas uma pedra de moinho em Hume.

O ceticismo de Hume sobre a possibilidade de milagres, a polêmica cessacionista final (a qual exemplificou o método crítico histórico de Warfield em seu exame de reivindicações de milagres), precipitou a resposta da Scottish Common Sense Philosophy [Filosofia Escocesa do Senso Comum] (SCSP), uma apologética um pouco racionalista tornada amplamente popular por Christian Evidences de William Paley. Paley argumentou a partir do divino desígnio da natureza, preditiva (Messiânica) profecia e a partir de milagres (bíblicos). A epistemologia SCSP viveu pouco na Europa, mas veio a dominar o pensamento americano tão detalhadamente que por cerca de um século, a reação Romântica, tão disseminada na Europa, dificilmente ganhou uma nota de rodapé.

Em nenhum outro lugar a filosofia escocesa da era Iluminista foi mais acariciada do que no seminário Princeton, onde Warfield foi a ultima grande expressão. Warfield parece inconsciente do impacto da SCSP em seu pensamento, mas seu CM repousa solidamente em sua epistemologia, e dela, seu conceito de milagre, discernível o suficiente para alguém com “senso comum.”

O conceito de milagre de Warfield requeria uma visão deísta da natureza invadida por uma força sobrenatural tão plena e transcendente que, para um observador imparcial familiarizado com os fatos, quaisquer possíveis “meios” naturais poderiam produzir tal efeito. Um milagre deve ser instantâneo, absoluto e total para ser qualificado. Uma surpreendente e dramática cura pode ocorrer hoje para que “a sobrenaturalidade do ato possa ser aparente para demonstrar a atividade de Deus nele às mentes familiarizadas com os fatos.” (CM, 163). Semelhantemente, Warfield divide os dons espirituais do NT, os que são “distintamente graciosos” (“dons ordinários”) e aqueles que são “distintamente miraculosos” dons (“extraordinários”).

Por um lado, Warfield insiste que fazer tais distinções é “apenas uma questão de evidência,” (The Selected Shorter Writings of Warfield [Philppsburg: Presbyterian and Reformed, 1973, p. 175) e por outro lado faze-las é uma prioridade. Não é surpresa alguma, então, que quando Warfield gasta talvez 97% de Counterfeit Miracles “esquadrinhando” a evidência em milagres pós-bíblicos ao longo da história da Igreja, ele chega a “um incomparável inventário de objeções ao sobrenatural.” (Colin Brown, Miracles and the Critical Mind [Grand Rapids: Eerdmans, 1984], p. 199). Warfield no início já decidiu o destino deles quando insiste que milagres só podem ocorrer com “as credenciais dos Apóstolos” e “necessariamente cessaram com eles” (CM, 6). O cessacionismo de Warfield envolve um padrão duplo: em Counterfeit Miracles (CM) ele aplica aos milagres pós-bíblicos os mesmos métodos críticos racionalistas que os liberais críticos Hume e Hamack aplicam em relatos bíblicos, métodos que o próprio Warfield ataca.

Biblicamente, discernimento de um milagre não é nem “apenas uma questão de evidência” nem é simplesmente baseado em uma posição a priori. Um milagre é um evento percebido, em vários graus de precisão (e.g., João 12:29) por revelação divina. “O homem natural não consegue entender as coisas [dons] do Espírito” porque elas são “discernidas pelo Espírito” (1ª Co. 2:14). ´

Não apenas o entendimento de Warfield sobre discernimento de milagres  é antibíblico, mas o seu entendimento de sua função também o é. Ao exigir uma rígida função evidencialista para milagres, Warfield confunde a suficiência da revelação, i.e., via tais charismata como profecia e milagres. Vemos abaixo que os charismata não apenas credita o Evangelho mas sim expressam e concretizam o Evangelho. Assim como a pregação sã e inspirada aplica, mas não muda, a Escritura toda-suficiente, assim os verdadeiros dons de profecia, conhecimento ou sabedoria revelam necessidades humanas, dirigindo-as à verdade de Deus entre os eternamente-selados limites do cânon bíblico. Tal como dons de administração ou hospitalidade tangivelmente expressam o evangelho e avançam o reino de Deus, mas não alteram o seu conteúdo doutrinário, assim também acontece com os dons de cura e milagres.

Para Warfield, a inerrante autoridade da Escritura foi o alicerce de sua teologia. Então é irônico que apenas em umas escassas páginas de CM é que ele procura suporte bíblico para a sua polêmica cessacionista.

O ESCATOLÓGICO ESPÍRITO CARISMÁTICOMANIFESTA O AVANÇO DO REINO DE DEUS ATÉ À PAROUSIA

A polêmica de Warfield falhou em compreender a ampla extensão da teologia bíblica quando se referiu à crucial dimensão escatológica dos charismata na pneumatologia e na apresentação do reino de Deus. Doutrinas como esta aparecem nas clássicas teologias sistemáticas Protestantes e têm sido grotescamente deformadas por uma evolução de conflitos dogmáticos tangenciais. Mesmo após terem sido publicados competentes estudos bíblicos nestas áreas, não apenas Warfield, mas a maioria dos outros sistemáticos têm sido relutantes em utilizar seus resultados. A função evidencialista de Warfield para milagres e o fundamento do cessacionismo são reducionistas e superficiais em vista do papel dominante para milagres nas biblicamente formuladas e escatologicamente condicionadas doutrinas da pneumatologia e o reino de Deus.

