Uma Resposta a Palmer Robertson

Uma Resposta a Palmer Robertson, e seu livro The Final Word (A Palavra Final, Edinburgh, Scotland and Carlisle, Pennsylvania: Banner of Truth, 1993)

Comentários Introdutórios

Antes de fazer qualquer consideração, desejo expressar minha gratidão e apreço pela pessoa do Dr. O. Palmer Robertson por seu valioso ensino e amizade durante o período em que fui aluno no Seminário de Westminster, de 1971 a 1973. Dr. Robertson foi meu professor nas aulas de Antigo Testamento mais de uma vez, e sua notável habilidade em delinear os temas da história da redenção partindo do seu início no Antigo Testamento até seu cumprimento no Novo Testamento me encheu de encorajamento. 

Embora tenhamos nos visto de forma ocasional desde então, ele sempre se mostra agradável em nossas interações pessoais, da mesma forma que nos tempos do seminário. Continuo achando esses diálogos com ele interessantes e instigantes para a formação do meu pensamento. Na verdade, pode ser que tenha sido um tanto do senso de respeito e estima por sua amizade que me levou a não responder seus argumentos apresentados no livro The Final Word: A Biblical Response for the Case for Tongues and Prophecy Today (A Palavra Final: Uma Resposta Bíblica para a Hipótese de Línguas e Profecias Hoje), quando foi primeiramente publicado em 1993 (Certamente, a pressão do tempo devido a outros compromissos foi também um fator importante). Mas as pessoas insistentemente me perguntavam se eu já havia respondido ao argumento dele, ou se estava em meus planos fazê-lo. Por fim, então, escrevi os comentários que se seguirão. Portanto, é com certa hesitação que escrevo esta minha análise de seus argumentos apresentados na obra The Final Word.

Todo o conteúdo do quarto capítulo do livro do Dr. Robertson traz uma detalhada e profunda discussão em discordância com meu livro, The Gift of Prophecy in the New Testament and Today. Porém, uma edição revisada deste livro também foi publicada, The Gift of Prophecy in the New Testament and Today: Revised Edition (Wheaton, Illinois: Crossway Books, 2000). [Compre aqui a edição em português: O Dom de Profecia no Novo Testamento e Hoje. Natal: Editora Carisma, 2017]. Esta edição do ano 2000 será mencionada daqui em diante simplesmente como O Dom de Profecia. Nessa edição mais recente, adicionei alguns apêndices e transformei uma longa seção do livro em um apêndice separado. Essas mudanças fizeram com que paginação da obra como um todo ficasse diferente.

Antes de interagir com os argumentos específicos do Dr. Robertson, tenho um comentário mais geral a fazer. Ao retornar a este assunto do dom de profecia nesses últimos dias, após cinco anos sem ter me debruçado sobre ele, o aspecto que mais me impressionou foi a ausência de uma clara evidência bíblica que provasse o âmago da posição cessacionista do Dr. Robertson. O que quero dizer com isso é que penso que não há nenhuma passagem da Escritura, ou qualquer combinação de versos, que nos leve a concluir que Deus não se comunica de forma direta com seu povo ao longo de toda a história em um nível individual e pessoal, que ocorra complementarmente à Sua comunicação no e através do texto da Escritura.

Se examinarmos a história bíblica em toda a sua extensão, constataremos que, do início ao fim, Deus manteve um relacionamento pessoal com seu povo, no qual ele se comunicou de forma direta e pessoal, e esta comunicação nunca se limitou às palavras dadas a Seu povo no “livro da aliança” ou pelos escritos do cânon bíblico. Deus tinha um relacionamento pessoal, uma comunicação direta, com Adão e Eva, com Caim e Abel, com Enoque (que andou com Deus, Gn 5:24), com Noé, com Abraão, Isaque e Jacó, com Moisés, Davi e Salomão, e com muitos outros profetas e reis do Antigo Testamento. Na pessoa de Jesus, o Deus Filho se comunicou individual e pessoalmente com muitas pessoas enquanto esteve na terra. Dessa forma, o Novo Testamento assegura a cada crente que o Pai, o Filho e o Espírito Santo se relacionará com seus filhos de uma maneira individual:

“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.” João 14:23

 “Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.” Apocalipse 3:20

 “Por isso todos quantos já somos perfeitos, sintamos isto mesmo; e, se sentis alguma coisa de outra maneira, também Deus vo-lo revelará”. Filipenses 3:15

