CALVINO E O CALVINISMO INGLÊS ATÉ 1649 – INTRODUÇÃO – PARTE 1

Por R.T. Kendall

Em 1589, quando a controvérsia eclesiológica protestante na Inglaterra de Isabel I estava no auge, William Perkins publicou sua primeira grande obra: Um tratado tendendo a declarar se um homem está na condição de condenação ou no estado de graça; se está no primeiro, como pode com o tempo sair dele: se no segundo, como pode discerni-lo, e perseverar no mesmo até o fim.Este tratado inaugurou uma nova era na teologia inglesa. Os escritos de Perkins geralmente enfatizam a soteriologia, não a eclesiologia, e Whether a Man (Se um Homem) assume particularmente uma doutrina de fé, por mais refinada ou modificada que seja por seus seguidores, que recebeu aprovação da Assembleia de Westminster (1643-49). Embora sua magnum opusseja mais sistemática, o Tratado de 1589 apresenta graficamente a questão central do meu livro.

Este livro está preocupado com a natureza da fé “salvadora” (que somente os eleitos de Deus possuem) em oposição à fé “temporária” (que os reprovados, ou não eleitos, podem ter). A preocupação fundamental na teologia de Perkins e seus seguidores se concentra na questão: como se pode saber que ele é eleito e não reprovado? A doutrina da dupla predestinação3é uma suposição da tradição de Perkins. Portanto, sua doutrina de fé é desenvolvida no contexto em que todos os homens são eternamente predestinados para a eleição ou reprovação, salvação ou destruição, céu ou inferno.

Tem sido geralmente assumido que William Perkins e seus seguidores eram seguidores do reformador genebrino João Calvino e que a teologia adotada na Confissão de Fé de Westminster era o verdadeiro calvinismo, ou, pelo menos, a extensão lógica de seu pensamento.4

B.B. Warfield afirma que não há nada na Confissão de Westminster “que não seja encontrado expressamente nos escritos” de João Calvino.5Esta suposição foi aceita de maneira bastante acrítica pela maioria dos teólogos e historiadores em geral, em sua base os presbiterianos e batistas em particular.6Enquanto os presbiterianos traçam suas raízes teológicas na Confissão de Westminster, a maioria dos batistas traça suas raízes pelo menos até a Segunda Confissão de Londres (1677) que seguiu a Confissão de Westminster quase que literalmente, exceto por declarações relativas à eclesiologia.7

Igrejas reformadas geralmente olham para a Confissão Belga (1561) através do Sínodo de Dort para seus primórdios teológicos.8Em uma palavra: um bom número de corpos protestantes no mundo ocidental está de algum modo em dívida com a Confissão de Westminster ou com o Sínodo de Dort para grande parte de sua herança teológica.

Este livro tenta, em parte, reavaliar a hipótese de que a soteriologia de Calvino foi fielmente sustentada pelos veneráveis deputados que elaboraram a Confissão de Westminster e os catecismos Breve e Maior. O presente livro não é o primeiro a afirmar que Calvino defendia que Cristo morreu por todos os homens. Moise Amyraut (1596–1644) aparentemente pensava que ele somente seguia Calvino quando insistia que Cristo morreu por todos os homens.9O teólogo escocês William Cunningham (d. 1861) admitiu que uma incerteza a respeito da posição real de Calvino surgia por vezes, mas concluiu: “nenhuma evidência suficiente foi apresentada de que Calvino sustentou que Cristo morreu por todos os homens, ou pelo mundo inteiro”.10

A doutrina da expiação em Calvino, no entanto, não é o assunto deste livro. Um estudo definitivo sobre isso ainda está para ser escrito. O que segue é um estudo da natureza da fé salvadora em William Perkins e seus seguidores contra o contexto do que Calvino cria acerca da fé. A doutrina da expiação em Calvino entra em cena pela conexão inseparável com sua compreensão da segurança. Eu espero espera fazer uma contribuição lançando alguma luz sobre: (1) a relação entre a fé salvadora, a morte de Cristo e a intercessão na teologia de Calvino; (2) a relação da fé com a morte de Cristo na teologia de Theodoro Beza; (3) a aparente dependência de Perkins sobre Beza e certos teólogos de Heidelberg do século 16; (4) o modo pelo qual o voluntarismo (fé como um ato da vontade em contraste com uma persuasão passiva na mente), ganhou ascensão na tradição de Perkins; (5) o destino vacilante da doutrina da fé temporária entre aqueles cujo pensamento foi moldado pela tradição Perkins.

