Sola Scriptura!! E os Dons de Revelação?!

As igrejas pentecostais são os grupos cristãos que mais crescem no mundo, muito embora, diversos outros grupos atualmente também defendam os dons de línguas, profecias e de cura. Por outro lado, há também vários outros cristãos defendendo que tais dons não são mais concedidos ao povo de Deus e a questão do uso dos dons espirituais miraculosos descritos no Novo Testamento tem dividido a Igreja cristã.

O desenvolvimento do movimento carismático[1] trouxe à tona o problema do exercício dos dons do Espírito Santo e quando os primeiros Pentecostais se separaram de suas denominações originais para estabelecer novas igrejas, eles foram amplamente ignorados. No entanto, desde 1960 muitas pessoas têm dito que receberam dons espirituais extraordinários, mas não abandonaram suas igrejas. Em quase todas as denominações há pessoas que afirmam ter o dom de falar em línguas, bem como outros dons maravilhosos do Espírito Santo.[2] Isso é o que hoje em dia comumente chamamos de movimento carismático.

Os primeiros carismáticos omitiram suas distinções, no entanto, inevitavelmente, alguns foram reconhecidos em suas igrejas locais e logo surgiram divisões quanto ao exercício dos dons visíveis do Espírito Santo. Essa interferência na paz da Igreja fez com que se tornasse impossível ignorar a questão dos dons extraordinários. Neste cenário, o Pentecostalismo tem uma área bastante clara que o diferencia:

O pentecostal normalmente não se preocupa em se distinguir dos demais evangélicos nos fundamentos da fé, haja vista que ele é, por escolha, fundamentalista na doutrina. No entanto o pentecostal encontra sua crucial razão de ser na obra sobrenatural, extraordinária e visível pela qual o Espírito Santo trabalha na experiência pós-conversão do crente hoje tal como o fazia nos tempos dos apóstolos.[3]

A ênfase recai então sobre a obra do Espírito Santo na vida de cada cristão, não se tratando, portanto, daquela concepção comumente tradicional de que ele trabalha de forma invisível para renovar o cristão e guiá-lo. Os carismáticos insistem que a obra do Espírito Santo foi feita visível nos tempos bíblicos por meio de manifestações miraculosas e que a mesma operação pode ser esperada em nossos dias. O dom mais reivindicado por esse grupo costuma ser o dom de línguas, embora não seja o foco de todos, e a ênfase, pelo menos no meio carismático, é que a presença do Espírito Santo se manifesta por um ou qualquer outro dos dons.

Mas por que esse movimento surgiu? O cristão espera por uma nova vida, poder e sentido em Cristo. No entanto, muitos cristãos se deparam em suas igrejas com a fraqueza e inoperância, bem como com mensagens sem relevância para as necessidades reais do ser humano. Tanto os pentecostais, quanto os carismáticos, afirmam que o poder para a vida espiritual do indivíduo e para a Igreja é encontrado no batismo há muito negligenciado, agora redescoberto e experimentado no Espírito Santo com as suas manifestações carismáticas.[4]

Esta afirmação é apoiada pela renovação visível da vida cristã e da comunhão, por um novo interesse no trabalho da Igreja e pelo fervoroso zelo missionário. O cristão espiritualmente faminto, portanto, não pode deixar de ser inclinado a buscar essa poderosa manifestação do Espírito de Deus em sua própria vida.

Enquanto muitos indivíduos cristãos receberam o chamado batismo do Espírito Santo após se entregarem a Cristo, e alegam ter recebido certos dons extraordinários, a Igreja Protestante tem historicamente insistido que cada cristão é batizado no Espírito Santo no instante da conversão e que os dons extraordinários não teriam mais sido concedidos desde os apóstolos. Esta afirmação tem se apoiado em um argumento histórico e em determinada elaboração teológica que procura explicar o significado dos dons.