UMA DOUTRINA BÍBLICA DO ESPÍRITO SANTO É INIMIGA DO CESSACIONISMO

O desejo de Warfield em limitar a contemporânea obra miraculosa e reveladora do Espírito não é apenas para confundir a finalidade da revelação com seu modo de apresentação e aplicação, mas também para alterar o caráter essencial do Santo Espírito como é biblicamente definido e para alienar sua pneumatologia de seu fundamente claro e autoritativo . Se aplicarmos a própria hermenêutica de Warfield a todo contexto bíblico sobre o Espírito Santo, ela revela um perfil da atividade do Espírito que é caracteristicamente, se não exclusivamente, miraculosamente carismático— O potencial consenso da séria erudição bíblica. Especificamente, em um sentido geral, o Espírito da Bíblia é o Espírito de profecia. Falar da “subsequente [pós-apostólica] obra do Espírito” como funcionando apenas dentro da ordo salutis Calvinista, demonstra que o Santo Espírito do cessacionismo pós-Reforma é retirado para bem longe do retrato do Espírito nas Escrituras canônicas. Mais significativamente, a pneumatologia de Warfield falha em explicar as grandes promessas do Velho Testamento do Espírito especificamente profético a ser derramado sobre todas as gerações escatológicas que creem, começando com aquelas na era do Novo Testamento (Is 47:3; 59:21; Joel 2:28-32; cf. Atos 2:4, 38).

UMA DOUTRINA BÍBLICA DO REINO DE DEUS É INIMIGA DO CESSACIONISMO

Warfield também falhou em explicar as importantes aplicações da doutrina do reino de Deus. A natureza deste reino é essencialmente de oposição ao reino de Satanás e seus efeitos danosos (Mt 4:23, 9:35, 10:6,7, 12:28; Lc 9:2,60; 10:1-2,9,11; 11:20; Atos 10:38). O NT ensina que a missão terrena de Jesus era inaugurar o reino de Deus em poder carismático, e que ele deve continuar essa missão através dos cristãos crentes, começando com seus discípulos e seus convertidos e continuando até ao fim da era. Como bons discípulos de um rabi, seus seguidores devem duplicar e continuar precisamente a sua obra (“ensinando-os a obedecer tudo o que Eu vos ordenei,” Mt 28:20) neste caso, para demonstrar e articular o Reino rompante. Isto é demonstrado por: 1) uma análise dos relatos comissionantes de Mt 10; Mc 6; Lc 9 e 10; Mt 28:19-20 [cf. 24:14]; Lc 24:49 e Atos 1:4,5,8; 2) a forma característica com que o reino foi demonstrado e articulado em Atos; e 3) pelas declarações sumarias do ministério de Paulo entre os Gentios ao longo de suas epístolas (Rm 15:18-20; 1ª Co 2:4; 2ª Co 12:12; 1ª Ts 1:5, cf. Atos 15:12). Sendo assim, os “sinais de um verdadeiro apóstolo,” ou de qualquer cristão, não creditam ninguém como portador de ortodoxia, mas sim, caracterizam a forma em que as comissões de Jesus para proclamar demonstrar (“em palavra e obra”) o reino escatológico de Deus são normativamente expressadas por qualquer crente. Se no contexto de uma multidão não evangelizada de pagãos, ou dentro da própria comunidade da Igreja, onde quer que o Espírito afaste o reino das trevas em suas variadas manifestações do mal, seja o pecado, doença ou possessão demoníaca, o reino de Deus chegou com providência. Tais vitórias de arrependimento, cura ou outro restauro no mundo demoníaco, representam uma contínua, ainda que parcial, experiência do plenamente realizado e incontestável reino de Deus inaugurado.

A essencial natureza do reino de Deus é divino poder — direcionado à reconciliação do homem com Deus, à justiça, paz e alegria — afastando o domínio e ruína do demoníaco (“o reino de Deus não consiste em palavras, mas em dunamis,” 1ªCo 4:20). Dos 98 contextos de divino dunamis no NT, 65 se referem ao que a tradição Protestante designaria como “extraordinários” ou “miraculosos” charismata, 33 dos casos se referem ao poder de Deus sem clara indicação no contexto imediato do modo exato em que está o poder de Deus operando. Veja a discussão sobre o Espírito Santo e sua relação com o poder carismático no apêndice de minha dissertação. Os milagres do Novo Testamento não aparecem simplesmente para creditar a pregação (ou, “a palavra”), ao invés disso a pregação na maioria dos casos articulava o milagre, colocando-a no seu cenário Cristológico e exigindo uma resposta com fé e arrependimento. No presente, o Cristo exaltado continua a derramar seus charismata sobre a sua Igreja para delegar a sua missão do reino até o fim da era. Portanto, não é bíblico simplesmente dizer como diz Warfield, que após um inicial derramamento de dons espirituais na era apostólica para revelar e estabelecer doutrina na Igreja, “foi feito o trabalho” do Cristo exaltado.

