Uma breve resposta bíblica ao fogo estranho de John MacArthur

A aversão de John MacArthur à “outras revelações” através de profecias e dons espirituais relacionados, não provém das Escrituras (como veremos a seguir), mas é oriunda da frustração de calvinistas como Cromwell por constatar tantos de seus membros migrarem para os Quakers, tidos como místicos insensatos daquele tempo: pessoas que caíam no chão tremendo, que eram muito barulhentas e, o mais “terrível dos horrores”, encontravam Jesus em visões, profecias e curas. Isso soa familiar a você? Os escolásticos calvinistas responderam a esta ofensa com a Confissão de Fé de Westminster (CFW)  – sendo agora considerada por muitos como o padrão de ouro da teologia protestante calvinista.

Apesar das experiências carismáticas de alguns dos mesmos autores da CFW e, especialmente, de seu fundador, John Knox, cujas experiências carismáticas eram abundantes e poderosas, os dogmáticos se opuseram ferrenhamente a isso, em um texto calvinista pouco popular de 1546, que, era para ser imposto sob ameaça de morte nas ilhas-Britânicas incluindo a Irlanda católica. Essa história curiosa é cuidadosamente documentada em uma dissertação de doutorado revisada por Garnet H Milne, The Westminster Confession of Faith and the Cessation Of Special Revelation (A Confissão de Fé Westminster e da Cessação da Revelação Especial. Milton Keynes, Reino Unido: Paternoster, 2007). Leia minha resenha crítica sobre este livro, disponível em português aqui no Teologia Carismática.

  1. Aprouve ao Senhor, em várias épocas, e de muitas maneiras, revelar-se e declarar Sua vontade à Sua Igreja [Hb 1:1] e, posteriormente, para melhor preservação e propagação da verdade, e para maior certeza estabelecendo e confortando sua Igreja contra a corrupção da carne e malícia de Satanás e do mundo, usando os mesmos inteiramente para escreverem [Pv 22:19-21; Lc 1:3-4; Rm 5:4; Mt 4:4]; o que torna as Sagradas Escrituras mais necessária [2 Tm 3.15; 2 Pe 1:19]; tendo cessado aqueles antigos modos de Deus revelar Sua vontade ao seu povo [milagres, profecia] [Hb 1:1-2]. [Grifo meu]

Quando a CFW foi apresentada ao Parlamento para consequente aprovação, os parlamentares desconfiados enviaram o documento de volta, muito razoavelmente com medo de que ele estivesse se afirmando como um substituto da própria Bíblia. Eles então exigiram que os teólogos justificassem todas as afirmações da Confissão com uma fundamentação bíblica. Ressentidos, os redatores concordaram, entretanto suas habilidades exegéticas ficaram muito longe de apoiar aqueles enunciados confessionais. Se você consegue entender por que aqueles versículos foram adicionados [entre parênteses] para apoiar as reivindicações dogmáticas no parágrafo transcrito acima, então você é um exegeta muito mais perspicaz e capacitado do que eu.

No entanto, o primeiro parágrafo da CFW é o principal motivo para John MacArthur rejeitar a  revelação, exceto como aparece na expressão “não-proposicional” nas Escrituras que revelam e na Ordo Salutis calvinista: Predestinação, Eleição, Vocação, Regeneração, Fé , Arrependimento, Justificação, Santificação, Perseverança, Glorificação (MacArthur, Fogo estranho, pp. 179-230). Apesar da concessão que “revelação” ocorre normativamente hoje mesmo nestas fases calvinistas da “salvação”, MacArthur insiste que os dons de “revelação contínuos”, como profecia e palavras de conhecimento, cessaram!

É contra a afirmação estarrecedora de MacArthur, que eu escrevi o livro “O Que Há de Errado Com a Teologia Protestante? Tradições vs. Ênfase bíblica (Tulsa: Word & Spirit, 2013). Neste livro, defendo a partir de uma “hermenêutica de ênfase” transparente, que a Bíblia não ensina cessação da profecia, portanto, a experiência da palavra revelada, profética, é a mensagem central, normativa dela.