O argumento histórico foi muito convincentemente apresentado em duas partes por B.B Warfield[5]. Na primeira, ele analisa os escritos dos Pais da Igreja e mostra conclusivamente que os dons do Espírito Santo desapareceram do conhecimento produzido por aqueles que sucederam os apóstolos. As únicas exceções encontradas seriam em grupos marginais que foram julgados como heréticos por outros motivos. Ele revelou ainda que por volta do ano 200 d.C surgiram manifestações esporádicas que reivindicavam ser os dons espirituais:

Há pouca ou nenhuma evidência de obras miraculosas durante os primeiros cinquenta anos da Igreja pós-apostólica; é pequena e sem importância durante os cinquenta anos posteriores; somente se torna mais abundante e precisa no século seguinte (o terceiro) e torna-se precisa e abundante, de fato, somente no quarto século […][6].

As evidências de Warfield indicavam que os “milagres” não foram históricos, mas lendas posteriores. Em quase todos os casos, as pessoas que supostamente manifestaram os dons não tinham qualquer consciência deles. A segunda parte do argumento de Warfield foi que a partir do exame da reivindicação de vários grupos que afirmaram ter manifestações miraculosas do Espírito Santo, restou demonstrada a falta de confiabilidade das provas dos dons alegados, bem como demonstrada a natureza herética daqueles grupos.

Por conseguinte, uma vertente do argumento teológico é de que os dons foram dados somente para atender uma necessidade específica da Igreja primitiva. Com efeito, W.H.G Thomas comparou 1ª Corintios 14:20-25 com Isaías 28:11 e concluiu que os sinais, e particularmente o dom de línguas, foram dados como sinais aos judeus para sua convicção ou conversão. A destruição da nação judaica no ano 70 d.C foi o cumprimento da profecia de Isaías que previa o desastre no qual pessoas falariam outras línguas. Após esse evento, segundo Thomas, já não haveria propósitos para esses dons espirituais[7]. Outros sugeriram que a especial necessidade se baseava na inerente transição entre o período do antigo e do novo pactos. Os dons foram conectados com a escrita do Novo Testamento, assim eles cessaram um pouco depois do Novo Testamento haver sido completado[8]. Atualmente, a visão predominante entre aqueles que creem na cessação dos dons miraculosos do Espírito Santo é no sentido de que estes foram concedidos à Igreja primitiva para apoiá-la durante suas dificuldades de sobrevivência em face do judaísmo, paganismo e império romano. À medida em que a igreja se torna mais forte, a necessidade dos dons foi gradualmente diminuindo, provavelmente desaparecendo por completo no tempo de Constantino.[9]

Uma segunda parte do tradicional argumento teológico pela cessação dos dons extraordinários nasce da percepção de que estes foram fenômenos de revelação (vide capítulo 1), insistindo assim na superioridade da suficiência das Escrituras. Este argumento foi particularmente direcionado contra as reivindicações da Igreja Católica Romana que sustentava possuir novas revelações autenticadas por milagres[10]. Os Protestantes asseveram, por outro lado, que a Bíblia foi o único padrão estabelecido para a Igreja. Neste sentido, admitir a continuidade dos dons extraordinários após a completude da Bíblia seria o mesmo que dizer que Deus não nos concedeu o suficiente para todas nossas necessidades.[11] Tal desrespeito à Palavra de Deus não poderia ser aceito.

Estes argumentos tradicionais têm sido revividos e conceitos atuais têm sido criados para rejeitar o Pentecostalismo moderno. Desde o tempo de Hume, a maioria dos filósofos tem rejeitado a possibilidade de reconhecer a existência de milagres. Até aqueles que não compartilham dessa rejeição filosófica dos milagres têm insistido e concordado com a ideia principiológica da continuidade da lei natural que excluiria a possibilidade de eventos que não possam ser explicados por processos físicos normais. Alguns cristãos têm defendido o princípio de que Deus ordinariamente trabalha por meios naturais e a possibilidade de milagres além daqueles gravados nas Escrituras é fortemente resistida.