A DIMENSÃO ESPECIFICAMENTE ESCATOLÓGICA DAS DOUTRINAS DE PNEUMATOLOGIA E REINO DE DEUS, É INIMIGA DO CESSACIONISMO

O fracasso de Warfield em entender as implicações escatológicas do cessacionismo é talvez o mais crucial. Em lado algum ele menciona que as promessas do Velho Testamento sobre o Espírito de profecia e milagres se aplicam a todo o tempo entre as duas vindas do Messias; de que o “poder autoritativo” de Jesus garantido em suas comissões à sua Igreja se estende a todas as nações e deve continuar até ao fim da era — um tema frequentemente repetido nas epístolas do Novo Testamento. O espírito de revelações e poder é concedido durante toda esta era como seu próprio “penhor,” “primícias” ou “amostra” dos “poderes da era vindoura,” até ao tempo da plenitude do Espírito no reino de Deus consumado. A primeira vinda de Jesus é representada na metáfora de Oscar Cullmann como o “Dia-D”, a batalha decisiva (propriamente na ressurreição) que se alastrou, com seus sofrimentos, vitórias e derrotas, em direção à sua vitória final no “Dia-V” (a parousia).

O Novo Testamento relaciona expressamente a presença dos charismata com o exaltado senhorio de Jesus. Durante seu ministério terreno, Jesus promete o Espírito “aos que criam nele” apenas após ser exaltado: “Até aquele momento o Espírito ainda não tinha sido dado, pois Jesus ainda não tinha sido glorificado” (Jo 7:39). Semelhantemente, o Paracleto não pode vir até Jesus ir para o Pai (16:7,17). As “obras maiores” daqueles que creem nele podem ser realizadas apenas porque Jesus vai para o Pai (14:12). Pedro continua o mesmo tema em Atos: “Exaltado à destra de Deus, recebeu do Pai o prometido Espírito Santo, e derramou aquilo que agora que agora vocês veem e ouvem (2:33). O mesmo Jesus a quem Deus fez “Senhor e Cristo” agora, na base do arrependimento e batismo, concederá a todos o dom do Espírito Santo” (2:36b, 38-39). Contra este breve esboço do lugar dos charismata na teologia bíblica, o qual estava bastante disponível na erudição de seu tempo, Warfield nunca elaborou uma resposta.

Finalmente, Warfield o exegeta, além de seu fracasso em resolver os problemas teológicos acima, falhou até mesmo em se familiarizar com as breves, mas significativas passagens da Escrituras que por elas mesmas ensinavam a continuação dos charismata. É porque Warfield é acima de tudo o biblicista, e porque ele afirma ter estruturado toda a sua polêmica em “duas pernas,” uma investigação na história e na escritura, é que a sua omissão é tão flagrante e desapontadora.

PASSAGENS DO NOVO TESTAMENTO REITERANDO O PADRÃO DE CONTÍNUOS CHARISMATA DURANTE O TEMPO DA PRESENTE EXALTAÇÃO DE CRISTO ATÉ AO FIM DA ERA

As seguintes são uma série de paráfrases de Escrituras que reafirmam o papel dos charismata na estrutura escatológica delineada acima: os charismata continuam durante esta era para ministrar em direção ao (ainda não realizado) objetivo da completa maturidade da igreja. De novo, como expressado biblicamente, o divino “Espírito” é apresentado na Escritura como associado primária e essencialmente realizando operações carismáticas:

1ª Coríntios 1:4-8 “Eu sempre agradeço a Deus por vós pela graça de Deus (incluindo a plena gama dos charismata)  porque de todas as maneiras vós têm sido enriquecidos nele — em toda forma  de discurso (inclusive profecia)  e em toda forma de conhecimento (incluindo o dom do conhecimento revelado).  Vocês estão fazendo isto  agora exatamente como (kathos) o testemunho de Cristo foi confirmado em vós ( isto é, carismaticamente, pelos apóstolos e ou  evangelistas que em primeiro lugar demostraram e articularam o evangelho para vós) — Com o efeito de que não vos falte nenhum dom espiritual durante o tempo em que aguardam a revelação do nosso Senhor Jesus Cristo. (O Senhor) irá também (não meramente quando o evangelho primeiramente veio a vós, ou até mesmo agora, mas) continuar a confirmar/ fortalecer-vos (do mesmo modo como vós estão agora experimentando os charismata até o tempo em que ‘esperam’ o fim) até ao fim, de modo que (via os fortalecedores e purificadores charismata os quais geram crescimento e progressiva maturidade) vós serão irrepreensíveis no dia do nosso Senhor Jesus Cristo.”

1ª Coríntios 13:8-13 “O amor nunca acaba: ele continua na era porvir. Mas onde quer que as operações carismáticas de profecias, falar em línguas ou conhecimento revelado ocorram, elas serão findadas. Como infância, todos eles representam um incompleto, porém necessário estágio do plano eterno de Deus.

Mas quando estes três dons representativos, i.e., os charismata em geral, cessar? O princípio escatológico é este: quando o completo (fim) chegar, naquele preciso momento, o incompleto será terminado. Especificamente, quando Cristo regressar no fim desta era presente, então, e não antes, os charismata — dons de profecias, línguas e conhecimento revelado aqui oferecidos como exemplos — os quais são incompletos comparados com as finais realidades celestiais que elas agora apenas indicam, irão todas chegar a um fim, tendo servido seu propósito temporário.

Deixe-nos notar três ou quatro ilustrações deste ponto. Primeiro, quando eu era um bebê (representando nossa presente existência) eu balbuciava, pensava e raciocinava (i.e., o presente charismata de discurso e conhecimento) como um bebê — um necessário e positivo desenvolvimento para estar certo — todos os quais estariam relacionados ao que estaria porvir. Mas na idade adulta (nossa existência no paraíso), este estágio é substituído por poderes de comunicação vastamente maiores, pensamento e raciocínio.

