CALVINO E O CALVINISMO INGLÊS ATÉ 1649 – INTRODUÇÃO – PARTE 2

Nosso método será traçar a doutrina da fé de William Perkins através de seus mais proeminentes seguidores até a Assembleia de Westminster e fazer uma avaliação se a teologia de Westminster pode ser considerada o legado teológico da tradição de Perkins.11 O argumento principal começará quando a doutrina da fé de Perkins for definida no contexto de seus precursores continentais e ingleses. Os principais seguidores de Perkins serão examinados até (e incluindo) as controvérsias antinomianas (na América e na Inglaterra) que precederam a Assembleia de Westminster. Uma característica subsidiária interessante emerge no estudo, na demonstração do surpreendente grau de reciprocidade existente entre a teologia de Westminster e a doutrina da fé em Jacó Armínio.

Parece não haver nenhum estudo comparável ao proposto a pouco.12 Isso é realmente notável, considerando-se que os documentos emitidos pela Assembleia de Westminster são considerados os mais influentes na história do protestantismo. O estudo mais próximo do proposto neste livro é Norman Pettit, The Heart Prepared (O Coração Preparado, New Haven, 1966), que trata da doutrina da preparação para a graça no período geral abordado neste livro. Embora o estudo de Pettit não termine com a Assembleia de Westminster (nem ele trata disto), seu trabalho não pode passar despercebido, pois muitos dos teólogos a serem examinados aqui são tratados por ele. A doutrina da preparação, além disso, está essencialmente ligada à sua doutrina da fé. O livro de Pettit procede de um erro fundamental e, consequentemente, apresenta uma interpretação incorreta de muitos de seus escritores. Pettit parece não entender a conexão inseparável entre a preparação para a graça e a garantia da salvação na teologia daqueles que ele estuda. Será demonstrado adiante que a preparação para a fé equivale a garantia da eleição. O equívoco de Pettit parece dever-se em grande parte à sua incapacidade de compreender a natureza da doutrina da reprovação nos teólogos que ele trata. Ele fala sobre se alguém está “completamente reprovado ou talvez em algum lugar entre a reprovação e a regeneração”.13 Nenhum dos teólogos ingleses em seu livro falaria assim desde que assumiram a reprovação como designada e fixada pelo decreto eterno de Deus; somente os eleitos, nunca os réprobos, poderiam ser regenerados.14 Pettit não parece perceber que era a doutrina da predestinação, particularmente a doutrina da reprovação, que estava por trás da necessidade de uma doutrina de preparação em primeiro lugar. Esses clérigos eram pastores que enfrentavam pessoas com medos aterradores de que pudessem ser reprovadas, e não eleitas. A própria ideia de preparação surgiu como uma lógica pela qual as almas ansiosas podiam determinar, o mais rápido possível, que não eram eternamente condenadas. Por esta razão, então, estar preparado também significava ter certeza de que Deus estava operando a salvação neles. Pettit não lida com a doutrina da segurança, um assunto que ele não poderia ter evitado se tivesse visto as implicações fundamentais da doutrina reformada da predestinação.

A preparação para a fé, posto que será uma questão neste livro, pode ser simplesmente entendida como o processo pelo qual um homem se dispõe a crer. Esse processo deve ser visto em grande parte como uma função da Lei de Deus e é o que pode ser incluído no processo de regeneração, mas antes da fé, ou antes, tanto para a regeneração quanto para a fé. A regeneração pode ser definida como o dom de salvar a vida que caracteriza os eleitos, nunca os reprovados. Em outras palavras, saber que alguém é regenerado é saber que ele é eleito para a salvação.

Agora é necessário recorrer à outras definições de termos. É comum referir-se às principais figuras deste livro como “puritanos”. Embora todos provavelmente concordem que “é difícil encontrar um denominador comum”15 do “puritanismo”, os estudiosos, no entanto, mantêm o termo. Basil Hall, que não aceita o termo sem críticas, tenta resolver o problema limitando o “puritanismo” àquelas pessoas “sérias” na Igreja da Inglaterra antes de 1642 “que desejavam algumas modificações no governo da Igreja”.16 Essa conclusão é alcançada após sua alegação de que “é certamente razoável para os historiadores usarem uma palavra como foi usada por aqueles que a produziram”.17 Se assim for, é certamente razoável não usar o termo com respeito aqueles que o rejeitaram. Perkins o rejeitou e o chamou de um termo “vil”.18 Mas Hall relaciona Perkins com aqueles que ele afirma serem “puritanos de fato”,19 embora Perkins nunca tenha publicado uma palavra pedindo modificações no governo da Igreja, nem sugere qualquer tipo de governo eclesiástico.

Davies refere-se aos “puritanos” em geral para denotar aqueles que viam a Igreja como “incompleta”.20 Sasek segue a mesma linha, mas admite que sua definição “cria problemas mais graves do que resolve”.21 Parece então que se alguém aceita o termo “puritano”, é preciso, se for coerente, reajustar a definição para se adequar a um homem de cada vez, ou, se estiver lidando com uma tradição, começar com uma definição e acabar com outra.22 Trinterud tenta resolver a questão oferecendo três categorias de “Puritanismo”,23 e Porter sugere quatro.24

Estudos recentes no período desta tese foram dominados por interesses literários, históricos e sociológicos; os teólogos ficaram para trás. Dos vários estudos teológicos desde os trabalhos de Perry Miller, poucas surpresas surgiram. Portanto, é necessário um novo começo, e este livro começará deixando de lado o termo tradicional. Embora haja mérito em chamar alguns dos teólogos deste livro de “puritanos”, o presente estudo considera o termo geralmente pouco útil.