A prova disso é:

  • Negar-se a ouvir a voz de Deus direta e imediatamente é o centro da tentação da humanidade (Gn 3 (Adão-humanidade & Eva); Ex 20 (israelitas); Mt 4, Lc 4 (Jesus); Em Hb 12 (todo o resto de nós) nos é ordenado: “Não recuse Aquele que fala [tempo presente]” (Hb 12:25) Hebreus enfatiza: “Hoje, se ouvirdes a sua voz” (Sl 97: 5; Hb 3:7; 3:15; 4:7 ).
  • O segmento da trama central de todos os exemplos de homens que serviram a Deus como, Adão, Noé, Abraão, Isaac, Jacó, José, Moisés, Josué, os juízes, os profetas, Jesus, os apóstolos) é: eles ouvem a voz de Deus e obedecem-na sob grande persistência. Esse é o padrão normativo para o leitor.
  • A finalidade da Bíblia é a Nova Aliança. Portanto, o que há de errado então que a essência desta nova aliança seja o espírito de profecia e revelação? Assim o registro do sermão de Pentecostes cita uma profecia programática (Is 59:21) que tem sido totalmente negligenciada por razões dogmáticas. Isso se compara à passagem mais citada do Novo Pacto sobre a Lei revelada “no coração “(Jr 31:33; 2 Co 3; Hb 8-12).
  • A missão de Jesus não era simplesmente “morrer na cruz por nossos pecados” – este foco é baseado na Reforma que tinha necessidade de responder à grande questão daquela época: “Quanto custa para ir para o céu?”, por que sacerdotes romanos estavam cobrando dinheiro como indulgências para retirar pessoas do purgatório. A missão de Jesus é explícita: “Ele vos batizará no Espírito Santo”, que significa receber o Espírito da Nova Aliança de revelação e expressão vocal. A morte de Jesus na cruz não foi a Nova Aliança em si: é crucial declarar e interpor a Nova Aliança, ao Espírito (Hb 8-10). Ou seja, sem cruz, sem Nova Aliança no Espírito .
  • O conteúdo do ensinamento de Jesus aos seus discípulos não deve ser ignorado (como os protestantes reformados fazem). O que Jesus ensinou seus discípulos a fazer? Qual é o conteúdo dos “exames intercalares” em Mt 10; Mc 6; Lc 9 e 10, repetido em Mt 28:19-20 e Atos 1:8? É tudo sobre a expressão do Espírito em poder.  Os Protestantes tradicionais logo descartam essas comissões como se tivessem sido delegadas apenas aos “apóstolos”, mostrando que eles entendem os apóstolos neotestamentários como papas do século 16, não como modelos para o leitor: “Imite a mim como eu imito a Cristo”, diz Paulo (1Co 11:1; cf. Hb 6:12).
  • A Eucaristia de 1 Coríntios 11 deve ser interligada ao seu contexto em 1 Coríntios 12, isto é, “discernir o corpo” significa discernir a “Nova Aliança no meu sangue”, que é o “corpo” de crentes carismáticos a quem os elitistas coríntios estavam rejeitando. Ao quebrar a “aliança” do Espírito e dos dons, “muitos de vocês são fracos, doentes e tem caído no sono”, uma situação que poderia ter sido evitada se tivessem permitido a esses “membros” do corpo de Jesus operarem curas , profecias, etc. Se a sua igreja tem comunhão e não permite que os dons espirituais tenham atuação, você está negando Jesus [carismático], assim como o corpo e seu sangue [significado do sacrifício de Jesus].
  • Diversos trechos das Escritura ensinam a continuidade do dom de profecia e outros carismas, por exemplo: “os carismas e o chamado de Deus não são retirados” (Rm 11:29). Deus idealmente “energiza todos os dons em todos” (1Co 12:6). “Nos últimos dias, derramarei o meu Espírito sobre toda a carne” [estamos nos “últimos dias” 2 Tm 3:1; Hb 1:1; 2 Pe 3:3].

Em resumo, ao contrário da tradição protestante que nega a Nova Aliança do Espírito de profecia e de poder, a própria Bíblia faz com que a realidade do Espírito profético de Jesus seja a experiência central da mensagem cristã.

Sei que tudo isso parece ser radical e extremista. Mas exorto-vos a examinar por si mesmos os argumentos bíblicos de apoio para minhas afirmações.


Título original: A Brief Biblical Response to MacArthur’s Strange Fire

Tradução: Fernando Gomes

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Categorias: PROFECIAS,REFORMA & CARISMAS

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