Segundo, na presente era, os charismata apenas servem como indiretas ou percepções indistintas de Deus ou sua vontade, como olhar em um espelho ou uma fotografia. Mas no paraíso, o espelho ou fotografia (os charismata) são desnecessários se nós podemos ver Deus ‘face a face,’ Naquele momento, estes itens, os quais tinham ajudado a preservar o relação um tanto ou quanto distante, terão servido o seu propósito e serão descartados, já que nós teremos a real pessoa diante de nós.

Terceiro, nesta presente era, eu conheço Deus, os charismata revelam-no a mim apenas vislumbres e pistas. Mas então, no paraíso, eu conhecerei Deus (kathos) exatamente como e no mesmo sentido que Deus me conhece agora. Que uso terão aqueles imprecisos dons de revelado conhecimento debaixo daquelas condições?

Quarto, nesta presente era, fé, esperança e amor, todos os três funcionam, mas tal como os outros charismata, fé (que é um carisma de revelação, o qual se agido sobre ele pode produzir milagres ou qualquer outro aspecto da salvação de Deus), e esperança (um outro dom de Deus o qual é substituído se resulta na presença e realidade de seu objeto), ambos serão desnecessários devido às suas características de espera; no paraíso, esta espera acabará. Por contraste, o amor é maior, porque ao contrário da fé, esperança e os outros charismata, “o amor nunca acaba.”

Efésios 4:11-13 “[O Cristo ascendido] deu alguns apóstolos, profetas, evangelistas e pastores/mestres (não para creditar o evangelho ou seus portadores, mas) para o aperfeiçoamento dos santos em direção ao trabalho e serviço do ministério, em direção à edificação do corpo de Cristo. [Mas por quanto tempo?] Estes dons são distribuídos, a princípio (vs. 7) ‘a cada um’ até (mechri) — um contínuo processo de distribuição — o patamar seguinte é atingido, i.e., que nós todos cheguemos à unidade da fé, ao pleno conhecimento do Filho de Deus, à plena, maturidade, ou seja, ao nível da estatura (maturidade) da plenitude de Cristo.” (Repare: nem mesmo Paulo atingiu este estado [Fp 3:12]).

Efésios 1:13-23 No contexto de crentes recebendo “toda sabedoria e entendimento” (1:8) e da oração continuada de Paulo pelo mesmo (1:7) e para experimentar (“conhecer”) o incomparável poder [de Cristo] como o da ressurreição, Paulo descreve o prazo: “Nele, quando vocês creram, vocês foram marcados com um selo, o prometido Espírito Santo, que é um penhor [ou primeira prestação — o primeiro pagamento do mesmo a seguir] garantindo nossa herança (descrito inter alia como incomparavelmente maravilhoso,” etc., como o poder da ressurreição no 1:19), até à redenção daqueles que são possessão de Deus — para o louvor da sua gloria.” Este estado de assuntos é ativo nos crentes e é paralelo à exaltação de Cristo que ocorre “não apenas na presente era, mas também na vindoura” (1:21-23, cf. 2:6)

Efésios 3:14-21 A oração de Paulo é que os leitores possam “ter poder pelo Espírito” que em amor eles “possam ter poder juntamente com todos os santos” [uma explicita aplicação universal] … para o objetivo que vocês possam ser cheios da medida da plenitude de Deus. Agora ele que é capaz de fazer muitíssimo mais do que tudo nós pedimos ou imaginamos, segundo o poder que opera em nós, a ele seja gloria na igreja e em Jesus Cristo, ao longo de todas as gerações para todo o sempre. Amém.” Cf. Is 59:21.

Efésios 4:30 Com Ef. 1:13-23 acima, o período de tempo da presença do Espírito profético no crente é declarado: “Não entristeçam o Espírito Santo de Deus [uma alusão a ignorar aviso profético, e.g., Is 63:10, cf. Ef 4:29] com o qual vocês foram selados [uma continua marca de pertença e proteção até o dia da redenção.”

Efésios 5:15-19 Nos presentes dias maus (característica do tempo dos ais Messiânicos [Mt 24:9-12; 1ª Tm 3:1 precedendo a parusia, não vos embriagueis com vinho, mas continuem a “ser cheios do Espírito (cf. Jr 23:9; Amós 2:12; Atos 2:13,15; Lc 1:15) Falem entre vós com salmos, hinos e cânticos espirituais” (i.e., cântico glossolálico? 1ª Co 14:13-17) — talvez representativos de toda a gama das carismáticas operações proféticas a continuar durante estes “presentes dias maus.”

Efésios 6:0-20 “Sejam fortalecidos (aproximadamente associado com “obra miraculosa/poderosa” no NT) no Senhor e no seu grandioso poder… lutando contra forças demoníacas… com a espada do Espírito — a palavra de Deus (profecia) — e constante oração. [Já que nós estamos no tempo dos ais Messiânicos que Jesus predisse sobre estar diante de magistrados, etc. Eu oro que “palavras me sejam dadas” [passiva divina] (Mt 10:19b-20; Mc 13:11—“não sois vós falando mas o Espírito Santo”.)

