CALVINO E O CALVINISMO INGLÊS ATÉ 1649 – INTRODUÇÃO – PARTE 3

A doutrina da fé temporária tornou-se o embaraço, se não o escândalo, do calvinismo inglês. Os seguidores de Perkins reivindicaram cada vez menos para que, eventualmente, não representassem qualquer ameaça para o crente; William Ames deu a sua morte virtual uma sanção sistemática. Este ensino parece ter começado com o próprio Calvino e ter sido perpetuado especialmente por Perkins. Nem Calvino e nem Perkins se desculpam por um ensinamento que pode parecer a alguns como insensível em termos pastorais. Esse ensino descreve Deus como dando aos réprobos, a quem Ele nunca pretende chamar efetivamente, um “gosto” de Sua graça. De fato, no prefácio de Whether a Man, Perkins afirma que essa fé temporária “procede do Espírito Santo, mas ainda assim não é suficiente para fazê-los soar professantes”. Esses homens ensinam essa doutrina simplesmente porque a descobrem nas Escrituras; para eles, esta doutrina como exposta explica passagens como Mateus caps. 21-23; Hebreus 6. 4–6 e a parábola do semeador.

A tese de Whether a Man argumenta que um homem pode se achar regenerado mesmo quando ele não é, mas um homem verdadeiramente regenerado “pode discernir” quando é. A este respeito, Perkins emprega 2 Pedro 1.10 (“Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição; porquanto, procedendo assim, não tropeçareis em tempo algum”), um versículo que ele vê como o principal mandato de pregar em geral, bem como a fórmula pela qual os cristãos particularmente podem provar a si mesmos que foram objeto de um chamado eficaz. O versículo de 2Pedro 1.10 pode ser seguramente chamado de bandeira bíblica para a tradição de Perkins; destaca-se em relevo na página de rosto de Whether a Man e encabeça a lista de passagens das Escrituras impressas nas páginas de rosto de seus outros trabalhos.

É a convicção de Perkins, então, que o homem regenerado pode discernir se tem o conhecimento da fé salvadora, ou garantia de eleição. Perkins chama tal conhecimento de “experimental”.1O testemunho do Espírito é dado por “uma experiência” que não é conjectural, mas “uma certeza infalível do perdão dos pecados”.2Perkins acredita que 2Pedro 1.10 deve ser relacionado à própria consciência.3A própria consciência, acredita ele, entra em vigor na mente de um homem por um processo de raciocínio silogístico. A consciência pronuncia o juízo “por meio de um raciocínio ou disputa, chamado de silogismo prático”.4Pela prática do silogismo do Espírito Santo5, não é apenas possível “experimentar toda a certeza da verdade da Bíblia”6, mas saber que “está entre o número dos eleitos.”7

Este estudo se referirá a Perkins e seus seguidores como “predestinários experimentais”. Esses homens têm em comum a crença de que 2Pedro 1.10 é o mandamento de Deus e a fórmula do homem para provar a si mesmo sua própria predestinação para a salvação.8A prova é fundamentada no conhecimento experimental derivado do “silogismo prático”.9O silogismo prático deve ser entendido neste livro como tirar uma conclusão refletindo sobre si mesmo. O silogismo prático, embora nem sempre seja convocado por cada um dos seguidores de Perkins, é consistentemente empregado como um instrumento preciso ou espelho pelo qual a pessoa se certifica de sua eleição. Beza parece não ter usado o termo, mas antecipa sua função quando afirma que devemos concluir que somos eleitos começando “na santificação que sentimos em nós mesmos”.10O próprio Perkins usou o silogismo prático de duas maneiras: como refletindo sobre o fato de ter crido, ou refletindo sobre as aparências de santificação ou arrependimento em si mesmo.

O termo “experimental” será usado em vez de “experiencial” para descrever esses predestinários, por duas razões. Primeiro, é a palavra deles. E segundo, a palavra “experimental” contém uma ambiguidade útil, uma vez que se refere tanto a experiência como também ao teste de uma hipótese por um experimento. Os predestinários experimentais colocam essa proposição em teste: “se um homem está em estado de condenação ou em estado de graça”. Perkins afirma a seguinte hipótese: “Todo aquele que crê é filho de Deus”. O teste é: “Mas eu creio.” Segue-se a conclusão: “portanto, sou filho de Deus”.11Isso será visto com frequência neste livro como garantia pelo ato reflexo (outro termo para o silogismo prático). Assim, o método para obter a segurança da salvação é examinar a reivindicação da fé em si mesmo; se for verdade, segue a conclusão que alguém tem a fé salvadora.

“Existem dois tipos de conhecimento” diz João Calvino; o “conhecimento da fé e o que eles chamam de conhecimento experimental”.12Esses dois tipos de conhecimento são a principal preocupação deste livro.

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1Workes, i, p. 621.

2Ibid., p. 534.

3Ibid., p. 510.

4Ibid., p. 519.

5Ibid., ii, p. 322.

6Ibid., i, p. 476.

7Ibid., p. 540.

8Ibid., iii, p. 382.

9Este pode ser um termo cunhado por Ursino. Cf. infra, p. 40 n. 12. Assim, quando Niesel coloca a questão sobre se o silogismo prático está ou não em Calvino, ele aparentemente lê a ideia de Ursino de volta à teologia de Calvino. Cf. infra, p. 28 n. 7

10Infra, p. 33, n. 1.

11Workes, i, p. 541.

12J. Calvin, Comm.Zech. 2:9. Cf. infra, p. 13. n. 1.

Categorias: Soteriologia

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