Vibia Perpétua: sobre a virtuosa vida montanista caracterizada no martírio

Quando nos dedicamos ao estudo da Paixão de Perpétua (Passio Sanctarum Perpetuae et Felicitatis)[1], texto de segunda categoria das atas dos mártires africanos, registrada pelos agentes ou por testemunhas oculares, somos logo apresentados à virtuosidade cristã que marcou o início do século três em Cartago, Tunísia, África. As ocorrências do relato demonstram características próprias do Montanismo, porquanto não podem ser classificadas como práticas de cristãos não-montanistas devido ao formalismo imperante já neste período, ou seja, a falta de convicção, de visões e de profecias entre os cristãos nominais e formalistas. Como vimos em nosso artigo anterior, Perpétua foi uma cristã de linha montanista[2] que enfrentou o martírio sem temor, afastando o pensamento de que os montanistas acovardavam-se diante da morte. As próximas linhas serão dedicadas a fornecer alguns dos momentos de Vibia Perpétua no cárcere, juntamente com Felicidade e os outros catecúmenos[3] que com ela foram presos através dos quais foram explicitadas algumas características de sua fé.

Cartago ficava muito distante de onde o movimento montanista surgiu. Por isso, duas hipóteses podem ser levantadas para entendermos como os montanistas alcançaram-na: trajeto marítimo pelo Mediterrâneo, passando por Roma, capital do império, ou percorrendo por terra as estradas imperiais desde a Frígia, passando pela costa da Ásia Menor e pela costa africana; ambos fazendo percursos na mesma disposição das viagens missionárias do apóstolo Paulo, viabilizada pelas estradas dominadas por Roma. Cartago era uma das cidades mais prósperas devido ao comércio marítimo efervescente com fluidez de indivíduos muito intensa, razão que a tornava um chamariz para missões. Com a expansão montanista e para demonstrar sua passagem por determinadas cidades, tanto em Roma como em Jerusalém, encontramos quem se opôs ao movimento: Hipólito de Roma (contemporâneo) e Cirilo de Jerusalém (extemporâneo) foram alguns de seus opositores cujos escritos testemunham a falta de espiritualidade e bom senso cristão para compreender daquele despertamento espiritual.

Pelos relatos históricos, Perpétua era uma recém-convertida montanista. O período de catecumenato era de aproximadamente três anos e durava até o batismo. Foi neste momento que ocorreu sua prisão, simplesmente por confessar o nome de Cristo como Senhor. Enquanto ficou presa, dedicou-se a escrever seu próprio drama. Além disso, consideramos como muitos estudiosos o fazem, Tertuliano como a testemunha ocular que escreveu parte de sua paixão. No prólogo, Tertuliano faz menção às promessas espirituais e sobrenaturais que haveriam de vir sobre os cristãos, citando o discurso de Pedro em Atos 2:17 e 18, dizendo: “… em todos os momentos é a mesma virtude do Espírito Santo, e ainda mais abundante nos últimos tempos…”. Deste modo, “…nós reconhecemos e respeitamos as visões e profecias anunciadas, bem como outras manifestações do Espírito Santo, como úteis à Igreja, o qual Ele é enviado e reparte a todos seus dons, conforme a medida que o Senhor designou para cada um”. Neste momento, o escritor atesta sua confissão sobre a ininterruptibilidade ou perpetuidade dos dons manifestados em Atos para as gerações posteriores da Igreja, pois assevera: “Por isso temos feito esta narração cuja leitura servirá para glória de Deus, a fim de que a ignorância ou o desânimo não leve a crer que só aos antigos lhes assistiu a graça divina do martírio e da revelação”. Portanto, havia um entendimento de que aqueles que estavam no caminho do martírio seriam privilegiados por visões e sonhos.

Na narrativa, lemos que o primeiro dilema de Vibia Perpétua foi de natureza familiar. Seu pai tentava dissimula-la para que negasse a fé e retornasse à vida de pompa que tinha a fim de cuidar de seu filho e desfrutar das benesses dos bens materiais, além de ficar livre da condenação romana. Vivendo em lar esplendoroso e sob um regime patriarcal, seu pai, inclusive, com vigor e força, ficando em alguns momentos fora de si, tentou fazê-la desistir daquele propósito. Razão que Perpétua chamou sua retórica de “argumentos infernais”.

Além dessa circunstância, ela encontrava-se debaixo de ordem judicial, mas tinha desejo de se batizar. Foi neste ínterim, então, que lhe permitido cumprir o ritual cristão que demonstra ao mundo a novidade de vida adquirida interiormente. Porém, poucos dias depois foi encarcerada e o duro sofrimento da prisão começou a padecer.

Após sua prisão, seu pai ainda tentou levá-la a uma negação, levando seu pequeno filho antes de ela apresentar-se ao procônsul Hilariano que a interrogaria para sensibilizá-la, dizendo:

“Filha minha, compadece-te de minha velhice; apieda-te de teu pai, se é que mereço tal nome… graças aos meus cuidados tem chegado à flor da juventude e sempre tem tido a primazia em relação aos teus irmãos, não me faças ser a vergonha dos homens, pensa em teus irmãos, em tua mãe, em tua tia; pensa em teu filho que não poderá viver sem ti. Abandona teu propósito que seria para todos nós a perdição.”