Filipenses 1:5-10 “Cristo que começou a obra em vós a continuará a completar até o dia dele. Qual obra? Compartilhando na graça de Deus (e imitado por Paulo, 3:17; 4:19 necessariamente incluindo os charismata (cf. Mt 28:20 “ensinando-os tudo que eu vos ordenei”) em defendendo e confirmando — uma palavra neste contexto falando de charismata, sinais e maravilhas. E esta é minha oração: que o vosso amor possa abundar mais e mais em conhecimento e percepção (charismata de revelação), para que vocês possam ser capazes para discernir o que é melhor e possam ser puros e irrepreensíveis até (eis)o dia de Cristo.”

Colossenses 1:9-12 “Nós não cessamos de orar por vós pedindo a Deus para vos encher com o conhecimento de sua vontade através de toda a sabedoria espiritual e entendimento (dons reveladores)… sendo fortalecidos com todo o poder… para construir maturidade espiritual, olhando em direção (embora já provisionalmente experimentando) a herança dos santos no reino da luz. De fato nós já temos sido trazidos para aquele reino”

1ª Tessalonicenses 1:5-8 Em vista do modelo Rabi-discípulo acima, há normativa transmissão do evangelho em “palavra e ação” nesta passagem. “Nosso evangelho veio a vós não somente com palavras, mas também com poder (en dunamei), com o Espírito Santo e com  profunda convicção … Vocês se tornaram  nossos imitadores e do Senhor … E assim (segue-se) vocês mesmos se tornaram modelos para todos os crentes na Macedônia e Acaia.” O padrão da normativa para transmissão do evangelho no miraculoso poder do Espírito foi levado a uma terceira geração — duas distante de Paulo, i.e., aqueles sobre quem mãos apostólicas não seriam impostas! Tudo com  o objetivo de construir maturidade cristã até o fim desta era.

1ª Tessalonicenses 5:11-23 Em um forte contexto escatológico da parusia Paulo encoraja os crentes a continuarem edificando um ao outro em amor. “Não extingam o fogo do Espírito [paralelo a]; não tratem as profecias com desprezo. Testem-nas e retenham as boas, em vista do objetivo de serem irrepreensíveis na vinda do nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que vos chama será fiel para vós preservar (usando estes charismata, cf. 1ª Co 1:4-8 etc.).”

2ª Tessalonicenses 1:11-12 “Por isso — em um processo contínuo em direção ao objetivo [que vós sejam achados dignos na vinda de Cristo] nós constantemente oramos por vós a fim de que nosso Deus vos ache dignos e possa realizar todo o vosso bom propósito e  toda a obra de fé em poder (en dunamei),  para que o nome do nosso Senhor Jesus seja glorificado em vós e vós nele.”

1ª Pedro 1:5 “Pela fé vocês estão sendo guardados pelo poder de Deus (en dunamei), até uma salvação pronta a ser revelada nos últimos dias.”

1ª Pedro 4:7-12 “O fim de todas as coisas [o objetivo e contexto deste aviso] está perto… Cada um deve usar o dom espiritual que recebeu para servir outros, fielmente administrando fielmente a graça de Deus como referência à profecia do NT. A parênese é dada contra o fim que se aproxima, com o entendimento que a operativa deve estar em operação até aquele momento.

1ª João 2:26-28 Como um antídoto para falsos profetas, João encoraja o dom de profecia: “Filhinhos, está é a última hora… Mas todos vós tendes uma unção vinda do Santo, e todos vós conhecem a verdade. Quanto a vós, a unção que receberam dele permanece em vós, e não precisam que alguém vos ensine. Mas como a sua unção vos ensina sobre todas as coisas e como essa unção é real, não falsificada, assim como vos ensinou, permaneçam nele… continuem nele, para que quando ele apareça nós possamos estar confiantes e sem vergonha perante ele na sua vinda.” Esta passagem é contundentemente paralela à promessa do Paracleto aos apóstolos (João 14:26; 15:26; 16:13). Aqui a promessa é para os leitores/ouvintes em geral.

Judas 18-21 [Tal como Jesus profetizou] “Nos últimos tempos… haverá aqueles que seguem seus próprios desejos humanos, e que não têm o Espírito. Por contraste, vós, amados, durante estes mesmos “últimos dias”, edifiquem-se a si mesmos na vossa mais santa fé “orando no Espírito.” “orando no Espírito = orar em resposta à direção do Espírito — um processo revelador, ou como em 1ª Co 14:4,14,15 em oração glossolálica (aquele que “ora no Espírito” edifica-se a si mesmo).

Cada uma destas passagens, então, continua como padrão das comissões de Jesus aos seus discípulos para demonstrar e articular o Reino no poder do Espírito — aos 12, aos 70 (72), aos 120 — como arquétipos de “todo o povo de Deus” (incluindo os leitores destes versos) que Moisés desejava que todos fossem cheios do Espírito de profecia (Nm 11:29; cf., Is 59:21; Joel 2:28-30; 1 Co 14:1,5,39).

AS CLARAS DECLARAÇÕES DA ESCRITURA RELACIONADAS COM OS CHARISMATA, SÃO INIMIGAS DO CESSACIONISMO

Warfield também falha em perceber que os mandamentos explicitamente declarados para cumprir as condições bíblicas para a manifestação dos charismata (e.g., arrependimento, fé e oração) contradizem sua incondicional conexão temporária com os apóstolos e a introdução de sua doutrina. Ele falha também em explicar os muitos mandamentos bíblicos explícitos diretamente sobre buscar, desejar e empregar os mesmos charismata que ele afirma que cessaram. Como pode Warfield ignorar estas condições biblicamente explicitas e mandamentos para a continuação dos charismata, se, como ele insiste, a Bíblia continua sendo o guia normativo da Igreja para a sua fé e prática?