Uma segunda área na qual a oposição moderna às reivindicações do Pentecostalismo é suscitada, diz respeito à prática de seus adeptos. Eles atacam primeiro e mais intensamente os erros doutrinários. Em particular, a doutrina do batismo no Espírito Santo como subsequente à conversão como sendo completamente contrário às Escrituras[12]. O exercício do dom de línguas na adoração é comparado à luz das limitações impostas a este dom em 1ª Coríntios 14 e muitas vezes é encontrado em falta. Muitos consideram que o comportamento Pentecostal na adoração é indecoroso, desordenado e, geralmente, excessivo. O ataque final sobre o Pentecostalismo é formado a partir da pobre documentação disponível acerca dos dons reivindicados.[13]

Contudo, as tentativas de provar que Deus parou de visitar sua igreja com esses dons estão longe de ser convincentes aos olhos de muitos cristãos. Um escritor pentecostal resumiu esta visão com a seguinte observação:

Esse tipo de investigação tem resultado em um padrão uniforme que a maioria dos autores não-pentecostais parece ter seguido ao escrever sobre o dom de línguas: 1)  Uma explicação breve e completamente inadequada acerca das passagens escriturísticas que tratam sobre as línguas; 2) Uma tentativa de esvaziamento do conteúdo da Palavra por meio do apontamento de exemplos de fanatismo; 3) Um estudo unilateral sobre os Irvingitas ou de outros grupos adeptos das línguas antes do século XX; 4) Uma discussão sobre as últimas descobertas nos campos da psicologia e patologia e sua aplicação ao ato de falar em línguas; 5) descrições de contatos isolados com “pessoas que falam em línguas”; 6) Ataques contra personalidades do Movimento Pentecostal que podem ser culpados de imoralidade ou de alguma outra conduta reprovada biblicamente. O fracasso desses homens para dar uma interpretação clara e definitiva, bem como sua total inexperiência espiritual com qualquer coisa que se assemelhe às línguas, revela a incapacidade destes de falar com propriedade sobre o assunto.[14]

Pode-se perguntar se o próprio Calvino não sentiu muitas vezes que os argumentos contra os dons eram fracos. Claramente e com frequência ele afirmou que os dons, tais como o de profecia, haviam cessado. Contudo, ocasionalmente se posicionou de forma hesitante acerca disso e reconheceu a possibilidade de as manifestações extraordinárias voltarem a ocorrer. “Ainda, eu não posso negar que o Senhor, às vezes, em um período posterior, tenha levantado apóstolos, ou mesmo evangelistas em seu lugar, como já aconteceu em nossos dias”[15]. Os argumentos apresentados a favor e contra a prática Pentecostal têm apresentado as mesmas deficiências. Via de regra eles são direcionados para casos particulares e por isso não têm forma geral; ou, são baseados na experiência ou na história, que também não são considerados como fontes de doutrinas da igreja verdadeira, ou ainda se baseando sobre um exame das Escrituras, tomando como verdade aquilo que não foi demonstrado de nenhum modo. Entretanto, há muito já se passou da hora de os cristãos atentarem para o assunto com o melhor de seu engajamento intelectual e em fervoroso espírito de oração.

Todos quantos creem em Deus aceitam que ele pode fazer milagres, mesmo que normalmente atue por meios naturais. Aqueles que aceitam que a Bíblia é a Palavra de Deus não podem negar que houve períodos em que o Senhor concedeu muitos dons aos homens, tais como o dom de profecia e de operação de milagres. Também não pairam dúvidas de que ele ainda pode fazer as mesmas coisas. Deste modo, o ponto em questão é se há base ou não para afirmar que Deus decidiu que não daria mais esses dons às pessoas.

Destarte, o argumento mais básico para a cessação dos dons extraordinários fundamenta-se na completude das Escrituras. A essência deste argumento afirma que não podemos esperar qualquer revelação de Deus para adicionar à Bíblia que temos. Estes dons espirituais são revelacionais, e desta forma, quando a Bíblia foi concluída, deixaram de ser concedidos. Eu penso que tal argumento não foi suficientemente considerado por aqueles que o propõem, ou mesmo pelos Pentecostais. Consequentemente, ele será o foco principal de nossa atenção aqui.

No que concerne à abrangência deste livro, é importante informar que há limitações. Em primeiro lugar, por que não se trata de um estudo concernente ao pentecostalismo em si. Em segundo lugar, também é necessário frisar que há muitas variações para os principais argumentos relativos à cessação dos dons extraordinários e nem todos serão examinados. Terceiro, ficará evidente que o assunto em sua inteireza está intimamente ligado à questão da revelação, mas toda aquela área da revelação geral não será aqui examinada. Finalmente, enquanto cuidadosa atenção será dada às mais significativas passagens das Escrituras, isso indica que outras passagens que são apresentadas em conexão com o argumento considerado não serão explicadas. Contudo, será oferecida cuidadosa atenção às passagens mais importantes citadas em oposição à tese aqui apresentada.