Entretanto, ela foi resoluta, cumprindo o ensino do mestre firmemente e não negou a Cristo, pois sabia que “Quem ama o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mateus 10:37). Para eles, o que estava em causa era uma simples negação de Cristo. Se o condenado negasse o nome de Cristo, posteriormente o poderia confessar novamente, como disse Hilariano, sem maiores problemas. Mas, era princípio montanista a não negação do Filho de Deus. Sabiam que isso resultaria em ultraje ao Nome do Senhor e a uma exaltação de um mero mortal, o imperador de Roma. Perpétua foi sincera e firme quando foi interrogada por Hilariano: “Apieda-te da velhice de teu pai e da delicadeza do menino. Sacrifica pela saúde dos imperadores”. E ela respondeu: “Não sacrifico”. Ao que o procônsul perguntou-lhe, na iminência de impetrar a sentença de morte: “És cristã?”. E ela, com toda a singularidade, lhe respondeu: “EU SOU”. Esse ato configurava-se em traição ao imperador, pois o culto ao imperador era a finalidade para manter-se a uniformidade política. Devido ao decreto do imperador Sétimo Severo que proibia a conversão ao Cristianismo, Perpétua foi condenada.

Não podemos deixar de mencionar que neste momento somos provocados a uma inquietação sobre um aspecto matrimonial de Perpétua e de Felicidade. Perpétua com um filho que amamentava e Felicidade prestes a conceber nos provocam uma pergunta: onde estão seus maridos? Há quem justifique a ausência dos esposos devido à conduta semelhante de Maximilla e Priscila, conforme atestou Eusébio de Cesareia o qual dizia que ambas tinham abandonado seus cônjuges segundo orientação de Montano (Eusébio: 2005, p.177)[4]. De acordo com o explicitado no diálogo com seu pai, percebemos um aspecto de firme convicção sobre o Cristianismo e a vida familiar em Perpétua. Ela sabia, primeiramente, que apesar dos objetivos errados de seu pai em tentar dissuadi-la, havia um sentimento de amor, como ela mesmo menciona: “Estando eu ¾ disse ela ¾ com os perseguidores, como meu pai guiado por amor natural se esforçava para desviar-me do meu propósito e perder-me…”. Apesar da identificação do amor, que é sentimento muito nobre de sua parte, percebe-se o seu discernimento espiritual: esse amor estava viciado pela efemeridade da vida de modo que o pedido paterno ocasionaria para ela perda eterna. Sua atitude foi de fato de amor para com seu pai, demonstrando para ele o valor de Cristo e da eternidade. Fazendo uma metáfora com um jarro, dizendo que o jarro não poderia ser chamado de outro nome, em comparação ela afirmou: “Da mesma maneira eu não me posso chamar de outra coisa que não seja Cristã”. Assim, percebemos uma cristã resoluta que não sedia ante as opressões contra os preceitos cristãos. Possivelmente, seu marido a tenha abandonado e não o contrario. Como o regime patriarcal estava em evidência, uma mulher que não cumpria com os caprichos do marido não lhe era digna, seria algo humilhante para o homem da época. Nesse contexto, o abandono seria uma decisão que exaltaria o homem já que o mesmo era o supridor do lar e o faria reconhecido na perspectiva cultural. A mesma hipótese cabe para Felicidade, apesar de ser ela escrava de Perpétua (o Dr. Rex Butler é de mesmo parecer). A hipótese de viagem do marido na época da prisão é também defendida.

As visões e os sonhos

A possibilidade do sobrenatural era tão oportuna pela iminência do martírio que entre eles se propunham a orar a Deus pedindo revelações. Acreditavam que as revelações eram para si maiores privilégios porque não negaram a fé e estavam prestes a ser martirizados pelo bondoso nome de Cristo. Um irmão, então, a pediu: “Senhora irmã, agora estás elevada a uma grande honra, tanta que me atrevo a pedir-te que ores a Deus para que te mostre se isto terminará com o martírio ou com a liberdade”. Ela lhe respondeu: “Amanhã te direi”. Era muito corriqueira na Igreja Primitiva a ocorrência de línguas, profecias e visões. Lembremo-nos de Estevão (vendo Cristo no trono em pé para recebê-lo), Pedro (na visão para pregar a Cornélio e a sua família) e de Paulo (elevado até o terceiro céu) e também da promessa de que essas manifestações ocorreriam na Igreja pós-apostólica. Naquela noite, teve a visão de uma longa escada de bronze com algumas características: estreita, cravada de toda sorte de instrumentos cortantes de suplício (espadas, lanças, ganchos, punhais etc). Quem por ela se aventurava a subir até o último degrau era vitimado por cortes dos mais terríveis. No pé da escada havia uma serpente enrolada que tentava impedir quem seguia para a escada. Saturo, seu mestre, foi o primeiro a subir e lá de cima bradou: “Perpétua, espero-te aqui; tenha cuidado para que o dragão não te morda”. Assim, Perpétua ordenou contra a serpente que também é um dragão: “Confio no nome de Nosso Senhor Jesus Cristo que não me fará dano”. Assim o dragão foi desencorajado, permitindo que Perpétua subisse até o alto, pisando em cima da cabeça da serpente, encontrando um pasto e um ancião com traje de pastor que lhe disse: “Tens chegado com felicidade, filha”.