“Para conhecê-lo, e à virtude da sua ressurreição, e à comunicação de suas aflições, sendo feito conforme à sua morte.” Filipenses 3:10

 “Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê em seu conhecimento o espírito de sabedoria e de revelação” Efésios 1:17

 “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus.” Romanos 8:14. (O verbo “agonai” no presente do indicativo sugere que essa “orientação”, essa “direção” por parte do Espírito é um processo contínuo)

Meu argumento é que, do começo ao fim, a Bíblia nos fala de um Deus que se relaciona de maneira individual e pessoal com Seu povo. E agora o Dr. Robertson vem e nos diz, contrariando a experiência do povo de Deus ao longo de todos os livros da Bíblia, que Deus não mais se comunica de forma pessoal e individual com ninguém dentre Seu povo, a não ser por meio das palavras da Escritura.

Deste modo, Dr. Robertson está nos pedindo para acreditar que (1) por toda a Bíblia Deus se comunicou com Seu povo tanto por meio da Escritura como através de uma interação pessoal direta, e (2) que agora Deus se comunica apenas mediante as palavras escritas do Cânon, e não mais se utiliza de uma comunhão pessoal e direta com Seu povo. Tal conclusão soa muito estranha considerando o fato de que o próprio Dr. Robertson argumenta que a Nova Aliança é melhor em todos os sentidos (ver The Final Word, 96-97, 122). Mas, em que sentido se pode dizer que é melhor se perdemos aquele elemento de comunicação e relacionamento pessoal com Deus, em paralelo ao Cânon escrito, fatores que caracterizaram todos os períodos da história mencionados na Bíblia? Onde há qualquer fundamento bíblico que nos leve a acreditar nisso?

Estou ciente, é claro, a respeito da ampla argumentação do Dr. Robertson em favor da tese de que o cânon da Escritura está fechado. Eu concordo veementemente com essa conclusão e, de fato, incluí em meu livro um extenso apêndice a respeito do cânon da Escritura no qual forneço argumentos semelhantes para justificar o porquê de eu acreditar que o cânon esteja fechado (O Dom de Profecia, pp. 277-297 = O Dom de Profecia 2000, pp. 237-255).  Assim, o Dr. Robertson e eu concordamos que o cânon esteja fechado e nenhum outro escrito deve ser adicionado à Bíblia.

Contudo, a questão não é essa. A questão é: e quanto à comunicação divina fora do cânon com indivíduos específicos? Se a Bíblia é o “livro da aliança” que estipula os termos do relacionamento entre Deus como rei e nós como Seu povo da aliança, afirmaremos, então, que não é possível ao rei se comunicar com Seu povo por quaisquer meios adicionais que não seja o documento da aliança? Pode Aquele que criou a fala e ama Seu povo, jamais lhes falar direta e pessoalmente? Se eu a entendi corretamente, a posição do Dr. Robertson não permite nenhum elemento de orientação pessoal e individual por parte do Espírito Santo na vida do cristão. Extraímos nosso direcionamento pela leitura da Bíblia e usamos nossa maturidade no discernimento na aplicação dessa direção em nossas vidas. Robertson apenas quer que o povo de Deus “preste uma atenção maior na leitura particular e na pregação pública da Palavra de Deus. Ao escutarem com mais atenção essa Palavra, proclamada com autoridade pelo ministros habilitados por Deus e cheios do Espírito, eles se aperfeiçoarão na fé, receberão uma direção para suas vidas, e estarão capacitados para servir a outros no Espírito de Cristo” (p. 133). Dr. Robertson chama isso de “a maioridade responsável entre os santos de Deus” (p. 133).

Sei que há uma pequena minoria entre os cristãos de hoje que sustenta que Deus não nos guia e não nos guiará através da obra do Espírito Santo nos incitando e nos levando a escolher uma coisa em vez de outra em nossas vidas diárias, nem mesmo ocasionalmente. Mas certamente a vasta maioria dos cristãos em toda a história conheceu e experimentou a orientação do Espírito Santo na tomada de decisões, especialmente durante seus momentos de oração e de leitura da Escritura. Eles sabem que esta orientação inclui não apenas as instruções, ordens e princípios da Escritura, mas também impressões subjetivas da vontade de Deus bem como pensamentos adicionais ou memórias específicas que o Senhor traz à mente. Por essa razão, a minha primeira observação ao ler o argumento do Dr. Robertson nos últimos dias foi observar até que ponto uma posição que exclui toda orientação pessoal e direta do Espírito Santo hoje era totalmente diferente de todo o curso da história bíblica incluindo o Novo Testamento e seus ensinamentos sobre a comunhão pessoal que temos com o Pai, Filho e Espírito Santo. Refleti sobre o quanto não havia sequer uma passagem clara que apoiasse tal posição. Talvez eu tivesse deixado algum texto passar despercebido, mas não acho que as passagens que tratam do cânon fechado fornecem esse apoio, tampouco fornecem as passagens que falam da suficiência da Escritura para os fins para os quais se destinava. Na verdade, não penso que haja passagens contundentes das Escrituras que apóie esse tipo de visão cessacionista estrita. E fiquei surpreso ao perceber a fragilidade do suporte bíblico para essa visão.