Para maior clareza, o ponto de partida da discussão deve ser especificado e o caminho a ser seguido, explicado. Um pressuposto básico é que a Bíblia é a Palavra de Deus e o padrão supremo de conduta para o homem. Certos posicionamentos são assumidos por este trabalho os quais o autor está preparado para defender à luz das Escrituras. O primeiro deles ensina claramente que nenhuma contradição pode ser encontrada nas páginas da Bíblia, e que contradição é algo estranho à natureza de Deus. Embora existam aspectos da revelação divina que os homens não têm conseguido resolver em um sistema coerente, o ensino das Escrituras não é que não há solução para essa revelação, mas que o homem em sua finitude e pecado não consegue compreendê-la exaustivamente. Este é um princípio essencial para uma verdadeira interpretação das Escrituras como um todo.

Os padrões confessionais de Westminster[16] são também expressões de fé dos principais pontos das doutrinas reveladas nas Escrituras. Mas deixe-me chamar a atenção específica para os limites da formulação doutrinária, haja vista que muitas vezes eles são ignorados nas discussões acerca dos dons do Espírito:

Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela. À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens. (CFW 1.6)

Tal enunciado descreve de modo muito enfático os limites a serem observados, visto que apenas dois fundamentos são permitidos. Primeiramente, podemos definir como doutrina essas coisas “que são expressamente declaradas nas Escrituras”. Em segundo lugar, podemos estabelecer como verdadeira doutrina aquela que “por boa e necessária consequência pode ser deduzida a partir da Escritura”. As palavras-chave tiveram ênfase acrescentada.

Por outro lado, o homem tem muitas formas de lógica e cada uma tem sua aplicação em situações diferentes. Como cada forma de lógica leva necessariamente a resultados prováveis, exceção à dedução, a Igreja de Deus não está livre para obrigar ninguém a uma conclusão baseada sobre qualquer outra forma de lógica. Além disso, no emprego da lógica dedutiva para entender o que Deus tem dito nas Escrituras, sua análise deve ser tal que, a conclusão é “necessária” à que não tem alternativa que caiba no padrão das Escrituras. Se há alternativas que se encaixam no ensino bíblico, aquela conclusão será sempre duvidosa: uma pessoa pode considerá-la como sua interpretação preferida, mas seria arrogância impor esta à igreja. Além disso, a consequência deve ser “boa” na medida em que foi fundada em premissas biblicamente verdadeiras, bem como pelo raciocínio moldado pelo que é revelado na Palavra de Deus.

Por conseguinte, duas coisas precisam ser ditas sobre a adequada abordagem para compreender o que Deus revelou, especialmente a questão sobre os dons espirituais. O Novo Testamento assume que o exercício desses dons é parte normal da vida da igreja do período apostólico e Paulo ordena “…procurai com zelo os dons espirituais…” (1Co 14:1)[17]. Diante disto, recai o ônus da prova sobre aqueles que consideram haver sido alterada essa situação como necessidade expressa ou necessária do que Deus disse. Isso não contradiz um importante princípio Reformado, aquele que reconhece que somente o que é autorizado por Deus em sua palavra é apropriado para adoração, exatamente porque o uso desses dons é claramente autorizado na Bíblia (dentro de certos limites) como se verifica no capítulo já mencionado. No entanto, isso não exime os carismáticos de formularem uma teologia clara que indique o lugar dos dons no culto, haja vista que é dever dos cristãos apresentar justificativas para as suas práticas de culto, sobretudo se considerado que muitas formas bíblicas de adoração são atualmente inadequadas (como por exemplo, os sacrifícios). Entretanto, até que haja uma forte evidência de mudança, os cristãos têm o direito de considerar que esses dons são uma benção contínua dada por Deus à sua Igreja.

A segunda consideração foi traçada de forma clara por John Stott:

Em segundo lugar, a revelação dos propósitos de Deus nas Escrituras deve ser buscada em sua didática interna, não nas peças da história. Mais precisamente, devemos buscar nos ensinos de Jesus, nos escritos e sermões dos apóstolos, não nas porções puramente narrativas dos Atos. O que é descrito nas Escrituras como tendo acontecido com os outros, não necessariamente é destinado a nós. Devemos nos apropriar daquilo que nos é prometido e devemos obedecer aquilo que nos é ordenado[18].