As principais questões sobre as quais este estudo será centrado podem ser brevemente resumidas: (1) se o “assento” da fé está localizado no entendimento ou na vontade do homem; (2) se a fé precede o arrependimento na ordo salutis (ou vice-versa); (3) se a garantia da salvação pode ser desfrutada por um ato de fé “direta” ou se tal segurança deve ser adiada até que venha um ato “reflexo” de fé; (4) qual é o fundamento da segurança; e (5) que lugar tem uma doutrina de fé temporária em uma teologia que faz da santificação ou arrependimento a base da segurança.


NOTAS:

1Doravante chamado Whether a Man. Esse foi seu primeiro livro a alcançar ampla popularidade. Ver infra, p. 51 n. 2, para referências às obras de Perkins a serem usadas abaixo. 

2Armilla Aurea (1590), traduzido como A Golden Chaine(1591).

3Esta é a crença de que Deus predestinou certo número de homens para a salvação (os eleitos) e certo número de homens para a perdição (os réprobos); esse número não pode ser aumentado nem diminuído por nada que os homens possam fazer.

4O mesmo poderia ser dito para o Sínodo de Dordrecht (Dort), 1618-1919, que defendeu os famosos Cinco Pontos do Calvinismo, popularmente lembrado pelo acrônimo TULIP: Depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. J. I. Packer diz que a fórmula da expiação limitada do Sínodo de Dort declara o que Calvino “teria dito se tivesse enfrentado a tese arminiana”. “Calvin the Theologian”, John Calvin,Abingdon, 1966, p. 151. A expiação limitada é a crença de que Cristo morreu apenas pelos eleitos.

5B. B. Warfield, Studies in Theology(1932), 148. Cf. A. A. Hodge, The Atonement, 1868, p. 357-67; e William Cunningham, The Reformers and the Theology of the Reformation, 1862, p. 397.

6Frank S. Mead em Handbook of Denominations in the United States, Nashville, 1975, p. 217, quando se refere à influência de Calvino sobre o presbiterianismo, afirma que o “sistema” de Calvino pode ser “resumido em 5 pontos principais”, o que significa aqueles descritos anteriormente na nota 4. Ele também se refere a “igrejas batistas particulares ou calvinistas”.Ibid., p. 37. Batistas Particulares foram assim chamados por sua crença na “redenção particular”, um termo usado de forma intercambiável com a expiação limitada.

7A maioria dos batistas existentes atualmente, incluindo a Convenção Batista do Sul (aproximadamente 13 milhões de membros), é originária dos batistas particulares do século XVII. Uma pequena minoria de batistas, incluindo os batistas gerais na América (aproximadamente 70.000 membros), é rastreável até os “batistas arminianos”. Veja minha obra The Rise and Demise of Calvinism in the Southern Baptist Convention, Dissertação de mestrado não publicada, University of Louisville, 1973.

8John A. Leith, Creeds of the Churches, Richmond, 1973, p. 127ss. A Declaração de Savoy (1658), a primeira grande confissão do Congregacionalismo, seguiu a Confissão de Westminster quase que literalmente, exceto nas questões eclesiológicas.

9Brian G. Armstrong, Calvinism and the Amyraut Heresy: Protestant Scholasticism and Humanism in Seventeenth–Century France, Madison, 1969, p. 130–60.

10Cunningham, op. cit. p. 397.

CONTINUA NA PRÓXIMA SEMANA!

Categorias: Reforma & Carismas

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