MANDAMENTOS À FÉ E ORAÇÃO PARA APARIÇÃO DOS CHARISMATA

O Novo Testamento exorta repetidamente seus leitores que a aparição do poder carismático se relaciona com a resposta humana, especificamente em fé e oração. Isto não é sugerir que este trabalho, em algum sentido, “força” Deus a agir. Mas é claro que qualquer, avivado pelo Espírito, é mandado, ou por percepção ou exemplo, para responder, por exemplo, em fé e oração às graças de Deus. Pedro, em seu sermão de Pentecostes, insta, “Arrependam-se e sejam batizados cada um de vós, no nome de Jesus Cristo para que os vossos pecados possam ser perdoados. E receberão o dom do Espírito Santo. A promessa é para vós e vossos filhos e para todos que estão longe—para todos quem o Senhor nosso Deus chamará.” Arrependimento, desvio agressivo deste mundo presente para entrar o reino de Deus e suas bençãos carismáticas, é um forte tema no ensinamento de Jesus (e.g., Mt 13:44-45; 10:7,8; Lc 9:1,2; cf. 10:9).

Nos evangelhos sinóticos, quase todas as referências à fé relacionam-na ao poder de Deus para necessidades físicas, primariamente cura. Jesus sublinha a necessidade de fé para milagres (vossa fé vos salvou”: Mc 5:34; Mt 9:22; Lc 8:48; cf. 7:50; “vos completou”: 17:19; Mc 10:52; Lc 18:42). O contexto demonstra conexões similares em Mt 8:10; Lc 7:9; cf. Jo 4:46-54; Mc 2:5; Mt 9:2; Lc 5:20; Mt 15:28; cf. Jo 11:40. Até mesmo para controle sobre os elementos, Jesus ordenou fé (Mc 4:40; Mt 8:26; Lc 8:25); mesmo para andar sobre as águas (Mt 14:31) e para desenraizar montanhas e árvores pela fé (Mc 11:20-25; Mt 17:20-21; 21:20-22; Lc 17:6; cf. 1ª Co 13:2). De fato, ele diz, “Tudo é possível aqueles que têm fé” (Mc  9:23)! Reciprocamente, onde existe descrença Jesus não faz milagres (Mc 6:5-6; Mt 13:58).

Este compromisso é continuado na igreja apostólica. A história da cura do coxo ensina explicitamente que milagres não derivam de creditação apostólica, mas do poder da fé (neste caso, a do homem coxo) no Cristo exaltado (Atos 3:12, 16; cf. 4:9-12; veja o ensinamento similar em 14:9 Paulo ordena seus leitores a “profetizar segundo a vossa fé” (Rm 12:6; cf. 12:3; Ef. 4:7,16), e conecta a fé de uma congregação local com a operação de milagres (Gl 3:5), e não com atestação de doutrina. Cyril H. Powell, em The Biblical Concept of Power (London: Epworth Press, 1963), pp. 185-95, cita um número de semelhantes exemplos em Paulo e conclui: “Paulo aprendeu que pistis [fé] é a via para os dons [de poder] de Deus.” A Escritura oferece muitos outros exemplos relacionando oração e o aparecimento de milagres no ministério de Jesus e dos apóstolos, e.g., no milagre de exorcismo em Mc 9:28; similarmente em Atos 4:30 a oração para estender a tua (de Deus) mão para curar e realizar milagres no nome do teu santo servo Jesus”; 4:33, 8:15, 9:40, 28:8. Veja G.W.H. Lampe, “The Holy Spirit in the Writings of St. Luke,” Studies in the Gospels, ed. D.E. Nineham (Oxford: Blackwell, 1952), p.169. Paulo ora continuamente por seus convertidos que eles possam abundar em “conhecimento e toda a percepção” ou “toda a sabedoria e entendimento espiritual” (incluindo revelação carismática), bem como “em todo o poder” (dunamis — não excluindo seu significado mais frequente do NT, “milagre”— Fp 1:9-10; Cl 1:9-12). Tiago afirma algo crucial, que o aparecimento de milagres não é uma função de creditar profetas, mas de justiça, crendo e em oração fervorosa (5:16-17). Tiago também aponta Elias como um  exemplo a seguir para seus leitores, não um santo para ser creditado com milagres. Porque não pode este principio ser também aplicado aos ilustres do Novo Testamento?

MANDAMENTOS DIRETOS A DESEJAR E BUSCAR OS CHARISMATA

Intimamente relacionado com o argumento acima de que a função dos charismata determina a duração, é o argumento vindo da Escritura que o aparecimento dos charismata depende, não de confirmar funções, mas de respostas humanas aos explícitos mandamentos bíblicos, e.g., simplesmente para procurar, pedir e empregar os charismata, na base de um anterior arrependimento e obediência a Deus, via fé e oração. Negar que estes mandamentos da Escritura, tecidos tão minuciosamente ao longo do pano do Novo Testamento, têm relevância hoje, é questionar a própria relevância do cânon bíblico para a Igreja de qualquer era. Estes não são mandamentos simplesmente para os apóstolos, mas frequentemente por apóstolos para os “leigos”. Em todo o caso, todos estes mandamentos bíblicos podem ser construídos como parênesis para a Igreja no geral.