Isso não significa, entretanto, que “o que aconteceu aos outros” nunca será destinado a nós.  A vida de Cristo, bem como suas palavras, revelou a vida que deveríamos viver. Muitos outros exemplos poderiam ser oferecidos aqui. Contudo, nem tudo o que é descrito nas Escrituras deve por nós ser tomado por apropriação. Davi e Salomão foram abençoados com grandes riquezas materiais, mas nem todo cristão pode esperar tal benção. Uma atenção cuidadosa deve ser dada às partes históricas da Escritura para determinar se são aplicáveis a todos os cristãos ou não. Não fazer isso é um problema comum que leva a múltiplos erros.

DEFINIÇÕES

Um dos maiores problemas na discussão teológica, e muito evidente em nossos dias, é a falta de compreensão pelo uso de palavras ambíguas ou incomuns. As palavras usadas nesse texto devem ser entendidas diante do seu contexto e conforme definido no Dicionário de Oxford[19]. Palavras que possuam uma significação específica, ou palavras que possuam problemas com sua utilização são definidas em seus próprios pontos.

Todo o tema dos dons espirituais está intimamente conectado com a revelação de Deus ao homem e o significado de revelação como entendido na atualidade. Nesse estudo, revelação significa Deus se dando a conhecer ao homem sobre suas verdades, sua obra, e seu ser[20]. Via de regra, costuma-se dividir a revelação em duas seções, a saber, geral e especial. A revelação geral é a forma pela qual Deus se dá à conhecer ao homem por meio da criação, preservação e governo do universo e tudo o que há nele[21]. Vamos enfatizar que a revelação geral de Deus aponta para o próprio Deus, não simplesmente para sua obra[22]. Não é uma revelação redentiva, estando disponível para todos os homens e, portanto, deixa todos eles sujeitos à ira divina, uma vez que o homem é incapaz de adorar e servir a Deus. A revelação geral não traz qualquer indicação do caminho de salvação para os homens. O homem só pode chegar a um entendimento salvífico quando o Espírito Santo o guia através da revelação mais completa das Escrituras[23]. Neste sentido, os dons do Espírito Santo não costumam ser considerados como uma parte especial da revelação geral de Deus e certamente também não serão considerados como conectados à revelação geral nos argumentos aqui considerados. Por isso, a revelação geral não será discutida neste estudo.

A revelação especial, por outro lado, é mais completa. Não só explica o que está diante dos homens, como também dá à conhecer o caminho da salvação em Jesus Cristo[24]. Neste sentido, a encarnação de Cristo foi a mais proeminente parte desta revelação, que inclui os meios milagrosos pelos quais Deus se deu a conhecer, especialmente, mas não limitado, no chamado e direção do destino do povo de Israel, até culminar na manifestação final da salvação em seu Filho. Assim se verá que alguns dos dons do Espírito Santo integram a revelação especial. Esta revelação especial engloba as palavras que Deus falou com e por meio dos profetas; isso inclui a Bíblia, a revelação normativa de Deus para todos os homens e todos os tempos. Nela pode ser vista que a revelação especial é a manifestação do próprio Deus através da palavra escrita que estabelece claramente a natureza dele na medida em que o revela ao homem e declara o caminho da salvação, a obra de Deus, o propósito de estabelecer o seu reino e que define os deveres que o Senhor requer do homem. Contrastando com a revelação geral, a revelação especial tem caráter essencialmente redentivo.

Por conseguinte, inspiração está relacionada com a revelação, muito embora não são coisas idênticas. A revelação envolve a transmissão de conhecimento ao homem por Deus, enquanto a inspiração refere-se à obra do Espírito Santo “… que levou os escritores das Escrituras para falarem acerca do Verbo de Deus, de forma infalível e inerrante”[25]. A revelação recebida pode ser distorcida e mal utilizada a menos que seja lançada luz pela inspiração do Espírito Santo. De modo amplo, a inspiração pode ser considerada como um modo de revelação.