Na primeira visão, percebemos uma rica simbologia com as figuras bíblicas que ilustraram a realidade na qual estava agraciada nossa testemunha. O caminho para o céu, as agruras pelas quais passaria, as investidas de satanás e o gozo eterno com o Salvador. Portanto, uma visão muito alinhada com o preceito das Escrituras que a induziu a crê que lhe estava próximo o martírio. Com isso, foi confortada e assegurada pelo Senhor que em breve estaria em seus braços.

Sua próxima visão ou sonho é um pouco mais trabalhoso. Trata-se de uma revelação sobre seu irmão que havia morrido em decorrência de um câncer facial. Dinócrates morreu aos sete anos de idade, após padecer durante anos deste mal irreparável. Relatamos o fato: estando Perpétua no cárcere, veio-lhe a lembrança do irmão que a incomodou. Ela imaginou que ele estava padecendo em um mundo espiritual de modo que começou a interceder por ele. À noite, ela relatou que o viu em grande agonia, acreditando que carecia de suas preces para sair de tão horrenda circunstância. A nosso ver, um erro interpretativo da manifestação divina que poderia ser cometido por quem não havia completado o período do catecumenato, sendo inclusive batizada antes de seu final em decorrência de sua ida para o cárcere, enquanto estava em prisão domiciliar. Se pensarmos bem, lembraremos que Jesus nos ensinou que das crianças é o Reino dos Céus (Mt 19:14). Havemos de convir que uma das garantias do céu é a inocência de uma criança, conforme asseverou Jesus. Acreditamos, na verdade, que aquela visão ou sonho era para lhe consolar o coração. Ela o teve para que pudesse vislumbrar a vida pregressa de sofrimento pela qual seu irmão padeceu. Não se tratava de uma realidade paralela na qual ela deveria intervir, mas uma menção ao sofrimento passado dele para pudesse ser encorajada e dissesse: “assim como meu irmão passou pela dor e sofrimento, também eu passarei”. Concluímos por essa via de entendimento porque na noite seguinte ela tem uma nova revelação na qual encontra seu irmão totalmente diferente. O menino estava completamente restaurado e sem qualquer vestígio de dor, antes estava num lugar revestido de uma luz fulgurante na qual habitava. No entanto, o catolicismo romano toma o relato para dogmatizar uma prática não cristã, porque acredita que a intercessão em favor dos mortos é possível. Porém, biblicamente falando, a morte conduz ao juízo (Hb 9:27) de modo que não resta mais nada a fazer após essa sentença.

Ainda há mais outras revelações no relato de Perpétua que seguem os mesmos padrões acima descritos. São padrões que nos fazem identificar e qualificar as características montanistas, demonstrando a vivacidade para marcar seu tempo com os mesmos valores da Igreja Primitiva. Tertuliano que vivia em Cartago presenciou o drama de Perpétua, Felicidade, Saturo, Saturnino e Revocato, registrando na Paixão um prólogo e uma conclusão. Deste modo, verificamos as convicções espontâneas e fundamentadas nos preceitos cristãos, um comportamento confirmatório da abnegação cristão e a percepção dos dons que se limitavam às Escrituras Sagradas entre os que professavam uma fé montanista.


Referências

Butler, Rex. The New Prophecy and ‘New Visions’: Evidence of Montanism in ‘The Passion of Perpetua and Felicitas’. Mountain Home, Arkansas, USA: BorderStone Press, LLC, 2014.

Eusébio de Cesareia. História Eclesiástica. São Paulo: Fonte Editorial Ltda, 2005.

Santos, Francisco Heládio Cunha dos. Montanismo e os profetas catafrigas: uma análise contra-hegemônica da História do movimento montanista. Fortaleza: Moriá Editora, 2011.

[1] É o documento mais antigo escrito por uma mulher cristã.

[2] Conforme conclusões de Justo L. Gonzalez e do Dr. Rex Butler, ambos estudiosos renomados da História da Igreja. O Dr. Rex Butler, pastor australiano, também fez pesquisas arqueológicas em Pepuza, na Turquia, em busca de maiores informações sobre o movimento montanista juntamente com Willian Tabbernee, professor e acadêmico nos Estados Unidos.

[3] O catecumenato era um processo de aprendizado do cristão que o tornava habilitado para o batismo e firme nas verdades bíblicas. O recém-convertido, para ingressar na comunidade cristã, passava um período de três anos de estudos e de acompanhamento. Exigia-se uma mudança drástica na vida secular, principalmente, devido ao sistema religioso e politeísta de Roma que era muito flexível e liberal na relação de moral com os preceitos de Cristo.

[4] Veja também as explicações sobre o assunto em Santos, 2011, p.136-142.

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