O Novo Testamento ordena especificamente seus leitores a “procurar,” “desejar zelosamente,”  “reacender” certos charismata “miraculosos” (1ª Co 12:3; 14:1, 4, 5, e 39; 2ª Tm 1:6, 1ª Pe 4:10; cf. Jo 14:12-14; 15:7, 16:23-24— pedir por “qualquer coisa” no contexto da descida do Espírito até aos discípulos, Jo 3:21-22 e implica que seu aparecimento pode ser abafado por simples negligência (Rm 12:6; 1ª Co 14:39; 1ª Ts 5:19-20; 1ª Tm 4:14; 2 Tm 1:6). No ultimo verso, J.N.D. Kelly afirma que “a ideia de que esta graça opera automaticamente, está excluída.” (The Pastoral Epistles, Harper’s New Testament Commentaries [New York: Harper and Row, 1963], p.159). Ele compara esta passagem  com a “extinção” do Espírito de profecia em 1ª Ts 5:19. Mandamentos bíblicos, “usemos,” “busquem pela excelência [em dons espirituais],” “desejar zelosamente,” “não extingam,” etc. fazem pouco sentido canonicamente se a ocorrência dos charismata não porta qualquer relação com a obediência destes mandamentos.

O CESSACIONISMO E OS CINCO PRINCÍPIOS BÍBLICOS SOBRE OS CHARISMATA

O cessacionismo é inimigo de pelo menos cinco mais importantes princípios do NT sobre os charismata:

  1. Paulo desafia implicitamente a crença de que dons miraculosos do Espírito eram concedidos apenas para o estabelecimento de doutrina para a Igreja, a qual então continuaria mais ou menos sob sua própria interpretação com uma restrita atividade do Espírito. Paulo exclama aos Gálatas que foram tentados por um judaísmo ressurgente para trocar o seu chamado como profetas pelo de escribas e uma religião de estudo da Torá e justiça pelas obras: “Tendo começado no Espírito [o contexto indica um Espírito produtor de milagres] serão agora plenos, ou alcançaram maturidade (epiteleisthe) na carne?” Paulo não força uma escolha entre os charismata de profecia e milagres versus percepções bíblicas; ele insistia em ambos. A própria Escritura afirma o processo contínuo de aperfeiçoamento (maturidade) espiritual nesta era como sendo desenvolvido normativamente através da plena gama dos charismata, os quais, dentro da estrutura da Escritura, revelam Cristo enquanto iluminam, aplicam, expressam e atualizam seu Evangelho. Contra o cessacionismo, o NT insiste que a Igreja é iniciada e amadurecida pela plena gama dos dons do Espírito.
  1. Romanos 11:29 declara o princípio que dificilmente poderia ser mais claramente anti-cessacionista: que na perspectiva de Deus, sua radical e incondicional graça oferece para suster o processo acima tudo  durante a presente era:  “os dons (charismata) de Deus e seu chamado são irrevogáveis — sem arrependimentos, ou retirados.” O contexto demostra que o fracasso humano para receber o chamado de Deus, ou charismata, não requer de todo que eles sejam soberanamente retirados na história da Igreja, mas sim que eles não podem se manifestar naqueles que os rejeitam. De acordo com isto, pode até ser este o infeliz estado da Igreja: um intelectualizado quase-deísmo entre aqueles que têm “uma aparência de religião, enquanto negam seu poder (dunamis)” (2ª Tm 3:5).

Alguém poderia argumentar que este verso se aplica apenas à “salvação”, especificamente dos judeus, e não aos dons do Espírito. Mas aqui devemos seguir a lógica de Paulo. Paulo baseia a promessa da salvação dos judeus como sendo verdadeira porque é sub-grupo da generalização de que os charismata não serão retirados, e não vice-versa.

  1. Ainda outro principio paulino é que nenhum membro, i.e., função charismata, do corpo de Cristo pode dizer a outro, “não tenho necessidade de ti” (1ª Co 12:21). O cessacionismo diz exatamente isso. Semelhantemente, ninguém que é dotado de uma forma especifica pode exigir que todo o corpo se torne como ele, digamos, uma língua! O ponto de 1ª Co 12 é que para um corpo ser de todo um corpo tem de ter todas as suas funções operando reciprocamente para o bem do todo, cada um reconhecendo não apenas seu próprio valor, mas também a crucial importância dos outros. Por sua própria natureza, o cessacionismo viola este princípio bíblico chave.
  1. O esquema cessacionista que milagres se agrupam em volta de grandes eventos reveladores para estabelecer a verdade daquela revelação não porta escrutínio. Jeremias estabelece um princípio explícito sobre a distribuição de sinais e maravilhas divinas em 32:20, “Vocês realizaram sinais e maravilhas no Egito e têm continuado até este dia, em Israel e entre toda a humanidade!” Além disso, enquanto nova, escriturada revelação durante e logo após o Êxodo, havia relativamente pouco novo conteúdo doutrinário adicionado durante o tempo da operação de milagres de Elias e Eliseu, certamente não mais novas revelações em Daniel que, digamos, em Isaías, Jeremias, Ezequiel ou os outros profetas.