Nossa abordagem sempre deve iniciar com uma discussão sobre os dons do Espírito Santo, seguida por uma investigação do cânon bíblico e seus fundamentos. Estes dois temas são reunidos para expor as várias formas de argumento que o fechamento do cânon implica em que os dons extraordinários não são mais concedidos. É preciso demonstrar também que a revelação especial nunca se limitou ao que está na Bíblia, enquanto avaliamos aqueles argumentos demonstrando que falham em provar que o Espírito Santo parou de conceder os dons extraordinários tal como descritos na Bíblia. Só então podemos apresentar evidências à crença de que alguns desses dons continuam sendo concedidos, além de propor um padrão bíblico para lidar com aqueles que afirmam possuí-los.


REFERÊNCIAS

[1] Na edição americana o autor se utiliza do termo Neo-pentecostalismo, porquanto à época da Dissertação não era corrente o uso da expressão “Carismático”, como comumente utilizada hoje [N.E]

[2] SHERRILL. John L. They Speak with Other Tongues. Westwood, N.J.: Fleming H. Revell Co., 1967, pp. 17-67.

[3] BRUNER. Frederick D. A Theology of the Holy Spirit. Grand Rapids: Eerdmans, 1970, p.20.

[4] Ibid, p.54.

[5] WARFIED. B.B. Miracles, Yesterday and Today, True and False. Grand Rapids: Eerdmans. 1953.

[6] WARFIELD, Miracles, p. 10.

[7] THOMAS, W.H.G. The Holy Spirit of God. Chicago: The Bible Institute Colportage Ass’n. [n.d.].

[8] Vide Below, Capítulo 3.

[9] WARFIELD, Miracles, p. 9. “Há muita coisa atraente nessa teoria […] embora ela contradiga toda a prova dela derivada”.

[10] CALVIN, John. Institutes of the Christian Religion, ed. John T. McNeill, trans. Ford Lewis Battles, Vols. XX-XXI, The Library of Christian Classics. Philadelphia: Westminster Press, 1967, pp. 16-17; Calvin’s Prefatory Address section 3. As Institutas serão citadas pelo livro, capítulo e seção; e.g. Inst. III:iii:3.

[11] EDWARDS, Jonathan. Thoughts on the Revival of Religion in New England, 1740, “The Works of President Edwards”, III, 8ª ed.: New York: Leavitt, Trow & Co., 1849, pp. 364-365.

[12] veja, e.g. CHANTRY, Walter J. Signs of the Apostles. Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1973, p. 69.

[13] e.g. BOETTNER, Loraine. Studies in Theology. 11th ed.: Nutley: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1973. p. 73.

[14] BRUMBACK, Carl. What Meaneth This? Springfield: The Gospel Publishing House, 1947. pp. 28-29.

[15] Inst., IV:iii:4.

[16] A Confissão de Fé de Westminster (CFW), O Catecismo Maior (CM), O Breve Catecismo (BC).

[17] Veja também 1ª Cor. 12:31; 14:5, 39, Marcos 16:17ss.  Salvo indicações em contrário, as citações são extraídas da Bíblia Almeida Corrigida Fiel.

[18] STOTT, J.R.W. The Baptism and Fullness of the Holy Spirit. Downers Grove, Ill.: Intervarsity Press, 1971. pp. 8-9.

[19] The Concise Oxford Dictionary of Current English. 4th ed.: Oxford: Clarendon Press, 1954. É a edição normalmente em uso por este escritor.

[20] BUSWELL, J. O. A Systematic Theology of the Christian Religion, I. Grand Rapids: Zondervan, 1962. p. 183.

[21] Belgic Confession Article II; in SCHAFF, Philip. The Evangelical Protestant Creeds. Vol. III. “The Creeds of Christendom”. 6th ed. reprint: Grand Rapids: Baker Book House, 1966. p. 384.

[22] BERKOUWER, G.C. General Revelation. trans. n.n. Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1968. p. 289. Berkouwer disponibiliza um brilhante estudo de vários entendimentos acerca da revelação e seus problemas.

[23] BERKOUWER. General Revelation. pp. 147-148.

[24] CFW I:1.

[25] Buswell, p. 184. Veja também HODGE, Charles. Systematic Theology, I. London: James Clarke & Co., 1960. p. 155.

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Categorias: Reforma & Carismas

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