Assim sendo, no restante desse artigo, eu gostaria de considerar muitos argumentos específicos do livro do Dr. Robertson.

  1. O argumento de que a profecia do Novo Testamento tem tem que ser da mesma natureza que a do Antigo Testamento

Dr. Robertson tenta demonstrar repetidamente que o dom de “profecia” presente no Novo Testamento deve funcionar da mesma forma que no Antigo Testamento, no qual os profetas anunciavam as próprias palavras de Deus (veja pp. 11, 88, 105, 106, 121, 122, e em outras partes ao longo do livro). Com efeito, esse é um dos principais argumentos do livro dele. Uma vez que os profetas no Antigo Testamento proclamavam precisamente as palavras de Deus com inquestionável autoridade divina, assim, sustenta o Dr. Robertson, o mesmo deve fazer os “profetas” no Novo Testamento. Devem eles apregoar as exatas palavras provenientes de Deus. Portanto, a profecia não pode ser, (como eu havia argumentado) algo que o profeta comunica em meras palavras humanas o que Deus trouxe à mente dele

Considerando que esta afirmação é basilar para a perspectiva do Dr. Robertson, é de surpreender que ele não tenha tratado de pelo menos três significativas diferenças entre a profecia do Antigo Testamento para com o Novo Testamento. 

 

  • Os autores das Escrituras do Novo Testamento já não são mais chamados de “profetas”, mas de “apóstolos”

Uma diferença fundamental que não é examinada pelo Dr. Robertson é o fato de que o termo usado para se referir aos que escrevem e legitimam as Escrituras na Nova Aliança não é mais “profeta” e sim “apóstolo”. Paulo não inicia suas epístolas assim: “Paulo, profeta de Cristo Jesus”, ao invés disso escreve:”Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus” (Ef 1; introduções semelhantes são encontradas em outras de suas epístolas;veja também o caso de Pedro, “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo” que se encontra em 1 Pedro 1:1). Se a função do “profeta” no Novo Testamento é exatamente a mesma da do Antigo Testamento, por que, então, esses autores dos escritos neotestamentários não se intitulam de “profetas”? Dr. Robertson não aborda essa questão. A melhor explicação para esse questionamento é que a função de “profeta” mudou substancialmente na Nova Aliança, como também não se deve pressupor que um “profeta” no Novo Testamente deva ser alguém que transmita as próprias palavras de Deus. 

  • A ampla distribuição do dom de profecia

Outra diferença entre os dois Testamentos com relação à natureza da profecia que não foi considerada pelo Dr. Robertson é a impressionante distribuição do dom de profecia de maneira ampla aos milhares e milhares do povo de Deus. No Antigo Testamento havia, em dados momentos, pouquíssimos profetas estabelecidos entre o povo de Deus. Em geral tinha-se apenas um ou dois de cada vez. Existiu Moisés, Samuel, o profeta Natã, e em outras épocas, tivemos Isaías, Jeremias ou Ezequiel, mas houve determinados períodos em que havia muito poucos e muitas vezes somente um profeta estabelecido que falava ao povo as palavras de Deus. (É provável que os “filhos dos profetas”, ligados à Elias e Eliseu em 2 Reis 2: 3-15, tivessem uma função distinta, como argumento em outro lugar. Vale ressaltar que o cânon do Antigo Testamento não preserva nenhuma das “palavras do Senhor” profetizadas todas de uma só vez por esse grupo de profetas.)

Já na Nova Aliança, o dom de profecia é dado a milhares do povo de Deus, tanto é que o dom de profecia estava operando em todas as igrejas em que havia pessoas dotadas pelo Espírito Santo de dons espirituais. Encontra-se profecias nas igrejas em Jerusalém (At 18:27), Antioquia (At 11:27; 13:1), Éfeso (At 19:6; Ef 4:11), Cesaréia (At 21: 9-11), Roma (Rm 12:6), Coríntios (1 Cor 12-14) e Tessalônica (1 Ts 5:20). Portanto, é seguro afirmar que o dom de profecia funcionava em cada igreja do Novo Testamento, e que havia centenas delas ao longo de todo o Mediterrâneo no primeiro século, com milhares de cristãos exercendo esse dom congregando-se nelas. 