Aliás, a maior nova revelação de todas foi anunciada por João Batista, que “não realizou nenhum milagre (Jo 10:41). A argumentação de que os milagres foram esvanecendo em direção ao fim de Atos assim indicando o começo da cessação de milagres é enganosa. Muito da última parte de Atos está relacionada com um Paulo aprisionado, que quando solto para normal ministério no fim do livro praticamente esvazia a ilha de Malta de seus doentes (Atos 28:9)! Além disso, argumentar que porque “os judeus procuram sinais e os gregos procuram sabedoria” (1ª Co 1:22) que o evangelismo cristão mudou de um evangelismo caracterizado por milagres para um caracterizado pelo discurso racional (e permaneceu ali para o resto da história da Igreja) voa diante da própria caracterização de Paulo de seu evangelho altamente carismático entre os gentios (Atos 15:12;  Rm 15:19; 2ª Co 12:12; 1ª Ts 1:5). Mais importante, seguindo a tradição de Jesus que recusou sinais àqueles que os exigiam para prova evidencial (Mc 8:11-11; Mt 12:38-39; Lc 11:16,29) Paulo insiste que sua reação aos descrentes exigindo um sinal (ou sabedoria) não é para provê-los voluntariamente,  como este argumento ensinaria, mas pregar a “sabedoria e poder de Deus”, o Cristo crucificado apenas àqueles que o poderiam receber.

  1. Finalmente, a essência do cessacionismo — ou seja, a limitação de milagres à nova revelação e seus portadores — contradiz outro princípio bíblico, a saber, o desejo bíblico de ver o Espírito de profecias e milagres sendo amplamente divulgado tanto quanto possível. O caso clássico é Nm 11:26-29 onde Josué é ameaçado pela perca da “delegação” de Moisés pelo Espírito profético. Moisés responde: “Invejas-me? Desejava que todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse seu Espírito neles!” Os profetas subsequentes do VT anteviram um tempo ideal quando o Espírito seria derramado amplamente sobre todas as categorias da humanidade (Joel 2:28-29; cf. Atos 2:17-18,21,29). Semelhantemente, Jesus se recusou a parar aqueles que expulsavam demônios em seu nome, ainda que não diretamente associados com ele (Mc 9:38-40; Lc 9:49-50). Não há dúvida que isto foi registado à Igreja em resposta ao exorcismo, ou talvez aqueles exercendo dons espirituais no geral, que não só não eram apóstolos, e não eram nem mesmo membros de igreja! A este momento a função de “confirmação” se torna um pouco tênue. Paulo ora por “todos os santos [judeus e gentios]” que eles pudessem experimentar dons de revelação, conhecimento e poder [dunamis] ao nível do poder da ressurreição que Jesus experimentou (assim também 1ª Co 12:6; 14:1, 5, 24, 39; Gl 3:5, 14; Ef 5:18; Cl 1:9-14; etc.). Contra o cessacionismo, então, este breve estudo demostra o bíblico (e divino) impulso para oferecer o poder do Espírito a todos que responderiam, em vez de o limitar a alguns fundadores da comunidade Cristã cujos estatutos devem ser melhorados.

IMPLICAÇÕES E CONCLUSÕES

O fracasso frequente em responder aos mandamentos de Deus em manifestar o Reino de Deus em poder é plenamente compartilhado pela maioria dos crentes, “carismáticos” e não-carismáticos também. Ambos os grupos tendem a moldar sua teologia e consequente prática na base de sua própria experiência — ou falta dela em vez de em uma fresca e radical (em seu sentido original) visão da Escritura. A presença ou ausência de certos charismata na experiência de alguém não prova nada sobre o estado ou destino espiritual de alguém (Mt 7:21-22). Os “carismáticos” e “não“ não são mais ou menos “salvos” uns que os outros; ambos são igualmente pecadores, mas justificados pela graça somente. Todavia, o NT oferece padrões de como o evangelho deve ser apresentado, recebido e vivido. Não devemos tentar remodelar nossos fracassos em virtudes, isto é, permitindo o que o Novo Testamento descreve como “descrença” em e para os dons de Deus, sendo construído como tendo escolhido “o melhor caminho” de uma “fé mais forte” sem eles. Os rabinos intelectualizaram conhecimento bíblico o que levou ao cessacionismo, incitando Jesus a afirmar que eles não conheciam (no sentido bíblico) “nem as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22:29; Mc  12:24).

Muita divisão hoje sobre os dons do Espírito deriva de uma premissa comum tida por ambos os lados do debate: o evidencialismo. Se os dons espirituais são alegados como provas do estatuto ou realização espiritual, em vez de usados como ferramentas para o serviço humilde a outros, então naturalmente segue-se o conflito. A tentação central para o primeiro e Segundo Adão, e por extensão para todos nós era usar conhecimento espiritual e poder para confirmar o independente e exaltado estatuto religioso de alguém, em vez de através deles, render glória, obediência e serviço a Deus. Os dons espirituais são armas poderosas contra o reino das trevas; mas quando mal aplicadas em polêmicas evidencialistas podem ferir e destruir o povo de Deus.

Os dons refletem a própria natureza de Deus, que não partilha a sua glória com outrem. Semelhantemente, Deus é um Espírito de poder “que não muda.” Se a Igreja “começou no Espírito,” não tentemos mudar os métodos de Deus para completar nosso percurso na fraqueza da carne humana. Já que é o prazer do Pai de “dar boas dádivas a quem Lhe pede,” deve ser nosso prazer recebê-las humildemente.


Título Original: On the Cessation of the Charismata

Tradução: Ângelo Lima

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Categorias: REFORMA & CARISMAS

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