Por isso, este livro adotará um termo que representa objetivamente o impulso teológico de suas figuras centrais. A preocupação fundamental desses teólogos é o conhecimento da fé salvadora; essa preocupação é aumentada pelo fato de sua soteriologia ser completamente predestinacionista. Quem ouvisse seus sermões, naturalmente temia que ele fosse um daqueles que Deus predestinou para o Inferno, e “ele não conhecia quel era seu destino, então o suspense o torturava”.25

É crucial compreender a doutrina de Perkins sobre a fé temporária dos réprobos. Enquanto um predestinarismo rígido não era novo para a teologia inglesa, o era a doutrina de Perkins e o uso da noção de fé temporária que é a ideia central em sua obra Whether a Man. Esta obra realmente começa com a presunção do inalterável decreto de reprovação. Seu título abrangente é dado como uma advertência para os cristãos professos examinarem a si mesmos, para que eles não possuam uma fé temporária – posição elevada à qual os réprobos, embora condenados desde o início, podem alcançar. Em seu prefácio, Perkins cita a parábola do semeador (Lc 8.4-15) e insta seus leitores a considerarem que um homem “pode conduzir a si mesmo, e à Igreja de Deus, para ser um verdadeiro professor do Evangelho, e ainda assim, não ser nada”. Pode-se ter os “certos frutos” que um verdadeiro filho de Deus tem, ser “persuadido de uma maneira generalizada e confusa”, e ainda assim não ser regenerado, porque um número definido de tais é predestinado desde a eternidade. Whether a Man abre com “certas proposições declarando quão longe um homem pode ir na profissão do Evangelho, e ainda assim ser um homem perverso e reprovado”.26

11 A “teologia de Westminster” neste livro refere-se à natureza da fé salvadora nos três principais documentos emitidos pela Assembleia de Westminster, isto é, a Confissão de Fé, o Breve Catecismo e o Catecismo Maior.

12 T. F. Torrance, The School of Faith (1959), lida com os catecismos da Assembleia de Westminster à luz de alguns anteriores, mas não tenta chegar às raízes históricas da teologia de Westminster, muito menos traçar o desenvolvimento histórico anterior a ela.

13 Norman Pettit, The Heart Prepared, p. 61. Cf. p. 65, onde Pettit fala da “linha onde a reprovação parou e a regeneração começou” e progrediu “da reprovação à regeneração”. Este erro é repetido na p. 218 em seu livro.

14 Pettit parece confundir “danação” com “reprovação”. Como será visto adiante, “danação” é o estado ao qual tanto os réprobos quanto os eleitos nasceram; os eleitos saem desse estado, mas o réprobo não pode. Enquanto todos os réprobos nascem em estado de condenação, nem todos os que nascem no estado de condenação são reprovados. A reprovação em qualquer caso não é um estado dinâmico, como se alguém pudesse sair dela. Pettit está tratando Henry Bullinger e não Beza (ou os teólogos de Heidelberg), pode ser por isso que ele erra nesse ponto. Pettit supõe que Bullinger fosse a principal influência continental nesses teólogos. Na verdade, a influência de Bullinger foi provavelmente sentida apenas superficialmente na Inglaterra após o surgimento dos escritos de Perkins. A obra Decade de Bullinger nunca foi reimpressa após a publicação de Whether a Man ser veiculada.

15 G.K. Clark, The English Inheritance, 1950, p. 103.

16 Basil Hall, ‘Puritanism: the Problem of Definition’, Studies in Church History, 1965, ii, p. 289

17 Ibid., p. 287.

18 Workes, iii, p. 15.

19 Hall, op. cit., p. 293.

20 Horton Davies, The Worship of the English Puritans, Glasgow, 1948, I.

21 L. A. Sasek, The Literary Temperament of the English Puritans, Louisiana, 1961, p. 15s.

22 É precisamente isso que J. F. H. New faz. Anglicans and Puritans, 1964, p. 3. Curiosamente ele também declara “nós conhecemos a quem nos referimos” por “puritanos” (ibid., p. 3). Cf. William Hailer, The Rise of Puritanism, New York, 1957, p. 3ss; G. H. e K. George, The Protestant Mind of the English Reformation, Princeton, 1961, p. 406; Christopher Hill, Society and Puritanism in Pre-Revolutionary England, 1969, p. 15-30. Esses estudos ilustram ainda mais o dilema que se enfrenta com esse termo.

23 L. J. Trinterud (ed.), Elizabethan Puritanism, New York, 1971, p. 10ss.; (1) o partido original contra as vestes litúrgicas; (2) o partido de resistência passiva (no qual ele coloca Perkins); e (3) os presbiterianos.

24 H. C. Porter, Puritanism in Tudor England, 1970, p. 9ss; (1) os separatistas ingleses; (2) os “puritanos evangélicos” (nos quais ele coloca Perkins); (3) os dissidentes radicais; e (4) presbiterianos.

25 R. G. Usher, Reconstruction of the English Church, 1900, i, p. 79.

26 Workes, i, p. 356.

Categorias: Reforma & Carismas

Deixe uma resposta

Seu endereço de e-mail não pode ser publicado.