Tal cenário é, sem dúvida, diferente do se tem no Antigo Testamento. Estavam de fato esses milhares de “profetas falando as próprias palavras de Deus? Deveríamos esperar que o povo de Deus saísse em visita às centenas ou até mesmo milhares de igrejas no mundo do primeiro século, recolhesse as profecias proferidas semana após semana, tomasse registro delas, e produzisse centenas de volumes das “palavras do Senhor”, as quais eles deveriam obedecer como obedecem às Escrituras? Realmente, não temos nenhum registro de que algo assim aconteceu, como também não temos sequer um registro ao longo do Novo Testamento de que as igrejas tenham registrado ou preservado essas profecias como se elas fossem as “palavras do Senhor”. Em vez disso, vemos que as igrejas preservaram e obedeceram os escritos e ensinos dos apóstolos, não dos profetas. (O livro do Apocalipse é uma profecia transmitida pelo Apóstolo João, mas isso apenas mostra que os apóstolos às vezes assumiam uma função “profética” ao atuarem como portadores de uma revelação especial da parte de Deus. Efésios 2:20 e 3:5 também falam dessa questão.) 

Isto significa que Atos 2 é uma passagem muito importante para assinalar a diferença entre a profecia do Antigo Testamento e a profecia do Novo Testamento. Pedro cita o cumprimento da profecia de Joel, que se deu no Dia de Pentecostes:

“E nos últimos dias acontecerá, diz Deus, Que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne; E os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, Os vossos jovens terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos; E também do meu Espírito derramarei sobre os meus servos e as minhas servas naqueles dias, e profetizarão” Atos 2:17,18

Pedro indica, dessa forma, que no Novo Testamento haverá uma distribuição incrivelmente ampla deste dom para todos os tipos de pessoas pertencentes ao povo de Deus: jovens e velhos, homens e mulheres, todos profetizarão. Esse ponto de vista faz muito sentido caso o dom de profecia tenha se tornado algo diferente na Nova Aliança, uma dádiva por meio da qual Deus, de fato, revela informações a Seu povo, sendo essa revelação relatada e comunicada pelos profetas em mera linguagem humana, não possuindo, portanto, aquela autoridade divina absoluta da qual goza as palavras do Cânon Bíblico.

A distribuição generalizada do dom de profecia constitui-se num forte argumento em apoio a posição de que as “profecias” na igreja do Novo Testamento não eram concebidas como se fossem as próprias palavras de Deus para seu povo, elas eram compreendidas como algo que detinha menor autoridade, que devia ainda ser testado, avaliado e julgado.   A compreensão neotestamentária das profecias envolvia a possibilidade de haver erros nos pronunciamentos proféticos e, por isso, era necessário que se discernisse o bom do mau, como Paulo ordena em 1 Coríntios 14:29 e 1 Tessalonicenses 5:20-21.

  • A mudança no ofício do sacerdote no Novo Testamento em comparação com o Antigo Testamento.

Uma terceira diferença diz respeito à mudança paralela na natureza do ofício de “sacerdote”. No Antigo Testamento, os sacerdotes eram compostos somente por membros da tribo de Levi, e, em cada geração, apenas um pequeno número foi selecionado para ministrar no Templo de Deus. O sacerdócio era um ofício limitado e restrito. Nos tempos da Antiga Aliança, vemos que os sacerdotes gozavam de um privilégio especial de acesso à presença de Deus no Templo, privilégio não facultado a outros em Israel.

Em contraste, na Nova Aliança todos nós nos tornamos sacerdotes: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real” (1Pe 2:9). Todos temos confiança para entrar no Santíssimo, porque obtivemos os direitos que estavam restritos aos sacerdotes no Antigo Testamento (ver Hebreus 10: 19-22; 12:22-24). O Apóstolo João escreveu: “Àquele que nos amou, e em seu sangue nos lavou dos nossos pecados, e nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo o sempre. Amém.” Apocalipse 1:5,6 (Ver também Apocalipse 5:10).

Agora, se eu fosse argumentar usando a mesma lógica do Dr. Robertson sobre o posto de “profeta”, eu diria: “O ofício de sacerdote no Novo Testamento tem que ser exatamente o mesmo que o ofício de sacerdote no Antigo Testamento! Portanto, somente pouquíssimas pessoas podem ser sacerdotes, e elas devem descender apenas de uma família. Também precisam oferecer sacrifícios no templo exatamente como se dava com os sacerdotes no Antigo Testamento “.

Obviamente, tal argumento seria um absurdo, pelo seguinte motivo: No Novo Testamento, da mesma maneira que a função de “sacerdote” se expandiu para todo o povo de Deus, as funções  do ofício de “sacerdote” também sofreu uma mudança significativa. Na Nova Aliança, todos somos sacerdotes mas não mais servimos em um templo terrestre ou oferecemos sacrifícios materiais, pois todos temos acesso direto a Deus em oração através do caminho que nos foi aberto pelo nosso grande Sumo Sacerdote Jesus Cristo.

O fato de ter havido uma mudança drástica na função de “sacerdote” da Antiga Aliança para a Nova, confere-nos evidências significativas de que a função de “profeta” também sofreu uma nítida mudança . Milhares de cristãos são agora “profetas”, no entanto, suas profecias não mais se constituem como um conteúdo a ser adicionado à Bíblia. Em vez disso, eles relatam coisas que lhes foram reveladas por Deus, todavia, suas palavras possuem autoridade humana apenas, não a absoluta autoridade divina das próprias palavras de Deus que integram o texto bíblico. Suas profecias não pertencem às Escrituras. Cumpre-nos testá-las e avaliá-las (1 Coríntios 14:29, 1 Tessalonicenses 5: 20-21).

Nem mesmo o paralelo com relação à mudança no ofício do sacerdote e suas implicações para a mudança na função de profeta é examinada pelo Dr. Robertson.  (Para ser justo com ele, não incluí esse argumento sobre a mudança que há no sacerdócio entre as duas alianças em O Dom de Profecia ou em O Dom de Profecia 2000. Mas ainda é surpreendente que ele argumente com tanta veemência para demonstrar que a função do profeta no Novo Testamento  deve ser da mesma natureza que a do Antigo Testamento, sem ter feito um consideração sobre a mudança paralela sobre outra importante função no Antigo Testamento, a saber, a função de sacerdote.)

Portanto, antes de examinar os versículos específicos que falam sobre o dom de profecia, é importante manter em mente que o Dr. Robertson não lidou com as três principais razões que nos fazem acreditar que o dom de profecia no Novo Testamento é de natureza distinta do dom de profecia presente no Velho Testamento: (1) que são apóstolos, não profetas, que escrevem as Escrituras no Novo Testamento; (2) que o dom de profecia foi amplamente outorgado para os membros da Igreja de Cristo, em contraste com o Antigo Testamento em que pouquíssimos possuíam o dom; e (3) que o paralelo observado na mudança da função de sacerdote sugere que haveria uma mudança semelhante na função de profeta também.

  1. O argumento com base em motivos ruins.

As primeiras páginas do capítulo do Dr. Robertson no qual ele interage com meu livro (Capítulo 4: “Defesa atual da continuação do Apocalipse”), relaciona meu ponto de vista com muitas pessoas que buscam a revelação atual de Deus por motivos equivocados. A primeira sentença é: “Ao longo da história da igreja, algumas pessoas buscaram a continuação da revelação especial de Deus para fornecer direção para suas vidas” (p.85). Em seguida, ele menciona os “romanistas” (um termo pejorativo para se referir aos católicos romanos), os “místicos”, pessoas que têm “grande dificuldade em se contentar com uma Palavra do Senhor escrita”, que buscam “evitar a responsabilidade pessoal de determinar a venda de sua casa e a mudança de sua família”. Dr. Robertson prossegue afirmando: “A busca por uma nova maneira de Deus revelar Sua vontade à parte das Escrituras, continua. Cada nova geração oferece um toque ligeiramente diferente sobre esse tema que está sempre vindo à tona. Uma nova abordagem nesse sentido foi bem formulada em uma obra de Wayne Grudem intitulada O Dom da Profecia no Novo Testamento e Hoje “(pp. 85-86).

Em resposta, eu poderia simplesmente dizer que meu motivo para defender um dom de profecia no qual as pessoas relatam o que Deus lhes revelou, mas sem a autoridade canônica das palavras da Bíblia, não tem nada a ver com apoiar ideias católicas ou místicos, muito menos para fugir de alguma responsabilidade pessoal, ou estimular pessoas que se divorciam por razões contrárias às Escrituras. Meu motivo é simplesmente ser fiel ao ensino da Palavra de Deus conforme a entendo.

  1. O argumento com base na história da igreja.

Dr. Robertson faz uma breve alusão aos líderes da Reforma. Ele diz:

“Os reformadores fizeram o que estava a seu alcance pela liberdade do predomínio das tradições da Igreja eram especialmente zelosos em proteger as gerações futuras das opressões criadas por pretensas palavras do Senhor. “Somente a Escritura” era seu grito intransigente. Somente a Palavra escrita de Deus, norma objetiva que todos os homens podem ver e ler, comunica a verdade infalível ao povo de Deus, uma vez que Deus não mais se utiliza dos métodos anteriores para revelar sua vontade à Igreja (Hb 1: 1). Mas a busca prossegue por uma nova maneira de Deus continuar revelando sua vontade sem ser pela Santa Escritura … (p.86).

Respondo essas colocações afirmando que concordo firmemente com o princípio da Reforma de que “Somente a Escritura” deve ser nossa regra de fé e prática no que concerne ao conhecimento necessário à salvação. Na verdade, escrevi um capítulo inteiro defendendo a doutrina da suficiência da Escritura (veja a minha Teologia Sistemática [Leicester, Inglaterra: InterVarsity Press, e Grand Rapids: Zondervan, 1994], pp. 127-138). Acredito com toda convicção que só a Bíblia é nossa única fonte da explícita palavra de Deus, absolutamente verdadeira e autoritativa para reger nossas vidas. Não devemos construir nenhuma doutrina ou padrões éticos para o povo de Deus sobre qualquer outro fundamento que não seja a Bíblia e a Bíblia somente.

Mas este argumento que toma por base a história da igreja não toca na questão sobre se Deus continuará a nos guiar e dirigir de maneira pessoal, seja através da orientação subjetiva do Espírito Santo, seja através do dom da profecia que transmite em palavras humanas algo que Deus trouxe à mente do profeta. De fato, na edição revisada do meu livro, O Dom de Profecia no Novo Testamento e Hoje, forneço evidências documentais a partir de vários líderes de renome da Reforma que mantinham um ponto de vista muito semelhante ao que defendo sobre o do dom de profecia. Esses líderes incluem o reformador escocês John Knox (1514-1572) e vários outros líderes da Reforma Escocesa, os autores da Confissão de Fé de Westminster (1643-1646), Samuel Rutherford (1600-1661), George Gillespie (1613 -1648), William Bridge (1600-1670), Richard Baxter, o famoso pastor puritano e escritor (1615-1691), e Charles Spurgeon, o famoso pastor batista reformado, da cidade de Londres (1834-1892) (as citações que fiz desses reformadores podem ser encontradas em O Dom de Profecia 2000, pp. 252-260).

A conclusão a que cheguei foi que muitos do povo de Deus ao longo da história sustentaram tanto a doutrina da “Escritura somente” como o fato de Deus continuar a revelar Sua vontade e fatos sobre as situações atuais no nível individual através do dom de profecia que opera até os dias de hoje.

  1. O argumento com base nas dificuldades práticas.

Várias vezes, o Dr. Robertson alega que se uma profecia hoje é dada afirmando que o Senhor está dirigindo uma pessoa de alguma forma, mas com a possibilidade de essa profecia conter erros, tal situação levaria à ambiguidade e à incerteza. Sobre esse ponto, uma seção me chamou tanto a atenção pelo caráter cômico e pela ótima articulação do texto que vale a pena citar essa parte aqui na íntegra:

“… suponhamos que um profeta entregue uma palavra à congregação com base em uma revelação que acabara de receber. Ele a relata como que um enunciado profético, como tem sido hipoteticamente proposto: “Você deve se casar com Philip” (página 167) [esta é uma referência ao meu livro O Dom de Profecia]. “Deve-se supor que o profeta de alguma forma tenha se confundido e que a pessoa a quem o profeta se dirigiu deveria se casar com Davi e não com o Filipe? Ou que profeta tenha dirigido sua palavra a uma pessoa quando na verdade deveria ter sido dirigida a sua irmã? Que vantagem há em um profeta que recebe a mensagem de uma forma tão confusa que a pessoa que a recebe não é capaz de dizer o que fazer? Por que Deus se daria ao trabalho de fazer uma revelação e, em seguida, delinear uma forma de comunicação de sua mensagem que seja confuso a ponto de ninguém ser capaz de realmente dizer o que ele fez ou  aquilo que não disse, nem mesmo o próprio profeta?” (pp. 91-92).

Dr. Robertson levanta objeções semelhantes em muitos outros pontos no livro (ver pp. 89-94, 120-123, por exemplo).

A questão geral aqui é se Deus trabalha com métodos que nos deixe inseguros quanto à determinação sobre se algo consiste em uma orientação divina ou não. Minha resposta é que Deus, obviamente, faz essa obra de uma forma que a maioria dos cristãos assimile sem dificuldades, quem sabe incluindo o próprio Dr. Robertson.

Por exemplo, será que Deus opera por meio de acontecimentos e circunstâncias fora do seu curso natural a fim de nos mostrar o que Ele deseja que façamos? Suspeito que o Dr. Robertson, com sua forte confiança na soberania de Deus, seja a favor da ideia de que (embora eu não tenha perguntado a ele) Deus trabalhe em meio à circunstâncias incomuns ou notáveis (ou “providências incomuns”) para nos dirigir e guiar em nossos deveres para com Ele. Entretanto, faz-se necessário, muitas vezes, que ocorra uma combinação de duas, três ou até mesmo quatro circunstâncias incomuns para que tenhamos uma crescente confiança de que Deus está nos direcionando para uma determinada direção.

Há também a questão do conselho de amigos piedosos. Na verdade, há poucos meses eu estava ao telefone com uma mulher que Margaret e eu conhecemos há muitos anos. No decorrer da conversa, disse a ela algo do tipo: “Acho que você deveria se casar com Philip” (esse não era o nome verdadeiro dele). Considerei isso não como uma profecia, mas como um conselho de quem se preocupa, e acho que ela não tomou meu conselho como um mandamento do Senhor, mas como uma palavra de consideração dada por um amigo cristão experiente e bem-intencionado que a conhecia por muitos anos. Ela decidiu se casar com o homem imediatamente? Não. Ela desconsiderou completamente minhas palavras? Não. Acredito que ela recebeu as palavras como um conselho útil, que pode ser uma das maneiras pelas quais Deus a estava ajudando a decidir o que fazer em seu relacionamento com esse homem. Ela não ignorou minha opinião. Ela não a recebeu imediatamente como uma “palavra do Senhor”. Simplesmente a recebeu como um fator entre muitos que comporia o complexo processo de tentar decidir por um curso de ação que viesse a agradar ao Senhor em relação à sua vida. Essa mesma experiência faz parte das atividades comuns e diárias de todos os cristãos e não há nenhuma impossibilidade de colocá-la em prática.

Então, minha pergunta é esta: Será que, às vezes, Deus usa circunstâncias providenciais e conselhos de amigos para nos ajudar e nos guiar na vida diária? Sim, pelo menos do meu ponto de vista. Isso torna a vida cristã uma confusão impraticável? Não, de forma alguma.

Podemos, portanto, encontrar algo valioso, em vez de confusão, em um dom de profecia no qual as pessoas dizem o que imaginam que Deus lhes revelou, embora sem uma certeza cabal? Sim, certamente.  

Sou testemunha ocular da enorme eficácia desse dom operando dessa maneira, sem causar confusão entre o povo de Deus. Ele funciona como um meio adicional, muitas vezes de grande utilidade, por meio do qual Deus revela a verdade sobre uma situação particular ao seu povo.

Aliás, na mesma página da qual o Dr. Robertson retirou a citação: “Você deve se casar com Philip”, eu explico com mais detalhes como isso acontece. Aqui está a citação em seu contexto completo:

“Em termos práticos, isso significa que se uma profecia contém palavras de instrução ética (“Você não deve ir a Londres”, ou “Você deve deixar seu trabalho e dedicar todo o seu tempo à pregação” ou “Você tem de casar com Filipe”). Essas instruções não devem ser entendidas como obrigações divinas mas como o relato bastante preciso (mas não infalível) do profeta de algo que ele pensa (embora não com absoluta certeza) lhe foi revelado por Deus. A pessoa ou as pessoas a quem a profecia foi dirigida devem responder da mesma maneira que responderiam à pregação ou conselho pessoal… O ouvinte deve avaliar (1 Coríntios 14:29) a profecia, o sermão ou o conselho em conformidade com a Escritura, com os ensinamentos recebidos e com fatos cuja veracidade já é atestada” (O Dom de Profecia, 167-168 = O Dom de Profecia 2000, 141-142).

Gostaria de acrescentar mais um comentário pessoal. Em minha própria vida particular, muitas pessoas já vieram a mim e disseram que “o Senhor disse” a elas algo sobre o que eu deveria fazer ou não fazer. (Tente escrever um livro sobre o dom de profecia e você vai descobrir rapidamente quantas pessoas se sentem livres para escrever cartas com este tipo de coisa!) Em muitos casos, trata-se de pessoas que eu nem conheço, e a suposta “palavra de O Senhor “não demonstra nenhum conhecimento de quem eu sou, de minha situação pessoal, ou de minha profunda compreensão do que Deus quer que eu faça com a minha vida. Nesses casos, sinto-me totalmente livre para ignorar estas mensagens. Se Deus quiser fazer algo para que eu perceba, ele o fará de uma forma muito mais evidente.

Já em outros casos, quem se aproximou foi um pastor que eu respeito, ou um amigo próximo que eu conheço há anos, um colega de minha igreja que tem mais experiência que eu, ou mesmo minha maravilhosa esposa Margaret. Eles me disseram que estavam com a impressão de que o Senhor lhes havia lhes mostrado algo e que se sentiam no dever de compartilhar comigo, pois estava relacionado com minha vida. Nesses casos, quando essas palavras vêm de cristãos maduros que conheço bem, presto mais atenção. Em várias ocasiões, Deus falou mediante estas palavras para me ajudar de diversas maneiras: me encorajar numa direção que queria seguir, mas não tinha certeza; me estimular quando eu estava ficando desanimado com alguma atividade do ministério; fazer com que eu reconsiderasse alguma ordem de prioridades na minha vida; ou mesmo me pedir para fazer um telefonema e entrar em contato com um velho amigo, e, como resultado dessa ligação, ser muito abençoado em meu ministério. Em algumas situações, essas palavras levaram ao arrependimento de um pecado até então desconhecido, ou que eu tinha esquecido. Estas experiências têm sido valiosas, e creio que Deus as usou significativamente.

Assim, parece-me que as situações hipotéticas, artificiais, ainda que engraçadas, que você, Dr. Robertson,  fabricou em seu livro são muito diferentes da realidade do dom da profecia como o vi funcionando em minha própria vida e nas vidas de outros cristãos que conheço e amo. Na prática, as dificuldades que você imagina são muito exageradas. Em uma igreja madura onde há ensinamento sólido da Palavra e onde as pessoas são ensinadas a não tomar profecias como uma “palavra do Senhor”, mas como algo que uma pessoa pensa que Deus pode ter revelado, então, não é tão difícil de processar essas coisas de uma maneira sábia e responsável. Tal procedimento assemelha-se bastante com a maneira de avaliarmos o conselho de um amigo piedoso e experiente, que imagina ter compreendido algo da vontade de Deus para nós e vem com uma palavra de conselho.

Um outro assunto deve ser abordado neste ponto. O Dr. Robertson não acredita que Deus possa trazer para nossas mentes palavras que Ele não queria que entendêssemos como suas próprias palavras. Dr. Robertson diz o seguinte sobre minha posição:

“Mas, para levar a confusão um pouco mais adiante, Deus poderia até ‘fazer com que venham à mente as palavras que ele não quer que tomemos como suas próprias palavras’ (p.121). Talvez seja necessário repetir esta última afirmação para que seu significado completo possa ser apreendido. De acordo com esta nova visão da profecia, Deus poderia até “fazer com que venham à mente as palavras que ele não quer que tomemos como Suas próprias palavras” (p.121, itálico acrescentado). Como poderia alguma coisa estar mais longe do conceito bíblico de profecia? O que poderia contradizer mais radicalmente a natureza do Deus de toda a verdade? Teria ele um profeta para servir como seu porta-voz e, no entanto, faria com que as palavras que viessem à mente não sejam aquelas que Ele próprio quer que o povo considere como sendo as Suas? Não, Deus não é o autor de tal confusão (Robertson, The Final Word, p.91).

Quando olhei novamente para esta frase na primeira edição do meu livro, percebi que eu não tinha explicado de forma clara o que quis dizer. Foi então que percebi que eu havia adicionado uma frase explicativa na segunda edição do livro:

“Na verdade, Deus pode fazer com que palavras que venham à mente não sejam entendidas como sendo Suas. Por exemplo, ele pode trazer à mente palavras que gostaríamos de lembrar ou imaginar outra pessoa dizendo a nós (O Dom de Profecia 2000, p.100).

[…] continua…


Tradução: Reginaldo Castro

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Categorias: Dom de Profecia,Reforma & Carismas

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